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Drauzio Varella · Capítulo 22 de 40

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Repercussões cardíacas

REPERCUSSÕES

CARDÍACAS

 

Participam das maratonas de Chicago, Londres, Tóquio, Nova York, Berlim e Boston, as mais concorridas do mundo, de 30 mil a 40 mil competidores.

Apesar da sensação de medo e da ansiedade presente nos instantes que precedem a partida, mortes por problemas cardíacos no decorrer dessas e de outras provas de longas distâncias são muito raras. Complicações cardiológicas em corredores geralmente revelam anomalias prévias, congênitas ou adquiridas, que não haviam sido diagnosticadas.

Um estudo prospectivo publicado no Journal of the American College of Cardiology, que acompanhou durante 21 anos atletas competitivos, na faixa etária dos doze aos 35 anos, mostrou que eles apresentavam risco de morte súbita cerca de duas vezes maior do que a população geral da mesma idade. Duplicar o risco pode parecer assustador, mas é preciso lembrar que na população estudada a probabilidade de morte súbita mesmo entre fumantes sedentários empedernidos é baixíssima. No estudo, o risco esteve diretamente relacionado à presença de patologias cardiológicas não identificadas previamente.

As mais perigosas foram as anomalias congênitas das artérias coronárias, alterações anatômicas capazes de interferir no fluxo de sangue que irriga as diversas áreas do coração. Mesmo quando não causam sintomas na vida diária, tais anormalidades podem provocar infartos, caso o coração seja submetido a esforços intensos. Portadores dessas malformações coronarianas apresentaram risco de morte súbita durante as maratonas 79 vezes maior que os corredores saudáveis.

Outro fator de risco encontrado foi a miocardiopatia causadora de arritmias do ventrículo direito. Trata-se de um defeito genético em que as proteínas encarregadas de manter unidas as células musculares do coração (miocárdio) não se desenvolvem de forma adequada, deixando as células do músculo cardíaco mais distantes umas das outras. É um tipo de miocardiopatia que envolve primariamente o ventrículo direito, alterando a condução da corrente elétrica que faz o coração pulsar compassadamente e dando origem a arritmias que podem provocar palpitações, tonturas, desmaios, falta de ar, inchaço nas pernas e até morte súbita durante exercícios mais vigorosos. Essa miocardiopatia hereditária é mais frequente nos homens. Em 30% a 50% das ocorrências existem outros casos na família. A presença do defeito em maratonistas aumentou 5,4 vezes o risco de morte durante a prova.

A terceira causa responsável pela morte dos jovens atletas foi a doença coronariana precoce, a qual evolui com a deposição de placas no interior das artérias, capazes de causar obstruções completas e ataques cardíacos. Por questões hereditárias, desde a juventude algumas pessoas já apresentam coronárias parcialmente obstruídas. Em geral, esses jovens se queixam de angina aos esforços (dor em pressão no peito e falta de ar ao fazer esforços), mas alguns são assintomáticos. Neles, a obstrução completa de um ou mais ramos das coronárias durante o exercício pode ser a primeira e fatal manifestação. No estudo, a presença de doença coronariana prematura aumentou 2,6 vezes o risco de morte súbita.

Outro levantamento prospectivo conduzido entre atletas competitivos com idade média de dezessete anos demonstrou que as principais causas de morte súbita foram miocardiopatia hipertrófica (36%) e as malformações das coronárias (21%). Uma avaliação de 36 casos de infarto do miocárdio com ou sem morte súbita em corredores de maratona mostrou que 75% ocorreram por doença coronariana. Entre eles, mais de dois terços sofriam de angina quando se exercitavam. O segundo diagnóstico mais comum foi o de miocardiopatia hipertrófica (9%), condição em que as paredes dos ventrículos cardíacos ficam hipertrofiadas, aumentando o risco de arritmias. Pode afetar pessoas de qualquer idade, que geralmente levavam vida normal, sem desconfiar da doença, até surgirem arritmias durante a prática de exercícios.

Os fatores de risco para doença coronariana nesse grupo foram: história familiar de doenças cardiovasculares (64%), fumo (9%), hipertensão arterial (32%) e colesterol elevado (77%). Das 26 mortes por obstrução coronariana, metade aconteceu durante a maratona ou nas 24 horas seguintes a ela, enquanto cerca de um terço se deu entre o segundo e o trigésimo dia depois da corrida. O risco de morte súbita para corredores eventuais é dez vezes maior do que para os habituais.

Um estudo publicado no Journal of the American Medical Association calculou o risco de morte súbita durante a prática de jogging como sendo de uma morte para cada 396 mil horas-homem de atividade. Divulgado na mesma revista, outro levantamento estimou que o risco nas maratonas é de uma morte para 215 mil horas-homem. Se consideramos que a média de tempo dos participantes das principais maratonas está ao redor de quatro horas, podemos concluir que a chance de morrer subitamente durante a prova é de cerca de 1 para 54 mil.

Tais estudos explicam por que óbitos em maratonas são eventos tão raros. Tornam evidente que por trás dessas mortes inesperadas sempre há uma cardiopatia preexistente, assintomática ou não, que deixou de ser diagnosticada. Se levarmos em conta, então, que parte expressiva das mulheres e homens que participam das provas tem mais de cinquenta anos, faixa etária em que o risco de ataques cardíacos é mais alto, podemos concluir que correr maratona é uma atividade esportiva bastante segura, desde que o corredor não sofra do coração.

Por outro lado, os benefícios cardiovasculares que a intensidade e a frequência dos treinos trazem, reduzem significativamente o risco de infarto, derrame cerebral, obstruções arteriais, diabetes, pressão alta e outras enfermidades que comprometem a qualidade e encurtam a duração da vida.

Apesar de raríssimas, as mortes descritas em maratonistas jovens justificam a necessidade de avaliações cardiológicas periódicas independentemente da idade do corredor.