Correr
Os pássaros
Fiz um curso no Roswell Park Cancer Institute, em Buffalo, cidade do estado de Nova York na margem do lago Erie, próximo à fronteira com o Canadá e às cataratas do rio Niágara.
Num sábado à tarde saí para correr à beira do lago. Paisagem de cartão-postal: iates e barcos a vela enfileirados no zigue-zague quadriculado do cais, céu sem uma nuvem, marcado ao longe pelo rastro branco da passagem de um jato. Somente algumas pessoas ao longe, o silêncio quebrado pelo vento, o ranger dos cabos que prendiam as embarcações e o piar estridente das gaivotas que planavam contra o azul, em seu voo minimalista, que não exige bater asas, apenas incliná-las com delicadeza nas correções de rota.
Segui pela beira até chegar a uma curva fechada junto ao pátio externo de dois armazéns grandes. Quando virei, o chão estava coberto de gaivotas brancas, encorujadas como se sentissem frio, impassíveis à minha aproximação. Parei para admirá-las. Eram centenas, nunca tinha visto tantas, de tão perto.
De repente, um estampido forte de metal contra metal assustou a mim e às aves, que se agitaram. Duas ou três levantaram voo, seguidas imediatamente por outras, e mais outras, e por todas, em revoada caótica. Parado entre elas e o lago, fiquei no epicentro da debandada. Os pios agudos e o rufar das asas em torno de mim criaram um clima de terror. Instintivamente, levantei os braços para proteger o rosto. Duas aves resvalaram neles, de passagem.
Impossível não lembrar das imagens de Os pássaros, de Alfred Hitchcock, em que milhares de aves enfurecidas atacam seres humanos. Tentei me afastar e fechei os olhos com medo de que fossem feridos, como no filme. O movimento atabalhoado me fez perder o equilíbrio para trás. As gaivotas ganharam o céu. No chão, apenas eu, em posição ridícula, acocorado, com os braços dobrados em volta da cabeça.
Levantei meio sem jeito e olhei ao redor. Por sorte, não havia ninguém por perto.