Correr
Parte 2 — A maratona
PARTE 2
A MARATONA
Maratona
Sempre achei mal contada a história do guerreiro que correu de Maratona a Atenas para levar a notícia da vitória na batalha contra os persas.
Segundo a lenda, o rapaz teria gastado seis horas para percorrer os tais 42 quilômetros, avisado que os atenienses haviam derrotado os persas e morrido de exaustão, depois de balbuciar o nome da deusa grega da vitória: Nike — 2500 anos mais tarde rebaixada à categoria de marca de material esportivo.
Vamos lembrar que nas maratonas atuais, passadas seis horas do início da prova, os organizadores retiram as barreiras e reabrem as ruas para o tráfego, não obstante haja um ou outro retardatário. Se já é difícil acreditar que o soldado mais veloz do intrépido exército ateniense corresse tal distância em tempo tão medíocre, que dizer do vexame de cair morto?
Não bastasse essa inconsistência, ficaria a dúvida da medição do tempo: se o guerreiro sucumbiu ao pronunciar o nome da deusa Nike, como foi possível, sem chip nem relógio de pulso, saber o horário exato em que partiu de Maratona? Teriam medido com precisão as seis horas cravadas, com base unicamente na posição do Sol?
Em busca de esclarecimento, fui atrás dos escritos de Heródoto, nascido em 484 a.C., em Halicarnasso, cidade da Ásia Menor, então sob domínio persa. Heródoto é considerado o Pai da História por haver descrito pela primeira vez as Guerras Greco-Persas travadas até 449 a.C., com métodos historiográficos usados ainda hoje.
No ano 500 a.C., o jovem Império Persa dava os primeiros passos expansionistas. O rei Dario, usurpador do trono, enfrentava sucessivas revoltas de seu povo e dos territórios ocupados. Foi nessa época que se rebelaram os jônios, povo indo-europeu que se estabeleceu na Ática e no Peloponeso, para mais tarde habitar Halicarnasso e Esmirna, também na Ásia Menor. Juntamente com os aqueus, eólios e dórios, os jônios formaram a etnia grega. Na rebelião, depuseram os tiranos impostos pelos persas e instalaram a democracia em suas cidades, influenciados pelo sistema de governo vigente em Atenas. Os erétrios e os atenienses enviaram tropas em seu socorro.
A revolta ameaçava a integridade do Império Persa. Depois de subjugá-la na Batalha de Lade, em 494 a.C., o rei Dario prometeu punir os envolvidos na rebelião, incendiar Erétria e Atenas e escravizar seus habitantes, caso não se submetessem à sua autoridade.
Finalmente, no ano 490 a.C. Dario reuniu fundos e as embarcações necessárias para enviar à planície Ática — onde fica Atenas — uma expedição marítima comandada por Artafernes e Dátis. Partindo do continente, os persas abordaram as ilhas pelas quais passaram, tomando como reféns os filhos dos habitantes para incorporá-los à tropa. Os que se opuseram tiveram as terras e os templos saqueados.
Os navios ancoraram na costa da Erétria, onde desembarcaram os cavalos e os homens sem encontrar resistência, porque os erétrios haviam decidido concentrar suas defesas no interior das muralhas. O combate durou seis dias, com grande número de mortos. Convencidos de que lhes era impossível resistir, no sétimo dia entregaram a cidade aos atacantes, que a saquearam, queimaram seus templos e reduziram os habitantes à escravidão, como de costume.
Depois de alguns dias no território subjugado, os conquistadores voltaram para os navios rumo ao sul, na direção da costa da Ática, em obediência às ordens de castigar os atenienses. O local escolhido para o desembarque foi a baía de Maratona, por ser mais próxima de Erétria e apresentar topografia favorável à movimentação da cavalaria, a força mais temida da armada.
O exército ateniense era comandado por dez generais, entre eles Milcíades, campeão olímpico da corrida de carro a quatro cavalos e veterano em lutas contra os persas. A ordem dos gregos foi marchar com rapidez para bloquear as duas passagens da planície de Maratona que abririam caminho para a destruição de Atenas.
Estava instalado o cenário para uma das dez batalhas mais importantes para o futuro da cultura ocidental.