Correr

Drauzio Varella · Capítulo 12 de 40

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Atividade física e mortalidade

ATIVIDADE FÍSICA E

MORTALIDADE

 

Diversos estudos mostraram que a vida sedentária está associada a aumento do risco de morte mais precoce. No entanto, como os sedentários costumam ter índice de massa corpórea (IMC = peso/altura ao quadrado) mais elevado e circunferência abdominal maior, fica difícil isolar o impacto dessas duas variáveis. Em outras palavras, a inatividade é um fator de risco por si mesma ou os inativos morrem mais cedo porque engordam?

Em janeiro de 2015, foi publicado no American Journal of Clinical Nutrition o estudo mais completo sobre o tema.

Foram recrutados 519978 voluntários de ambos os sexos, em dez países europeus: Suécia, Dinamarca, Noruega, Holanda, Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, Itália e Grécia. As idades variavam de 25 a 70 anos. Mulheres e homens com história prévia de doenças cardíacas, derrame cerebral ou câncer foram excluídos. Também ficaram de fora aqueles nos extremos das curvas, por exemplo, IMC abaixo de 18,5 (faixa da desnutrição), peso corpóreo acima de 250 kg, circunferência abdominal acima de 160 cm ou abaixo de 40 cm, bem como aqueles cujos dados sobre o grau de atividade, peso e circunferência abdominal, uso de álcool e fumo estavam incompletos.

Por meio de uma avaliação que levou em conta a atividade profissional e a prática de exercícios, os participantes foram divididos em quatro grupos: inativos,

moderadamente inativos, moderadamente ativos e ativos.*

A análise final incluiu 334161 participantes, acompanhados por um período médio de doze anos.

Os resultados foram incontestáveis: quando comparados com os inativos, os moderadamente inativos (grupo 2) apresentaram índices de mortalidade 20% a 30% mais baixos. Mesmo entre os obesos (IMC acima de 30), a atividade física reduziu a mortalidade. Basta andar trinta minutos três vezes por semana para levar essa vantagem. Na comparação com os sedentários, os ativos (grupo 4) tiveram redução mais pronunciada da mortalidade: 41%. Enquanto níveis mais elevados de atividades recreativas causaram redução da mortalidade, o grau de atividade física desenvolvida no trabalho não mostrou benefícios.

Nessa população europeia, a falta de atividade física foi responsável pelo dobro das mortes associadas à obesidade. A atividade física tem um impacto na mortalidade semelhante ao que seria obtido caso conseguíssemos eliminar o acúmulo de gordura abdominal na população, isto é, se todos tivessem circunferência abdominal na faixa da normalidade (abaixo de 102 cm para os homens e de 88 cm para as mulheres).

Tais dados confirmam as conclusões de estudos anteriores: circunferência abdominal acima dos valores citados está associada a mortalidades mais altas do que índice de massa corpórea mais elevado. O impacto mais pronunciado da atividade física na redução da mortalidade se deu naqueles com IMC entre 18 e 25 (peso saudável) e cintura na faixa de normalidade.

Esses resultados são consistentes com os obtidos por um estudo asiático no qual mulheres e homens que andam apenas quinze minutos por dia apresentam índices de mortalidade 14% mais baixos do que os sedentários.

Os autores observam que dos 9,2 milhões de óbitos ocorridos em 2008, na Comunidade Europeia, 676 mil seriam atribuídos à inatividade e 337 mil à obesidade. No final, concluem:

As maiores reduções no risco de morrer por qualquer causa foram encontradas na comparação entre os inativos e os moderadamente inativos, em todas as categorias de peso corpóreo e adiposidade abdominal. Esse dado sugere que os esforços para encorajar mesmo pequenos aumentos na atividade física entre os sedentários pode resultar em benefícios à saúde pública. O número hipotético de

mortes evitáveis por aumento da atividade física é duas vezes maior do que o obtido com medidas para reduzir os índices de massa corpórea elevados e semelhante às intervenções necessárias para impedir o acúmulo de gordura no abdômen.

 

* Para uma pessoa de 70 kg isso corresponde, em média, a cerca de: 1) inativos: 600 kcalorias/dia; 2) moderadamente inativos: 680 kcalorias/dia; 3) moderadamente ativos: 770 kcalorias/dia; e 4) ativos: 850 kcalorias/dia.