Correr
Parque Ibirapuera
O quarto centenário de São Paulo foi comemorado em grande estilo, em 1954. Não guardo lembrança das cerimônias oficiais, nem tínhamos televisão em casa naquela época, mas nunca mais esqueci da chuva de papel prateado que os aviõezinhos jogaram sobre a cidade e dos fogos de artifício na inauguração do Parque Ibirapuera.
O Ibirapuera é um dos maiores parques da cidade, ocupa uma área de mais de 1,5 km2, alagadiça desde o tempo dos indígenas, até que o funcionário da prefeitura Manequinho Lopes ali plantou eucaliptos australianos para drenar o solo, em 1927. Passados quase cem anos, esses eucaliptos de casca grossa, marrom-escura, continuam espalhados pelo parque, altos, com troncos que um homem sozinho não abraça.
Corredores, andarilhos e ciclistas costumam completar o circuito no asfalto em volta dos lagos, o que eu também fazia até me afeiçoar à pista de pedregulhos que serpenteia num pequeno bosque. Já percorri tantas vezes aquele quilômetro e meio, que conheço cada árvore. Há tipuanas majestosas que atapetam o chão de flores amarelas, miúdas; ipês; jacarandás-mimosos que dão flores roxas; palmeiras; uma pitangueira que na florada se veste de branco; espatódeas com flores alaranjadas em formato de taça, além dos eucaliptos quase centenários do sr. Manoel Lopes de Oliveira Filho.
Espetáculo à parte é o dos sabiás-laranjeiras, o pássaro-símbolo da cidade. De junho a novembro, nem o mais madrugador dos frequentadores consegue antecipar-se a eles. Começam a cantar às três da manhã e não param mais; um daqui, outro dali, alternam as vozes com breves hiatos para ganhar fôlego. Não o fazem por diletantismo, mas para impressionar as fêmeas — é época de acasalamento.
Antes que o dia clareie, já é possível vê-los no chão à caça de insetos: saltitantes, atentos à aproximação dos gatos vadios que perambulam pelas cercanias. Sem o inimigo por perto, não os perturba a proximidade dos corredores. Mais confiados do que eles, só o joão-de-barro, pássaro da cor da terra dos ninhos que constrói com a habilidade dos engenheiros. Não parecem temer o homem, só se dão o trabalho de sair da frente quando estamos a dois passos deles.
Pouco mais tarde, lá pelas sete, as maritacas se reúnem na copa das árvores mais altas, numa gritaria infernal. Depois de um tempo, levantam voo para berrar em outra freguesia; os gritos se afastam, mas não silenciam: apenas ficam mais distantes, até que voltem para mais perto de novo.
Bem-te-vis de peito amarelo, rolinhas de andar chapliniano, sanhaços de asas azuis, coleirinhas, pombas do mato, andorinhas e suas circunvoluções, tico-ticos, beija-flores paralisados no ar e até canários-da-terra amarelos com asas cinzentas, ariscos, dão o ar da graça ao redor da pista. Apaixonado que sou por passarinhos desde pequeno, o raiar do dia no meio deles me traz uma felicidade infantil que ajuda a suportar o esforço das corridas mais longas.
Como a trilha é cheia de curvas, muitos a evitam com medo de sobrecarregar os joelhos, temor que talvez explique por que é menos concorrida. Duas ou três semanas antes das maratonas, procuro fazer treinos que chegam a 36 quilômetros, correspondentes a 24 voltas completas, sem nunca ter sentido dor nos joelhos ou nas articulações coxofemorais.
Corro sozinho. Uma vez, no inverno, comecei a correr com as luzes da pista ainda acesas. De repente, vi um vulto rápido no meio do bosque escuro, que veio em minha direção. Era um rapaz miúdo, de cabelo curto e corpo de atleta profissional:
— Posso correr do seu lado, doutor?
— Se você não se importar com a velocidade, fique à vontade.
— É que eu estava observando seus defeitos. Por exemplo, relaxe esses ombros de cabide, abaixe os braços, que você não é boxeador, abra e solte os dedos das mãos.
Dava ordens com tal autoridade, que não ousei desobedecer. Contou que havia perdido a mãe aos doze anos. Foi morar com uma prima dela, casada com um brutamontes com quem tinha três filhos. Os dois cachorros da casa ocupavam posição mais elevada na hierarquia familiar: “Tinha que acordar às cinco da manhã para começar o trabalho doméstico. Só parava às seis da tarde, para dar banho e levar os cachorros passear, só podia comer depois de dar comida para eles. Peguei bronca de cachorro até hoje, bicho safado, puxa-saco de homem”.
Depois de um tapa na cara que levou do brutamontes, saiu com os cachorros para passear, soltou-os na rua e pegou o trem para a Estação da Luz, lugar para onde sabia que tinha fugido um garoto da vizinhança, maltratado como ele. Perambulou pelas imediações da estação até encontrar um grupo de meninos de rua, aglomerados junto ao prédio do Poupatempo da avenida Ipiranga.
No dia em que completou dezesseis anos, foi parar na antiga Febem pela terceira vez. Por azar: num arrastão, roubaram as bolsas das senhoras que desciam de um ônibus de turismo no largo Santa Ifigênia, no exato momento em que passava uma viatura da PM. O rapaz e os quatro amigos saíram correndo. Todos foram alcançados e presos, menos ele, que disparou na frente e só foi pego dois dias mais tarde porque um dos policiais que participaram da perseguição o reconheceu na rua. “No caminho, o PM me perguntou onde eu tinha aprendido a correr daquele jeito. Respondi que tinha sido na vida. Ele me disse que, em vez de ficar roubando, eu devia virar corredor. Aquilo ficou na minha mente.”
Com a ajuda de um funcionário da antiga Febem, foi apresentado a um treinador da prefeitura no Ginásio do Ibirapuera. “Hoje sou profissional. Correr, para mim, foi questão de vida ou morte.”
Guardadas as devidas proporções, acho que para mim também.