Correr

Drauzio Varella · Capítulo 7 de 40

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Correr

A concentração das tropas

 

O desequilíbrio de forças era brutal. Heródoto não faz estimativas, mas os historiadores modernos calculam que o número de soldados persas estaria entre 20 mil e 100 mil (no mínimo 25 mil, parece ser o consenso), reforçados por cerca de mil cavalos.

Comandados pelo grupo de generais autônomos, os atenienses não passariam de 10 mil, contingente que agregava todos os homens em armas disponíveis. A mobilização desse exército para o combate em Maratona foi uma decisão de tudo ou nada, uma vez que deixava a cidade completamente desprotegida para resistir a um eventual ataque direto. E, mais grave, caso Atenas fosse invadida por mar, o exército concentrado em Maratona ficaria isolado das linhas de abastecimento.

Amedrontados pelas dimensões da armada inimiga, antes de sair de Atenas os generais decidiram enviar um emissário para pedir ajuda a Esparta, cidade-irmã nem sempre fraterna. Nesse momento crucial é que entrou em ação o maior corredor do exército ateniense: Fidípides — ou Filípides, como preferem alguns historiadores. Em vez de correr os famosos 42 quilômetros em seis vexaminosas horas antes de desfalecer, Fidípides percorreu em apenas dois dias os 225 que separavam Atenas de Esparta, tempo e distância que lhe asseguram o título de primeiro ultramaratonista da história.

A narrativa de Heródoto é esclarecedora. Conta que, ao chegar a Esparta no dia seguinte ao de partida, Fidípides, desincumbindo-se da missão a ele confiada pelos generais, apresentou-se diante dos magistrados locais e disse que os atenienses lhes solicitavam auxílio para impedir que a cidade mais antiga da Grécia caísse sob domínio dos persas, chamados por eles de bárbaros.

Desafortunadamente para os atenienses, naqueles dias Esparta comemorava o Festival de Carneia, período sacrossanto dedicado à paz. Depois de ouvir Fidípides, os magistrados concordaram em socorrer os vizinhos; todavia, por razões religiosas, seu exército só poderia marchar quando a lua cheia indicasse o fim do festival, fenômeno que não aconteceria em menos de dez dias.

Decepcionados, os atenienses no campo de batalha ficaram numa encruzilhada: esperar pelo reforço, arriscando-se a enfrentar a investida de um inimigo numericamente muito superior, apoiado pela cavalaria mais poderosa de que se tinha notícia, ou ir ao encontro dele na condição de Davi contra Golias.

A estratégia de bloquear as duas passagens de acesso a Atenas enquanto os dias corriam, a fim de dar tempo para que os espartanos chegassem, era frágil — os persas podiam atacar a qualquer momento —, mas foi a que pareceu mais sensata aos generais atenienses. Os inimigos, por outro lado, analisaram: tinham uma infantaria com armas mais leves do que as lanças dos oponentes, levariam desvantagem nos combates corpo a corpo, mas o desequilíbrio ficava por conta do contingente mais numeroso e da cavalaria capaz de penetrar com facilidade as hostes adversárias. Enquanto os contendores hesitavam em tomar a iniciativa, a distância que os separava no campo de batalha não passava de 1500 metros (oito estádios).

Há duas teorias históricas para explicar o começo do confronto. A primeira leva em conta o fato de que Heródoto não menciona a participação da cavalaria na batalha. É possível que os cavalos tenham sido embarcados nos navios para atacar pelas costas uma Atenas desguarnecida. Ao perceber a ausência da força mais destruidora dos adversários, os atenienses teriam decidido avançar. A segunda defende que os persas, cansados de aguardar no acampamento, teriam partido para o ataque. É provável que, diante da iniciativa do inimigo, aos atenienses não tenha sobrado escolha senão avançar.

Na versão do Pai da História, a decisão de confrontar os adversários foi precedida por desacordos entre os atenienses. Pressentindo o massacre perante inimigos mais fortes e numerosos, alguns generais eram a favor da rendição negociada. Outros viam na resistência armada a única alternativa para impedir o saque e a destruição de Atenas e a escravização de seus habitantes.

Diante de tais divergências, Milcíades achou por bem dirigir-se ao polemarco, personagem que uma lei antiga colocava em pé de igualdade hierárquica com os generais. Calímaco de Afine era quem se encontrava revestido dessa dignidade.

Na conversa, Milcíades pôs o destino de Atenas nas mãos do outro. Disse-lhe que dependia dele a sorte da cidade-estado: conformar-se com a escravidão ou conquistar glória imortal. Explicou que, desde a fundação, jamais Atenas havia enfrentado perigo tão ameaçador. Vencidos pelo poderio dos medos (persas), os atenienses estariam desgraçados; vencedores, poderiam tornar sua cidade a mais importante da Grécia.

Milcíades explicou que a indecisão agravaria as discordâncias entre os generais, enfraqueceria a unidade das tropas e daria vantagem aos medos. Caso fossem à luta e os deuses se mantivessem neutros, poderiam chegar à vitória. A felicidade ou a desgraça do povo dependiam da decisão de Calímaco. Os argumentos foram convincentes. O polemarco persuadiu os outros generais favoráveis à resistência a renunciar ao comando em favor de Milcíades.

De acordo com o calendário juliano, a luta seria travada no dia 12 de setembro de 490 a.C.