Correr

Drauzio Varella · Capítulo 3 de 40

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Correr

Primeiros treinos

 

Eu entendia de preparação física para corredores de maratonas tanto quanto de edificação de arranha-céus. Sabia apenas que precisaria de determinação e disciplina para correr antes de ir para o trabalho e aumentar gradativamente as distâncias percorridas a cada vez.

O ideal seria contar com os préstimos de um preparador, mas, com a vida que eu levava, ficaria impossível cumprir a rotina metódica dos treinos em dias fixos. Como agendar horários logo cedo, sem saber se passaria a madrugada acordado por um paciente grave? A alternativa era conciliar as exigências da profissão, treinando quando possível, pelo tempo que pudesse, ou desistir da ideia.

Comecei a me preparar no início de janeiro de 1993. Naquela época, deixava minhas filhas na escola às sete horas. Quando podia chegar ao hospital um pouco mais tarde, dirigia até o Parque Ibirapuera para correr trinta minutos que fossem, em passadas rápidas, no limite do fôlego. Se estivesse mais folgado, corria mais tempo, em passo lento. Com a alternância senti que ganhava velocidade e resistência. Em três meses pude completar quinze quilômetros; no fim de abril, já conseguia correr doze quilômetros em uma hora.

No domingo 3 de maio, dia em que fiz cinquenta anos, planejei completar 24 quilômetros, exagero que um técnico de bom senso teria contraindicado. Acordei cedo, tomei um suco e fui para o Ibirapuera. A manhã estava quente. Não sei quanto tempo levei, mas lembro que saí bem cansado do parque, com uma sensação de paz interna tão plena como nunca havia experimentado.

Entrei no carro e fui visitar meu pai. Deitei no tapete da sala de visitas, ao lado da poltrona dele, sem vontade de conversar para não sair daquele estado de exaustão transcendental. Quando contei que me preparava para correr uma maratona dali a seis meses, ele levantou os olhos do jornal: “Você é louco, filho”.

A mesma desconfiança a respeito da sanidade mental foi demonstrada pelos amigos, quando souberam. Lamentavam a falta de discernimento, riam, pediam que contasse outra piada, diziam que eu morreria no percurso e que cinquenta anos era idade precoce para as primeiras manifestações do mal de Alzheimer, reações previsíveis numa época em que quase ninguém no Brasil praticava corrida com regularidade.

Correr nas ruas chamava a atenção dos transeuntes, alguns dos quais faziam comentários jocosos ou cara de assustados. Foi o que aconteceu num fim de semana com a família numa pousada da Fazenda Intervales, então dirigida por meu sogro, Cyro Braga, agrônomo e funcionário público do tempo antigo, que cuidava da preservação da área como se fosse seu fiel depositário. Essa unidade de conservação faz parte de um parque com mais de 41 mil hectares no interior de São Paulo. A floresta é um cenário cinematográfico de relevo montanhoso, com planícies alagadas, cavernas, resquícios das estruturas de pedra que os bandeirantes construíram para extrair ouro do leito dos rios e uma das maiores biodiversidades já descritas. É a mais extensa área remanescente da Mata Atlântica do Brasil.

Na manhã de sábado, bem cedo, saí para correr com a intenção de chegar até uma velha pedreira que me disseram estar situada a mais ou menos oito quilômetros do alojamento, se bem me recordo. Corri com grande prazer, por uma estradinha de terra no meio da mata em que havia árvores centenárias, distraído com a paisagem que mudava a cada curva do caminho.

Quando imaginei estar próximo, encontrei um senhor que vinha no sentido oposto, um homem de idade indefinida, com o rosto maltratado pelo sol, bota-borzeguim e chapéu de palha. A figura lembrava a do caipira que Mazzaropi interpretava no cinema dos anos 1950. Preocupado com a distância que devia percorrer na volta, aproveitei para perguntar quanto faltava para chegar à pedreira. Ele disse que estávamos a menos de um quilômetro, e quis saber de onde eu vinha. Quando respondi que era da pousada da Intervales, fez ar de espanto: “Aconteceu alguma coisa lá?”.

Para o comum dos mortais, quem corria eram as crianças e os que fugiam de algum perigo. Maratonas, então, nem pensar; eram provas absurdas que só africanos esquálidos ousavam enfrentar. Nas viagens para congressos no exterior, no entanto, eu me surpreendia com o número de mulheres e homens correndo nas ruas, imagem inexistente na paisagem urbana de São Paulo. Nos domingos de sol, o Central Park, em Nova York, era invadido por hordas de corredores geralmente jovens, mas alguns com bastante idade.

Os benefícios da atividade física não faziam parte das preocupações da medicina da década de 1990. Sabíamos dos problemas cardiovasculares causados pela vida sedentária, mas não lhes dávamos a devida importância, porque havia poucos estudos conduzidos com metodologia científica. Os malefícios do excesso de peso apenas começavam a ser mencionados; a epidemia mundial de obesidade estava em seus primórdios.

A antiga recomendação de que os mais velhos deveriam fazer repouso e evitar esforços — dogma que dominou a prática médica durante séculos — já havia sido abandonada, mas ainda levaria anos para que os médicos adotassem a conduta de dar ênfase à importância da atividade física na prevenção de doenças e na sensação subjetiva de bem-estar.

Já nos primeiros treinos, experimentei o impacto do exercício aeróbico no condicionamento físico. Perdi dois ou três quilos que não me faziam falta, ganhei músculos nas pernas, fôlego para subir escadas, mais disposição para enfrentar as atividades diárias, descobri o prazer que um humilde banquinho de madeira pode proporcionar ao corpo cansado e o alívio dolorido que a cama traz à musculatura das pernas, à noite.

O ganho mais surpreendente, porém, veio do lado psicológico. A sensação de paz que se instalava no fim das corridas deixava rastros pelo resto do dia. Já no banho da manhã, quando eu pensava nos compromissos que me aguardavam, tinha certeza de que seria capaz de cumpri-los. Consegui controlar melhor a ansiedade e a agitação da vida atribulada que sempre levei, tornei-me mais confiante e disciplinado. Ganhei serenidade.

Por outro lado, senti na carne o tormento que é levantar da cama de madrugada para correr. Passados mais de vinte anos, meu primeiro quilômetro ainda é dominado por um único pensamento: não há o que justifique um homem passar pelo que estou passando. Existe sofrimento mais atroz do que deixar a cama quente, no horário em que o sono é mais arrebatador, vestir o calção, a camiseta e calçar o tênis para sair correndo?

É só depois do primeiro quilômetro, quando as sucessivas contrações musculares enviam sinais para que o cérebro libere endorfinas na circulação, que o exercício se torna suportável. O bem-estar que a atividade física traz e a tranquilidade que toma conta do corredor só acontecem, de fato, no fim da corrida.

Se ouço alguém dizer que acorda cheio de vontade para correr, nadar, pedalar ou levantar peso na academia, por educação fico calado, mas duvido que seja verdade. Essa disposição pode acontecer num dia de sol, na praia ou num sítio, entre amigos, no dia a dia jamais.

Por que tanta gente reconhece que a atividade física é essencial para a saúde mas não consegue abandonar a vida sedentária? Por uma razão simples: praticar exercícios vai contra a natureza humana. Nosso ideal é o almoço do domingo, em que comemos até mais não poder e levantamos da mesa para chafurdar no sofá (os mais descarados, na cama). Assim agimos porque animal nenhum desperdiça energia. Alguém já viu uma onça dando um pique no zoológico ou uma girafa correndo depois do almoço para perder a barriga?

Descontadas as brincadeiras que fazem parte do aprendizado na infância, os animais só gastam energia atrás de comida, sexo ou para fugir de predadores. Na ausência dessas três motivações vitais, repousam para economizá-la. Num mundo permanentemente assolado pela fome, a seleção natural privilegiou aqueles que souberam aproveitar com sabedoria a energia dos alimentos.

Quando se trata de fazer exercício, cai sobre nossos ombros o peso de milhões de anos de evolução, que nos arremessa contra o sofá ou nos prende à cama. É incrível como nos tornamos criativos então, capazes de invocar mal-estares súbitos, noites maldormidas, digestão pesada, fraqueza, indisposição, compromissos inadiáveis, ameaça de resfriado, possibilidade de chuva, calor ou frio, para não mencionar a variedade de dores incapacitantes que nos afligem exclusivamente nessa hora.

Logo depois, humilhados e humildes, juramos que no dia seguinte nos redimiremos, acordaremos mais cedo para correr o dobro ou o triplo dos quilômetros que havíamos planejado percorrer. No outro dia, no entanto, a preguiça e as justificativas esfarrapadas de sempre. Em uma semana o sedentarismo estará acomodado confortavelmente em nosso espírito. A vontade de passar a vida numa poltrona é tão avassaladora, que o esforço de meses de treinamento vai por água abaixo em poucos dias de inatividade.

Certa vez, quando eu treinava numa pista de pedregulhos entre as árvores do Ibirapuera, um rapaz que corria muito mais rápido reduziu a velocidade e puxou conversa. Contou que tinha vindo do Ceará fazia dois anos, que trabalhava de guarda-noturno na casa de uma senhora, na rua de trás do parque, e que todos os dias, às seis da manhã, horário em que chegava o guarda do dia para rendê-lo, ele aproveitava para correr. Depois, tomava banho, o café e ia para a cama.

Havia uma diferença limitante entre nós: ele tinha metade da minha idade e um corpo atlético que lhe permitia completar 21 quilômetros em uma hora e quinze minutos. Mesmo sem falar, em pouco tempo perdi o fôlego. Pedi que continuasse sozinho, não queria atrapalhá-lo, mas ele novamente diminuiu a velocidade e insistiu em seguir a meu lado, uma vez que já correra mais de uma hora naquela manhã. Para ele devia ser tão difícil acompanhar meus passos quanto para mim era difícil acompanhar os dele, porque em poucos minutos já me faltava o ar outra vez. Assim foi o tempo todo: eu reclamando, ele prometendo ir mais devagar.

Desse dia em diante, o cearense se transformou num verdugo implacável. Quando eu menos esperava, aparecia sorridente, com a falsa promessa de não forçar meu ritmo, segundo ele ideal para desacelerar os músculos de quem já tinha corrido mais de uma ou duas horas. A tortura a que fui submetido pelo carrasco nordestino teve o mérito de me tornar mais veloz. Uma manhã de setembro, corremos 21 quilômetros em noventa minutos exatos. Nada mau para um homem de cinquenta anos que havia começado a treinar em janeiro.

Peguei gosto pela velocidade. Já era capaz de fazer catorze quilômetros em uma hora, embora com dificuldade. Fiquei com esperança de completar os 42 em três horas e meia, ou menos, quem sabe. No início de outubro, quando faltava um mês para a prova, cismei de atingir a marca de quinze quilômetros em uma hora. Para quem já tinha feito 14,3, não soava como pretensão desmedida.

Fui decidido para o parque, e corri no limite das forças. Nos dois últimos quilômetros, forcei ainda mais o passo. Quando o cronômetro marcou uma hora, eu mal tinha completado 14,6 quilômetros; estava sem ar, exausto, e com um peso no lado externo da panturrilha direita que no caminho até o carro começou a incomodar. No decorrer do dia, a sensação de peso se transformou em dor. À noite, tive que tomar um anti-inflamatório; na manhã seguinte levantei mancando. Fiquei assustado: nove meses de treinamento, tanto esforço e disciplina, para acabar assim?

Sofrer uma lesão por acidente é uma coisa, por estupidez é outra, muito mais frustrante. O idiota precisava forçar com aquela intensidade, um mês antes da prova? Essa recriminação não me saiu da cabeça durante os três ou quatro dias longe das pistas, à espera de uma melhora.

Resolvi procurar ajuda. Conversei com os colegas para saber quem eram os especialistas em medicina do esporte. Não havia muitos naquele tempo. Quase todos eram ortopedistas com treinamento cirúrgico, pouco experientes em lesões musculares provocadas por sobrecarga.

Ouvi quatro opiniões diferentes, no geral contraditórias. Três tentaram me convencer de que maratonas requerem esforços sobrenaturais, que destroem as articulações e não respeitam a fisiologia das contrações musculares, especialmente no caso de um homem com cinquenta anos. Afirmavam que o esforço exigido para completá-las era prejudicial ao organismo, que o sistema cardiovascular podia sucumbir diante dele e que a arquitetura das articulações ruiria sob o impacto das passadas, entre outras advertências assustadoras.

Um dos colegas me fez deitar de bruços, passou dois dedos pela panturrilha e sentenciou: “Esquece a maratona, você rompeu o músculo”. Voltou para a mesa, escreveu o endereço de uma fisioterapeuta, levantou e me esticou a mão em despedida. Não fiquei amedrontado. Já tinha visto radiologistas experientes com dificuldade para fazer o diagnóstico de rupturas musculares, mesmo com o ultrassom e a ressonância magnética em mãos.

No fim, quem me ajudou foi um colega ortopedista que encontrei no corredor do hospital: “Essas lesões são comuns em quem pisa em pronação. O peso cai com mais força sobre o lado externo do pé e traciona exatamente os músculos que estão doendo”.

Voltei a correr quando faltavam apenas duas semanas para a prova, dessa vez atento para corrigir a posição do pé direito. Havia perdido quinze dias preciosos, voltado bem mais devagar e, ainda por cima, com medo. Lamentei a falta da orientação de um preparador experiente, com um programa de treinamento bem planejado.

Dez dias antes da maratona, fiz um treino de trinta quilômetros. Naquela época diziam que era essa a distância máxima permitida na fase de treinamento, regra a que eu desobedeceria diversas vezes, porque jamais fez sentido para mim.