Correr
Maratonista
Maratonista é todo aquele que completou uma prova de 42 quilômetros e se prepara para correr a próxima.
Correr maratona não é para quem quer; há requisitos genéticos fundamentais. Os corredores de elite costumam ter biótipos padronizados: são magros, com menos de 1,80 m, corpo esguio e musculatura alongada. Os africanos vencedores das principais maratonas do mundo são exemplos vivos dessa genética privilegiada.
Os que correm por diletantismo não precisam ter tais características, mas ajuda muito se as tiverem. Nas maratonas, já cruzei com homens altos, entroncados, com pernas grossas e musculatura achatada, que deviam pesar cem quilos ou mais, no entanto eram capazes de completar a prova em menos de quatro horas. Conheci um com essas particularidades físicas que dizia: “Duvidam que eu seja maratonista por causa do meu corpo, mas, quando você analisa a aerodinâmica do besouro, dá para imaginar que um bicho daqueles seja capaz de voar?”.
A prova atrai mulheres e homens de todas as idades, raças, grupos étnicos e classes sociais, com níveis diferentes de escolaridade e de cultura, oriundos de países díspares como Suécia, Indonésia, Japão, Quênia e Etiópia. Venham de onde vierem, todos têm alguns traços de personalidade e características comportamentais que lhes são comuns, como a disciplina e a obstinação com que se dedicam ao objetivo de correr 42 quilômetros.
Mal terminada a prova, o maratonista já pensa na próxima. No intervalo, poderá correr outras mais curtas, com dez ou quinze quilômetros, mas o fará como parte da preparação para a maratona, de longe a que mais excita seu imaginário.
Minha segunda maratona também foi em Nova York, em 1994. Dessa vez, estava mais treinado e sem a dor na panturrilha que atrapalhara a preparação no ano anterior.
Quando entramos no Central Park, pelo lado sul, na fase final, senti que ainda tinha energia para aumentar a velocidade, mas resisti à tentação. Forçar os músculos ao limite nos últimos quilômetros é jogo perigoso. Na maratona de 1993, tinha visto as pernas de um francês bambearem até ele cair perto de mim, gemendo com as câimbras que o atacaram no começo da rua 59, próximo ao Plaza Hotel, a meia milha do término.
Mantive constante a velocidade durante a travessia para o norte do parque, até atingir a rua 59, apinhada de espectadores que aplaudiam e gritavam para irmos em frente. Poucos metros depois da virada do Columbus Circle, a visão alentadora do portal de chegada que sinalizava o fim do sofrimento. Cruzei-o no momento em que o relógio marcava 3h38.
Estava cansado, lógico, mas não exausto como na primeira vez. Minha filha mais velha, Mariana, me aguardava com olhar acolhedor na saída do parque, na altura da rua 89. Voltamos devagar para o Olcott Hotel, que fica na 72, entre a Central Park West e a Columbus Avenue, vizinho do prédio em que John Lennon terminou seus dias.
Tomei um banho demorado, descansei meia hora com as pernas para cima e fomos a um restaurante. Senti no corpo a diferença de correr mais treinado, fui capaz de andar pela Columbus sem me arrastar, sem a vontade irresistível de sentar no chão e sem as dores nas pernas da primeira maratona.
Entusiasmado com a redução do tempo, achei que conseguiria completar a prova seguinte em menos de três horas e meia, o que significaria fazer em média cada quilômetro em menos de cinco minutos.
Foi com essa intenção que me inscrevi naquela maratona exaustiva de Blumenau, em 1995. Estava convencido de que, se conseguisse atingir a marca de 3h30, seria capaz de completar a Maratona de Nova York daquele ano abaixo desse tempo.