Correr
Rio de Janeiro, 2013
No começo de 2013, aceitei o convite de minha amiga Zélia Duncan para corrermos em julho a Maratona do Rio de Janeiro, prova da qual eu nunca havia participado. No dia que a antecedeu, meu enteado Gabriel decidiu nos acompanhar durante os primeiros 21 quilômetros, mesmo estando destreinado.
Não sei onde eu estava com a cabeça naquela noite. Minha desatenção foi tanta que não cortei as unhas dos pés, não separei as roupas para o dia seguinte, como sempre faço, nem fui cedo para a cama. Às cinco horas, quando o despertador tocou, desliguei-o, para descansar os fatídicos dez minutos a mais. Às cinco e meia acordei com o interfone. Gabriel me esperava num táxi, no horário combinado.
Fiquei apavorado. Comi não lembro o quê, voando, vesti o calção, a camiseta com o número e saí com os tênis na mão para calçá-los no elevador. Na pressa, esqueci o boné, os óculos escuros, e não lembrei de proteger os mamilos com o esparadrapo que me esperava num canto da pia do banheiro. Como desgraça pouca é contratempo, o trânsito para o Recreio dos Bandeirantes estava congestionado. Às tantas, achei que ia perder a prova. Senti ódio de mim, cretino: tamanha irresponsabilidade só porque a maratona era em casa.
Chegamos em cima da hora, não encontramos a Zélia e fomos colocados à frente, gentileza de uma das organizadoras com o Gabriel, que na época atuava na novela das onze da TV Globo, Saramandaia. Ficamos entre o pelotão de elite e os demais corredores. Achei perigoso: assim que fosse dada a partida, o estouro da boiada passaria por cima de nós. Quando fui pedir que nos deixassem mudar de lugar, era tarde — a prova começara. Gabriel e eu saímos bem encostados na grade lateral, um atrás do outro, até que os mais afoitos partissem; sem esse cuidado, teríamos sido atropelados pela massa eufórica.
Passado o susto, a multidão de camisetas coloridas deu uma volta pelas ruas do Recreio e chegou à avenida Lúcio Costa, que beira o mar. Ao longe, o morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea, imponentes, indiferentes às limitações da condição humana. Já alto às sete da manhã, o sol batia de frente. Que falta faziam os óculos escuros e o boné do cretino.
Assim que as montanhas e o mar apareceram, um corredor de camiseta verde-limão me alertou com a isenção habitual dos cariocas ao referir-se à cidade: “Pode se preparar, doutor, você vai correr a maratona mais bonita do mundo”. A prova segue à beira-mar por muitos quilômetros, com os prédios à esquerda, os coqueiros, o oceano à direita, com o azul que se perde no horizonte, o morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea, altaneiros.
Quando completamos quinze quilômetros, aquelas rochas vulcânicas que sempre me encantaram na paisagem da cidade começaram a me irritar. Tanto esforço naquele sol sádico, e as montanhas lá, mastodônticas, impassíveis, só para dar a impressão de que estávamos parados.
No quilômetro 18, Gabriel virou-se para mim: “Vai embora, estou muito cansado”. Respondi que não tinha pressa, e reduzimos a velocidade. No 20, lamentou em voz baixa: “Que absurdo, não chega nunca”. O marco do quilômetro 21 foi um alívio para ele, que saiu da pista com um ar de felicidade dos tempos de criança. Para mim, nem tanto; estava apenas na metade do martírio. Meus mamilos começavam a arder. Aproveitei para pedir um pedaço de esparadrapo no posto de atendimento, providência de pouca ajuda, porque com o peito molhado de suor o esparadrapo descolava. Seja o que o diabo quiser, pensei.
Ver a Pedra da Gávea desaparecer por trás dos Dois Irmãos foi um alento. Saber que a paisagem mudaria serviu de consolo para enfrentar a subida do Joá, nem tão íngreme, mas longa. Na descida, junto ao morro do Vidigal, veio em sentido contrário um grupo de rapazes. Um deles, de bermuda, sem camisa, cordão de ouro no pescoço, uma latinha de cerveja em cada mão, levantou os braços para reclamar num cantado de Moreira da Silva: “Bonito. Vocês aí, na moleza da descida, enquanto nós, aqui, sofrendo nesse subidão”.
Depois de percorrer trinta quilômetros, a maratona chegou ao Leblon, com o calçadão lotado de gente em movimento. Na plateia, ouvi o chamado de minha mulher e vi que ela estava com minha nora e Gabriel, que pegara um táxi no quilômetro 21 e fora encontrá-las. Numa hora dessas, um beijo na boca, mesmo de passagem, revitaliza mais que glicose na veia.
Aí começa a fase mais dura. Há que percorrer o Leblon e Ipanema, para então atravessar Copacabana inteira, Botafogo e boa parte do Aterro do Flamengo. É preciso ser de ferro para não sentar num daqueles quiosques do calçadão, no meio de gente bonita, pedir um chope bem gelado e mandar a maratona para o inferno ou para mais longe ainda. Essa vontade não faltou naquele momento. Já não estava bom ter completado trinta quilômetros? Que motivação nos faz persistir sem levar em consideração os lamentos do corpo exaurido? O que pretendemos provar aos outros e a nós mesmos?
As maratonas atraem indivíduos obstinados que encontram graça em criar desafios. É lógico que o preparo físico adquirido, os benefícios à saúde, a admiração que causa no imaginário alheio a capacidade de correr tanto, servem de estímulo, mas constituem motivações secundárias. Acima de tudo está o desejo de demonstrarmos a nós mesmos que temos força de vontade, disciplina e destemor para enfrentar o desânimo e as dores que surgirão no percurso até a linha de chegada, aprendizado que nos tornará mais resistentes às intempéries impostas pelo destino.
Ao chegar à praia de Botafogo, com o Pão de Açúcar e os barcos na enseada, minhas pernas já não me pertenciam, meus mamilos deixavam duas rodas concêntricas de sangue na camiseta, as unhas dos pés doíam, o sol ofuscava os olhos, a careca desprotegida ardia sob aquela bola de fogo que não dava um minuto de trégua. O corpo era um fardo torturante, impermeável à menor sensação de prazer. A fisionomia de meus companheiros de infortúnio não podia ser mais lamentável. É possível que achassem o mesmo da minha. Como fui esquecer o esparadrapo e o boné, em pleno Rio de Janeiro? E as unhas dos pés, que nunca havia machucado? Pela primeira vez, iria perdê-las como tantos maratonistas?
Nesse estado de espírito, com pesar notei que a praia de Botafogo faz uma curva sem fim, quase 360 graus, detalhe despercebido a quem passa de carro. Fiquei com ódio da enseada, dos barquinhos, das velas brancas, do Pão de Açúcar, do sol, do braço suado que resvalou no meu, da areia, dos banhistas embaixo do guarda-sol, dos transeuntes alheios às nossas misérias e do maldito bondinho abarrotado de gente desocupada. Como sair vivo daquela curva assassina?
Quando finalmente entramos no Aterro, empurrado pelos espectadores que gritavam palavras animadoras, enxerguei um raio de luz no fim do túnel. A estratégia havia dado certo: apesar dos 33 graus, terminaria a prova num tempo razoável. Mal cruzei a linha de chegada, fui invadido por uma sensação de paz celestial, senti um tuim nos ouvidos igual a barato de droga, com vista para o Corcovado e o Cristo Redentor.
Caminhei de volta, atrás de um táxi. O Pão de Açúcar continuava lá, com o bondinho, a areia, os barcos e os reflexos do sol na água. O rapaz de camiseta verde tinha razão: aquela foi a maratona mais bonita que corri.