Correr

Drauzio Varella · Capítulo 18 de 40

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Correr

Boston, 2014

 

Completei a Maratona do Rio em quatro horas e dezessete minutos, tempo pior que o de Berlim, em 2012, porém inferior ao limite de quatro horas e 25 minutos estabelecido em Boston para a faixa dos 70 aos 74 anos de idade, à qual eu agora pertencia.

Fiz a inscrição pela internet no primeiro minuto do dia reservado para aqueles que estavam menos de cinco minutos abaixo da linha de corte. Aguardei a resposta conferindo o e-mail várias vezes por dia. Ao receber a confirmação, senti uma alegria igual à que tomava conta de mim depois de marcar gol no futebol, na calçada da fábrica em frente de casa, no Brás.

O esforço de vinte anos de treinamento e de tantas provas era coroado aos setenta, idade emblemática para correr a maratona mais disputada do mundo. Parecia um sonho. Tive a mesma excitação daquela primeira que corri, aos cinquenta anos, para provar a mim mesmo que a decadência ainda não havia chegado.

Comecei a treinar com mais disciplina. Resolvi eliminar o tempo para ir e vir do Parque Ibirapuera, passei a correr por Higienópolis — o bairro em que moro — e pelo Pacaembu, em trajetos com muitas subidas e descidas. Perdi o medo de ser atropelado que me impedia de correr nas ruas; bastava atenção redobrada nos cruzamentos.

Para dar conta da preparação, acordava às cinco da manhã, ou antes, pelo menos quatro vezes por semana. Reduzi ao mínimo os compromissos noturnos, mas não pude diminuir o ritmo de trabalho. Em abril, intensifiquei a prática de treinos longos. Um mês antes da maratona, corri trinta quilômetros, distância que seria repetida mais duas vezes. Quando faltavam dezoito dias, corri 36.

Numa quarta à noite, viajei para Boston com Mariana, minha filha mais velha. Na sexta, Letícia, que agora morava em Nova York, juntou-se a nós. Apesar da ausência de minha mulher, que participava de uma filmagem na Bahia, eu tinha a sensação de que a vida estava completa. Quando poderia imaginar, na juventude, que chegaria aos setenta anos em condições físicas de correr 42 quilômetros?

Nos dias seguintes, não treinei mais; fomos ao museu e passeamos pela cidade. Fazia frio. Na sexta-feira, hordas de tênis e agasalhos esportivos invadiram as ruas. Alguns, como eu, apenas andavam, outros corriam. Fiquei na dúvida se estava fazendo o melhor, se não deveria treinar um pouco mais, mas resisti.

No sábado fomos buscar o material e o número de inscrição, que já vinha com o chip colado na parte de trás. Havia sol, a Boylston Street estava em festa: calçadas congestionadas, cafés lotados, lojas abertas, e a multidão alegre e colorida das vésperas de maratonas a caminho do prédio onde o material seria distribuído. O portal da linha de chegada já estava armado. Ao passar por ele, imaginei o alívio que sentiria se conseguisse cruzá-lo.

Véspera de maratona é dia de inquietude. Por mais que você procure não pensar na prova, é impossível evitar as idas e vindas da ansiedade que emerge do pano de fundo. A experiência em outras competições ajuda um pouco. Há principiantes que não pregam olho à noite e, mesmo assim, conseguem fazer os 42 quilômetros. O ritual começa no jantar. A maioria dos maratonistas segue a orientação de comer massas, para aumentar as reservas de carboidratos que serão armazenados nos músculos sob a forma de glicogênio, essencial para o esforço da manhã seguinte.

Obedeci a essa recomendação até a Maratona de Chicago de 2009, que corri em companhia de minha filha mais nova. Na noite que antecedeu a prova, havia filas nas calçadas em frente aos restaurantes italianos da cidade; previsão de duas ou três horas para conseguir mesa. Acabamos num restaurante especializado em frutos do mar, desprezado pelos maratonistas. No cardápio, a única alternativa para as calorias minguadas dos peixes e crustáceos era um filé-mignon, servido nas porções generosas da mesa americana. Como proteínas e gorduras mantêm a saciedade por mais tempo do que os carboidratos, acordei sem fome. Tomei café com pão e queijo, e durante a corrida tive a impressão de estar bem alimentado.

Desde então, procuro ingerir mais carboidrato no café da manhã e no almoço da véspera; no jantar, vou a uma churrascaria. Deve ser mais um dos erros que cometo, mas fico bem assim.

Para evitar congestionamentos e as ultrapassagens das partidas, em Boston os competidores não partem simultaneamente, mas em ondas. Das 8h50 às 9h17, saem aqueles com deficiência física e os que irão de cadeira de rodas. Às nove horas é a vez da elite feminina; trinta minutos mais tarde dispara a elite masculina, seguida da primeira onda de corredores mais velozes. Ordenadas no sentido dos mais rápidos para os mais lentos, de acordo com a performance mencionada na pré-qualificação, a segunda, a terceira e a quarta onda partem com intervalos de trinta minutos. Como os chips são ativados apenas ao passar pelos censores dispostos na linha de partida, os horários de saída e chegada não interferem na contagem final do tempo.