Correr
Rio Negro
Se, antes de morrer, me fosse concedido o privilégio da derradeira viagem, voltaria ao rio Negro mais uma vez. Viajaria de Manaus, rio acima, até São Gabriel da Cachoeira e, se possível, mais longe, na direção da Colômbia. Quinze dias, vendo o mundo refletir-se no espelho das águas escuras do rio, o recorte das margens verdes no horizonte, os papagaios no alvorecer e as circunvoluções arrojadas das andorinhas todo final de tarde.
Comecei com esse parágrafo o primeiro capítulo do livro Florestas do rio Negro, publicado pela Companhia das Letras.
A paixão pelo rio Negro surgiu em 1993, por ocasião de uma viagem com um grupo de cientistas americanos e europeus, no final de um curso sobre biotecnologia, que José Augusto Nasr e eu organizamos na Universidade Paulista (Unip), transmitido para vinte cidades brasileiras pela Embratel, naqueles tempos sem internet. O roteiro não foi escolhido por acaso: a Unip mantinha um barco-escola em Manaus e a visita à Floresta Amazônica fez parte de uma estratégia para atrair ao Brasil cientistas de destaque, entre os quais o dr. Robert Gallo, um dos descobridores do vírus da aids.
Numa conversa de fim de tarde, no barco, o dr. Gallo fez uma indagação que ficou sem resposta: “A biodiversidade aqui não é teórica, é visível. Nessas margens, não é fácil ver duas árvores da mesma espécie. Vocês fazem pesquisas sistemáticas da atividade farmacológica dessas plantas?”. A pergunta deu origem ao Projeto de Bioprospecção de Plantas da Bacia do Rio Negro, que desde então tenho coordenado. Através dele coletamos espécies distintas, preparamos extratos, e testamos a atividade contra células tumorais malignas e bactérias resistentes a antibióticos, nos laboratórios da Unip, em São Paulo.
Nesse período, o Laboratório de Extração preparou cerca de 2500 extratos, metade dos quais já foi testada. Estamos agora concentrados nos estudos de uma dúzia de extratos que demonstraram atividade intensa contra células malignas e bactérias resistentes.
Por conta do Projeto, nos últimos 22 anos fiz mais de cem viagens no barco-escola, uma gaiola típica dos rios amazônicos, na companhia de um grupo de jovens pesquisadores, entre eles botânicos, farmacêuticos, mateiros, e do professor Wilson Malavazi, organizador da infraestrutura. Ali, passo os dias mais tranquilos da agitação em que vivo, escrevendo, ouvindo os botânicos falar de plantas, as histórias dos mateiros, dos tripulantes e dos ribeirinhos. E, felicidade suprema, sem celular.
O Negro não é um rio que corre em sua calha, é uma região inundada. O volume das águas é o segundo do mundo; perde apenas para o do Amazonas, formado pelo próprio Negro e pelo Solimões, que conflui com ele abaixo de Manaus, no célebre Encontro das Águas. A diferença dos níveis do rio entre as temporadas mais secas de outubro/novembro e o pico da cheia, em junho/julho, é de dez metros, em média, mas pode chegar a doze ou quinze.
Em diversas alturas do curso, mal se enxerga a margem oposta. Muitas vezes, o que parece margem distante é uma ilha. No trajeto brasileiro estão os dois maiores arquipélagos fluviais da Terra: Mariuá, na região de Barcelos, antiga capital do estado do Amazonas, com mais de setecentas ilhas, e Anavilhanas, com pelo menos quatrocentas, na região de Novo Airão, a primeira cidade para quem parte de Manaus, rio acima.
Um riozinho de águas escuras como o âmbar, plácidas, a refletir a silhueta das árvores, o caminhar das nuvens, o dourado do sol, o firmamento, a lua e as estrelas, visto de uma ponte estreita de madeira, como nas gravuras japonesas de Hiroshige, do século passado, é fácil imaginar. Um rio da largura do Negro, no entanto, que nos dias sem vento é capaz de refletir o mundo ao redor como um espelho monumental, é inimaginável. As águas quietas criam imagens virtuais tão nítidas, que o fotógrafo tem dificuldade para distingui-las das reais.
Anos atrás fizemos uma viagem no barco Escola da Natureza, para gravar uma série de entrevistas com Orlando Villas-Bôas, que seriam exibidas no Canal Universitário. Subimos de Manaus até o rio Jaú, afluente da margem direita, que hoje faz parte do Parque Nacional do Jaú, o terceiro do mundo em extensão de floresta tropical intata. Foram dois dias de gravação e de prazer ouvindo as histórias vividas pelo velho sertanista, que viajou acompanhado da esposa e do filho.
Na volta, quando nos aproximamos da foz do Jaú, avistamos um banco de areia enorme no meio do Negro, que não havíamos notado na noite da chegada. Bancos de areia no meio dos rios da Bacia do Negro são frequentes durante a seca. Formados num ponto qualquer pelo acúmulo de sedimentos que as águas deixam ao baixar, desaparecem na cheia, para surgir a quilômetros de distância rio abaixo na seca do ano seguinte. É preciso contar com navegadores experientes para fugir deles, nessa época do ano.
Embora familiarizados com tal capricho amazônico, nenhum de nós, nem mesmo a tripulação, tinha visto um banco de areia daquelas dimensões: devia ter pelo menos quinhentos metros de diâmetro. Era uma ilha de areia branca, sem um fiapo de grama, rodeada de água escura. Paramos o barco, colocamos duas cadeiras pretas no meio da ilha, montamos as câmeras e gravamos uma entrevista maravilhosa com seu Orlando, em que fiz apenas a pergunta inicial. Os trinta minutos seguintes ficaram por conta das aventuras inacreditáveis de um personagem que ele conheceu no Xingu: Boca Rica, espécie de bandoleiro que viveu nos sertões do Brasil.
Encerrada a gravação, ajudei a recolher o equipamento e subimos no barco. Assim que o pessoal saiu para coletar as plantas, calcei os tênis, pedi que uma voadeira me deixasse na ilha e fosse me buscar só quando terminasse a coleta. Corri a volta toda mais de vinte vezes. A areia era tão fina que parecia peneirada, cantava sob os pés. O sol batia forte, mas havia uma brisa que dava alento. Se o calor apertava, eu tirava o calção, o tênis e entrava na água; depois, voltava a correr, até mergulhar outra vez.
Cercado pelo rio e pelas margens da mata intocada, paisagem idêntica à que os primeiros navegadores indígenas enxergaram muitos anos antes da chegada dos portugueses: ali, eu não era ninguém, não tinha família, amigos ou referências pessoais; estava integrado àquela exuberância tropical na solidão mais completa que vivi. Passei duas horas na ilha, correndo sob o sol do equador e tomando banho nu nas águas negras do rio.