Correr

Drauzio Varella · Capítulo 40 de 40

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Correr

Epílogo

 

Impossível imaginar quem eu seria hoje se continuasse sedentário como fui no tempo em que fumava.

O homem é o resultado do impacto cognitivo causado pelas ações que praticou e pelas que deixou de realizar, tanto quanto é consequência das lembranças arquivadas na memória e das que foram relegadas ao esquecimento.

Correr maratonas coincidiu com o período mais feliz e produtivo de minha vida, durante o qual pude concretizar os principais anseios da juventude, ao lado de outros que se manifestaram na maturidade.

A primeira infância num bairro operário de São Paulo ficou impregnada em meu espírito como nenhuma outra fase da vida. É possível que o mesmo aconteça com muitos, já que os lugares de nossos primeiros passos nos acompanharão pelo resto da existência. Podemos emigrar para outras cidades ou países distantes, viver décadas circundados pela neve ou sob o sol inclemente, na calmaria provinciana ou na metrópole ensandecida, não faz diferença: as imagens das ruas em que passamos a infância estarão em cada esquina.

Minha geração teve sonhos grandiosos. No movimento universitário dos anos 1960 pretendíamos acabar com a pobreza, com as endemias rurais e o analfabetismo; construir cidades, universidades e um país igualitário, onde o trabalho fosse remunerado de acordo com as necessidades de cada cidadão. A dificuldade de acesso às informações e a fúria repressiva da ditadura militar em que vivíamos abriram caminho para o proselitismo dos líderes que nos acenavam com a utopia do comunismo, como panaceia para nossos males.

Com um grupo de colegas oncologistas, fiz um estágio de três semanas no Instituto Nacional do Câncer, em Moscou, nos tempos da União Soviética, experiência que jogou por terra a percepção ingênua do mundo que eu tinha naquela época. O choque começou na alfândega. O olhar mal-encarado e os gestos autoritários dos guardas incumbidos de nos revistar deixavam claro que entrávamos num país policialesco.

Mal passamos pela porta do hotel, fomos cercados por uma horda de mulheres com cílios postiços, o rosto rebocado de maquiagem e vestidos vaporosos antiquados a ressaltar-lhes os seios fartos, as quais nos convidavam com insistência para um drinque no bar, ao lado da recepção. Eram comandadas pelo funcionário da KGB — o temido serviço secreto — encarregado de acompanhar feito sombra o grupo de médicos brasileiros que acabava de chegar.

No dia seguinte, no centro do anfiteatro do hospital formamos um círculo de curiosos em volta de um aparelho com mais de um metro de altura. Ninguém fazia ideia do que seria aquela geringonça, até que um dos colegas descobriu uma lente escondida entre as hastes de ferro da parte inferior. “É um projetor de slides muito antigo”, disse, para incredulidade geral. Achei interessante conservarem uma relíquia daquelas, enquanto nós nos desfazemos de tudo que nos lembre o passado.

Estávamos distraídos em torno do projetor, quando a porta se abriu e entraram oito personagens em formação militar, com aventais compridos que um dia haviam sido brancos, puídos nos punhos e na gola abotoada na metade do pescoço, perfilados atrás do chefe de cabelo repartido no meio e bigodes vastos tingidos de preto. O que tornava sua aparência mais bizarra, todavia, não eram os aventais que lhes chegavam aos pés, mas os chapéus de pizzaiolo na cabeça. Não é que fossem parecidos com os das velhas pizzarias: eram idênticos. Sinceramente, achei que se tratava de comediantes escalados para uma performance de boas-vindas. Estava enganado: o de bigode retinto era o chefe da Clínica Médica do Instituto, que daria a aula inaugural do curso, e os acompanhantes eram seus assistentes. Numa língua que lembrava a inglesa, o professor começou a apresentação com a frase mais

consagrada das apresentações médicas: “May I have the first slide, please?”.* A luz do projetor acendeu acompanhada de um ronco tão forte da ventoinha, que por pouco não abafou a voz do palestrante.

A aula foi uma sucessão de obviedades científicas mostradas com tintas de avanços da medicina soviética. Métodos de tratamento havia muito abandonados no Ocidente eram considerados state of the art. Terminada a apresentação, fomos levados para uma sala dominada por um pedestal com o busto de Lênin, de olhar severo. Em nome dos colegas soviéticos, o professor nos convidou para um drinque comemorativo. Prestativos, os assistentes abriram um armário e dali retiraram quatro garrafas de vodca e uma infinidade de copos americanos, que eles se apressaram em encher até a altura do risco. Às nove da manhã de um dia de trabalho, nossos colegas russos esvaziaram seus copos em segundos e, disfarçadamente, deram conta dos que deixamos intocados sobre a mesa.

Foi o estágio mais improdutivo que meus colegas e eu poderíamos imaginar. As enfermarias lembravam as dos nosocômios de antes da Segunda Guerra; os que não conseguiam cadeira nas salas de espera aguardavam em pé nos corredores; os funcionários eram estúpidos com os pacientes; os médicos e o pessoal de enfermagem trabalhavam com visível má vontade. A medicina que praticavam era atrasada e corrupta, sem subornar os profissionais os doentes amargavam nas filas.

A visita à União Soviética jogou uma pá de cal nas convicções utópicas que ainda me restavam, bem antes da Queda do Muro de Berlim. Fico chocado quando vejo mulheres e homens da minha geração aferrados até hoje ao marxismo, como se fizessem questão de pertencer ao rebanho de uma seita religiosa. A desilusão causada pela realidade socialista não me afastou do interesse pela sociedade em que vivo nem de um compromisso com ela, o qual não consigo definir com clareza.

O futuro de meus companheiros de jogo de bola na rua Henrique Dias, no Brás, era mais previsível. Tivessem terminado ou não o antigo ginásio, abandonavam a escola aos catorze anos, idade mínima requerida para o trabalho nas fábricas. Escapei do destino operário graças à teimosia de meu pai, que enfiou na cabeça a ideia de que os filhos seriam universitários nem que precisasse trabalhar em dois empregos, das oito da manhã à meia-noite, rotina que cumpriu por décadas, com rigor franciscano.

As imagens dos quartos de cortiço onde se espremiam famílias numerosas, das crianças descalças com o nariz escorrendo, dos mortos velados em casa, das missas de sétimo dia com o genuflexório de madeira, dos homens que levavam suas cadeiras e se reuniam na calçada nas noites de calor para contar histórias da guerra na Europa, e da gritaria das vizinhas em disputa pelo tanque ficaram tão gravadas em minha mente, que desvencilhar-me delas seria renegar as raízes, sem as quais um homem se perde.

Comecei a correr maratonas numa fase em que minhas filhas já estavam crescidas, a vida profissional bem encaminhada, a casa própria adquirida, as participações em campanhas educativas sobre a aids na Rádio Jovem Pan e na 89 FM — a Rádio Rock — ganhavam popularidade, o projeto do rio Negro abria meus olhos para a Amazônia, e o trabalho no Carandiru me punha em contato com o universo da marginalidade. Estava preparado o cenário que me conduziria à vida que levo agora.

Já vivia ocupado com os pacientes e as outras atividades quando acrescentei a obrigação de treinar com regularidade para as provas de 42 quilômetros. Mais tarde, assumiria ainda os compromissos de uma coluna quinzenal na Folha de S.Paulo e outra a cada três semanas na revista CartaCapital, além de escrever livros, fazer palestras, ir a congressos internacionais, dirigir um site de informações médicas, conduzir séries educativas sobre saúde no Fantástico, da TV Globo, e de correr atrás de tempo para conviver com a família.

Cumprir tantos compromissos sem deixar de cuidar das necessidades dos pacientes com câncer que dependem de mim seria de enlouquecer se eu não fosse corredor. Controlar a ansiedade gerada por tantas solicitações, o estresse de atendê-las numa cidade com as características de São Paulo, e manter o preparo físico necessário para os deslocamentos e as viagens de vai e volta em 24 horas que sou obrigado a fazer exige disciplina, equilíbrio psicológico e uma paz de espírito que só descobri ao correr.

Insisto em maratonas sem ter certeza se o esforço exigido para completar 42 quilômetros poderia pôr em risco a vida de um homem com mais de setenta anos. No íntimo, algo me diz que o risco é baixo, bem menor do que os benefícios colhidos, mas sei que faltam estudos com dados confiáveis. Afinal, quantos maratonistas há com essa idade? Não teria chegado o momento de reduzir a intensidade dos treinos e participar de provas mais curtas? Correr dez quilômetros ou os 21 das meias maratonas não seria atividade física suficiente?

Se formos pensar nos benefícios à saúde, nem precisaria tanto: bastaria andar trinta minutos por dia; mas a questão não é essa. Quem descobre a sensação de bem-estar e a euforia que a corrida traz não se contenta em caminhar. Corredores obrigados a encerrar a carreira por causa de lesões articulares só faltam chorar de nostalgia quando falam do passado.

A preparação para provas mais curtas pode ser improvisada em duas ou três semanas; para maratonas, jamais. Ninguém completa 42 quilômetros com meia dúzia de treinos. A vantagem da maratona é exigir a disciplina que me obriga a sair da cama às cinco da manhã, faça frio ou esteja escuro. Sem essa premência acabo relaxando e deixando para o dia de são nunca, como tanta gente faz. Num piscar de olhos acumulo gordura no abdômen e paro de correr. Sedentário com excesso de peso, na minha idade, corro o risco de ficar hipertenso e entrar no torvelinho estressante de obrigações e de compromissos a cumprir sem contar com a válvula de escape do corpo suado, das pernas cansadas e com o baque das endorfinas no cérebro. Pode parecer que exagero, mas esse é o roteiro inexorável que leva às tragédias vividas por muitos amigos e pessoas que acompanhei no exercício da profissão.

Meu tio José guardava pilhas de revistas com histórias de assassinatos misteriosos e detetives de caráter duvidoso, contratados para solucioná-los. Aos oito anos, mexendo nas coisas dele, encontrei uma revista em quadrinhos que nunca mais me saiu da cabeça. Contava a história de Mr. Johnson, que pescava na beira de uma lagoa quando foi atirado para longe por um raio que caiu na água. Depois de algum tempo desacordado, levantou ainda tonto e caminhou para casa com dificuldade. Não quis jantar, disse à esposa que iria deitar porque não se sentia bem.

Na manhã seguinte, acordou calado e pensativo. Por insistência da mulher, descreveu um sonho terrível no qual um trem que tinha saído da Victoria Station, em Londres, colidia em grande velocidade. O som da batida, as imagens dos ferros retorcidos, das pessoas mutiladas e dos corpos destroçados entre as ferragens foram tão nítidas que, ao despertar aflito, demorou a acreditar que não eram reais. Três dias mais tarde, o jornal trazia na primeira página a notícia de um desastre pavoroso envolvendo dois trens. Diante da foto estampada logo abaixo, Mr. Johnson perdeu os sentidos: era exatamente a cena que vira no sonho.

Passados alguns dias, novo pesadelo com dois trens que se chocavam a cinquenta milhas de Londres, com a mesma nitidez de imagens e sons do sonho anterior. Acordou sobressaltado e correu para a estação, decidido a impedir que um dos trens partisse. Falou com o subchefe, com o chefe, com o diretor, com o maquinista e tentou dissuadir os passageiros; em vão. No fim, desesperado, postou-se nos trilhos diante da locomotiva, de onde foi retirado por três policiais. Cinquenta milhas à frente, aconteceu o desastre que ele previra.

Desde esse acidente sua vida virou um tormento. Sonhava com operários que cairiam de andaimes, mineiros que seriam soterrados, crianças atropeladas. Corria atrás das futuras vítimas de suas premonições para avisá-las do que lhes aconteceria; ante o descrédito, agarrava o operário para que não subisse no prédio, o mineiro para que não entrasse na mina, a criança para não atravessar a rua. Não tinha paz, passava os dias transtornado com as visões das tragédias que fazia de tudo para impedir. Acabou preso e internado num hospício.

Às vezes me sinto como Mr. Johnson. Na rua, quando vem em sentido contrário um homem de meia-idade com o cinto afivelado abaixo do abdômen proeminente e o rosto vermelho-azulado dos fumantes, tenho ímpeto de abordá-lo: “Desculpe, mas vai acontecer uma desgraça em sua vida: infarto, derrame cerebral, obstrução de artérias, falência dos rins, não sei. Não sei quando nem qual será, mas vai acontecer”.

Vejo a senhora sedentária, filha de pais com diabetes, que engorda vinte quilos na menopausa e sinto vontade de perguntar se não tem medo de adquirir uma doença traiçoeira como a deles. Diante do homem de quarenta anos com várias mortes por infarto na família, que insiste em fumar, comer à larga e passar o dia sentado, preciso me conter para não dizer que seu destino tem grande probabilidade de ser igual ao dos parentes.

Não é fácil para um médico ficar calado quando vê o fumante perder o fôlego ao subir dois lances de escada. Muitos consideram inúteis advertências como essas, propor mudanças de estilo de vida é das tarefas mais inglórias da medicina. Por outro lado, às vezes as palavras calam fundo, com energia suficiente para alterar comportamentos enraizados, embora a mudança nem sempre ocorra no momento em que elas são ditas.

Parei de fumar aos 36 anos, quase um ano depois que o cirurgião Fernando Gentil, trinta anos mais velho, cruzou comigo na entrada do Hospital do Câncer, olhou para meu cigarro e fez a recomendação mais óbvia: “Você precisa parar de fumar, rapaz”. Passei meses com essa frase vindo à cabeça cada vez que acendia o próximo, até criar coragem para jogar o maço fora. Estou absolutamente convencido de que cabe ao médico esse papel na sociedade.

No passado, meus colegas viviam em contato direto com a comunidade. Enquanto passavam pela praça, recomendavam que a mãe protegesse o bebê do sol, que a senhora procurasse andar mais ereta, que o garoto lavasse as mãos antes de comer o doce. Com o crescimento das cidades, esse tipo de intervenção pessoal desapareceu. A praça de hoje são os meios de comunicação de massa. Rádio, televisão, internet e o celular criaram a possibilidade de ensinar medicina para milhões de pessoas.

Exerço minha profissão faz quase cinquenta anos. Há dezesseis participo de séries sobre saúde no Fantástico, da TV Globo, programa que chega aos rincões mais isolados do país. O tempo que sempre dediquei à clínica, as preocupações com os doentes, as angústias, as noites maldormidas, as férias e os fins de semana que deixei de aproveitar exigiram de mim muito mais do que o faz a televisão. O impacto social do trabalho na TV, entretanto, foi incomparável. De quantos doentes tratei? Quantas pessoas atingi pela comunicação em massa? Quantos fumantes ganharam motivação para largar do cigarro? Quantas pessoas abandonaram a vida sedentária?

Enquanto corro, penso em tudo e em nada, porque depois não lembro do que pensei. O pensamento do corredor é caleidoscópico, é ave irrequieta que, mal pousa no galho, levanta voo outra vez. No meu caso a exceção são as frases que procuro encontrar quando estou envolvido com um tema que preciso comunicar pela TV ou pela internet. Como selecionar a informação científica mais útil e torná-la inteligível aos que não puderam estudar? De que maneira explicar temas complexos com palavras do dia a dia sem perder a exatidão? Num programa de audiência tão heterogênea como o Fantástico, de que forma transmitir as informações com clareza e simplicidade sem banalizá-las e desinteressar as pessoas mais cultas?

Por exemplo, numa das séries queria explicar as razões evolutivas pelas quais a vida sedentária do homem moderno contraria as raízes biológicas de nossa espécie, durante milênios agrupada em bandos nômades de caçadores-coletores que dependiam dos deslocamentos para a sobrevivência. No final de uma corrida de vinte quilômetros no Ibirapuera, encontrei a frase que foi ao ar no último episódio e que não canso de repetir: “O corpo humano é uma máquina construída para o movimento”.

À diferença de máquinas como o automóvel e o avião, também projetadas para o movimento mas que se desgastam ao executá-lo, o corpo humano se aprimora com a movimentação, tenha um ou noventa anos de idade.

Correr é experimentar a liberdade suprema, é voltar aos tempos de criança.

Uma vez por semana, há 26 anos, atendo doentes em cadeias de São Paulo. A proximidade com os dramas de mulheres e homens que a sociedade considera a escória odiosa que nos tira o sossego nas ruas, trancada feito bicho nas prisões brasileiras, trouxe para mim uma compreensão da vida, do comportamento e da alma humana, que seria inacessível sem essa vivência.

Depois de ver dez homens trancados numa cela de seis metros quadrados, dia e noite, durante meses de tédio, dormindo em turnos sobre folhas de papelão, correr no parque ao amanhecer do dia seguinte é experimentar no corpo a quintessência do significado da palavra “liberdade”.

Sair da cama para a poltrona, andar até o banheiro, movimentar o dedo do pé do lado paralisado, ficar livre da sonda nasogástrica e tomar cinco colheradas de sopa são eventos que os pacientes comemoram com grande alegria, porque lhes dão a esperança de que sairão do estado de fragilidade em que se encontram. Atravessada essa fase, no entanto, reassumem o cotidiano sem levar em consideração a saúde, bem ao qual só atribuímos valor se escasseia.

Ainda me surpreendo quando um homem escapa da morte súbita do infarto, faz cateterismo, ponte de safena com circulação extracorpórea, vai parar na UTI por vinte dias, com sonda urinária, cateteres nas veias, eletrodos no peito para monitorização contínua, dor na cicatriz, curativos, complicações pulmonares, sonda na traqueia, respirador artificial, toma antibióticos que provocam náuseas, analgésicos potentes e resiste com bravura. Os limites de resistência do ser humano estão além do que sonha nossa vã filosofia. O que me choca é que, ao emergir restabelecida desse inferno, a pessoa que passou por tal suplício seja incapaz de andar míseros trinta minutos diários.

Mulheres com câncer de mama enfrentam obstinadamente cirurgias mutiladoras que interferem com a autoimagem e a sexualidade, passam pelas náuseas, vômitos e o mal-estar da quimioterapia, perdem o cabelo, cumprem com rigor as sessões de radioterapia e os cinco anos ou mais de tratamento hormonal. Quando explico que andar trinta a quarenta minutos diários reduz em pelo menos 30% o risco de morrer por disseminação da doença, benefício semelhante ao da quimioterapia, ouvem atentas e juram que vão caminhar todas as manhãs. Juramento falso, conto nos dedos as que cumprem a palavra.

Consideramos o corpo humano um presente de Deus para nos servir e dar prazer pela vida inteira. Se, por acaso, ele ousa reagir aos maus-tratos e à tirania de nossas exigências, ficamos revoltados e maldizemos a sorte. Fui médico de um padre que fumou dois maços de cigarro por dia, durante trinta anos. Ao descobrir o câncer de pulmão, blasfemava e ofendia a Deus com palavras de baixo calão capazes de corar qualquer ateu, por ter enviado tamanha provação a um homem que havia dedicado a Ele a vida inteira.

Nos primórdios da epidemia de aids, atendi um rapaz que saía pelo menos duas vezes por semana com os garotos de programa que fazem ponto no Trianon, junto à avenida Paulista, com os quais praticava sexo anal receptivo desprotegido. Quando lhe transmiti o resultado do teste, ficou pálido: “Não é possível. Logo comigo?”. A mesma surpresa teve um filho de árabes, no antigo Carandiru, que injetava cocaína na veia com seringa alugada dos companheiros de uma cela vizinha.

Nem todas as reações, entretanto, se apresentam com essa dramaticidade; muitas delas assumem a forma de resignação: “A pressão está alta porque já fiz cinquenta anos”; “Também, com tantos casos de diabetes na família”; “A velhice é uma merda”.

Ficar mais velho é inevitável, a alternativa é tão perversa que nem vale considerá-la. Envelhecimento, porém, não é sinônimo de limitações, decadência física, solidão e enfermidades crônicas. De minha parte, se alguma coisa aprendi com as maratonas e os treinos necessários para completá-las, foi não levar a idade em conta. Confrontado com um desafio, procuro ver se me acho em condições físicas e intelectuais e se terei a disciplina para enfrentá-lo; jamais considero o número de anos que juntei, porque a questão da idade vem contaminada por preconceitos arcaicos. Dos tempos em que os jornais traziam na primeira página: “Sexagenário atropelado na avenida São João”. Sem mencionar que a expectativa de vida ao nascer de um europeu no início do século XX não passava de quarenta anos. E que Jesus Cristo teria morrido aos 33, dentro da expectativa média na época do Império Romano, da China do século XIX e de diversos países africanos e asiáticos no começo do século XX.

Na fronteira com a Colômbia, Américo, um indígena da etnia Curipaco, disse que sentia dor nas costas ao carpir a plantação de mandioca porque era um homem velho. Perguntei quantos anos tinha, respondeu 35. Quando contei que estava com 65, minha idade então, ficou surpreso: “O senhor é muito velho”.

O medo do envelhecimento é um fenômeno moderno. Nossos ancestrais pouco se incomodavam com ele, a probabilidade de morte precoce era muito mais concreta. Na concentração que antecedeu a Maratona de Boston, em 2014, calhou de eu ficar próximo de quatro senhores que conversavam em inglês. O mais velho contou que estava com 76 anos e mais de trinta maratonas corridas; os outros tinham 72 e 71. O que vestia uma camiseta com a bandeira do Japão perguntou quantos anos eu tinha. Quando respondi que estava com setenta, começou a rir: “Sou o mais criança, só tenho 67”.

A consciência de que não tenho muitos anos pela frente nem tempo para desperdiçar com futilidades nem interesse por pessoas que não se interessam por mim foi o maior dos benefícios que o passar dos anos me trouxe. À medida que meu horizonte encurta, aumenta a necessidade de me concentrar na busca do essencial, daquilo que me deixa mais feliz.

Na juventude, ia a três festas num sábado e ficava frustrado por ter perdido a quarta. Hoje, a família, os pacientes, as séries que gravo para a TV, as paisagens e as plantas do rio Negro, os livros, os congressos e o tempo para correr e escrever são tão preciosos, que fujo dos jantares e das rodas sociais.

Quando comecei a correr maratonas, achava suficiente participar de uma por ano. No período de julho de 2013 a setembro de 2014 corri quatro: Rio de Janeiro, Buenos Aires, Berlim e Boston, empreitada que me obrigou a treinar o ano inteiro com regularidade espartana. Quanto mais velho fico, mais prazer encontro em correr.

Cheguei aos 72 anos com dois quilos a mais do que pesava ao sair da faculdade, sem doenças crônicas e sem precisar de medicação de uso contínuo, condição que devo sobretudo à genética e ao acaso, mas também ao esforço pessoal. O contato permanente com a morte e com os doentes que lutam para evitá-la me ensinou a levar em conta o prazer de estar vivo, privilégio que tento manter presente em meu imaginário o tempo todo, especialmente nos momentos de adversidade.

Não sou obra de um ser onipotente que controla o universo, mas do encontro casual e aleatório de determinado óvulo com o espermatozoide mais apto daquela ejaculação. Da mesma forma que não existia antes dessa fusão celular, desaparecerei quando soar a hora fatal.

Como meu destino nos anos que restam não será traçado por um mágico transcendental encarregado de me proteger das intempéries, tenho que estar atento ao corpo e ao espírito, não posso tratá-los com displicência preguiçosa.

Não me iludo, sei que a natureza é impiedosa e que a mais indesejável das criaturas passa os dias à espreita, mas, enquanto não bate à porta, tenho pressa para ir atrás dos sonhos que ainda não realizei e para correr pelas ruas enquanto as pernas resistirem.

 

* “Você pode apresentar o primeiro slide, por favor?”

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