Correr
Intervalo 2
CORRER MARATONA É
PERIGOSO?
Talvez você pense que maratonistas são indivíduos temerários, ao correrem risco de morte numa atividade recreativa. Aliás, esse é o argumento de detratores como aquele médico que, ao ver minha dificuldade para sair do carro no estacionamento do hospital, destruído pela combinação da Maratona de Blumenau com a intoxicação alimentar da véspera, exclamou condoído: “Isso faz mal para o ser humano”.
Os números, no entanto, contradizem essa visão catastrófica. Centenas de milhares de mulheres e homens disputam maratonas pelo mundo, em condições climáticas que vão do inverno em Tóquio aos trinta graus de julho no Rio de Janeiro, sem que ocorram incidentes de maior gravidade. Se é assim, por que há mortes durante maratonas?
Primeiro: trata-se de episódios raríssimos que provocam grande repercussão nos noticiários. Mortes durante práticas esportivas causam comoção social, porque costumam ser súbitas. A morte súbita expõe como nenhum outro evento a fragilidade da condição humana: o estar aqui e no minuto seguinte não estar mais. Não pode existir acontecimento mais dramático em nossa existência. O que seria comparável? O nascimento de um filho? O encontro com a fortuna ou com a pessoa amada? A vida e a morte encerram a contradição suprema dos seres humanos, únicos animais capazes de criar teorias fantásticas para lhes assegurar a sobrevivência eterna da alma.
É tão grande a dificuldade para aceitarmos que a vida pode ser extinta aleatoriamente como a chama de uma vela, que diante dessa eventualidade procuramos razões para atirar na pessoa a culpa pelo fim que lhe foi reservado: “Ah! Mas ele bebia”; “Mas era muito deprimida”; “Mas tinha perdido a alegria de viver”. Encontrar justificativa para o desenlace fatal do outro explica o inexplicável e nos deixa com a impressão de que estamos a salvo.
Segundo, e o mais chocante: óbitos em práticas esportivas geralmente acontecem entre jovens; maratonas não são exceções. Nunca soube de corredores com mais de cinquenta anos — mulheres ou homens — que tenham perdido a vida numa prova de 42 quilômetros. Paradas cardíacas por arritmias ou infarto são mais comuns em corredores com menos de quarenta anos, portadores de defeitos anatômicos nas artérias coronárias, aterosclerose precoce e miocardiopatias não diagnosticadas previamente.
Quanto aos problemas osteomusculares, os maratonistas bem treinados não correm risco maior do que praticantes de outros esportes. Quantos jogadores de futebol já operaram os joelhos aos 25 anos? Quantos jogadores de vôlei tiveram problemas nos ombros? Quantos tenistas lesaram a articulação do cotovelo? A natureza competitiva desses esportes impõe a urgência de movimentos bruscos atrás da bola, que facilitam a ruptura de ligamentos e sobrecarregam músculos e articulações.
Podemos identificar três tipos gerais de maratonistas. Os profissionais que disputam as primeiras posições, os que se deixam tomar pelo desafio constante de melhorar marcas anteriores, e os diletantes, que se contentam em completar a prova.
Desde que a obsessão pelo tempo e pelos recordes pessoais não domine o corredor, o desafio de cada um é encontrar a velocidade que lhe permita terminar a prova com o mínimo de sofrimento. É o confronto entre a intenção intelectual de chegar ao fim e o limite de resistência do organismo. A competição é do indivíduo consigo mesmo.