Correr
Cracolândia
Usuários de crack são antes de tudo gregários. O grupo lhes traz proteção, recursos financeiros, relacionamentos sociais, acesso ao sexo e à droga da qual dependem para suportar a escravidão causada por ela.
No Centro de São Paulo, eles se reúnem nas imediações das estações ferroviárias da Luz e Sorocabana, região reconhecida como a primeira Cracolândia do Brasil. São homens e mulheres de idade indefinida que atravessam as noites agitados feito zumbis, não trocam de roupa, não se lavam, não fazem a barba nem penteiam o cabelo. Sedentários, passam os dias jogados nas calçadas, no meio da sujeira que não se dão o trabalho de recolher, com o inseparável cachimbo metálico de cabo comprido nas mãos, o bem mais precioso.
No primeiro domingo que corri para aqueles lados, ao avistá-los agrupados na esquina da Helvétia com a Dino Bueno, senti o coração bater forte, a garganta apertada e uma tentação irracional de passar correndo entre eles.
* * *
Essa mistura de medo, curiosidade e atração pelo perigo que ronda os ambientes marginais vem de longe. Eu nem tinha sete anos quando um cortiço abandonado na rua de trás de nossa casa foi invadido por bêbados e mendigos. A vizinhança comentava horrorizada os hábitos daquela gente desregrada, queixava-se da imundície que atraía ratos, das brigas, discussões em voz alta e da algazarra toda noite. Dona Aurora, uma espanhola que morava ao lado, cochichou para minha avó que ouvia gemidos de mulher vindos da escuridão do cortiço, no meio da madrugada.
A sabedoria dos sete anos havia me ensinado que os adultos só cochichavam na presença de crianças para falar mal de alguém que conhecíamos ou para comentar coisas que mulheres e homens adultos não deviam fazer mas faziam.
A casa dos bêbados — como era conhecida — povoou minha imaginação durante vários dias. Comprar pão na padaria, visitar minha outra avó, que morava a três quadras, ir à venda, à sorveteria, tudo era pretexto para passar em frente ao portão do cortiço e olhar demoradamente para dentro, incursões visuais que poucas novidades traziam.
Um fim de tarde, ouvi uma balbúrdia vinda de lá. Parecia haver uma festa animada por um sanfoneiro que tocava sucessos de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, um dos cantores mais populares daquele tempo. Em meio às risadas e ao falatório, escutei vozes femininas. Dona Aurora não tinha mentido.
Fiquei tão excitado para me aproximar daquelas pessoas malfaladas, que em segundos inventei uma estratégia. Saí sem minha avó ver, dei a volta no quarteirão, parei na porta do cortiço e apertei o botão da campainha, que eu sabia inútil naquela casa sem luz. Abri o portão de ferro e entrei pelo corredor com o coração saindo pela boca.
No primeiro quarto havia um colchão de palha rasgado, roupas amontoadas num canto, uma panela cheia de arroz, uma espiriteira, um maço de velas, bitucas de cigarro espalhadas e uma pilha de pratos de alumínio. O segundo quarto estava fechado; a festa acontecia no terceiro, nos fundos. Hesitei, com as mãos geladas, mas criei coragem e fui até a porta.
O sanfoneiro tocava uma sanfona prateada que animava o baile para cinco homens, três mulheres e duas garrafas de pinga. As mulheres dançavam agarradas aos homens, que se revezavam em seus braços aos empurrões, caíam e riam de perder o fôlego. Sentado num banquinho, o sanfoneiro balançava para a frente e para os lados, sem derrubar o chapeuzinho de couro desequilibrado na cabeça nem parar com a música.
Quem me viu primeiro foi uma mulher de vestido rodado e cabelo solto:
— Está olhando o quê, menino?
— Vim ver se a minha bola caiu no quintal.
— Procura aí e não enche o saco — respondeu um grandalhão com a camisa aberta no peito, que volta e meia eu via caído na calçada do armazém do seu Mário.
Fingi que dei uma olhada ao redor e saí depressa, cheio de mim, louco para que chegasse o dia seguinte. A molecada que jogava bola comigo na porta da fábrica ia saber o que acontecia na casa dos bêbados.
Naquele domingo na Cracolândia, a mistura de taquicardia, medo e o desejo de passar no meio daquele bando gerou uma hesitação semelhante à que senti no corredor da casa mal-afamada, no Brás da minha infância.
Quando cheguei mais perto, percebi que seria impossível correr em linha reta: a rua estava tomada por homens e mulheres sentados ou deitados no chão. No espaço entre eles, esgueiravam-se os que se acocoravam à cata de migalhas das pedras que ocasionalmente estalam para fora dos cachimbos alheios. Alguns andavam a esmo. Uma mulher descabelada falava sozinha e erguia os braços para se defender de um agressor imaginário.
Através de um buraco aberto na parede de concreto construída para vedar a porta de entrada de um sobrado, havia um entra e sai frenético. Parecia formigueiro. Os que vinham de dentro sentavam no primeiro lugar disponível no meio-fio e acendiam os cachimbos. Só não recuei porque seria pior, estava perto demais.
Com a rua obstruída, a solução foi correr pela calçada do lado esquerdo, onde havia um pouco de espaço, junto a um botequim com um toldinho azul que contrastava com a pobreza das instalações. Não fosse o volume da música sertaneja do bar, seria possível escutar o galope do meu coração. Com cuidado para não atropelar ninguém, diminuí a velocidade e passei incólume.
A indiferença dos usuários de crack à minha pessoa de calção e camiseta foi semelhante à dos personagens do baile no cortiço. Se em meu lugar tivesse passado um cachorro, chamaria mais atenção.
O único a me estranhar foi um negro grisalho e encorpado, que certamente não passara a noite na sarjeta. Calçava sapatos engraxados e vestia calça com vinco bem-feito e camisa de mangas compridas entreaberta no peito para expor um cordão grosso, reluzente, com vários penduricalhos de ouro. Olhou para mim com ar enigmático e sorriu. É possível que tenha me reconhecido, porque eu me lembrei dele, preso, cumprindo pena no Pavilhão 2 do Carandiru.
Uma quadra mais, cheguei ao largo onde estão a igreja e o Liceu Coração de Jesus, dos padres salesianos, que ocupa um quarteirão inteiro. Meu pai, meus tios e primos estudaram lá, na época uma das melhores escolas de São Paulo, cujo internato atraía alunos de todo o país. Sitiado pela Cracolândia, o Liceu ainda sobrevive.
Dei a volta no colégio e, ao passar pela calçada do largo, em frente à igreja, vi um casal que dormia profundamente sobre uma folha de papelão. Deitado de costas, ele tinha o braço esquerdo em torno do pescoço dela, que repousava a cabeça no peito do companheiro. Ela, de lado, descansava a perna esquerda dobrada sobre as dele. O braço direito do homem abraçava o corpo da mulher com a delicadeza de um apaixonado. Retornei pela Dino Bueno, outra vez no meio da turba, pela mesma calçada, mas agora com menos medo e mais tranquilidade para olhar ao redor.
Desde esse domingo, o circuito que percorro pelo Centro inclui obrigatoriamente a travessia da Cracolândia. Nem sempre passo tão incógnito quanto um vira-lata — às vezes alguém me reconhece. São ex-presidiários que tratei no antigo Carandiru ou na Penitenciária do Estado ou mulheres que me conhecem da Penitenciária Feminina da Capital, onde atendo as presas uma vez por semana, há nove anos.
Uma vez, quando corria pelo Centro com meu colega de consultório Carlos Jardim, propus que seguíssemos para lá. Na Dino Bueno, uma mulata magrinha, de calça agarrada e top, me reconheceu e gritou para o grupo reunido mais à frente: “Ó o doutor Drauzo Valero. Quem falou que não tem médico na Cracolândia?”.