Correr
Os joelhos
Uma das crenças mais disseminadas entre os que não correm é a de que os joelhos são destruídos no esforço dos 42 quilômetros.
Parece lógico, até: em cada passada, as forças balísticas geradas pelo impacto do peso do corpo contra o solo seriam transmitidas para os joelhos e lesariam progressivamente as cartilagens encarregadas de amortecer os choques e manter lubrificadas as superfícies articulares. A repetição dos impactos levaria à perda da elasticidade e à desidratação do tecido cartilaginoso que caracterizam as osteoartrites, popularmente conhecidas como artroses. Na mesma linha de raciocínio, andar seria atividade de baixo impacto tradicionalmente recomendada pelos médicos para as pessoas mais velhas, com a finalidade de conferir os benefícios do movimento sem forçar os joelhos. Essas suposições, entretanto, vão contra evidências científicas mais consistentes. Desde que os joelhos do principiante estejam previamente saudáveis, correr não aumenta o risco de artrite, mesmo nos mais velhos.
Num estudo recente publicado na revista Medicine & Science in Sports &
Exercise, com o título “Why Don’t Most Runners Get Knee Osteoarthritis”,* pesquisadores da Queen’s University, no Canadá, avaliaram quase 75 mil participantes, “sem encontrar nenhuma evidência de que correr aumente o risco de artrite, mesmo nos corredores de maratonas”. Na verdade, chegaram à conclusão oposta: “Artrite dos joelhos é mais frequente entre as pessoas menos ativas”.
Até a publicação desse estudo — considerado o mais completo até hoje —, os especialistas jamais haviam comparado diretamente as forças que convergem para os joelhos ao caminhar ou correr determinada distância. Para fazê-lo, sete mulheres e sete homens habituados a correr com intenção recreativa tiveram que andar descalços determinada distância (15,24 m), numa esteira, com sensores atados aos braços e pernas, ligados a câmeras que capturaram os movimentos e as forças geradas cada vez que os pés tocavam o solo. O mesmo percurso foi repetido cinco vezes na velocidade em que o participante estava acostumado a treinar.
Como previsto, o impacto ao correr foi bem maior. Em média, o corredor atinge o solo com forças de cerca de oito vezes o peso corpóreo — três vezes maiores do que o impacto sofrido ao andar. Quando corremos, porém, as passadas são mais largas, os pés se chocam contra o solo com frequência menor do que no caminhar e ficam menos tempo em contato com o chão. Como consequência, as sobrecargas nos joelhos ao corrermos ou ao andarmos determinada distância são equivalentes. É provável que correr até exerça efeito protetor.
Em entrevista a Gretchen Reynolds, jornalista do New York Times, um dos autores do estudo, Ross Miller, afirmou: “Há evidências de que as cartilagens gostem de sobrecargas cíclicas (sobrecargas alternadas com repouso)”. Chegou-se a essa conclusão ao verificar os resultados de pesquisas feitas com animais: sobrecargas cíclicas estimulam as células cartilaginosas a se dividir e repor as que morreram, já sobrecargas não cíclicas ou continuadas, sem intervalos de repouso, ocasionam mais perdas do que reposição celular.
Em outro estudo, intitulado “Effects Of Running and Walking on Osteoarthritis
and Hip Replacement”,** realizado no Lawrence Berkeley National Laboratory, na Califórnia, foram comparados corredores e praticantes de caminhadas. Durante sete anos de acompanhamento, 2,7% dos corredores apresentaram osteoartrites diagnosticadas por médicos e 0,3% precisaram ser submetidos à cirurgia para colocação de próteses de cabeça do fêmur. Já entre os participantes que apenas faziam caminhadas, 4,7% receberam o diagnóstico de osteoartrite e 0,8% colocaram próteses. Em linhas gerais, podemos dizer que o risco de osteoartrites e de necessidade de colocação de próteses de quadril entre os corredores foi cerca de duas vezes mais baixo.
De minha parte, depois de vinte anos de treinamentos intensivos e maratonas cheguei aos setenta anos de idade sem nunca ter sentido dor nos joelhos ou nas articulações coxofemorais, experiência que confirmaria essas observações. Ou será que serve apenas para me incluir na categoria dos sobreviventes?
* “Por que a maioria dos corredores não desenvolve artrite nos joelhos.”
** “Efeitos de correr ou caminhar nas osteoartrites e próteses de quadril.”