Correr

Drauzio Varella · Capítulo 20 de 40

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Correr

Tóquio, 2015

 

Tóquio está para o século XXI como Nova York esteve para o século XX.

É a megalópole mais moderna e civilizada do mundo. Seus 14 milhões de habitantes se distribuem de forma compacta pela cidade inteira, com arranha-céus e centros comerciais espalhados por tantos bairros que perde o sentido delimitar um centro. A arquitetura arrojada dos prédios de escritório, o comércio e as gigantescas lojas de departamentos contrastam com as casas geminadas das ruazinhas laterais, os restaurantes com fachadas do Japão antigo, e o emaranhado de postes e fios elétricos iguais aos das periferias brasileiras. A maior atração, no entanto, fica por conta do povo japonês. A organização, a seriedade no trabalho, o respeito ao próximo, a obediência às leis, a civilidade no convívio e a honestidade das pessoas nos fazem crer que a humanidade poderá ter um futuro menos sombrio do que aquele sugerido pela nossa sociedade e pela sociedade de outros países.

Foi minha quarta visita ao Japão, dessa vez para correr a Maratona de Tóquio. A ideia surgiu num jantar com Maria Augusta Gomes, Philippe Reichstul e Isay Weinfeld, companheiros de outras viagens, que tirariam férias no mês de fevereiro. Pelo calendário, se Regina e eu nos juntássemos a eles, poderíamos aproveitar para conhecer algumas cidades do interior, em companhia da amiga Mari Hirata, brasileira que vive no país há muitos anos. Na mesma noite liguei para minha parceira de corridas, Zélia Duncan: passaríamos uma semana com eles e outra em Tóquio para participar da prova, considerada uma das seis maiores do mundo. Pouco antes da viagem, outra amiga, Flávia Soares, juntou-se a nós. Conviver com amigos inteligentes e bem-humorados é uma combinação imbatível.

O contato com os costumes e a organização do país começou no momento em que chegamos ao hotelzinho onde passaríamos apenas aquela noite e nos demos conta de que faltava uma das malas de mão. Na confusão para entrarmos na van que nos trouxe do aeroporto de Narita, ela ficara no chão do estacionamento, sem cadeado nem etiqueta de identificação. Quando o motorista, que só falava japonês, enfim entendeu o problema, dirigiu-se ao concierge, um jovem de capote cinza-claro e gravata preta, com rudimentos de inglês, que imediatamente pegou o telefone.

O telefonema durou mais de uma angustiante meia hora, na qual o rapaz dizia frases curtas na língua natal alternadas com intervalos de silêncio que persistiam por minutos, sem mover um músculo da face nem levantar os olhos em nossa direção. Era como se conversasse com um amigo imaginário agachado atrás do balcão em sua frente.

Qual a chance de alguém se dar o trabalho de levar para a seção de achados e perdidos uma mala aberta, sem identificação, contendo vários objetos e um computador MacIntosh, encontrada no estacionamento de um dos maiores e mais movimentados aeroportos do mundo? Qual a probabilidade de aquele menino localizá-la por telefone? Para que número teria ligado sem consultar nenhuma agenda?

De repente, seus lábios esboçaram um movimento sutil que ficou longe de um sorriso. Pela primeira vez, levantou os olhos: “Acharam. Vão deixar na recepção do hotel amanhã antes do meio-dia. A taxa de entrega é de dezessete dólares”. Só então se despediu o motorista da van que, feito estátua, aguardava o desenlace ao nosso lado. No dia seguinte, no horário estipulado, a mala chegou com o computador e os demais pertences, intocados.

Três dias mais tarde, pegamos um trem local em Kurishiki que nos deixaria em Nagoya, de onde um trem-bala nos levaria para Hiroshima. Da cidade devastada pela bomba atômica de 1945, outro trem local nos conduziria até a balsa que faz a travessia para a ilha de Myiajima, cartão-postal do sul do país. Assim que nos acomodamos no trem-bala, Zélia se deu conta de que tinha esquecido o celular, na afobação de juntar as malas para descer do trem local na estação de Nagoya. Em japonês, Mari Hirata pediu ajuda ao funcionário que passou para conferir os bilhetes. Quando estávamos prestes a desembarcar em Hiroshima, ele retornou e perguntou o endereço para onde o telefone deveria ser encaminhado. Na manhã seguinte, o celular nos aguardava na recepção do hotel da ilha.

A responsabilidade com os bens alheios e com o cumprimento de prazos de entrega é de tal ordem, que os hotéis oferecem um serviço de remessa de bagagens através do qual a pessoa, ao sair, envia as malas para casa ou para o hotel da próxima cidade a ser visitada, por menos de vinte dólares. O prazo de entrega é de 24 horas.

Apesar de encantar o turista, a vida no Japão talvez seja dura para os japoneses. As casas e os apartamentos em que habita a maioria são caros e tão pequenos que privacidade é privilégio de poucos. Para viver em moradias com preços acessíveis à classe média, é preciso estar disposto a enfrentar uma hora ou mais de trem e metrô até o trabalho.

As regras de convivência são rígidas e as leis, aplicadas com rigor. Ninguém atravessa a rua fora da faixa nem com o sinal vermelho, mesmo que não haja movimento. Nos cruzamentos mais concorridos é tanta gente que se acumula de um lado e de outro à espera do sinal verde, que dá medo de choques e cotoveladas com a turba do sentido contrário. Temor infundado, ninguém esbarra no outro.

Tóquio é uma cidade de multidões em movimento. É gente por todos os lados, nas ruas, lojas, prédios de escritório, elevadores, escadas e nas estações de trem e metrô, verdadeiras cidades subterrâneas tomadas de assalto a partir das seis da manhã por formigas de andar apressado na direção das plataformas. Graças à eficiência do transporte público, porém, o trânsito é bem mais calmo que o das nossas metrópoles.

Embora mais da metade das mulheres se dediquem exclusivamente ao trabalho doméstico — motivo de preocupação para os economistas —, a população trabalha muito. Às dez da noite, o metrô ainda está lotado de gente que sai dos escritórios, rotina mantida por muitos também aos sábados. Pressionados pela competição por salários melhores, os pais convivem pouco com os filhos. Estes, por sua vez, passam tantas horas envolvidos com as tarefas escolares, que não lhes sobra tempo para brincar.

A rede metroviária serve a cidade inteira. Nos horários concorridos a lotação é mais compacta que a das sardinhas em lata. Numa das manhãs, fui levado contra a parede oposta à porta de um vagão no qual a cada parada entravam novos passageiros. Quando já não cabia ninguém, subiram outros cinco. Mesmo não sendo claustrofóbico, experimentei uma sensação de mal-estar, espremido por pessoas encapotadas que não tinham onde se segurar, muito menos onde cair. À minha direita, também prensada contra a parede, uma mulher de estatura baixa ficou tão próxima do passageiro da frente que se viu obrigada a virar o rosto para o lado, até quase amassar o nariz no braço do meu casaco. Pequena como era, abafada entre dois homens mais altos sem enxergar um palmo adiante, não sei como conseguia respirar.

Trinta anos atrás, quando visitei o Japão para um estágio no Instituto Nacional do Câncer, o metrô já era assim, com a diferença de que hoje 100% das atenções estão focadas nos celulares, enquanto naquele tempo se concentravam nas páginas dos livros de bolso, as quais os passageiros tinham a habilidade de virar com uma só mão, já que levantar a outra para executar a tarefa exigiria contorcionismo circense. Antes, como agora, muitos passageiros viajavam com os olhos fechados como se dormissem em pé. Apesar do desconforto, em nenhum momento nos sentimos inseguros; a sensação é de que ninguém enfiará a mão em nosso bolso, nenhum homem abusará de uma mulher.

Todos os espaços públicos da cidade são rigorosamente limpos: o chão da Tokyo Station, por onde transitam centenas de milhares de pessoas por dia, parece encerado. Não se vê um papel no chão nem lixeira em lugar algum. Há que guardar no bolso o papel amassado, para jogar fora quando chegar em casa; cada qual é responsável pela quantidade de lixo que produz e paga por ela.

Como esperado, a de Tóquio é considerada a mais organizada das maratonas. Para as 36 mil vagas disponíveis por sorteio, inscreveram-se 320 mil candidatos, asiáticos na imensa maioria. Em 2015, a prova aconteceu no último domingo de fevereiro, um dia de inverno nublado, com previsão de chuva.

A largada se deu a poucos metros do Keio Plaza de Shinjuku, o hotel que hospedava diversos brasileiros. No meio da massa de corredores procurei o caminhão 81, indicado para a entrega do saco plástico numerado onde guardei um blusão mais quente para enfrentar o frio na chegada. Depois, andei até o setor E, designado para o meu grupo. A temperatura era de cinco graus, e garoava. Estava bem agasalhado, com uma calça colante por baixo, calção, duas camisetas, casaco de náilon, luvas térmicas e boné.

Diferentemente do que costuma ocorrer nesses momentos de espera, em que as pessoas falam alto e sem parar, o silêncio era quase completo. À minha esquerda, um rapaz com um plástico vermelho protegendo as costas mantinha os olhos fechados como se estivesse no metrô. À direita, um camicase de calção e regata tremia e batia os dentes.

Naquela garoa fina, tive a oportunidade de penetrar fundo o significado filosófico da frase “Todo homem é uma ilha”: estava cercado de asiáticos, com a vantagem de, em virtude de minha altura, enxergar à frente um mar de cabeças cobertas com bonés de todas as cores.

Quando tocou o hino nacional, os acordes marciais me trouxeram as imagens dos batalhões do exército japonês da Segunda Guerra. Ninguém cantou. No fim, apenas o som das palmas abafado pelas luvas. O rapaz coberto com o plástico vermelho abriu os olhos, aplaudiu três vezes e retornou às trevas. Mesmo o tiro de papel picado que voou para marcar o início da maratona despertou reações contidas.

A prova é um passeio delicioso pelas ruas de Tóquio. O dia nublado, com ameaça de chuva, não impediu que as famílias saíssem de casa. A presença de um guarda a cada cem metros mantinha os espectadores rigorosamente alinhados nas calçadas, sem necessidade de admoestações. No caminho, a animação das bandas de instrumentos de sopro com músicos uniformizados, danças de meninas vestidas com quimonos, o ribombar dos tambores, um grupo com castanholas e passos de flamengo, e uma enorme marionete de dragão que serpenteava no ar.

A atração maior é a própria cidade. A Torre de Tóquio, mais alta do que a Eiffel, os prédios, os templos dos séculos passados, a fisionomia dos bairros: Shinjuku, Ginza, Roppongi, Asakusa, Hibiya e vários outros, cada qual com suas características, personalidade e as tragédias vividas nos tempos da guerra, quando Tóquio ardeu debaixo de bombas incendiárias que mataram 100 mil habitantes numa única noite.

No quilômetro 10, o trajeto segue em direção a Ginza, por um dos lados da avenida, e volta pelo outro lado, no sentido oposto. Essa alça de ida e volta tem cerca de onze quilômetros. Quando entrei no 10, tive pela primeira vez em mais de vinte anos o privilégio de cruzar com um grupo de negros de baixa estatura que disparava na pista contrária da avenida. Era o pelotão de elite que completava 21 quilômetros naquele instante. Bonito ver suas passadas longas e os pés que mal tocavam o chão, os corpos magros, bem delineados. Em uma hora e três minutos já tinham concluído metade da maratona.

Quando estava pelo quilômetro 18, senti uma cólica desagradável que durou poucos segundos. Quinhentos metros adiante, outra, um pouco mais forte. Entretido com a paisagem urbana, o público que distribuía doces, bananas e chocolates para os corredores, os tipos exóticos que passavam ou ficavam para trás, não levei a sério o que até ali parecia um contratempo passageiro. Comecei a me preocupar quando veio a terceira crise, mais intensa e demorada mas que desapareceu por completo.

Como as cólicas iam e vinham, ainda consegui percorrer vários quilômetros, porém amedrontado, sem saber se resistiria até o final. Rememorei o que havia comido na véspera: a pizza margherita do jantar não podia ser, talvez a minissalada deliciosa do almoço com Regina num restaurante de uma loja de departamentos, em Shinjuku, preparada com pedaços minúsculos de atum cru artisticamente arranjados num prato com bordas azuis e uma flor delicada no centro. A visão da salada fez correr um frio na espinha: minha mulher tinha se queixado de cólicas fortes na noite anterior. Pensei nos casos de corredores traídos pelos intestinos e da queixa de Adriana Silva, recordista brasileira: “Correr menstruada, com cólica, desconcentra, prejudica a performance e duplica o sofrimento”.

Quando ultrapassei o quilômetro 25, as cólicas se repetiam, cada vez mais fortes, com intervalos de dois ou três minutos. Eu não pensava nem via mais nada, os cinco sentidos estavam concentrados no aparelho digestivo. Maldita salada. Amaldiçoado o cozinheiro que a preparou sem lavar as mãos.

Esperançoso de continuar na prova, titubeei diante dos sinais que indicavam a localização dos banheiros, até o quilômetro 26, altura em que pressenti o desastre que estava prestes a ocorrer e enveredei desesperado pelo corredor que levava a eles. Havia uma fila de onze pessoas. Parei com o corpo dobrado sobre o abdômen; não tinha a menor condição de esperar. Quando já me sentia sem forças para contrariar os desígnios da fisiologia, quase conformado com a tragédia inevitável, um dos

banheiros vagou. Gritei: “I’m sorry, I can’t wait”,* furei a fila espantada com o berro e me tranquei num cubículo pouco maior que meu corpo.

Livrar-me daquela montanha de roupa em segundos e me agachar num vaso sanitário no chão, depois de correr 26 quilômetros, exigiu mais destreza e sacrifício do que concluir duas maratonas seguidas. Mal me recompus, destranquei a porta e disparei de cabeça baixa, humilhado e morto de vergonha.

As cólicas não passaram, apenas arrefeceram. Seria mais prudente desistir, mas senti que conseguiria ir em frente; minha mulher, Flávia e Mônica, amiga que correu com Zélia e comigo uma maratona em Chicago, estavam à espera, na altura do quilômetro 35. Passar pelas três foi um alento para mim e uma preocupação para elas, que mais tarde diriam que minha aparência era de quem sofria. O mesmo comentário feito depois da corrida por Zélia, que cruzou comigo no trajeto sem que eu a visse nem a ouvisse chamar meu nome.

A partir do quilômetro 40, acelerei o passo. Esse é um momento esquizofrênico da maratona: de um lado, não vejo a hora de acabar com aquele martírio; de outro, fico entristecido por chegar ao fim da festa para a qual me preparei durante meses. Apesar das cólicas, cansado, com dores nas pernas, nos pés e até na coluna lombar, tive consciência do prazer de estar do outro lado do mundo, com gente da Ásia inteira, empenhada em enfrentar o desafio que me proponho a vencer a cada prova.

Depois de cruzar a linha de chegada, a massa humana se dirigiu a um enorme pavilhão fechado. Na entrada, dispostos no chão em ordem numérica, todos os sacos com os agasalhos deixados nos caminhões antes da partida. Não precisei pedir meu pacote: mal me aproximei do local que indicava meu número de inscrição, uma mocinha sorridente já o tinha nas mãos.

Segui pelo pavilhão gigante na direção do ônibus que me levaria para o hotel, em Shinjuku. Os corredores se arrastavam trôpegos, mancando, calados; alguns se apoiavam nos companheiros, como os prisioneiros japoneses dos filmes de guerra.

 

* “Sinto muito, não posso esperar.”