Corte de Névoa e Fúria
Capítulo 6
Rhysand debochara de mim com relação àquilo uma vez; perguntara, enquanto estávamos Sob a Montanha, se me obrigar a aprender a ler seria minha noção pessoal de tortura.
— Não, obrigada — falei, segurando o garfo para evitar jogá-lo na cabeça de Rhys.
— Você vai ser a esposa de um Grão-Senhor — disse Rhys. — Esperarão que escreva as próprias correspondências, talvez até que faça um ou dois discursos. E o Caldeirão sabe o que mais ele e Ianthe julgarão apropriado para você. Fazer cardápios para jantares, escrever cartas de agradecimento a todos aqueles presentes de casamento, bordar frases meigas em travesseiros... É uma habilidade necessária. E, quer saber? Por que não aproveita e acrescenta o escudo mental? Ler e erguer o escudo mental, felizmente, podem ser praticados ao mesmo tempo.
— Ambas são habilidades necessárias — falei, entre os dentes trincados. — Mas você não vai me ensinar.
— O que mais vai fazer de seu tempo? Pintar? Como anda isso ultimamente, Feyre?
— Como diabos isso é de sua conta?
— Atende a vários propósitos meus, é claro.
— Que. Propósitos.
— Precisará concordar com trabalhar comigo para descobrir, creio.
Algo pontiagudo cutucou minha mão.
Eu tinha amassado o garfo em um emaranhado de metal.
Quando o coloquei na mesa, Rhys deu uma risada de escárnio.
— Interessante.
— Você disse isso ontem à noite.
— Não posso dizer duas vezes?
— Não foi isso que eu quis dizer, e você sabe.
O olhar de Rhys me percorreu de novo, como se ele pudesse ver sob o tecido pêssego, sob a pele, até a alma em pedaços por baixo. Então, ele voltou os olhos para o garfo destruído.
— Alguém já disse a você que é bem forte para uma Grã-feérica?
— Eu sou?
— Vou tomar isso como um não. — Rhys colocou um pedaço de melão na boca. — Já se testou contra alguém?
— Por que eu faria isso? — Já estava bem arrasada.
— Porque você foi ressuscitada e renascida pelos poderes combinados de sete Grão-Senhores. Se eu fosse você, ficaria curioso para ver se algo mais foi transferido para mim no processo.
Meu sangue gelou.
— Nada mais foi transferido para mim.
— É só porque seria muito... interessante — Rhys deu um risinho ao dizer a palavra — se tivesse.
— Não foi transferido, e não vou aprender a ler ou a fazer um escudo mental com você.
— Por quê? Por implicância? Achei que você e eu tínhamos superado isso Sob a Montanha.
— Não comece a falar sobre o que você fez Sob a Montanha.
Rhys ficou imóvel.
O mais imóvel que eu já vira, tão imóvel quanto a morte que agora chamava naqueles olhos. Então, o peito dele começou a se mover, mais e mais rápido.
Do outro lado das pilastras que se erguiam atrás dele, eu podia jurar que a sombra de enormes asas se abriu.
Ele abriu a boca, inclinando-se para a frente, e depois parou. Imediatamente, as sombras, a respiração irregular e a intensidade sumiram, e o sorriso preguiçoso retornou.
— Temos companhia. Conversaremos sobre isso depois.
— Não mesmo. — Mas passos rápidos e leves soaram no fim do corredor, e então ela apareceu.
Se Rhysand era o macho mais lindo que eu já vira, ela era o equivalente feminino.
Os brilhantes cabelos dourados estavam presos para trás em uma trança casual, e as roupas turquesa — no estilo das minhas — contrastavam com a pele dourada de sol da feérica, fazendo com que ela praticamente brilhasse à luz da manhã.
— Olá, olá — cantarolou a mulher, os lábios carnudos se abrindo em sorriso deslumbrante enquanto os olhos castanhos intensos se fixavam em mim.
— Feyre — disse Rhys, suavemente —, conheça minha prima, Morrigan. Mor, conheça a encantadora, charmosa e mente aberta Feyre.
Pensei em jogar o chá na cara de Rhys, mas Mor caminhou até mim. Cada passo era determinado e firme, gracioso e... resoluto. Alegre, mas alerta. Alguém que não precisava de armas, ou pelo menos não se incomodava em embainhá-las na lateral do corpo.
— Ouvi falar tanto de você — confessou ela, e então fiquei de pé, estendendo a mão com desconforto.
Morrigan ignorou o gesto e me envolveu em um abraço de esmagar os ossos. Ela cheirava a frutas cítricas e canela. Tentei relaxar os músculos tensos quando Mor se afastou e deu um sorriso bastante malicioso.
— Parece que você estava irritando Rhys de verdade — disse ela, caminhando até a cadeira entre nós. — Que bom que cheguei. Achei que gostaria de ver as bolas de Rhys pregadas à parede.
Rhys lançou um olhar de incredulidade para ela, erguendo as sobrancelhas.
Escondi o sorriso que repuxou meus lábios.
— É... um prazer conhecer você.
— Mentirosa — replicou Mor, servindo-se de chá e enchendo o prato. — Não quer ter nada a ver conosco, não é? E o malvado do Rhys a obriga a sentar aqui.
— Você está... atrevida hoje, Mor — falou Rhys.
Os olhos lindos de Mor ser ergueram até o rosto do primo.
— Perdoe-me por estar animada por ter companhia para variar.
— Você poderia cuidar dos próprios deveres — disse ele, provocativo. Fechei os lábios com mais força. Jamais tinha visto Rhys... exasperado.
— Precisava de um descanso, e você me disse para vir sempre que quisesse; então, que hora melhor que agora, quando você trouxe minha nova amiga para finalmente me conhecer?
Pisquei, percebendo duas coisas ao mesmo tempo: um, ela foi realmente sincera; dois, era dela a voz feminina que eu ouvira na noite anterior, debochando de Rhys por nosso desentendimento. É, isso correu bem, provocara Morrigan. Como se houvesse qualquer alternativa, qualquer chance de acontecer algo agradável entre mim e Rhys.
Um novo garfo surgira ao lado de meu prato, e eu o peguei, apenas para espetar um pedaço de melão.
— Você dois não se parecem em nada — declarei, por fim.
— Mor é minha prima na definição mais livre da palavra — respondeu Rhys. Morrigan riu para ele, devorando fatias de tomate e queijo branco. — Mas fomos criados juntos. Ela é a única família que me resta.
Não tive coragem de perguntar o que acontecera a todos. Ou me lembrar de quem era o pai responsável pela falta de família na minha corte.
— E como minha única parente restante — continuou Rhys —, Mor acredita que tem direito de entrar e sair de minha vida como quiser.
— Tão mal-humorado esta manhã — disse Mor, colocando dois muffins no prato.
— Não vi você Sob a Montanha. — Eu me percebi falando, odiando aquelas três últimas palavras mais que tudo.
— Ah, eu não estava lá — disse ela. — Eu estava...
— Basta, Mor — disse Rhys, a voz envolta em um ruído baixo de trovão.
Tive de resistir para não me empertigar diante da interrupção, não observar os dois com mais atenção.
Rhysand apoiou o guardanapo na mesa e ficou de pé.
— Mor ficará aqui durante o resto da semana, mas, por favor, não sinta como se precisasse agraciá-la com sua presença. — Mor mostrou a língua para ele. Rhys revirou os olhos, o gesto mais humano que eu já o vira fazer. Então observou meu prato. — Comeu o suficiente? — Assenti. — Que bom. Então, vamos. — Rhys inclinou a cabeça na direção das pilastras e das cortinas oscilantes atrás de si. — Nossa primeira lição nos aguarda.
Mor cortou um dos muffins ao meio com um gesto firme da faca. O ângulo de seus dedos, dos pulsos, de fato confirmava minhas suspeitas de que armas não eram estranhas a ela.
— Se ele a irritar, Feyre, fique à vontade para empurrá-lo do parapeito da varanda mais próxima.
Rhys lançou um gesto sutil e sujo para a prima conforme saiu pelo corredor.
Fiquei de pé devagar quando ele estava bem longe.
— Aproveite o café da manhã.
— Sempre que quiser companhia — disse Morrigan, conforme eu dava a volta pela mesa —, grite. — Ela provavelmente estava falando literalmente.
Apenas assenti e segui o Grão-Senhor.
Concordei em me sentar à longa mesa de madeira em uma alcova fechada por cortinas apenas porque Rhysand tinha razão. Não saber ler quase me custara a vida Sob a Montanha. Eu me amaldiçoaria se permitisse que se tornasse uma fraqueza de novo, fosse parte ou não da agenda pessoal de Rhys. E quando ao escudo mental... Eu seria muito tola se não aceitasse a oferta de aprender com ele. A ideia de que qualquer um, principalmente Rhys, vasculhasse a confusão em minha mente, tomasse informações sobre a Corte Primaveril, sobre as pessoas que eu amava... Jamais permitiria. Não voluntariamente.
Mas isso não tornava mais fácil suportar a presença de Rhys à mesa de madeira. Ou a pilha de livros sobre ela.
— Conheço o alfabeto — falei bruscamente, quando Rhysand colocou um pedaço de papel na minha frente. — Não sou tão burra assim. — Contorci os dedos no colo e, depois, prendi as mãos inquietas sob as coxas.
— Não falei que você era burra — argumentou Rhysand. — Estou apenas tentando determinar por onde deveríamos começar. — Eu me recostei na cadeira acolchoada. — Pois você se recusou a me dizer qualquer coisa sobre o quanto sabe.
Meu rosto ficou quente.
— Não pode contratar um professor?
Rhysand ergueu uma sobrancelha.
— É difícil para você sequer tentar na minha frente?
— Você é um Grão-Senhor... Não tem coisas melhores a fazer?
— É claro. Mas nenhuma é tão divertida quanto vê-la se contorcer.
— Você é um verdadeiro canalha, sabia disso?
Rhys conteve uma gargalhada.
— Já fui chamado de coisa pior. Na verdade, acho que você já me chamou de coisa pior. — Ele bateu no papel que estava à frente. — Leia isso.
Um borrão de letras. Minha garganta se apertou.
— Não consigo.
— Tente.
A frase tinha sido escrita em caligrafia elegante e concisa. A letra dele, sem dúvida. Tentei abrir a boca, mas minha coragem evaporou.
— O que exatamente você tem a ganhar com tudo isso? Disse que me contaria se eu trabalhasse com você.
— Não especifiquei quando contaria. — Eu me afastei de Rhys quando contraí o lábio. Ele fez um gesto de ombros. — Talvez eu me ressinta da ideia de você permitir que aqueles tolos mentirosos e beligerantes da Corte Primaveril a façam se sentir deslocada. Talvez eu goste mesmo de vê-la se contorcer. Ou talvez...
— Entendi.
Rhys riu com escárnio.
— Tente ler, Feyre.
Imbecil. Puxei o papel para mim, quase o rasgando ao meio ao fazer isso. Olhei para a primeira palavra, pronunciando-a na mente.
— V-você... — A seguinte desvendei com uma combinação de minha pronúncia silenciosa e da lógica. — Está...
— Bom — murmurou Rhys.
— Não pedi sua aprovação.
Rhys deu um risinho.
— Ab... Absolutamente. — Levei mais tempo do que quis admitir para entender essa. A palavra seguinte foi ainda pior. — De... Del...
Ousei olhar para Rhysand com as sobrancelhas erguidas.
— Deliciosa — ronronou ele.
Minha testa franziu. Li as duas palavras seguintes e, depois, virei o rosto para ele.
— Você está absolutamente deliciosa hoje, Feyre?! Foi isso o que você escreveu?
Rhysand se recostou no assento. Nossos olhos se encontraram, garras afiadas acariciaram minha mente, e a voz dele sussurrou dentro de minha cabeça: É verdade, não é?
Dei um solavanco para trás, e minha cadeira rangeu.
— Pare com isso!
Mas aquelas garras agora se enterravam — e meu corpo todo, meu coração, meus pulmões, meu sangue cediam ao aperto de Rhysand, totalmente sob seu comando enquanto ele dizia: A moda da Corte Noturna combina com você.
Eu não conseguia me mexer na cadeira, não conseguia sequer piscar.
Isso é o que acontece quando você não ergue seus escudos mentais. Alguém com meu tipo de poderes pode entrar, ver o que quiser e tomar sua mente. Ou pode destruí-la. Estou, no momento, no portal de sua mente. Mas, se fosse mais fundo, seria preciso apenas meio pensamento meu... e quem você é, sua personalidade, seria apagada.
Em um lugar distante, suor escorreu por minha têmpora.
Você deveria ter medo. Deveria ter medo disto, e deveria agradecer ao maldito Caldeirão que nos últimos três meses ninguém com meu tipo de dons esbarrou em você. Agora, me empurre para fora.
Não consegui. Aquelas garras estavam por toda parte; se enterrando em cada pensamento, cada pedaço meu. Rhysand forçou um pouco mais.
Me. Empurre. Para. Fora.
Eu não sabia por onde começar. Às cegas, empurrei e me choquei contra ele, contra aquelas garras que estavam por toda parte, como se eu fosse uma cabeça perdida em um círculo de espelhos.
A risada de Rhysand, grave e baixa, tomou conta de minha mente, de minhas orelhas. Por ali, Feyre.
Em resposta, um pequeno caminho aberto brilhou em minha mente. O caminho para fora.
Eu levaria uma eternidade para soltar cada garra e empurrar a imensidão de sua presença por aquela abertura estreita. Se conseguisse varrê-lo para longe...
Uma onda. Uma onda de personalidade, de mim, para varrer ele por inteiro...
Não deixei que Rhysand visse o plano tomar forma quando me concentrei em uma onda alta e golpeei.
As garras se afrouxaram... com relutância. Como se permitissem que eu ganhasse aquela rodada. Ele apenas disse:
— Bom.
Meus ossos, meu fôlego e meu sangue eram meus de novo. Desabei na cadeira.
— Ainda não — avisou Rhysand. — Escudo. Me bloqueie para que eu não consiga voltar.
Já queria ir para algum lugar silencioso e dormir por um tempo...
Garras naquela camada externa de minha mente, acariciando...
Imaginei uma parede adamantina desabando, negra como a noite e com a espessura de 30 centímetros. As garras se retraíram um segundo antes de a parede as partir ao meio.
Rhys estava sorrindo.
— Muito bom. Tosco, mas bom.
Não consegui me segurar. Peguei o pedaço de papel e o rasguei em dois, e, depois, em quatro.
— Você é um porco.
— Ah, com certeza. Mas olhe para você, leu aquela frase inteira, me chutou de sua mente e se protegeu. Excelente trabalho.
— Não seja condescendente comigo.
— Não estou sendo. Você está lendo em um nível bem melhor do que imaginei.
A queimação voltou para minhas bochechas.
— Mas praticamente analfabeta.
— A esta altura, a questão é prática, soletrar e mais prática. Pode ler romances quando chegar o Nynsar. E, se continuar aumentando esses escudos, pode muito bem me manter totalmente fora a essa altura também.
Nynsar. Seria o primeiro que Tamlin e sua corte celebrariam em quase cinquenta anos. Amarantha banira o festival por capricho, assim como outras pequenas, porém adoradas, festividades feéricas que ela considerara desnecessárias. Mas o Nynsar estava a meses de ocorrer.
— É ao menos possível... manter você fora de verdade?
— Pouco provável, mas quem sabe até onde vai esse poder? Continue praticando, e veremos o que acontece.
— E eu ainda estarei presa a esse acordo quando chegar o Nynsar também?
Silêncio.
Insisti.
— Depois... depois do que aconteceu... — Não podia mencionar especificamente o que ocorrera Sob a Montanha, o que Rhys tinha feito por mim durante aquela luta com Amarantha, o que ele fizera depois... — Acho que podemos concordar que não devo nada a você, e você não me deve nada.
O olhar de Rhysand não vacilou.
Continuei:
— Não basta estarmos todos livres? — Espalmei a mão tatuada sobre a mesa. — No fim, achei que você fosse diferente, achei que fosse tudo uma máscara, mas me levar embora, me manter aqui... — Sacudi a cabeça, incapaz de encontrar as palavras cruéis o suficiente, inteligentes o suficiente para convencer Rhysand a acabar com aquele acordo.
O olhar dele ficou sombrio.
— Não sou seu inimigo, Feyre.
— Tamlin diz que sim. — Fechei os dedos da mão tatuada em punho. — Todos dizem que é.
— E o que você acha? — Rhysand se recostou na cadeira de novo, mas estava com a expressão séria.
— Está fazendo um trabalho muito bom em me convencer a concordar com eles.
— Mentirosa — disse Rhys, ronronando. — Pelo menos contou a seus amigos sobre o que fiz com você Sob a Montanha?
Então aquele comentário no café da manhã tinha irritado Rhysand.
— Não quero falar sobre nada relacionado àquilo. Com você ou com eles.
— Não, porque é muito mais fácil fingir que nunca aconteceu e deixar que a mimem.
— Não deixo que eles me mimem...
— Eles a embrulharam como um presente ontem. Como se você fosse a recompensa dele.
— E daí?
— E daí? — Um lampejo de ódio que logo sumiu.
— Estou pronta para ser levada para casa — falei, simplesmente.
— Onde ficará enclausurada pelo resto da vida, principalmente depois que começar a cuspir herdeiros. Mal posso esperar para ver o que Ianthe fará quando puser as mãos neles.
— Você não parece gostar muito dela.
Algo frio e predatório surgiu nos olhos de Rhysand.
— Não, não posso dizer que gosto. — Ele apontou para um pedaço de papel em branco. — Comece a copiar o alfabeto. Até que suas letras estejam perfeitas. E sempre que chegar ao fim, abaixe e erga seu escudo. Até que isso se torne uma ação instintiva. Voltarei em uma hora.
— O quê?
— Copie. O. Alfabeto. Até...
— Ouvi o que você disse. — Canalha. Canalha, canalha, canalha.
— Então, ao trabalho. — Rhys ficou de pé. — E pelo menos tenha a decência de só me chamar de canalha quando seus escudos estiverem erguidos de novo.
Ele sumiu em uma onda de escuridão antes que eu percebesse que havia deixado a parede adamantina se dissipar de novo.
Quando Rhys voltou, minha mente parecia uma poça de lama.
Passei a hora inteira fazendo conforme fora comandado, embora encolhesse o corpo ao ouvir cada som vindo da escada próxima: passos baixos de criados, o farfalhar de lençóis sendo trocados, alguém murmurando uma melodia linda e envolvente. E, além disso, o canto dos pássaros que moravam no calor sobrenatural da montanha ou nas muitas árvores de frutas cítricas plantadas em vasos. Nenhum sinal de meu tormento iminente. Nenhuma sentinela sequer para me monitorar. Eu podia muito bem ter o lugar todo para mim.
O que era bom, pois minhas tentativas de abaixar e erguer o escudo mental costumavam resultar em meu rosto contorcido ou contraído ou franzido.
— Nada mal — elogiou Rhys, olhando por cima de meu ombro.
Ele aparecera momentos antes, a uma distância saudável, e, se eu não soubesse direito, poderia ter pensado que era porque Rhys não queria me assustar. Como se soubesse da vez em que Tamlin tinha se aproximado de fininho por trás de mim e o pânico me tomara com tanta força que o derrubei com um soco no estômago. Eu tinha bloqueado isso — o choque no rosto de Tam, o quanto fora fácil derrubá-lo, a humilhação de ter meu terror idiota tão exposto...
Rhys avaliou as páginas nas quais eu tinha escrito, folheando-as, verificando meu progresso.
Então, um raspar de garras dentro de minha mente — o qual apenas arranhou o adamantino negro e reluzente.
Voltei minha força de vontade contra aquela parede conforme as garras empurraram, testando pontos frágeis...
— Ora, ora — ronronou Rhysand, e aquelas garras mentais se retraíram. — Tomara que eu consiga uma boa noite de descanso por fim, se puder manter a parede erguida durante o sono.
Abaixei o escudo, disparei uma palavra por aquela ponte mental entre nós, e ergui as paredes de novo. Atrás delas, minha mente oscilou como gelatina. Eu precisava de uma soneca. Desesperadamente.
— Posso ser canalha, mas olhe para você. Talvez possamos nos divertir um pouco com nossas lições, afinal de contas.
Eu ainda olhava com raiva para as costas musculosas de Rhys conforme mantinha seguros dez passos de distância enquanto ele me guiava pelos corredores do prédio principal, e as montanhas extensas e o céu azul intenso eram as únicas testemunhas de nossa caminhada silenciosa.
Eu estava exausta demais para indagar aonde íamos, e Rhys não se incomodou em explicar enquanto me levava mais e mais para cima... até que entramos em uma câmara redonda no alto de uma torre.
Uma mesa circular de pedra negra ocupava o centro, ao passo que a extensão mais ampla da parede de pedra cinza ininterrupta estava coberta com um imenso mapa de nosso mundo. Fora marcado, tinha bandeiras e alfinetes, os motivos eu não sabia dizer, mas meu olhar passou para as janelas ao redor da sala: tantas que parecia totalmente exposta, arejada. O lar perfeito, imaginei, para um Grão-Senhor abençoado com asas.
Rhys caminhou até a mesa, onde havia outro mapa aberto, e miniaturas pontuavam sua superfície. Um mapa de Prythian; e de Hybern.
Cada corte em nossa terra tinha sido marcada, assim como aldeias e cidades e rios e vales. Cada corte... exceto a Corte Noturna.
O amplo território setentrional estava totalmente limpo. Nem mesmo uma cadeia montanhosa tinha sido entalhada. Estranho, era provavelmente parte de alguma estratégia que eu não entendia.
Vi Rhysand me observando; ele ergueu as sobrancelhas o suficiente para me fazer calar a boca diante da pergunta que se formava.
— Nada a perguntar?
— Não.
Um risinho felino percorreu os lábios de Rhysand, mas ele indicou com o queixo o mapa na parede.
— O que você vê?
— Isso é alguma forma de me convencer a aceitar as lições de leitura? — De fato, eu não conseguia decifrar nada da caligrafia, apenas as formas das coisas. Como a muralha, a linha imensa seccionava nosso mundo em dois.
— Diga o que vê.
— Um mundo dividido em dois.
— E acha que deveria permanecer assim?
Virei a cabeça na direção de Rhys.
— Minha família... — Eu me interrompi na palavra. Deveria ter cuidado e não admitir que tinha uma família, que me importava com ela...
— Sua família humana — terminou Rhys — seria profundamente afetada se a muralha fosse derrubada, não seria? Tão perto da fronteira... Se tiverem sorte, fugirão pelo oceano antes que aconteça.
— Vai acontecer?
Rhysand não tirou os olhos dos meus.
— Talvez.
— Por quê?
— Porque a guerra se aproxima, Feyre.