Corte de Névoa e Fúria
Capítulo 58
Imediatamente voltamos para Velaris, sem confiar que as rainhas demorariam muito a perceber a ausência do Livro, principalmente se a vaga menção da sexta rainha poderia significar a existência de mais ardis entre elas.
Amren recebeu a segunda metade em minutos e nem mesmo se deu o trabalho de perguntar sobre a reunião antes de sumir para a sala de jantar da casa da cidade e fechar as portas atrás de si. Então, esperamos.
E esperamos.
Dois dias se passaram.
Amren ainda não desvendara o código.
Rhys e Mor partiram no início da tarde para visitar a Corte de Pesadelos — para devolver a Veritas a Keir sem que ele soubesse, e para se certificar de que o administrador estivesse de fato preparando suas forças. Cassian recebera relatórios de que as legiões illyrianas estavam agora acampadas pelas montanhas, esperando a ordem de voar para onde quer que nossa primeira batalha pudesse ser.
Haveria uma, percebi. Mesmo que anulássemos o Caldeirão usando o Livro, mesmo que eu conseguisse impedir aquele Caldeirão e o rei de usá-lo para destruir a muralha e o mundo, ele tinha exércitos reunidos. Talvez levássemos a briga até o rei depois que o Caldeirão fosse inutilizado.
Não recebemos notícias de minhas irmãs, nenhum relatório dos soldados de Azriel de que tinham mudado de ideia. Meu pai, lembrei, ainda fazia negócios no continente; com que tipo de mercadorias, só a Mãe sabia. Outra variável naquilo tudo.
E não houve notícias das rainhas. Era nelas que eu pensava com mais frequência. Na rainha duas-caras, de olhos dourados, com não apenas as cores de um leão, mas o coração de um leão também.
Esperava vê-la de novo.
Com Rhys e Mor fora, Cassian e Azriel foram se hospedar na casa conforme continuavam a planejar nossa inevitável visita a Hybern. Depois daquele primeiro jantar, quando Cassian abrira uma das garrafas de vinho muito antigas de Rhys para que pudéssemos comemorar minha parceria em grande estilo, percebi que eles vieram me fazer companhia, jantar comigo e... os illyrianos tinham passado a cuidar de mim.
Rhys disse isso naquela noite em que escrevi uma carta a ele e a vi desaparecer. Aparentemente, ele não se incomodava em deixar que os inimigos soubessem que estava na Corte dos Pesadelos. Se as forças de Hybern o rastreassem até lá... boa sorte para elas.
Eu havia escrito a Rhys: Como digo a Cassian e Azriel que não preciso que eles me protejam? Companhia tudo bem, mas não preciso de sentinelas.
Rhys escreveu de volta: Não diga a eles. Imponha limites se eles os cruzarem, mas é amiga deles... e minha parceira. Eles a protegerão por instinto. Se expulsá-los da casa, vão simplesmente se sentar no telhado.
Escrevi: Vocês, machos illyrianos, são insuportáveis.
Rhys apenas respondeu: Que bom que compensamos isso com as envergaduras impressionantes das asas.
Mesmo com Rhys do outro lado do território, meu sangue tinha esquentado, e meus dedos dos pés se contraíram. Mal consegui segurar a caneta por tempo o suficiente para escrever: Sinto falta dessa envergadura impressionante em minha cama. Dentro de mim.
Rhys respondeu: Claro que sente.
Sibilei, rabiscando: Porco.
Quase senti a risada de Rhys pelo laço — nosso laço de parceria. Rhys escreveu: Quando eu voltar, visitaremos aquela loja do outro lado do Sidra, e você vai experimentar todas aquelas coisinhas de renda para mim.
Caí no sono pensando naquilo, desejando que minha mão fosse a dele, torcendo para que Rhys terminasse na Corte dos Pesadelos e voltasse logo para mim. A primavera irrompia por todas as colinas e os picos em Velaris. Queria voar sobre as flores amarelas e roxas com ele.
Na tarde seguinte, Rhys ainda estava fora, Amren, ainda enterrada no livro, Azriel patrulhava a cidade e o litoral próximo, e Cassian e eu — entre tantas coisas — terminávamos de assistir a uma apresentação vespertina de alguma antiga sinfonia feérica reverenciada. O anfiteatro ficava do outro lado do Sidra, e, embora Cassian tivesse oferecido me levar voando, eu quis andar. Até mesmo meus músculos estavam gritando em protesto depois da lição cruel daquela manhã.
A música era linda — estranha, mas linda, escrita em uma época, dissera Cassian, em que humanos nem mesmo caminhavam sobre a terra. Ele achou a música intrigante, desafinada, mas... eu ficara hipnotizada.
Voltando a pé por uma das pontes principais sobre o rio, fazíamos companhia um ao outro em silêncio. Deixamos mais sangue com Amren — que agradeceu e nos mandou dar o fora de lá — e agora seguíamos para o Palácio de Linhas e Joias, onde eu queria comprar presentes para minhas irmãs, por terem nos ajudado. Cassian prometera mandá-los com o próximo batedor, enviado a fim de recuperar o relatório mais recente. Imaginei se ele aproveitaria para mandar algo a Nestha.
Parei no centro da ponte de mármore, e Cassian parou ao meu lado quando olhei para a água azul-esverdeada que corria suavemente. Eu conseguia sentir a direção da corrente abaixo, sal e água doce se entrelaçando, as algas oscilantes cobrindo o leito cheio de mexilhões, os ruídos de pequenas criaturas ligeiras sobre rocha e lama. Será que Tarquin conseguia sentir aquelas coisas? Será que dormia no palácio de sua ilha no mar e nadava pelos sonhos de peixes?
Cassian apoiou os antebraços no amplo parapeito de pedras; os Sifões vermelhos eram como poças vivas de chamas.
Eu disse, talvez porque fosse uma enxerida que gostava de me meter na vida dos outros:
— Significou muito para mim... o que você prometeu a minha irmã no outro dia.
Cassian deu de ombros, farfalhando as asas.
— Eu o faria por qualquer um.
— Também significou muito para ela. — Olhos de avelã se semicerraram levemente. Mas observei o rio casualmente. — Nestha é diferente da maioria das pessoas — expliquei. — Ela parece ser severa e cruel, mas acho que é uma parede. Um escudo... como aqueles que Rhys tem na mente.
— Contra o quê?
— Sentimentos. Eu acho que Nestha sente tudo... vê demais; vê e sente tudo. E ela queima por causa disso. Manter essa parede erguida ajuda a evitar que ela se sinta sobrepujada, que se importe demais.
— Ela mal parece se importar com mais alguém além de Elain.
Encarei Cassian, observando aquele rosto bonito e bronzeado.
— Ela nunca será como Mor — falei. — Nunca amará livremente e entregará esse amor a todos os que cruzem seu caminho. Mas os poucos com que se importar... acho que Nestha destruiria o mundo por eles. Ela se destruiria por eles. Ela e eu temos nossos... problemas. Mas Elain... — Minha boca se inclinou para o lado. — Ela jamais vai esquecer, Cassian, que você se ofereceu para defender Elain. Defender o povo dela. Enquanto viver, vai se lembrar dessa bondade.
Ele esticou o corpo, batendo os nós dos dedos contra o mármore liso.
— Por que está me dizendo isso?
— Eu só... achei que você deveria saber. Para quando a vir de novo e Nestha o irritar. O que tenho certeza de que acontecerá. Mas saiba que, bem no fundo, ela se sente grata, e talvez não tenha a habilidade de dizer isso. Mas o sentimento... o coração... está lá.
Parei, pensando se deveria insistir com Cassian, mas o rio fluindo sob nós mudou.
Não foi uma mudança física. Mas... um tremor na corrente, no leito rochoso, nas coisas ligeiras que rastejavam abaixo. Como se nanquim tivesse caído na água.
Cassian imediatamente ficou alerta enquanto eu verificava o rio, as margens de cada lado.
— Que diabo é isso? — murmurou ele. Cassian bateu no Sifão de cada mão com um dedo.
Fiquei boquiaberta quando uma armadura preta de escamas começou a se abrir e deslizar por seus pulsos, pelos braços, substituindo a túnica que estava ali. Camada após camada, cobrindo Cassian como se fosse uma segunda pele, fluindo até seus ombros. Os Sifões adicionais surgiram, e mais armadura se espalhou por seu pescoço, pelos ombros, o peito e a cintura. Pisquei, e a armadura tinha coberto as pernas de Cassian e, depois, os pés.
O céu estava limpo, as ruas, cheias de conversa e vida.
Cassian continuou observando, com uma lenta rotação ao redor de Velaris.
O rio abaixo de mim permaneceu constante, mas conseguia senti-lo se reunindo, como se tentasse se libertar de...
— Do mar — sussurrei. O olhar de Cassian disparou para a frente, para o rio diante de nós, para os penhascos altos ao longe, que marcavam as ondas revoltas onde o Sidra encontrava o oceano.
E ali, no horizonte, um borrão negro. Ágil, espalhando-se conforme se aproximava.
— Diga que são pássaros — pedi. Meu poder fluía nas veias, e fechei os dedos em punhos, desejando que o poder se acalmasse, se controlasse...
— Não há patrulha illyriana que deveria saber sobre este lugar... — disse Cassian, como se em resposta. O olhar se voltou para mim. — Vamos retornar agora mesmo.
O borrão negro se separou, fraturando-se em incontáveis figuras. Grandes demais para serem pássaros. Muito grandes. Eu disse:
— Você precisa soar o alarme...
Mas as pessoas já o faziam. Algumas apontavam, outras gritavam.
Cassian me segurou, mas saltei para trás. Gelo dançava nas pontas de meus dedos, vento urrava em meu sangue. Eu os derrubaria um a um...
— Chame Azriel e Amren...
Tinham chegado aos penhascos do mar. Inúmeras criaturas aladas de longos braços e pernas, algumas com soldados nos braços... Uma horda invasora.
— Cassian.
Mas uma lâmina illyriana surgiu na mão de Cassian, idêntica àquela a suas costas. Uma faca de luta agora reluzia na outra. Cassian as estendeu para mim.
— Volte para casa... agora mesmo.
Eu certamente não iria. Se estavam voando, eu poderia usar meu poder como vantagem: congelar suas asas, queimá-los, destruí-los. Mesmo que houvesse tantos, mesmo que...
Muito rápido, como se fosse carregada por um vento descontrolado, a força alcançou os limites externos da cidade. E disparou flechas sobre o povo, que gritava e corria para se abrigar nas ruas. Peguei as armas estendidas de Cassian, e os cabos de metal frio sibilaram sob as palmas de minhas mãos, quentes como uma forja.
Cassian ergueu a mão no ar. Luz vermelha explodiu do Sifão, disparando para cima e para longe — formando uma parede sólida no céu acima da cidade, diretamente no caminho daquela força invasora.
Ele trincou os dentes, grunhindo quando a legião alada se chocou contra o escudo. Como se Cassian tivesse sentido cada impacto.
O escudo vermelho translúcido se estendeu para mais longe, empurrando as forças...
Nós dois observamos com horror silencioso quando as criaturas avançaram contra o escudo, de braços estendidos...
Não eram apenas qualquer tipo de feérico. Qualquer magia que se acumulava em mim estremeceu e se extinguiu quando os vi.
Eram todos como o Attor.
Todos de braços e pernas longos, pele cinza, com focinhos viperinos e dentes afiados como lâminas. E, quando a legião daquelas criaturas se chocou contra o escudo de Cassian, como se fosse teia de aranha, vi nos braços cinzentos e esguios, manoplas daquela pedra azulada que eu vira em Rhys, reluzindo ao sol.
Pedra que quebrava e repelia magia. Direto do covil maldito do rei de Hybern.
Um após o outro, eles penetraram o escudo de Cassian.
Cassian lançou outra parede contra as criaturas. Algumas se afastaram da horda e se atiraram contra os arredores da cidade, vulneráveis fora do escudo. O calor que estava se acumulando em minhas palmas se dissipou em um suor grudento.
As pessoas gritavam, fugiam. E eu soube que os escudos de Cassian não dariam conta...
— VÁ! — rugiu Cassian. Disparei em movimento, sabendo que ele provavelmente permanecera ali porque eu tinha ficado; sabendo que ele precisava de Azriel e Amren e...
Acima de nós, três das criaturas se chocaram contra o domo do escudo vermelho. Rasgando-o, destroçando camada após camada com aquelas manoplas de pedra.
Era isso que detinha o rei nos últimos meses: ele precisava reunir seu arsenal. Armas para combater magia, para combater Grão-Feéricos que se fiariam nelas...
Um buraco se abriu, e Cassian me atirou ao chão, me empurrando contra o parapeito de mármore, e suas asas se abriram sobre mim; suas pernas eram sólidas como faixas de rocha escavada às minhas costas...
Gritos na ponte, gargalhadas chiadas, então...
Um ruído aquoso e de algo sendo esmagado.
— Merda! — exclamou Cassian. — Merda...
Ele deu um passo adiante, e disparei de baixo de Cassian para ver o que era, quem era...
Sangue brilhou na ponte de mármore branco, reluzindo como rubis ao sol.
Ali, em um daqueles imponentes e elegantes postes de luz que ladeava a ponte...
O corpo estava quebrado, as costas arqueadas devido ao impacto, como se estivesse sentindo os espasmos da paixão.
Os cabelos dourados tinham sido tosados. Os olhos dourados tinham sido arrancados.
Ela estava estremecendo no local em que fora empalada no poste, o mastro de metal perfurava o torso esguio diretamente, sangue se agarrava ao metal acima.
Alguém na ponte vomitou e, depois, continuou correndo.
Mas eu não conseguia deixar de olhar para a rainha dourada. Ou para o Attor, que voou pelo buraco que tinha feito e se empoleirou no topo do poste ensopado de sangue.
— Cumprimentos — sibilou a criatura — das rainhas mortais. E de Jurian. — Então, o Attor levantou voo, rápido e ágil, seguindo diretamente para o distrito de teatros do qual tínhamos saído.
Cassian tinha me prendido de novo contra o chão da ponte... e disparou contra o Attor. Depois, parou, lembrando de mim, mas eu disse, rouca:
— Vá.
— Corra para casa. Agora.
Essa foi a ordem final; e o adeus de Cassian quando ele disparou pelo céu atrás do Attor, que já desaparecera para as ruas histéricas.
Ao meu redor, buraco após buraco era aberto naquele escudo vermelho, e as criaturas aladas entravam aos montes, soltando os soldados hybernianos que tinham carregado pelo mar.
Soldados de todas as formas e tamanho: feéricos inferiores.
A boca escancarada da rainha dourada se abria e se fechava como um peixe em terra firme. Salve-a, ajude-a...
Meu sangue. Eu poderia...
Dei um passo. O corpo da mulher ficou inerte.
E de onde quer que fosse que aquele poder em mim se originava, senti a morte da rainha passar em um sussurro.
Os gritos, as asas batendo, o farfalhar e o estampido de flechas irromperam no silêncio súbito.
Corri. Corri para meu lado do Sidra, para casa. Não confiava em mim para atravessar — mal conseguia pensar em meio ao pânico que latejava em minha mente. Eu tinha minutos, talvez, antes de que chegassem a minha rua. Minutos para chegar lá e levar o máximo de pessoas para dentro comigo. A casa estava encantada. Ninguém entraria, nem mesmo aquelas coisas.
Feéricos passavam às presas, corriam em busca de abrigo, de amigos e família. Cheguei ao fim da ponte, as colinas íngremes se erguiam...
Soldados hybernianos já ocupavam o topo daquela colina, os dois Palácios, rindo dos gritos, das súplicas, conforme invadiam prédios e arrastavam pessoas para fora. Sangue escorria pelos paralelepípedos, formando córregos.
Elas haviam feito aquilo. Aquelas rainhas tinham... entregado aquela cidade de arte e música e comida para aqueles... monstros. O rei devia ter usado o Caldeirão para quebrar os encantamentos.
Uma explosão estrondosa estremeceu o outro lado da cidade, e caí com o impacto; lâminas dispararam, mãos foram cortadas nos paralelepípedos. Eu me virei na direção do rio, me levantando com dificuldade, avançando para minhas armas.
Cassian e Azriel estavam, ambos, no céu agora. E onde eles voavam, aquelas criaturas aladas morriam. Flechas vermelhas e azuis disparavam deles, e aqueles escudos...
Escudos gêmeos de vermelho e azul se uniram, chiando, e se chocaram contra o restante das forças aéreas. Carne e asas foram destruídas, ossos derreteram...
Até que mãos encasuladas em pedra caíram do céu. Apenas mãos. Emitindo estampidos contra os telhados, levantando a água do rio. Era tudo o que restara deles: o que dois guerreiros illyrianos tinham conseguido fazer.
Mas havia inúmeros mais que já haviam pousado. Muitos. Telhados foram destruídos, portas, estilhaçadas, gritos subiam e depois se calavam...
Aquele não era um ataque para saquear a cidade. Era um extermínio.
E erguendo-se acima de mim, apenas alguns quarteirões abaixo, o Arco-Íris de Velaris estava banhado em sangue.
O Attor e as criaturas como ele convergiram para lá.
Como se as rainhas tivessem dito onde atacar; onde Velaris estaria mais vulnerável. O coração pulsante da cidade.
Fogo ondulava, fumaça negra manchava o céu...
Onde estava Rhys, onde estava meu parceiro...
Do outro lado do rio, trovão ecoou de novo.
E não eram Cassian ou Azriel que lutavam do outro lado do rio. Mas Amren.
As mãos finas só precisavam apontar e os soldados caíam — caíam como se as próprias asas falhassem. Eles se chocavam contra as ruas, se debatendo, engasgando, agitando as garras, gritando, assim como o povo de Velaris gritara.
Virei a cabeça para o Arco-Íris a alguns quarteirões de distância — desprotegido. Indefeso.
A rua diante de mim estava livre, a solitária passagem, segura pelo inferno.
Uma fêmea gritou dentro do quarteirão dos artistas. E eu descobri por onde tinha de ir.
Virei a lâmina illyriana na mão e atravessei para o Arco-Íris em chamas e ensanguentado.
Aquele era meu lar. Aquele era meu povo.
Se eu morresse defendendo-os, defendendo aquele pequeno lugar no mundo onde a arte florescia...
Então, que assim fosse.
E me tornei escuridão, e sombra, e vento.
Atravessei para o limite do Arco-Íris quando os primeiros soldados de Hybern viravam na esquina mais afastada, disparando para a avenida do rio, destruindo os cafés nos quais eu tinha me sentado e gargalhado. Não me viram até que eu estivesse sobre eles.
Até que minha espada illyriana partisse suas cabeças, uma após a outra.
Seis caíram atrás de mim, e, quando parei ao pé do Arco-Íris, encarando o fogo e o sangue e a morte... Muitos. Soldados demais.
Jamais conseguiria, jamais mataria todos...
Mas havia uma jovem fêmea, de pele verde e esguia, com um pedaço de cano velho e enferrujado erguido acima do ombro. Ela defendia o território diante da fachada da loja — uma galeria. As pessoas agachadas dentro da loja choravam.
Diante delas, rindo dos feéricos, do pedaço de metal erguido da fêmea, cinco soldados alados a circundavam. Brincando com ela, provocando.
Mesmo assim, a feérica defendia o local. Mesmo assim, sua expressão não se alterava. Pinturas e cerâmica estavam destruídas ao redor da mulher. E mais soldados pousavam, espalhando-se, massacrando...
Do outro lado do rio, trovão ecoou — Amren ou Cassian ou Azriel, eu não sabia.
O rio.
Três soldados me viram do alto da colina. Correram até mim.
Mas corri mais rápido, de volta ao rio ao pé da colina, até o melódico Sidra.
Atingi o limite do quarteirão, a água já estava manchada de sangue, e bati o pé, uma pisada forte.
Como se em resposta, o Sidra se ergueu.
Eu me curvei àquele poder estrondoso dentro de meus ossos, meu sangue e meu fôlego. Eu me tornei o Sidra, antigo e profundo. E dobrei o rio à minha vontade.
Ergui as lâminas. Desejando que o rio subisse mais, moldando-o, forjando-o.
Aqueles soldados hybernianos pararam imediatamente quando me virei na direção deles.
E lobos de água dispararam de trás de mim.
Os soldados se viraram, fugindo.
Mas meus lobos eram mais rápidos. Eu era mais rápida conforme corria com eles, no coração da matilha.
Lobo após lobo saiu rugindo do Sidra, tão colossais quanto aquele que um dia eu matara, disparando pelas ruas, correndo para cima.
Dei cinco passos até a matilha chegar aos soldados que provocavam a dona da loja.
Dei sete passos até a matilha os matar, água desceu pelas gargantas, afogando-os...
Alcancei os soldados, e minha espada cantou quando cortei as cabeças arquejantes dos corpos.
A dona da loja soluçou quando me reconheceu, a barra enferrujada ainda estava erguida. Mas a feérica assentiu — apenas uma vez.
Corri de novo, me perdendo entre os lobos d’água. Alguns dos soldados disparavam para o céu, batendo as asas para cima, recuando.
Então, cresceram asas e garras em meus lobos, e se tornaram falcões e gaviões e águias.
Eles se chocaram contra os soldados, as armaduras, encharcando-os. Os soldados no ar, ao perceber que não tinham se afogado, pararam de voar e gargalharam... debochando.
Ergui a mão para o céu e fechei os dedos em punho.
A água os encharcou, as asas, a armadura, os rostos... E virou gelo.
Gelo tão frio que existia antes da luz, antes de o sol aquecer a terra. Gelo de uma terra envolta em inverno, gelo de partes de mim que não sentiam piedade, nenhuma simpatia pelo que aquelas criaturas tinham feito e estavam fazendo com meu povo.
Congelados, dezenas de soldados alados caíram na terra de uma só vez. E se quebraram sobre os paralelepípedos.
Meus lobos avançavam ao meu redor, dilacerando e afogando e caçando. E aqueles que fugiam deles, aqueles que subiam aos céus — eles congelavam e se estilhaçavam; congelavam e se estilhaçavam. Até que as ruas estivessem cheias de gelo e sangue e pedaços quebrados de asa e pedra.
Até que os gritos de meu povo pararam, e os gritos dos soldados se tornaram uma canção em meu sangue. Um dos soldados se ergueu acima dos prédios de cores alegres... Eu o conhecia.
O Attor batia as asas, frenético, com sangue de inocentes cobrindo-lhe a pele cinza, as manoplas de pedra. Lancei uma águia de água contra ele, mas o Attor foi mais rápido, ligeiro.
Ele fugiu de minha águia, e de meu gavião, e de meu falcão, subindo mais, escalando o ar com as garras. Para longe de mim, de meu poder — de Cassian e de Azriel, que protegiam o rio e a maioria da cidade, longe de Amren, que usava qualquer que fosse o poder sombrio que possuía para lançar tantos deles ao chão sem ferimentos visíveis.
Nenhum de meus amigos viu o Attor subindo, voando para a liberdade.
Ele voltaria para Hybern — para o rei. Tinha escolhido ir até lá. Liderá-los. Por ódio. E eu não tinha dúvidas de que a rainha dourada, a leoa, tinha sofrido em suas mãos. Como Clare sofrera.
Onde está você?
A voz de Rhys soou distante em minha mente, pela fenda em meu escudo.
ONDE ESTÁ VOCÊ?
O Attor estava fugindo. A cada batida de meu coração, ele voava mais alto e mais longe...
ONDE...
Embainhei a espada illyriana e a espada de luta no cinto, e me atrapalhei ao pegar as flechas que tinham caído na rua. Disparadas contra meu povo. Flechas de freixo, cobertas em um veneno esverdeado familiar. Veneno de sangue.
Estou exatamente onde preciso estar, disse eu a Rhys.
E, então, atravessei para o céu.