Corte de Névoa e Fúria
Capítulo 10
Em um segundo o escritório estava intacto.
No seguinte, consistia em cacos de nada, um casco do que era antes.
Nada daquilo me tocara no lugar onde me abaixei no chão, com as mãos sobre a cabeça.
Tamlin estava ofegante, a respiração irregular quase como soluços.
Eu estava tremendo; tremendo tanto que achei que meus ossos se partiriam como a mobília... mas me obriguei a abaixar os braços e olhar para Tamlin.
Havia devastação naquele rosto. E dor. E medo. E luto.
Ao meu redor, nenhum escombro tinha caído — como se Tamlin tivesse me protegido.
Ele deu um passo em minha direção, até aquela demarcação invisível.
Então, Tamlin recuou, como se tivesse atingido algo sólido.
— Feyre — disse ele, a voz rouca.
Tamlin avançou de novo, e o limite se manteve intacto.
— Feyre, por favor — sussurrou ele.
E percebi que o limite, aquela bolha de proteção...
Era minha.
Um escudo. Não apenas mental, mas físico também.
Eu não sabia de que Grão-Senhor tinha vindo, quem controlava o ar ou o vento ou qualquer dessas coisas. Talvez uma das Cortes Solares. Eu não me importava.
— Feyre — gemeu Tamlin, uma terceira vez, fazendo força contra o que realmente parecia uma parede invisível e curva de ar endurecido. — Por favor. Por favor .
Aquelas palavras partiram algo em mim. Me partiram.
Talvez tivessem partido o escudo de vento sólido também, pois a mão de Tamlin o atravessou.
Então, ele ultrapassou aquela linha entre o caos e a ordem, o perigo e a segurança.
Tamlin ficou de joelhos e segurou meu rosto nas mãos.
— Desculpe, desculpe.
Eu não conseguia parar de tremer.
— Vou tentar — sussurrou ele. — Vou tentar ser melhor. Eu não... Não consigo controlar às vezes. O ódio. Hoje foi apenas... hoje foi ruim. Com o Tributo, com tudo isso. Hoje... vamos esquecer, vamos superar isso. Por favor.
Não resisti quando Tamlin me abraçou, me aconchegando tão apertado que seu calor passou para mim. Tamlin enterrou o rosto em meu pescoço e falou, para minha nuca, como se meu corpo fosse absorver as palavras, como se só pudesse dizê-las daquela forma como sempre soubemos nos comunicar melhor: pele contra pele.
— Não consegui salvá-la antes. Não pude protegê-la deles. E quando disse aquilo sobre... sobre eu afogar você... Sou melhor do que eles foram?
Eu deveria ter dito que não era verdade, mas... Tinha falado com o coração. Ou com o que restara dele.
— Tentarei ser melhor — falou Tamlin de novo. — Por favor, me dê mais tempo. Deixe que eu... deixe que eu supere isso. Por favor.
Supere o quê?, era o que eu queria perguntar. Mas as palavras tinham me abandonado. Percebi que ainda não tinha falado.
Percebi que Tamlin esperava por uma resposta... e que eu não tinha uma.
Então, o abracei, porque corpo a corpo era a única forma com que eu conseguia falar também.
Aquilo bastou como resposta.
— Desculpe — disse Tamlin de novo. Ele não parou de murmurar isso durante vários minutos.
Você já ofereceu o suficiente, Feyre.
Talvez Tamlin estivesse certo. E talvez eu não tivesse mais nada a oferecer mesmo.
Olhei por cima do ombro de Tamlin enquanto o segurava.
A tinta vermelha tinha se espatifado na parede atrás de nós. Enquanto eu a observei escorrer pelo painel de madeira rachado, pensei que parecia sangue.
Tamlin não parou de pedir desculpas durante dias. Ele fez amor comigo de manhã à noite. Adorou meu corpo com as mãos, a língua, os dentes. Mas essa nunca fora a parte difícil. Nós apenas nos enrolamos com o resto.
Mas Tamlin cumpriu com a palavra.
Havia menos guardas conforme eu caminhava pela propriedade. Alguns restavam, mas nenhum seguia meus passos. Até fui cavalgar pelo bosque sem escolta.
Apesar de saber que os ajudantes do estábulo tinham relatado a Tamlin assim que saí — e voltei.
Tamlin jamais mencionou aquele escudo de vento sólido que usei contra ele. E as coisas estavam tão boas que não ousei mencioná-lo também.
Os dias se passaram como um borrão. Tamlin passava mais tempo fora que em casa e, sempre que voltava, não me contava nada. Eu tinha parado de incomodá-lo por respostas havia muito tempo. Um protetor... era o que Tamlin era e sempre seria. O que eu quisera quando era fria e severa e infeliz; o que eu precisara para derreter o gelo de amargos anos à beira da fome.
Não tinha coragem de me perguntar o que eu queria ou do que precisava agora. Quem eu me tornara.
Então, com o ócio como única opção, passava os dias na biblioteca. Praticando leitura e escrita. Aumentando aquele escudo mental, tijolo após tijolo, camada após camada. Às vezes tentava conjurar aquela parede física de ar sólido também. Aproveitava o silêncio, mesmo conforme ele penetrava minhas veias, minha mente.
Alguns dias, não falava com ninguém. Nem mesmo Alis.
Acordava todas as noites trêmula e ofegante. E ficava feliz quando Tamlin não estava lá para testemunhar isso. Quando eu também não testemunhava ele ser arrancado dos sonhos, suor frio cobrindo-lhe o corpo. Ou se transformando na besta e ficando acordado até o alvorecer, monitorando a propriedade em busca de ameaças. O que eu poderia dizer para acalmar aqueles medos, quando eu era a fonte de tantos?
Mas Tamlin voltou para uma estadia prolongada cerca de duas semanas depois do Tributo — e decidi tentar conversar, interagir. Eu devia a Tamlin tentar. Devia a mim mesma.
Ele pareceu ter a mesma ideia. E pela primeira vez em um tempo... as coisas pareceram normais. Ou o mais normal que podiam ser.
Acordei certa manhã ao som de vozes graves no corredor do lado de fora de meu quarto. Fechando os olhos, me aninhei no travesseiro e puxei mais as cobertas. Apesar de nossas aventuras matinais nos lençóis, eu levantava mais tarde a cada dia; às vezes nem me dava o trabalho de sair da cama até a hora do almoço.
Um grunhido soou através das paredes, e abri os olhos de novo.
— Saia — avisou Tamlin.
Houve uma resposta baixa... baixa demais para que eu discernisse algo além de balbucios simples.
— Vou dizer uma última vez...
Ele foi interrompido por aquela voz, e os pelos de meus braços se arrepiaram. Observei a tatuagem no antebraço como se fizesse uma conta. Não... não, aquele dia não podia ter chegado tão rápido.
Depois de empurrar as cobertas, corri até a porta, percebendo a meio caminho que estava nua. Graças a Tamlin, minhas roupas tinham sido rasgadas e atiradas do outro lado do quarto, e não havia roupão à vista. Peguei um cobertor na cadeira mais próxima e envolvi o corpo antes de entreabrir a porta.
Certamente, Tamlin e Rhys estavam no corredor. Ao ouvir a porta se abrir, Rhys se virou na minha direção. O sorriso que estampava no rosto hesitou.
— Feyre. — Os olhos de Rhys se detiveram, absorvendo cada detalhe. — Está ficando sem comida aqui?
— O quê? — indagou Tamlin.
Aqueles olhos violeta tinham ficado frios. Rhys estendeu a mão para mim.
— Vamos.
Tamlin avançou no rosto de Rhysand em um instante, e encolhi o corpo.
— Saia. — Ele apontou para a escada. — Ela irá até você quando estiver pronta.
Rhysand apenas limpou um grão invisível de poeira da manga de Tamlin. Parte de mim admirou a pura coragem que aquele gesto devia ter requerido. Se os dentes de Tamlin estivessem a centímetros de minha garganta, eu teria gritado de pânico.
Rhys me olhou.
— Não teria não. Se sua memória não me falha, da última vez que os dentes de Tamlin estavam perto de sua garganta, você deu um tapa da cara dele.
Ergui os escudos esquecidos, fazendo uma careta.
— Cale a boca — disse Tamlin, dando mais um passo entre nós. — E saia.
O Grão-Senhor cedeu e deu um passo na direção das escadas; depois, colocou as mãos nos bolsos.
— Deveria mesmo inspecionar suas proteções. Só o Caldeirão sabe que outro tipo de traste pode entrar aqui tão fácil quanto eu. — De novo, Rhys me observou com o olhar severo. — Vista uma roupa.
Exibi os dentes para ele quando entrei no quarto outra vez. Tamlin me seguiu e bateu a porta com tanta força que os lustres estremeceram, disparando fiapos de luz trêmulos pelas paredes.
Larguei o cobertor, fui até o armário do outro lado do quarto, e o colchão rangeu atrás de mim quando Tamlin afundou na cama.
— Como ele entrou aqui? — perguntei, escancarando as portas e vasculhando as roupas até encontrar o modelito turquesa da Corte Noturna que tinha pedido que Alis guardasse. Eu sabia que ela queria queimá-lo, mas eu disse que acabaria voltando para casa com outro conjunto daqueles de qualquer jeito.
— Não sei — respondeu Tamlin. Vesti a calça, me virei e o vi passar a mão pelo cabelo. Senti a mentira sob as palavras. — Ele só... é só parte de qualquer que seja o joguinho que está fazendo.
Vesti a blusa curta por cima da cabeça.
— Se a guerra está vindo, talvez fosse melhor reparar as coisas. — Não tínhamos tocado naquele assunto desde meu primeiro dia de volta. Fucei o fundo do armário em busca dos sapatos de seda combinando e, depois, virei para Tamlin e os calcei.
— Vou começar a consertar as coisas no dia em que ele liberar você do acordo.
— Talvez ele esteja mantendo o acordo para que você tente ouvi-lo. — Caminhei até onde Tamlin estava sentado na cama; a calça estava um pouco mais larga na cintura que no mês anterior.
— Feyre — disse Tamlin, estendendo a mão para mim, mas saí do alcance. — Por que precisa saber essas coisas? Não basta se recuperar em paz? Conquistou esse direito. Conquistou. Diminuí o número de sentinelas aqui; tenho tentado... tentado ser melhor com relação a isso. Então, deixe o restante... — Tamlin respirou para se acalmar. — Não é o momento para esta conversa.
Nunca era o momento para esta conversa, ou para aquela conversa. Mas não falei isso. Não tinha energia para dizer, e todas as palavras secaram e se foram. Então, memorizei as linhas do rosto de Tamlin e não resisti quando me puxou contra o peito e me abraçou com força.
Alguém tossiu no corredor, e o corpo de Tamlin enrijeceu ao meu redor.
Mas bastava de brigas e grunhidos para mim, e voltar para aquele lugar aberto e sereno no alto da montanha... Parecia melhor que me esconder na biblioteca.
Eu me afastei, e Tamlin se deteve conforme eu caminhava de volta para o corredor.
Rhys franziu a testa para mim. Debati se dizia algo sujo para ele, mas teria requerido mais irritação que eu sentia; e teria requerido que eu me importasse mais com o que Rhys pensava.
O rosto de Rhys se tornou indecifrável quando ele estendeu a mão.
Então, Tamlin apareceu atrás de mim e empurrou aquela mão para baixo.
— Encerre o acordo dela bem aqui e agora e darei o que você quiser. Qualquer coisa.
Meu coração subitamente deu um salto.
— Está maluco?
Tamlin nem mesmo piscou em minha direção.
Rhysand apenas ergueu a sobrancelha.
— Já tenho tudo que quero. — Ele desviou de Tamlin como se ele fosse parte da mobília e pegou minha mão. Antes que eu conseguisse dizer adeus, um vento negro nos envolveu e desaparecemos.