Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 44 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 42

Eu não estava com medo.

 

Não do papel que Rhys tinha pedido que eu interpretasse naquele dia. Não do vento estrondoso conforme atravessávamos até uma cadeia montanhosa familiar, coberta de neve, que se recusava a se dobrar ao beijo do despertar da primavera. Não da descida violenta conforme Rhys nos levou voando entre os picos e vales, ágil e suavemente. Cassian e Azriel nos flanqueavam; Mor nos encontraria nos portões, na base da montanha.

O rosto de Rhys estava contraído, e os ombros, tensos enquanto eu os segurava. Sabia o que esperar, mas... mesmo depois de Rhys ter me contado o que precisava que eu fizesse, mesmo depois de eu concordar, ele estava... distante. Perturbado.

Preocupado comigo, percebi.

E só por causa daquela preocupação, só para tirar aquela tensão de seu rosto, mesmo que durante os poucos minutos antes de enfrentarmos aquele reino maldito sob a montanha, eu falei, acima do ruído do vento:

— Amren e Mor me disseram que a extensão das asas de um macho illyriano diz muito sobre o tamanho de... outras partes.

Os olhos de Rhys se voltaram para mim, e depois, para as encostas cobertas de pinheiros abaixo.

— Disseram, é?

Dei de ombros, tentando não pensar no corpo nu daquela noite, há tantas semanas, embora eu não tivesse visto muito.

— Também disseram que as asas de Azriel são as maiores.

Malícia dançou naqueles olhos violeta, levando embora a distância fria, a tensão. O mestre-espião era um borrão preto contra o céu azul pálido.

— Quando voltarmos para casa, vamos pegar a fita métrica, que tal?

Belisquei o músculo firme como pedra do antebraço de Rhys. Ele me lançou um sorriso malicioso antes de descer...

Montanhas e neve e árvores e sol e queda livre total em meio a fiapos de nuvem...

Um grito sem fôlego saiu de mim quando mergulhamos. Por instinto, envolvi o pescoço de Rhys com os braços. Sua risada grave fez cócegas em minha nuca.

— Está disposta a desbravar minha escuridão e erguer a sua, disposta a entrar em um túmulo inundado e enfrentar a Tecelã, mas uma quedinha livre a faz gritar?

— Vou deixá-lo apodrecer da próxima vez que tiver um pesadelo — sibilei, ainda de olhos fechados e com o corpo travado quando Rhys abriu as asas para suavizar nossa queda constante.

— Não vai não — cantarolou ele. — Gostou demais de me ver nu.

— Canalha.

A risada de Rhys ressoou contra mim. De olhos fechados, o vento rugindo como um animal selvagem, ajustei minha posição, segurando-o com mais força. Os nós de meus dedos roçaram em uma das asas de Rhys — lisa e fria como seda, mas firme tal pedra quando totalmente esticada.

Fascinante. Tateei às cegas de novo... e ousei passar a ponta do dedo por uma das bordas internas.

Rhysand estremeceu, um gemido baixo escapuliu ao lado de minha orelha.

— Aí — falou ele, contendo a voz — é muito sensível.

Puxei o dedo de volta, me afastei o bastante para ver o rosto de Rhys. Com o vento, precisei semicerrar os olhos, e meus cabelos trançados voavam de um lado a outro, mas... Rhys estava completamente concentrado nas montanhas ao nosso redor.

— Faz cócegas?

Ele voltou o olhar para mim, e depois, para a neve e os pinheiros que se estendiam infinitamente.

— A sensação é esta — disse Rhys, e se aproximou tanto que os lábios roçaram a parte externa de minha orelha quando ele lhe lançou um leve sopro. Minhas costas se arquearam por instinto, e ergui o queixo diante da carícia daquele sopro.

— Ah! — Eu consegui dizer. Senti Rhys sorrir contra minha orelha e se afastar.

— Se quiser a atenção de um macho illyriano, seria melhor puxá-lo pelas bolas. Somos treinados a proteger nossas asas a todo custo. Alguns machos atacam primeiro e fazem perguntas depois se as asas forem tocadas sem convite.

— E durante o sexo? — A pergunta saiu sem querer.

O rosto de Rhys era puro interesse felino enquanto monitorava as montanhas.

— Durante o sexo, um macho illyriano pode atingir um orgasmo somente se alguém tocar as asas no lugar certo.

Meu sangue latejava. Território perigoso; mais que a queda letal abaixo.

— Você já testou se isso é verdade?

Os olhos de Rhys me despiram.

— Nunca permiti que ninguém visse ou tocasse em minhas asas durante o sexo. Isso torna você vulnerável de uma forma com a qual... não estou confortável.

— Uma pena — lamentei, olhando casualmente demais na direção da grandiosa montanha que agora surgia no horizonte, erguendo-se por cima das demais. E encimada, reparei, por aquele palácio reluzente de pedra da lua.

— Por quê? — perguntou Rhys, cauteloso.

Dei de ombros, lutando contra o sorriso em meus lábios.

— Porque aposto que poderia fazer umas posições interessantes com essas asas.

Rhys soltou uma gargalhada ruidosa, e seu nariz roçou minha orelha. Eu o senti abrir a boca para sussurrar algo, mas...

Uma coisa escura e rápida e lustrosa disparou contra nós, e Rhys mergulhou para baixo e para longe, xingando.

Então, outra, e outra, elas continuaram vindo.

Não eram apenas flechas comuns, percebi quando Rhys desviou e pegou uma no ar. Mais flechas ricochetearam inofensivamente de um escudo que Rhys ergueu.

Ele verificou a madeira na palma da mão e a soltou com um chiado. Flechas de freixo. Para matar feéricos.

E agora que eu era uma...

Mais rápido que o vento, mais rápido que a morte, Rhys disparou para o chão. Voou, não atravessou, porque queria saber onde estavam nossos inimigos, não queria perdê-los. O vento feriu meu rosto, emitiu um guincho em meus ouvidos, se entrelaçou em meus cabelos com garras cruéis.

Azriel e Cassian já se dirigiam até nós. Escudos de azul e vermelho translúcidos os envolviam — lançando aquelas flechas pelos ares. Eram os Sifões em ação.

As flechas eram disparadas da floresta de pinheiro que cobria as montanhas, e, depois, sumiam.

Rhys atingiu o chão, neve subindo ao seu encalço, e uma fúria como eu não via desde aquele dia na corte de Amarantha deformou a expressão de seu rosto. Eu conseguia sentir aquele ódio latejando em mim, reunindo-se pela clareira na qual agora estávamos.

Azriel e Cassian chegaram em um instante, e seus escudos coloridos se encolheram de volta para os Sifões. Os três eram como forças da natureza na floresta de pinheiros, e Rhysand nem mesmo me olhou quando ordenou a Cassian:

— Leve-a para o palácio e fique lá até eu voltar. Az, você vem comigo.

Cassian estendeu a mão para mim, mas eu me afastei.

— Não.

— O quê? — grunhiu Rhys, a palavra saiu quase gutural.

— Me leve junto — pedi. Não queria ir para aquele palácio de pedra da lua e ficar andando de um lado a outro, e esperar e torcer os dedos.

Cassian e Azriel, sabiamente, ficaram calados. E Rhys, que a Mãe o abençoasse, apenas recolheu as asas e cruzou os braços... esperando ouvir meus motivos.

— Já vi flechas de freixo — falei, um pouco sem fôlego. — Posso reconhecer onde foram feitas. E se vieram da mão de outro Grão-Senhor... posso detectar isso também. — Se tinham vindo de Tarquin... — E posso rastrear tão bem no chão quanto qualquer um de vocês. — Exceto por Azriel, talvez. — Então, você e Cassian vão pelo céu — sugeri, ainda esperando a rejeição, a ordem de me trancafiar. — E vou caçar no chão com Azriel.

A ira que irradiava pela clareira nevada se conteve em um ódio gélido, calmo demais. Porém, Rhys falou:

— Cassian, quero patrulhas aéreas nas fronteiras marítimas, posicionadas em círculos de 3,5 quilômetros, até Hybern. Quero soldados de infantaria nos vales das montanhas ao longo da fronteira sul; certifique-se de que aquelas fogueiras de aviso estejam prontas em cada cume. Não vamos nos fiar em magia. — Ele se voltou para Azriel. — Quando terminarem, avise seus espiões de que podem estar comprometidos, e prepare-se para extraí-los. E coloque novos espiões no lugar. Vamos conter isso. Não contaremos a ninguém dentro daquela corte o que aconteceu. Se alguém mencionar, digam que foi um treinamento.

Porque não podíamos correr o risco de deixar que essa fraqueza transparecesse, mesmo entre seus súditos.

Os olhos de Rhysand finalmente encontraram os meus.

— Temos uma hora até precisarmos estar na corte. Façam valer a pena.

 

Nós buscamos, mas as flechas caídas foram levadas por nossos agressores — e nem mesmo as sombras e o vento disseram algo a Azriel, como se nosso inimigo também tivesse se escondido deles.

Mas aquela era a segunda vez que sabiam onde Rhys e eu estaríamos.

Mor nos encontrou depois de vinte minutos, querendo saber que diabos havia acontecido. Nós explicamos, e ela atravessou para dar qualquer que fosse a desculpa que evitaria levantar suspeitas sobre algo errado em sua terrível família.

Mas, ao fim de uma hora, não tínhamos encontrado uma única pista. E não podíamos mais atrasar nossa reunião.

A Corte dos Pesadelos ficava atrás de um conjunto imenso de portas entalhadas na própria montanha. E da base, a montanha se erguia tão alta que eu não conseguia ver o palácio no qual um dia eu ficara, acima desta. Apenas neve e rocha, e pássaros circulando ao alto. Não havia ninguém do lado de fora — nenhuma cidade, nenhum sinal de vida. Nada que indicasse que uma cidade inteira de pessoas morava ali dentro.

Mas não deixei que minha curiosidade, ou qualquer temor remanescente, transparecesse quando Mor e eu entramos. Rhys, Cassian e Azriel chegariam minutos depois.

Havia sentinelas aos portões de pedra, vestidos não de preto, como eu poderia ter suspeitado, mas de cinza e branco — traje feito para se camuflar com a face da montanha. Mor sequer olhou para eles ao me levar silenciosamente para dentro da cidade na montanha.

Meu corpo enrijeceu assim que a escuridão, o cheiro de rocha e de fogo e de carne assando me atingiram. Eu tinha estado ali antes, sofrido ali...

Não Sob a Montanha. Aquilo não era Sob a Montanha.

De fato, a corte de Amarantha fora o trabalho de uma criança.

A Corte dos Pesadelos era o trabalho de um deus.

Enquanto Sob a Montanha consistia em uma série de corredores e quartos e andares, aquela... aquela era uma verdadeira cidade.

A passagem pela qual Mor nos levou era uma avenida, e, ao nosso redor, erguendo-se na escuridão, havia prédios e pináculos, lares e pontes. Uma metrópole entalhada da pedra escura da própria montanha, nenhum centímetro deixado de fora ou sem algum adorável e terrível trabalho artístico gravado. Figuras dançavam e fornicavam; imploravam e festejavam. Pilastras tinham sido entalhadas para parecerem vinhas curvas de flores noturnas. Água percorria pequenos córregos, e rios brotavam do coração da própria montanha.

A Cidade Escavada. Um lugar de beleza tão terrível que era difícil manter o espanto e o pesar longe de minha expressão. Música já tocava em algum lugar, e nossos anfitriões ainda não haviam vindo nos cumprimentar. As pessoas pelas quais passávamos — somente Grão-Feéricos — estavam vestidas elegantemente, os rostos mortalmente pálidos e frios. Ninguém nos parou, ninguém sorriu ou fez reverência.

Mor ignorou todos. Nenhuma de nós dissera uma palavra. Rhys me avisara que não falasse — que as paredes ali tinham ouvidos.

Mor me levou pela avenida na direção de outro conjunto de portões de pedra, escancarados na base do que parecia ser um castelo dentro da montanha. O assento oficial do Grão-Senhor da Corte Noturna.

Imensas bestas negras cobertas de escamas estavam entalhadas naqueles portões, todas reunidas em um ninho de garras e presas, dormindo e lutando, algumas presas em um ciclo eterno, devorando outras. Entre as bestas, heras de jasmim e de boas-noites. Eu podia jurar que as bestas pareciam se contorcer ao brilho prateado das luzes feéricas tremeluzentes ao longo da cidade na montanha. Os Portões da Eternidade; era assim que eu chamaria a pintura que lampejara em minha mente.

Mor prosseguiu através dos portões, um lampejo de cor e de vida naquele lugar estranho e frio.

Ela estampava um vermelho intenso, os tecidos de organza e gaze do vestido sem mangas se ajustavam aos seios e aos quadris de Mor, enquanto fendas cuidadosamente localizadas deixavam muito da barriga e das costas expostas. Os cabelos de Mor estavam soltos em uma cascata de ondas, e pulseiras de ouro sólido reluziam em seus pulsos. Uma rainha — uma rainha que não se curvava a ninguém, uma rainha que enfrentara todos e triunfara. Uma rainha que era dona do próprio corpo, da vida, do destino, e jamais se desculpava por isso.

Mor tomara um tempo no bosque de pinheiro para me vestir, e minhas roupas eram de um modelo semelhante, quase idênticas àquelas que eu havia sido forçada a usar Sob a Montanha. Duas faixas de tecido que mal cobriam meus seios fluíam até abaixo do umbigo, onde um cinto nos quadris prendia as faixas de tecido em uma só, longa, que descia por minhas pernas e mal cobria a parte de trás.

Mas diferente do chiffon e das cores alegres que eu usara então, esse era feito de um tecido preto e brilhante, que refletia luz a cada oscilação de quadril.

Mor arrumara meu cabelo como uma coroa no alto da cabeça — logo atrás do diadema preto que tinha colocado diante do penteado, ressaltado por grãos de diamante que faziam com que brilhasse como o céu noturno. Mor escurecera e alongara meus cílios, passando uma linha elegante e maliciosa de delineador no canto exterior de cada um. Meus lábios, Mor pintara de vermelho-sangue.

E entramos no castelo abaixo da montanha. Havia mais pessoas ali, perambulando pelos intermináveis corredores, observando cada fôlego que tomávamos. Alguns se pareciam com Mor, com os cabelos dourados e os lindos rostos. Até mesmo sibilavam para ela.

Mor dava risinhos para eles. Parte de mim desejava que Mor lhes rasgasse a garganta em vez disso.

Por fim, chegamos a um salão do trono de ébano polido. Mais das serpentes dos portões da entrada estavam entalhadas ali... dessa vez, enroscadas nas inúmeras colunas que apoiavam o teto de ônix. Era tão alto que a escuridão escondia os detalhes mais finos, mas eu sabia que mais delas haviam sido entalhadas ali também. Eram grandes bestas para monitorar as manipulações e as tramas dentro daquela sala. O próprio trono tinha sido feito de algumas delas, uma cabeça serpenteava ao redor de cada lado do encosto... como se observassem por cima dos ombros do Grão-Senhor.

Uma multidão estava reunida; e, por um momento, eu estava de novo no salão do trono de Amarantha, de tão parecida que era a atmosfera, a malícia. De tão parecido que era o altar do outro lado.

Um homem lindo, de cabelos louros, se colocou em nosso caminho na direção daquele trono de ébano, e Mor parou suavemente. Eu soube que era o pai dela sem que o homem dissesse uma palavra.

Ele vestia preto, um diadema de prata no alto da cabeça. Os olhos castanhos do feérico eram como terra antiga quando ele disse a Mor:

— Onde ele está?

Nenhum cumprimento, nenhuma formalidade. Ele me ignorou por completo.

Mor deu de ombros.

— Ele chega quando quiser. — Ela seguiu em frente.

O pai de Mor me olhou então. E obriguei meu rosto a estampar uma máscara como a dela. Desinteresse. Distância.

O pai de Mor observou meu rosto, meu corpo — e onde achei que veria escárnio e provocação... não havia nada. Nenhuma emoção. Apenas um frio desalmado.

Segui Mor antes que o desprezo destruísse minha máscara gélida.

Mesas de banquete contra as paredes negras estavam cobertas de frutas fartas e suculentas e tranças de pão dourado, interrompidas por carnes assadas, barris de cidra e cerveja e tortas e tortinhas e pequenos bolos, de todos os tamanhos e variedades.

Talvez tivesse feito minha boca se encher d’água... Não fosse pelos Grão-Feéricos em toda a elegância. Não fosse pelo fato de que ninguém tocava na comida; o poder e a riqueza estavam em deixar que fosse desperdiçada.

Mor foi direto para o altar de obsidiana, e parei ao pé dos degraus quando ela ocupou um lugar ao lado do trono e disse para a multidão, com uma voz que era nítida, cruel e astuta:

— Seu Grão-Senhor se aproxima. Está de péssimo humor, então, sugiro que se comportem, a não ser que desejem ser o entretenimento da noite.

E, antes que a multidão pudesse começar a murmurar, eu senti. Senti... ele.

A própria rocha sob meus pés pareceu tremer, uma batida pulsante e constante.

Seus passos. Como se a montanha estremecesse a cada toque.

Todos naquele salão ficaram mortalmente imóveis. Como se petrificados porque a própria respiração poderia atrair a atenção do predador que agora caminhava em nossa direção.

Os ombros de Mor estavam esticados, e o queixo, erguido — orgulho bestial e lascivo diante da chegada do mestre.

Ao me lembrar de meu papel, abaixei meu queixo, observando por baixo das sobrancelhas.

Primeiro Cassian e Azriel surgiram à porta. O general e o encantador de sombras do Grão-Senhor... e os illyrianos mais poderosos da história.

Não eram os machos que eu conhecera.

Usando preto de batalha, que delineava as formas musculosas, suas armaduras eram complexas, com escamas — os ombros impossivelmente mais largos, os rostos eram um retrato da brutalidade insensível. Os dois me lembraram, por algum motivo, das bestas de ébano entalhadas nas pilastras pelas quais eles passavam.

Mais Sifões, percebi, brilhavam, além daqueles no dorso de cada mão. Um Sifão no centro do peito. Um em cada ombro. Um em cada joelho.

Por um momento, meus joelhos fraquejaram, e entendi o que os senhores do acampamento tinham temido nos dois. Se um Sifão era do que a maioria dos illyrianos precisava para controlar o poder mortal... Cassian e Azriel tinham sete cada. Sete.

Os cortesãos tiveram o bom senso de recuar um passo conforme Cassian e Azriel seguiam em meio à multidão, na direção do altar. As asas reluziam, as garras no topo estavam afiadas o bastante para cortar o ar — como se as tivessem afiado.

A concentração de Cassian foi direto para Mor; Azriel se permitiu um olhar antes de observar as pessoas ao redor. A maioria se esquivava do olhar do mestre-espião... embora tremessem ao ver a Reveladora da Verdade ao seu lado, a lâmina illyriana despontando sobre o ombro esquerdo.

Azriel, o rosto como uma linda máscara de morte, silenciosamente prometia a todos tormento infinito e irrefreável, e até mesmo as sombras estremeciam quando ele passava. Eu sabia por quê; sabia por quem ele ficaria feliz em fazer aquilo.

Tinham tentado vender uma jovem de 17 anos em casamento para um sádico — e então a brutalizam de formas que eu não podia, não me permitiria considerar. E aquelas pessoas agora viviam em profundo pavor dos três companheiros que estavam ao altar.

Que bom. Deveriam sentir medo deles.

Medo de mim.

E, então, Rhysand surgiu.

Ele libertara o controle sobre o poder, sobre quem era. O poder de Rhys tomou conta do salão do trono, do castelo, das montanhas. Do mundo. Não tinha fim ou começo.

Nenhuma asa. Nenhuma arma. Nenhum sinal do guerreiro. Nada além do elegante e cruel Grão-Senhor que o mundo acreditava que ele era. As mãos de Rhysand estavam nos bolsos, a túnica preta parecia engolir a luz. E na cabeça de Rhys estava uma coroa de estrelas.

Nenhum sinal do macho que bebia no telhado; nenhum sinal do príncipe caído, ajoelhado na cama. O impacto total de Rhysand ameaçou me sobrepujar.

Ali — ali ele era o Grão-Senhor mais poderoso que já nascera.

O rosto de sonhos e pesadelos.

Os olhos de Rhys encararam os meus brevemente do outro lado do salão conforme ele caminhou entre as pilastras. Até o trono que era seu por direito de sangue, sacrifício e poder. Meu próprio sangue cantava diante do poder que latejava dentro de Rhysand, diante de sua pura beleza.

Mor desceu do altar e se colocou sobre um joelho com uma reverência suave. Cassian e Azriel acompanharam em seguida.

Assim como todos no salão.

Inclusive eu.

O piso de ébano estava tão polido que pude ver meus lábios pintados de vermelho; ver meu rosto inexpressivo. O salão estava tão silencioso que pude ouvir cada um dos passos de Rhys em nossa direção.

— Ora, ora — disse ele, para ninguém em especial. — Parece que chegaram todos na hora, para variar.

Erguendo a cabeça enquanto ainda de joelhos, Cassian deu um meio sorriso para Rhys — o comandante do Grão-Senhor encarnado, ansioso para derramar sangue por ele.

As botas de Rhys pararam em meu campo visual.

Os dedos pareceram gelo em meu queixo quando Rhys ergueu meu rosto.

O salão inteiro, ainda no chão, observava. Mas aquele era o papel que eu precisava interpretar. Ser uma distração e uma novidade. Os lábios de Rhys se curvaram para cima.

— Bem-vinda a meu lar, Feyre, Quebradora da Maldição.

Abaixei o olhar, os cílios espessos com rímel fizeram cócegas na bochecha. Rhys emitiu um estalo com a língua, e a mão se apertou em meu queixo. Todos repararam na pressão dos dedos dele, no ângulo predatório da cabeça de Rhys quando ele disse:

— Venha comigo.

Um puxão em meu queixo e fiquei de pé. Rhys passou os olhos por meu corpo, e me perguntei se seria mesmo apenas atuação quando eles brilharam um pouco.

Rhysand me guiou pelos poucos degraus até o altar... até o trono. Ele se sentou, sorrindo levemente para a monstruosa corte. Rhys dominava cada centímetro do trono. Daquelas pessoas.

E com um puxão em minha cintura, ele me colocou no colo.

A vadia do Grão-Senhor. Quem eu tinha me tornado Sob a Montanha... quem o mundo esperava que eu fosse. O perigoso novo bicho de estimação que o pai de Mor agora tentaria avaliar.

A mão de Rhys deslizou por minha cintura exposta, e a outra percorreu minha coxa nua. Frias — as mãos estavam tão frias que quase gritei.

Ele devia ter sentido quando me encolhi silenciosamente. Um segundo depois, as mãos estavam mornas. O polegar de Rhys, curvando-se para o interior de minha coxa, fez uma carícia lenta e longa, como se dissesse: Desculpe.

Rhys chegou a se inclinar para aproximar a boca de minha orelha, bastante ciente de que os súditos não tinham se levantado. Como se, certa vez, há muito tempo, o tivessem feito sem ser ordenados e tivessem aprendido as consequências. Rhysand sussurrou para mim, com a outra mão agora acariciando a pele exposta de minhas costelas em círculos preguiçosos, indolentes:

— Tente não deixar lhe subir à cabeça.

Eu sabia que todos podiam ouvir. Ele também.

Encarei as cabeças curvadas dos súditos, meu coração batia forte, mas falei, com a suavidade da meia-noite:

— O quê?

O hálito de Rhys acariciou minha orelha, idêntico àquele que ele me soprara uma hora antes no céu.

— Que cada macho aqui está considerando de que estaria disposto a abrir mão para ter essa sua boquinha linda e vermelha para si.

Esperei que o rubor e a timidez tomassem conta.

Mas eu era linda. Era forte.

Tinha sobrevivido... triunfado. Como Mor tinha sobrevivido àquela casa terrível, venenosa...

Então, sorri de leve, o primeiro sorriso de minha nova máscara. Que eles vissem aquela linda boca vermelha e meus dentes brancos e retos.

A mão de Rhys deslizou mais para cima em minha coxa, o toque territorial de um macho que sabia que era dono de alguém, de corpo e alma. Rhys tinha se desculpado com antecedência por aquilo, por aquele jogo, aqueles papéis que precisaríamos interpretar.

Mas eu me inclinei na direção daquele toque, me inclinei para trás no corpo firme e quente. Estava tão perto de Rhys que consegui sentir o tremor grave de sua voz quando ele disse para a corte:

— De pé.

Como um, eles se levantaram. Ri de alguns deles, gloriosamente entediada e infinitamente divertida.

Rhys roçou o nó de um dedo contra a parte interna de meu joelho, e cada nervo de meu corpo ficou tenso àquele toque.

— Vão brincar — disse Rhys a todos.

Eles obedeceram, a multidão se dispersou, música surgiu de um canto distante.

— Keir — falou Rhys, com a voz perfurando o salão como relâmpago em uma noite de tempestade.

Era tudo o que ele precisava fazer para convocar o pai de Mor ao pé do altar. Keir fez nova reverência, o rosto estampando ressentimento gélido ao observar Rhys, e, depois, a mim... olhando uma vez para Mor e os illyrianos. Cassian deu a Keir um aceno lento que disse a ele que o illyriano se lembrava — e jamais se esqueceria — do que o administrador da Cidade Escavada tinha feito com a própria filha.

Mas era de Azriel que Keir se esquivava. Da visão da Reveladora da Verdade.

Um dia, percebi, Azriel usaria aquela lâmina no pai de Mor. E levaria muito, muito tempo para abrir o homem.

— Relatório — disse Rhys, acariciando minhas costelas com o nó do dedo. Ele deu um aceno de cabeça para dispensar Cassian, Mor e Azriel, e o trio sumiu na multidão. Em um segundo, Azriel tinha se dissipado em sombras e partido. Keir nem mesmo se virou.

Diante de Rhys, Keir não passava de uma criança emburrada. Mas eu sabia que o pai de Mor era mais velho. Muito mais velho. O administrador se agarrava ao poder, ao que parecia.

Rhys era poder.

— Saudações, senhor — cumprimentou Keir, a voz grave polida até se suavizar. — E saudações a sua... convidada.

A mão de Rhys espalmou minha coxa quando ele inclinou a cabeça para me olhar.

— Encantadora, não é?

— De fato — respondeu Keir, abaixando os olhos. — Há pouco a relatar, senhor. Tudo está calmo desde a última visita.

— Ninguém para eu punir? — Um gato brincando com a comida.

— A não ser que queira que eu selecione alguém aqui, não, senhor.

Rhys emitiu um estalo com a língua.

— Que pena. — Ele me observou de novo e, depois, se aproximou para puxar minha orelha com os dentes.

E maldição, eu me inclinei ainda mais para trás quando os dentes de Rhys puxaram para baixo no mesmo momento em que o polegar subiu pela lateral de minha coxa, percorrendo a pele sensível com um toque longo e lascivo. Meu corpo ficou relaxado e tenso ao mesmo tempo, e minha respiração... Maldito Caldeirão de novo, o cheiro, algo cítrico e o mar, o poder escorrendo de Rhys... minha respiração falhou um pouco.

Eu sabia que Rhys tinha percebido; sabia que sentira aquela mudança em mim.

Os dedos ficaram imóveis em minha perna.

Keir começou a mencionar pessoas que eu não conhecia da corte, relatórios casuais sobre casamentos e alianças, disputas de família, e Rhys o deixou falar.

O polegar me acariciou de novo — dessa vez junto com o indicador.

Um rugido constante preenchia meus ouvidos, abafava tudo exceto aquele toque na parte interna de minha perna. A música latejava, antiga, selvagem, e as pessoas se esfregavam ao som dela.

Com os olhos no administrador, Rhys acenava vagamente de vez em quando. Enquanto os dedos continuavam as carícias lentas e constantes em minhas coxas, subindo a cada toque.

As pessoas observavam. Mesmo enquanto bebiam e comiam, mesmo enquanto algumas dançavam em pequenos círculos, as pessoas observavam. Eu estava sentada no colo de Rhys, seu brinquedinho pessoal, cada toque era visível às pessoas... no entanto, podíamos muito bem estar a sós.

Keir listou as despesas e os custos de administrar a corte, e Rhys deu mais um breve aceno de cabeça. Dessa vez, o nariz roçou o lugar entre meu pescoço e meu ombro, seguido por uma carícia passageira com a boca.

Meus seios enrijeceram, tornando-se fartos e pesados, doendo — doendo como aquilo que agora se acumulava dentro de mim. Calor encheu meu rosto, meu sangue.

Mas Keir disse, por fim, como se o autocontrole tivesse escapado da coleira:

— Ouvi os boatos e não acreditei muito. — Seu olhar recaiu sobre mim, sobre meus seios, firmes sob as dobras do vestido, sobre minhas pernas, mais abertas do que estavam minutos antes, e sobre a mão de Rhys em território perigoso. — Mas parece verdade: o bicho de estimação de Tamlin agora tem outro mestre.

— Deveria ver como eu a faço implorar — murmurou Rhys, cutucando meu pescoço com o nariz.

Keir entrelaçou as mãos às costas.

— Presumo que a tenha trazido como uma declaração.

— Você sabe que tudo que faço é uma declaração.

— É claro. Essa, ao que parece, você gosta de vestir com teias de aranha e coroas.

A mão de Rhys parou, e me sentei mais ereta ao ouvir o tom de voz, o nojo. E disse para Keir, com uma voz que pertencia a outra mulher:

— Talvez eu coloque uma coleira em você.

A aprovação de Rhys deu batidinhas em meu escudo mental, a mão em minhas costelas agora formava círculos preguiçosos.

— Ela gosta de brincar — ponderou ele, sobre meu ombro. — Rhys indicou o administrador com o queixo. — Pegue vinho para ela.

Puro comando. Nenhuma educação.

Keir enrijeceu o corpo, mas saiu andando.

Rhys não ousou sair do personagem, mas o leve beijo que deu sob minha orelha me disse o bastante. Desculpa e gratidão — e mais desculpas. Não gostava daquilo mais que eu. Mas, para conseguir o que precisava, para ganhar tempo para Azriel... ele o faria. E eu também.

Imaginei, então, com as mãos dele sob meus seios e entre minhas pernas, o que Rhys não daria de si. Imaginei se... se talvez a arrogância e o orgulho... se ocultariam um macho que talvez achasse que não valia muito.

Uma nova música começou, como mel gotejando, e depois se desenvolveu para um vento ágil, pontuado por tambores melódicos, incansáveis.

Eu me virei, observando o rosto de Rhys. Não havia nada de caloroso naqueles olhos, nada do amigo que eu fizera. Abri o escudo o suficiente para deixar que ele entrasse. O quê? A voz de Rhys entrou em minha mente.

Percorri a ligação entre nós, acariciando aquela muralha de ébano adamantino. Uma pequena fenda se abriu... apenas para mim. E falei para dentro dela: Você é bom, Rhys. Você é gentil. Essa máscara não me assusta. Vejo você por baixo dela.

As mãos de Rhys se apertaram sobre mim, e ele me encarou quando se aproximou para roçar a boca contra minha bochecha. Foi resposta suficiente — e... uma libertação.

Eu me inclinei um pouco mais contra ele e abri levemente as pernas. Por que parou?, falei para sua mente, para dentro de Rhys.

Um grunhido quase silencioso reverberou contra mim. Rhysand acariciou minhas costelas de novo, ao ritmo da batida da música, o polegar se erguendo quase o suficiente para roçar meus seios.

Deixei a cabeça se reclinar para trás, em seu ombro.

Eu me libertei da parte de mim que ouvia as palavras deles — vadia, vadia, vadia...

Libertei-me da parte que acompanhava aquelas palavras — traidora, mentirosa, vadia...

E simplesmente me tornei.

Eu me tornei a música, os tambores e a coisa selvagem e sombria nos braços do Grão-Senhor.

Os olhos de Rhys estavam completamente vidrados... e não por poder ou ódio. Algo vermelho incandescente e emoldurado por escuridão reluzente explodiu em minha mente.

Passei a mão pela coxa de Rhys, sentindo a força do guerreiro oculto ali. Puxei a mão para cima de novo, em uma carícia longa, distraída, precisando tocá-lo, senti-lo.

Eu estava prestes a pegar fogo e queimar. Começaria a queimar bem ali...

Calma, disse Rhys, com um interesse malicioso, pela fenda aberta em meu escudo. Se você se tornar uma vela viva, o pobre Keir vai dar um ataque. E então vai estragar a festa de todos.

Porque o fogo mostraria a todos que eu não era normal — e sem dúvida Keir informaria aos quase aliados na Corte Outonal. Ou algum daqueles monstros da corte informaria.

Rhys moveu os quadris, esfregando-se contra mim com tanta pressão que, por um segundo, não me importei com Keir, ou com a Corte Outonal, ou com o que Azriel poderia estar fazendo naquele momento para roubar a esfera.

Eu estava tão fria, tão solitária, por tanto tempo, e meu corpo gritava ao contato, à alegria de ser tocada e abraçada e estar viva.

A mão que estava em minha cintura deslizou para o abdômen, agarrando-se ao cinto baixo. Apoiei a cabeça entre o ombro e o pescoço de Rhys, encarando a multidão conforme eles me encaravam, saboreando cada lugar em que Rhys e eu nos tocávamos, e querendo mais, mais, mais.

Por fim, quando meu sangue começou a ferver, quando Rhys deslizou o nó do dedo sob meu seio, olhei para onde eu sabia que Keir estava parado, nos observando, meu vinho esquecido na mão.

Nós dois olhamos.

O administrador encarava, sem disfarçar, conforme se encostava à parede. Sem saber se deveria interromper. Meio apavorado de fazer isso. Nós éramos sua distração. Nós éramos a carta na manga enquanto Az roubava a esfera.

Eu sabia que Rhys ainda encarava Keir quando a ponta da língua deslizou por meu pescoço.

Arqueei as costas, as pálpebras pesadas, respiração entrecortada. Eu queimaria e queimaria e queimaria...

Acho que ele está tão enojado que poderia me dar a esfera apenas para sair daqui, disse Rhys, em minha mente, com a outra mão escorregando perigosamente para o sul. Mas havia um desejo tão crescente ali, e eu não usava nada abaixo para disfarçar as consequências se Rhys deslizasse a mão um pouco mais para cima.

Você e eu damos um show e tanto, falei, de volta. A pessoa que disse isso, com a voz rouca e abafada — eu jamais ouvira aquela voz sair de mim antes. Mesmo em minha mente.

A mão de Rhys deslizou para a parte de cima de minha coxa, e os dedos se curvaram para dentro.

Eu me esfreguei contra Rhys, tentando afastar suas mãos do que ele estava prestes a descobrir...

E me dei conta de que ele estava duro contra minhas costas.

Cada pensamento se esvaiu de minha cabeça. Apenas a adrenalina do poder permaneceu enquanto eu me esfregava ao longo daquela extensão impressionante. Rhys soltou uma risada grave e rouca.

Keir apenas observava e observava e observava. Rígido. Horrorizado. Preso ali, até que Rhys o dispensou — e ele não pensou duas vezes no motivo. Ou em para onde teria ido o mestre-espião.

Então, me virei de novo, encarei os olhos agora incandescentes de Rhysand e lhe lambi a extensão do pescoço. Vento e mar e algo cítrico e suor. Aquilo quase me destruiu.

Olhei para a frente, e Rhys passou a boca por minha nuca, logo acima da coluna, no momento em que me movi contra a ereção que estava pressionada contra mim, insistente, dominante. Exatamente quando a mão dele deslizou um pouco mais alto na parte interna de minha coxa.

Senti a concentração predatória se voltar direto para a umidade que Rhysand sentiu ali. Prova de meu corpo traidor. Os braços de Rhys ficaram tensos em volta de meu corpo, e meu rosto corou — talvez um pouco por vergonha, mas...

Rhys sentiu minha concentração se extinguindo e meu fogo se insinuando. Não tem problema, disse ele, mas aquela voz mental parecia sem fôlego. Não quer dizer nada. É apenas seu corpo reagindo...

Porque você é tão irresistível? Minha tentativa de desviar do assunto pareceu forçada, até mesmo na mente.

Mas Rhys gargalhou, provavelmente por mim.

Nós dançávamos, provocávamos e implicávamos um com o outro durante meses. E talvez fosse a reação de meu corpo, talvez fosse a reação do corpo dele, mas o gosto de Rhys ameaçava me destruir, me consumir e...

Outro macho. Eu tive as mãos de outro macho em meu corpo inteiro quando Tamlin e eu tínhamos acabado...

Lutando contra a náusea, estampei um sorriso sonolento e envolto em luxúria no rosto. No momento em que Azriel voltou para dar um aceno sutil de cabeça para Rhys. Ele tinha conseguido a esfera.

Mor deslizou direto para o mestre-espião, percorrendo com mãos senhoriais os ombros de Azriel, o peito, conforme ela dava a volta para encará-lo. A mão coberta de cicatrizes de Az envolveu a cintura exposta de Mor, apertando-a uma vez. A confirmação de que Mor precisava também.

Ela ofereceu um breve sorriso a Azriel que sem dúvida iniciaria boatos, e saiu andando para a multidão de novo. Estonteante, uma distração, deixando que pensassem que Az estivera ali o tempo todo, deixando que se perguntassem se Mor tinha estendido a Az um convite para sua cama.

Azriel apenas encarou Mor, distante e entediado. Eu me perguntei se ele seria tão perturbado por dentro quanto eu era.

Rhys flexionou o dedo para Keir, o qual, fazendo uma careta na direção da filha, se aproximou aos tropeços com meu vinho. Ele mal tinha alcançado o altar quando o poder de Rhys tomou o vinho do administrador, fazendo a taça flutuar até nós.

Rhys apoiou a taça no chão, ao lado do trono; aquela havia sido uma tarefa idiota que dera a Keir para lembrar o administrador do quanto ele era impotente, de que aquele trono não era dele.

— Devo provar para ver se tem veneno? — perguntou Rhys, enquanto dizia para minha mente: Cassian está esperando. Vá.

Rhys tinha a mesma expressão desnorteada de desejo no rosto perfeito, mas os olhos... Eu não conseguia ler as sombras nos olhos de Rhys.

Talvez... talvez, apesar de toda a provocação, depois de Amarantha, ele não quisesse ser tocado por uma mulher daquela forma. Nem mesmo gostava de ser desejado daquela forma.

Eu tinha sido torturada e atormentada, mas os horrores de Rhys haviam passado para outro nível.

— Não, meu senhor — grunhiu Keir. — Eu jamais ousaria feri-lo. — Mais uma distração, aquela conversa. Tomei isso como minha deixa para caminhar até Cassian, que estava grunhindo ao lado de uma pilastra para qualquer um que se aproximasse.

Senti os olhos da corte deslizarem para mim, senti quando farejaram delicadamente o que estava tão obviamente estampado em meu corpo. Mas, quando passei por Keir, mesmo com o Grão-Senhor em minhas costas, ele sibilou, quase baixo demais para ser ouvido:

— Vai receber o que merece, vadia.

Noite explodiu no salão.

Pessoas gritaram. E, quando a escuridão se dissipou, Keir estava de joelhos.

Rhys ainda estava sentado no trono. O rosto era uma máscara de ódio congelado.

A música parou. Mor surgiu à frente da multidão — a expressão estampava uma satisfação arrogante. Mesmo enquanto Azriel se aproximava do lado de Mor, perto demais para parecer casual.

— Peça desculpas — disse Rhys. Meu coração bateu forte ao puro comando, à ira primitiva.

Os músculos do pescoço de Keir se contraíram e suor escorreu por seu lábio.

— Eu disse — entoou Rhys, com uma calma tão terrível — peça desculpas.

O administrador gemeu. E quando outro segundo se passou...

Osso estalou. Keir gritou.

E eu observei... observei seu braço ser fraturado não em dois, não em três, mas em quatro partes diferentes, a pele ficando esticada e frouxa em todos os lugares errados...

Outro estalo. O cotovelo de Keir se desintegrou. Meu estômago se revirou.

Keir começou a chorar, as lágrimas eram em parte ódio, a julgar pela ira nos olhos enquanto me encarou, e depois virou para Rhys. Mas os lábios do administrador formaram a palavra Desculpe.

Os ossos do outro braço se partiram, e foi difícil não encolher o corpo.

Rhys sorriu quando Keir gritou de novo; depois, disse ao salão:

— Devo matá-lo por isso?

Ninguém respondeu.

Rhys riu. Ele disse ao administrador:

— Quando acordar, não deve ver um curandeiro. Se eu souber que viu... — Outro estalo, o mindinho de Keir ficou mole. O macho gritou. O calor que fervera meu sangue se tornou gelo. — Se eu souber que viu, vou cortar você em pedaços e enterrá-los onde ninguém conseguirá emendá-lo de novo.

Os olhos de Keir se arregalaram com terror verdadeiro agora. Então, como se a mão invisível de alguém o tivesse apagado, o administrador desabou no chão.

Rhys disse, para ninguém em especial:

— Jogue-o no quarto.

Dois machos que pareciam primos ou irmãos de Mor se adiantaram, recolhendo o administrador. Mor os observou, com um leve riso de escárnio, embora estivesse pálida.

Ele acordaria. Foi o que Rhys falou.

Eu me obriguei a continuar andando quando Rhys convocou outro membro da corte para dar relatórios sobre quaisquer que fossem os assuntos triviais.

Mas minha atenção permaneceu no trono atrás de mim, mesmo quando fui para o lado de Cassian, desafiando a corte a se aproximar, a brincar comigo. Ninguém o fez.

E durante a longa hora depois disso, minha concentração permaneceu em parte no Grão-Senhor cujas mãos e a boca e o corpo tinham subitamente me feito sentir desperta — queimando. Não me fez esquecer, não me fez apagar feridas ou tristezas, apenas me tornou... viva. Eu me senti como se estivesse dormindo havia um ano, dentro de um caixão de vidro, e Rhys tivesse acabado de quebrar esse caixão e me sacudido até que eu recobrasse a consciência.

O Grão-Senhor cujo poder não tinha me assustado. Cuja ira não tinha me destruído.

E agora... agora eu não sabia onde tudo isso me deixava.

Submersa até os joelhos em problemas parecia um bom lugar para começar.