Corte de Névoa e Fúria
Capítulo 5
Eu não deveria ter ficado surpresa. Não quando Rhysand gostava de tornar tudo um espetáculo. E achava que irritar Tamlin era um tipo de arte.
Mas ali estava ele.
Rhysand, Grão-Senhor da Corte Noturna, agora estava ao meu lado, e escuridão escorria dele como nanquim na água.
Rhys inclinou a cabeça, os cabelos preto-azulados oscilaram ao movimento. Aqueles olhos violeta brilharam à luz feérica dourada conforme se fixaram em Tamlin, conforme Rhysand estendia a mão para onde Tamlin e Lucien e as sentinelas deles estavam sacando as espadas, avaliando como me tirar do caminho, como derrotar Rhys...
Mas, quando aquela mão se ergueu, todos congelaram.
Ianthe, no entanto, estava recuando devagar, o rosto lívido.
— Que casamento bonitinho — disse Rhysand, enfiando as mãos nos bolsos enquanto aquelas muitas espadas permaneceram embainhadas. A multidão que restara recuava, alguns subiam em cadeiras para fugir.
Rhys me olhou de cima a baixo devagar e emitiu um estalo com a língua quando viu as luvas de seda. O que quer que estivesse se acumulando sob minha pele ficou imóvel e frio.
— Dê o fora daqui — grunhiu Tamlin, caminhando em nossa direção. Garras dispararam dos nós de seus dedos.
Rhys emitiu outro estalo com a língua.
— Ah, acho que não. Não quando preciso cobrar meu acordo com a querida Feyre.
Meu estômago pareceu vazio. Não... não, agora não.
— Se tentar quebrar o acordo, saberá o que vai acontecer — continuou Rhys, rindo um pouco da multidão que ainda tropeçava sobre si mesma para fugir. O Grão-Senhor me indicou com o queixo. — Dei três meses de liberdade a você. Poderia ao menos parecer feliz em me ver.
Eu tremia demais para dizer qualquer coisa. Os olhos de Rhys brilharam com desprezo.
A expressão sumiu quando ele olhou para Tamlin de novo.
— Vou levá-la agora.
— Não ouse — rosnou Tamlin. Atrás dele, o altar estava vazio; Ianthe tinha sumido de vez. Junto à maioria dos participantes.
— Interrompi? Achei que tivesse acabado. — Rhys me deu um sorriso que escorria veneno. Ele sabia, por meio daquele laço, de qualquer que fosse a magia entre nós, Rhys sabia que eu estava prestes a dizer não. — Pelo menos Feyre parecia pensar que sim.
Tamlin grunhiu.
— Deixe terminarmos a cerimônia...
— Sua Grã-Sacerdotisa — falou Rhys — parece achar que já acabou também.
Tamlin enrijeceu o corpo quando olhou por cima do ombro e viu o altar vazio. Quando ele nos encarou de novo, suas garras já estavam um pouco retraídas.
— Rhysand...
— Não estou a fim de negociar — declarou Rhys. — Embora eu conseguisse tirar vantagem disso, tenho certeza. — Eu me sobressaltei quando senti a carícia da mão dele no cotovelo. — Vamos.
Não me movi.
— Tamlin — sussurrei.
Tamlin deu um único passo em minha direção, o rosto dourado ficou amarelado, mas continuou concentrado em Rhys.
— Diga seu preço.
— Não se incomode — cantarolou Rhys, entrelaçando o braço no meu. Cada ponto de contato era terrível, insuportável.
Ele me levaria para a Corte Noturna, o lugar que supostamente servira de inspiração para Amarantha construir Sob a Montanha, cheio de devassidão e tortura e morte...
— Tamlin, por favor.
— Quanto drama — disse Rhysand, me puxando para perto.
Mas Tamlin não se moveu... e aquelas garras foram completamente substituídas por pele macia. Ele fixou o olhar em Rhys, e seus lábios se retraíram em um grunhido.
— Se você a ferir...
— Eu sei, eu sei — disse Rhysand, impaciente. — Vou devolvê-la em uma semana.
Não, não, Tamlin não podia fazer aquele tipo de ameaça, não quando ela significava que ele me deixaria ir. Até mesmo Lucien olhava boquiaberto para Tamlin, o rosto pálido com fúria e choque.
Rhys soltou meu cotovelo apenas para passar a mão pela minha cintura, me puxando contra a lateral do corpo conforme sussurrava ao meu ouvido:
— Segure firme.
Então, a escuridão rugiu, um vento me empurrou para um lado e para o outro, o chão pareceu cair sob mim, e o mundo tinha sumido ao meu redor. Restava apenas Rhys, e eu o odiei enquanto me segurava nele, odiei com todo meu coração...
Então, a escuridão sumiu.
Senti cheiro de jasmim primeiro; depois, vi estrelas. Um mar de estrelas brilhando além de pilares reluzentes de pedra da lua que emolduravam a ampla vista das infinitas montanhas cobertas de neve.
— Bem-vinda à Corte Noturna. — Foi tudo o que Rhys disse.
Era o lugar mais lindo que eu já vira.
Qualquer que fosse o prédio em que estávamos, ele ficava no alto das montanhas de pedras cinzentas. O corredor a nossa volta ficava exposto à natureza, nenhuma janela à vista, apenas pilastras imensas e cortinas finas oscilando àquela brisa com cheiro de jasmim.
Devia ser alguma magia, para manter o ar quente no meio do inverno. Sem falar da altitude, ou da neve que cobria as montanhas, ou dos ventos poderosos que sopravam véus de neve dos picos, como uma neblina errante.
Pequenas áreas de estar, jantar e escritórios pontuavam o corredor, separado por aquelas cortinas ou plantas exuberantes ou tapeçarias espessas espalhadas pelo piso de pedra da lua. Algumas esferas de luz tremeluziam à brisa, junto a lanternas de vidro colorido que pendiam dos arcos do teto.
Não havia um grito, um urro, nenhuma súplica no ar.
Atrás de mim, uma parede de mármore branco se erguia, interrompida ocasionalmente por portais abertos que davam para escadarias escuras. O restante da Corte Noturna devia estar além delas. Não era à toa que eu não conseguia ouvir ninguém gritar se estavam todos do lado de dentro.
— Esta é minha residência particular — disse Rhys, casualmente. A pele estava mais escura do que eu me lembrava, dourada agora, em vez de pálida.
Pálida, por ficar trancado Sob a Montanha durante cinquenta anos. Observei Rhysand, em busca de qualquer sinal das asas imensas e palmadas — aquelas com as quais ele admitira amar voar. Mas não havia. Apenas o feérico, dando um risinho para mim.
E aquela expressão familiar demais...
— Como você ousa...
Rhys riu com escárnio.
— Eu senti falta desse olhar no seu rosto. — Ele se aproximou, os movimentos felinos, aqueles olhos violeta parecendo controlados, letais. — De nada, aliás.
— Pelo quê?
Rhys parou a menos de 30 centímetros e colocou as mãos nos bolsos. A noite não parecia vazar dele ali; e Rhys parecia, apesar da perfeição, quase normal.
— Por salvar você quando foi pedido.
Enrijeci o corpo.
— Não pedi nada.
O olhar de Rhys desceu para minha mão esquerda.
Ele não deu aviso quando segurou meu braço, grunhindo baixinho, e rasgou a luva. O toque de Rhys era como um ferrete, e me encolhi, recuando um passo, mas Rhysand segurou firme até tirar as duas luvas.
— Ouvi você implorando a alguém, qualquer um, para que a resgatasse, para que a tirasse dali. Ouvi você dizer não.
— Eu não disse nada.
Rhysand virou minha mão exposta, segurando mais firme conforme examinava o olho que tinha tatuado. Ele bateu na pupila. Uma vez. Duas.
— Eu ouvi, alto e claro.
Puxei a mão de volta.
— Me leve de volta. Agora. Não queria ser levada.
Rhys deu de ombros.
— Que momento melhor para trazer você aqui? Talvez Tamlin não tenha notado que você estava prestes a rejeitá-lo diante da corte inteira... talvez agora você possa simplesmente me culpar.
— Você é um desgraçado. Deixou bem claro que eu tinha... reservas.
— Quanta gratidão, como sempre.
Tive dificuldades para tomar um único fôlego profundo.
— O que quer de mim?
— Querer? Quero que diga “obrigada”, antes de tudo. Depois, quero que tire esse vestido horrível. Você parece... — A boca de Rhys se contraiu em uma linha cruel. — Você parece exatamente a donzela com olhos de corça que ele e aquela sacerdotisa afetada querem que seja.
— Você não sabe nada sobre mim. Ou sobre nós.
Rhys me lançou um sorriso conhecedor.
— E Tamlin sabe? Ele por acaso pergunta a você por que vomita as tripas todas as noites, ou por que não pode entrar em alguns cômodos nem ver algumas cores?
Congelei. Ele podia muito bem ter me deixado nua.
— Saia da porcaria da minha cabeça.
Tamlin tinha os próprios horrores para suportar, para enfrentar.
— Igualmente. — Rhys se afastou alguns passos. — Acha que gosto de ser acordado toda noite por visões de você vomitando? Você manda tudo por aquele laço, e não gosto de ter um assento privilegiado quando estou tentando dormir.
— Canalha.
Outra risada. Mas eu não perguntaria do que ele estava falando — do laço entre nós. Não daria a Rhysand a satisfação de parecer curiosa.
— E quanto ao que mais quero de você... — Rhys indicou a casa atrás de nós. — Contarei amanhã no café da manhã. Por enquanto, limpe-se. Descanse. — Aquele ódio lampejou nos olhos de Rhysand mais uma vez quando viu o vestido, o cabelo. — Pegue as escadas à direita, um andar abaixo. Seu quarto é a primeira porta.
— Nada de cela no calabouço? — Talvez tivesse sido burrice revelar esse medo, sugerir isso a ele.
Mas Rhys deu meia-volta e ergueu as sobrancelhas.
— Você não é uma prisioneira, Feyre. Fez um acordo e o estou cobrando. Será minha convidada aqui, com os privilégios de um membro de minha casa. Nenhum de meus súditos vai tocar em você, machucá-la ou sequer pensar em lhe fazer mal aqui.
Minha língua estava seca e pesada quando falei:
— E onde podem estar esses súditos?
— Alguns moram aqui, na montanha sob nós. — Rhysand inclinou a cabeça. — Estão proibidos de colocar os pés nesta residência. Sabem que assinarão a própria sentença de morte. — Os olhos dele encontraram os meus, ríspidos e claros, como se Rhys pudesse ver o pânico, as sombras se aproximando. — Amarantha não foi muito criativa — disse ele, com ódio silencioso. — Minha corte sob esta montanha é temida há muito tempo, e ela escolheu replicá-la, violando o espaço da montanha sagrada de Prythian. Então, sim: há uma corte sob esta montanha, a corte à qual seu Tamlin agora espera que eu a esteja submetendo. Eu a governo vez ou outra, mas ela praticamente se governa.
— Quando... quando vai me levar até lá? — Se eu precisasse ir ao subterrâneo, precisasse ver aqueles tipos de horrores de novo... Eu imploraria, imploraria para que não me levasse. Não me importava quanto isso me tornaria patética. Eu tinha perdido qualquer tipo de pudor quanto a que linhas cruzar para sobreviver.
— Não levarei. — Rhys fez um gesto com os ombros. — Este é meu lar, e a corte abaixo é minha... ocupação, como vocês, mortais, chamam. Não gosto que os dois se sobreponham com frequência.
Minhas sobrancelhas se ergueram levemente.
— Vocês, mortais?
Luz das estrelas dançou pelo rosto de Rhysand.
— Deveria considerá-la algo diferente?
Um desafio. Afastei a irritação diante do interesse que novamente repuxava os cantos dos lábios de Rhys, então falei:
— E os outros habitantes de sua corte? — O território da Corte Noturna era enorme, maior que qualquer outro em Prythian. E ao nosso redor havia aquelas montanhas vazias, cobertas de neve. Nenhum sinal de cidades, aldeias, nada disso.
— Espalhados por aí, vivendo como querem. Exatamente como você está agora livre para perambular por onde quiser.
— Quero perambular para casa.
Rhys gargalhou, finalmente caminhando até a outra ponta do corredor, o qual terminava em uma varanda que se abria para as estrelas.
— Estou disposto a aceitar seu agradecimento a qualquer hora, sabe — gritou Rhys para mim, sem olhar para trás.
A cor vermelha explodiu em minha visão, e não consegui respirar rápido o bastante, não consegui pensar acima do rugido em minha mente. Em um segundo eu estava encarando Rhys... no seguinte, estava com o sapato em uma das mãos.
Atirei o sapato contra Rhys com toda a minha força.
Toda a minha força considerável e imortal.
Mal vi o sapato de seda quando ele voou pelos ares, rápido como uma estrela cadente, tão rápido que nem mesmo um Grão-senhor conseguiu detectar quando ele se aproximou...
E se chocou contra a cabeça de Rhysand.
Ele se virou, ergueu uma das mãos até a nuca e arregalou os olhos.
Eu já estava com o outro pé do sapato na mão.
Os lábios de Rhys se retesaram, exibindo os dentes.
— Eu a desafio. — Temperamento, ele devia estar de mau humor para deixar que o temperamento transparecesse tanto.
Que bom. Éramos dois.
Atirei o outro sapato direto contra a cabeça dele, com as mesmas rapidez e força do primeiro.
A mão de Rhys se ergueu, ele pegou o sapato a apenas centímetros do rosto.
Rhys sibilou e abaixou o sapato, e seus olhos encontraram os meus quando a seda se dissolveu em poeira preta reluzente no punho de Rhys. Os dedos dele se abriram, o restante das cinzas brilhantes foi soprado para o esquecimento, e Rhys observou minha mão, meu corpo, meu rosto.
— Interessante — murmurou ele, e retomou seu caminho.
Pensei em derrubar Rhys no chão e socar aquele rosto, mas não era burra. Estava em sua casa, no alto de uma montanha no meio de absolutamente nada, ao que parecia. Ninguém viria me resgatar; ninguém sequer estava ali para testemunhar meus gritos.
Então, me virei para a porta que Rhysand indicara, prosseguindo para a escada escura além dela.
Tinha quase alcançado a escada, não ousando respirar alto demais, quando uma voz feminina, alegre e interessada disse, atrás de mim, bem longe de onde Rhys tinha ido do lado oposto do corredor:
— É, isso correu bem.
O grunhido de resposta de Rhys me fez apressar o passo.
Meu quarto era... um sonho.
Depois de vasculhá-lo em busca de qualquer sinal de perigo, depois de encontrar cada saída e cada esconderijo, parei no centro para contemplar onde, exatamente, eu ficaria durante a próxima semana.
Como a área de estar acima, as janelas estavam abertas para o mundo brutal além delas — nada de vidro, nada de venezianas —, e cortinas de um tom de ametista puro oscilavam àquela brisa suave e sobrenatural. A grande cama era de uma mistura cremosa de branco e marfim, com travesseiros e cobertas e mantas para vários dias, tornada ainda mais convidativa pelo par de luminárias douradas ao lado. O armário e a penteadeira ocupavam uma parede, emoldurada por aquelas janelas sem vidro. Do outro lado do quarto, um cômodo com uma pia de porcelana e um vaso sanitário estava atrás de uma porta de madeira, mas a banheira...
A banheira.
Ocupando a outra metade do quarto, minha banheira era, na verdade, uma piscina que pendia da própria montanha. Uma piscina para eu me banhar ou me divertir. A beirada parecia desaparecer no nada, a água fluía silenciosamente pela lateral, para a noite além. Um parapeito estreito na parede adjacente estava coberto com velas gordas e tremeluzentes, cujo brilho dourava a superfície escura e vítrea e as espirais de vapor.
Aberto, arejado, aconchegante e... calmo.
Aquele quarto era digno de uma imperatriz. Com o piso de mármore, as sedas, os veludos e os detalhes elegantes, apenas uma imperatriz conseguiria pagar por ele. Eu tentava não pensar em como seria o aposento de Rhys se ele tratava os convidados daquela forma.
Convidada; não prisioneira.
Bem... o quarto provava isso.
Não me incomodei em fazer uma barricada na porta. Rhys provavelmente conseguiria voar para dentro do quarto se tivesse vontade. E eu o vira destruir a mente de um feérico sem sequer piscar. Duvidava que um pedaço de madeira mantivesse fora aquele poder horrível.
Mais uma vez, verifiquei o quarto, e meu vestido de casamento sibilou no piso de mármore morno.
Olhei para mim.
Você está ridícula.
Calor subiu por minhas bochechas e pescoço.
Isso não desculpava o que ele tinha feito. Mesmo que tivesse... me salvado — engasguei na palavra — de precisar recusar Tamlin. Precisar explicar.
Devagar, puxei os grampos e os enfeites dos cabelos cacheados, empilhando-os na penteadeira. A visão foi o suficiente para que eu trincasse os dentes, então os enfiei em uma gaveta vazia e a bati com tanta força que o espelho acima da mesa chacoalhou. Esfreguei a cabeça, que doía devido ao peso dos cachos e dos grampos que despontavam. Naquela tarde, tinha imaginado Tamlin tirando cada grampo de meus cabelos, um beijo por grampo, mas agora...
Engoli em seco para afastar a queimação na garganta.
Rhys era a menor de minhas preocupações. Tamlin vira a hesitação, mas será que entendera que eu estava prestes a dizer não? Será que Ianthe percebera? Eu precisava contar a ele. Precisava explicar que não poderia haver um casamento, não por enquanto. Talvez eu esperasse até que o laço da parceria ocorresse, até que eu tivesse certeza de que não poderia ser um erro, que... que eu era digna dele.
Talvez esperasse até que Tamlin também enfrentasse os pesadelos que o perseguiam. Relaxasse um pouco com relação às coisas. A mim. Mesmo que eu entendesse sua necessidade de proteger, aquele medo de me perder... Talvez eu devesse explicar tudo quando voltasse.
Mas... tanta gente tinha visto, tinha me visto hesitar...
Meu lábio inferior tremeu, e comecei a desabotoar o vestido; então, puxei-o pelos ombros.
Deixei que o vestido deslizasse até o chão com um suspiro da seda e do tule e das miçangas, um suflê murchando no piso de mármore, e depois dei um grande passo para fora da pilha. Até mesmo minha roupa de baixo era ridícula: retalhos brilhantes de renda com a única intenção de que Tamlin os admirasse... e então os rasgasse em fitas.
Puxei a anágua para cima, disparei para o armário e a enfiei ali dentro. Depois, tirei as roupas íntimas e as enfiei no armário também.
Minha tatuagem se destacava contra o monte de seda e renda brancas. Minha respiração ficou mais e mais rápida. Não percebi que estava chorando até que segurei o primeiro pedaço de tecido que encontrei dentro do armário — um conjunto de pijama turquesa — e enfiei os pés pela calça na altura do tornozelo; depois, puxei a camisa de manga curta combinando por cima da cabeça, e a bainha batia no alto de meu umbigo. Não me importava com o fato de que aquilo só podia ser algum tipo de moda da Corte Noturna, não me importava que o pijama era macio e quente.
Subi naquela cama grande e macia, os lençóis eram suaves e convidativos, e mal consegui puxar o ar em um fôlego uniforme o suficiente para apagar as lâmpadas de cada lado.
Mas, assim que a escuridão envolveu o quarto, meus soluços vieram com força total — arquejos fortes e entrecortados, que me faziam estremecer, fluíam pelas janelas abertas e saíam para a noite estrelada e salpicada de neve.
Rhys não estava mentindo quando disse que eu deveria me juntar a ele para o café da manhã.
Minhas antigas damas de companhia de Sob a Montanha surgiram à porta logo depois do alvorecer, e eu talvez não tivesse reconhecido as belas gêmeas de cabelos pretos caso elas não tivessem agido como se me conhecessem. Eu jamais as vira como qualquer coisa diferente de sombras, os rostos sempre escondidos em noite impenetrável. Mas ali — ou talvez sem Amarantha — elas eram totalmente corpóreas.
Nuala e Cerridwen eram seus nomes, e me perguntei se algum dia tinham me dito. Se eu estava perdida demais Sob a Montanha para sequer me importar.
A batida suave das duas me acordou com um sobressalto... Não que eu tivesse dormido muito à noite. Por um segundo, me perguntei por que a cama parecia muito mais macia, por que montanhas se estendiam ao longe, e não gramado e colinas primaveris... então, tudo retornou. Com uma dor de cabeça latejante e incessante.
Depois da segunda batida paciente, seguida por uma explicação abafada do outro lado da porta sobre quem elas eram, saí da cama confusa para deixar as duas entrarem. E depois de um cumprimento terrivelmente desconfortável, elas me informaram que o café da manhã seria servido em trinta minutos e que eu deveria tomar banho e me vestir.
Não me incomodei em perguntar se Rhys estava por trás da última ordem, ou se era a recomendação delas com base no quanto eu sem dúvida parecia deplorável, mas as duas dispuseram algumas roupas na cama antes de me deixarem para que eu me limpasse com privacidade.
Fiquei tentada a ficar no suntuoso calor da banheira durante o resto do dia, mas um puxão suave e eternamente interessado penetrou minha dor de cabeça. Eu conhecia esse puxão — fora chamada por ele antes, naquelas horas antes da queda de Amarantha.
Afundei até o pescoço na água, verificando o céu limpo de inverno, o vento fustigante que açoitava a neve daqueles picos próximos... Nenhum sinal dele, nenhum bater de asas. Mas o puxão se manifestou de novo em minha mente, meu estômago; uma convocação. Como o sino de um criado.
Xingando-o em silêncio, limpei o corpo e coloquei as roupas que as gêmeas haviam deixado.
E agora, caminhando pelo andar superior ensolarado conforme seguia cegamente a fonte daquele puxão insuportável, os sapatos de seda magenta quase silenciosos no piso de pedra da lua, tive vontade de arrancar as roupas, somente devido ao fato de que pertenciam àquele lugar, a ele.
A calça cor de pêssego de cintura alta era larga e oscilante, apertada nos tornozelos e com bainha de veludo de um dourado forte. As mangas longas da camisa combinando eram feitas de organza, também apertadas na altura dos pulsos, e a própria blusa chegava apenas à altura do umbigo, revelando uma faixa de pele conforme eu andava.
Confortável, fácil de me mover — de correr. Feminino. Exótico. Tão fino que, a não ser que Rhys planejasse me atormentar me atirando ao deserto de inverno a nossa volta, eu poderia presumir que não deixaria os limites de qualquer que fosse a magia que mantinha o lugar tão morno.
Pelo menos a tatuagem, visível pela manga transparente, não ficaria deslocada ali. Mas... as roupas ainda eram parte da corte de Rhys.
E sem dúvida eram parte de algum jogo que ele pretendia fazer comigo.
No final do nível superior, uma pequena mesa de vidro reluzia como mercúrio no coração de uma varanda de pedra, montada com três cadeiras e posta com frutas, sucos, pães e carnes de café da manhã. E em uma daquelas cadeiras... Embora Rhys encarasse a vista deslumbrante, as montanhas nevadas quase ofuscantes ao sol, eu sabia que ele sentira minha chegada assim que terminei de subir a escada do outro lado do corredor. Talvez desde que eu tinha acordado, se aquele puxão era algum indicativo.
Parei entre as duas últimas pilastras, avaliando o Grão-Senhor que estava à mesa do café e a vista que ele observava.
— Não sou um cão para ser convocada — falei, como cumprimento.
Devagar, Rhys olhou por cima do ombro. Aqueles olhos violeta estavam vibrantes à luz, e fechei os dedos em punhos conforme seu olhar me percorreu de cima a baixo, e depois de volta para cima. Ele franziu a testa para o que quer que tivesse achado que faltava.
— Não queria que se perdesse — respondeu Rhys, inexpressivo.
Minha cabeça latejava, e olhei para a chaleira prateada que fumegava no centro da mesa. Uma xícara de chá...
— Achei que seria sempre escuro aqui — comentei, pelo menos para não parecer tão desesperada por aquele chá salvador de manhã tão cedo.
— Somos uma das três Cortes Solares — respondeu Rhys, indicando para que eu me sentasse com um gesto gracioso do pulso. — Nossas noites são muito mais belas e nossos pores do sol e alvoreceres são exóticos, mas aderimos às leis da natureza.
Sentei na cadeira estofada diante de Rhys. A túnica do feérico estava desabotoada no pescoço, revelando um pouco do peito bronzeado por baixo.
— E as outras escolhem não aderir?
— A natureza das Cortes Sazonais — falou Rhys — está ligada a seus Grão-Senhores cuja magia e vontade os mantém em primavera eterna ou inverno, ou outono ou verão. Sempre foi assim, algum tipo de estagnação estranha. Mas as Cortes Solares, Diurna, Crepuscular e Noturna, são de uma natureza mais... simbólica. Podemos ser poderosos, mas nem mesmo nós podemos alterar o caminho ou a força do sol. Chá?
A luz do sol dançava ao longo da curva da chaleira prateada. Controlei o aceno de cabeça ansioso e fiz um gesto contido com o queixo.
— Mas vai descobrir — continuou Rhysand, servindo uma xícara para mim — que nossas noites são mais espetaculares, tão espetaculares que alguns em meu território até mesmo acordam com o pôr do sol e vão deitar ao alvorecer, apenas para viver sob as estrelas.
Coloquei um pouco de leite no chá, observando o claro e o escuro se misturarem.
— Por que está tão quente aqui quando o inverno está a toda lá fora?
— Magia.
— Óbvio. — Apoiei a colher de chá e bebi, quase suspirando diante da fluidez de calor e sabor intenso e fumegante. — Mas por quê?
Rhys observou o vento que fustigava os picos.
— Você aquece uma casa no inverno, por que não deveríamos aquecer este lugar também? Admito que não sei por que meus predecessores construíram um palácio digno da Corte Estival no meio de uma cadeia montanhosa que, na melhor das hipóteses, é levemente quente, mas quem sou eu para questionar?
Tomei mais alguns goles, aquela dor de cabeça já estava diminuindo, e ousei colocar no prato algumas frutas de uma tigela de vidro próxima.
Rhys observou cada movimento. Então, ele disse, baixinho:
— Você perdeu peso.
— Você vasculha minha mente sempre que quer — argumentei, espetando um pedaço de melão com o garfo. — Não vejo por que está surpreso com isso.
O olhar de Rhys não se suavizou, embora aquele sorriso, de novo, brincava na boca sensual, sem dúvida a máscara preferida do Grão-Senhor.
— Faço isso apenas ocasionalmente. Não posso evitar se você envia coisas pelo laço.
Pensei em me recusar a perguntar, como tinha feito na noite anterior, mas...
— Como funciona... esse laço que lhe permite espiar dentro de minha mente?
Rhys tomou um gole do próprio chá.
— Pense no laço do acordo como uma ponte entre nós, e de cada lado está uma porta para nossas respectivas mentes. Um escudo. Meus talentos natos permitem que eu passe pelos escudos mentais de qualquer um que eu queira, com ou sem essa ponte, a não ser que a pessoa seja muito, muito forte, ou tenha treinado exaustivamente para manter esses escudos firmes. Como humana, os portões para sua mente estavam escancarados para que eu entrasse passeando. Como feérica... — Um pequeno estremecimento. — Às vezes você, sem querer, ergue um escudo, às vezes, quando a emoção parece correr solta, esse escudo some. E às vezes, quando esses escudos estão baixos, você poderia muito bem estar parada aos portões da própria mente, gritando seus pensamentos para mim através da ponte. Às vezes eu os ouço; às vezes, não.
Fiz uma careta, segurando o garfo com mais força.
— E com que frequência você simplesmente vasculha minha mente quando meus escudos estão baixos?
Todo o interesse sumiu do rosto de Rhys.
— Quando não sei dizer se seus pesadelos são ameaças verdadeiras ou imaginárias. Quando você está prestes a se casar e, silenciosamente, implora a qualquer um para que a ajude. Somente quando você abaixa os escudos mentais e, sem saber, berra essas coisas pela ponte. E para responder à pergunta antes que você a faça, sim. Mesmo com os escudos erguidos, eu poderia passar por eles se quisesse. Você poderia treinar, no entanto, aprender a se proteger de alguém como eu, mesmo com o laço que une nossas mentes e minhas habilidades.
Ignorei a oferta. Concordar em fazer qualquer coisa com Rhysand parecia permanente demais, conivente demais com o acordo entre nós.
— O que quer comigo? Você disse que me contaria aqui. Então, conte.
Rhys se recostou na cadeira, cruzando os braços poderosos que nem mesmo as roupas finas conseguiam esconder.
— Esta semana? Quero que aprenda a ler.