Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 33 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 31

– Não dance muito na ponta dos pés — disse Cassian para mim quatro dias depois, enquanto passávamos a habitual tarde morna no ringue de treino. — Pés plantados, adagas em punho. Olhos nos meus. Se estivesse em um campo de batalha, estaria morta com aquele movimento.

Amren riu com escárnio enquanto limpava as unhas sentada em uma espreguiçadeira.

— Ela ouviu das primeiras dez vezes que você falou, Cassian.

— Continue falando, Amren, e vou arrastá-la para o ringue e ver o quanto realmente tem praticado.

Amren apenas continuou limpando as unhas; com um osso minúsculo, percebi.

— Me toque, Cassian, e vou arrancar sua parte preferida. Por menor que seja.

Ele soltou uma risada grave. De pé entre os dois no ringue de treino no alto da Casa do Vento, uma adaga em cada mão, suor escorrendo por meu corpo, me perguntei se deveria encontrar uma forma de fugir. Talvez atravessar... embora não tivesse conseguido fazer isso de novo desde aquela manhã no reino mortal, apesar de meus esforços silenciosos na privacidade do quarto.

Quatro dias daquilo: treinando com Cassian, então trabalhando com Rhys em tentar conjurar chamas ou escuridão. Não era surpresa que eu tivesse progredido mais com o primeiro.

Ainda não tinham chegado notícias da Corte Estival. Ou da Corte Primaveril, com relação a minha carta. Eu não sabia se aquilo era bom. Azriel continuou com sua tentativa de se infiltrar nas cortes das rainhas humanas, a rede de espiões agora buscava uma posição para entrar. O fato de ele ainda não ter conseguido o deixara mais silencioso que o normal... mais frio.

Os olhos prateados de Amren se ergueram das unhas.

— Que bom. Pode brincar com ela.

— Brincar com quem? — indagou Mor, saindo das sombras do vão das escadas.

As narinas de Cassian se dilataram.

— Aonde foi na outra noite? — perguntou ele a Mor, sem sequer um aceno de cumprimento. — Não a vi sair do Rita’s. — O salão que frequentavam para beber e festejar.

Eles tinham me arrastado para fora duas noites antes, e passei a maior parte do tempo sentada na mesa, me demorando com o vinho, falando por cima da música com Azriel, que chegara com vontade de ficar remoendo suas preocupações, mas relutantemente me acompanhou em ver Rhys fazer a corte no bar. Fêmeas e machos seguiam Rhysand pelo salão... e o encantador de sombras e eu fizemos um jogo, apostando em quem, exatamente, teria coragem de convidar o Grão-Senhor até a casa.

Não foi surpresa que Az tivesse vencido todas as partidas. Mas ao menos estava sorrindo no fim da noite... para a felicidade de Mor quando ela voltou cambaleando para nossa mesa, a fim de entornar outra bebida antes de deslizar de volta à pista de dança.

Rhys não aceitou nenhuma das ofertas feitas, não importava o quanto fossem belos, o quanto sorrissem e gargalhassem. E as recusas eram educadas; firmes, mas educadas.

Será que tinha estado com alguém desde Amarantha? Será que queria outra pessoa em sua cama depois de Amarantha? Mesmo o vinho não me dera coragem para perguntar a Azriel a respeito.

Mor, ao que parecia, ia ao Rita’s mais que qualquer um — praticamente morava ali, na verdade. Ela deu de ombros diante da pergunta de Cassian, e outra espreguiçadeira como a de Amren surgiu.

— Eu só... saí — respondeu ela, sentando-se.

— Com quem? — insistiu Cassian.

— Da última vez que verifiquei — disse Mor, recostando-se na cadeira — não recebia ordens de você, Cassian. Ou me reportava a você. Então, onde eu estava e com quem estava não é da porcaria de sua conta.

— Também não contou a Azriel.

Parei, sopesando aquelas palavras, os ombros rígidos de Cassian. Sim, havia alguma tensão entre ele e Mor que resultara naquela implicância, mas... talvez... talvez Cassian aceitasse o papel de amortecedor não para mantê-los separados, mas para evitar que o encantador de sombras se ferisse. Que se tornasse notícia velha, como eu o tinha chamado.

Cassian finalmente se lembrou de que eu estava parada diante dele, reparou no olhar de compreensão em meu rosto e me deu um de aviso em troca. Justo.

Dei de ombros e tomei um momento para apoiar as adagas e recuperar o fôlego. Por um segundo, desejei que Nestha estivesse ali, apenas para ver os dois se bicarem. Não tínhamos ouvido nada de minhas irmãs ou das rainhas mortais. Imaginei quando mandaríamos outra carta, ou tentaríamos outro caminho.

— Por que, exatamente — disse Cassian a Amren e Mor, sem sequer se dar o trabalho de tentar soar agradável —, vocês, damas, estão aqui?

Mor fechou os olhos quando inclinou a cabeça para trás, deixando o sol bater no rosto dourado com a mesma irreverência da qual Cassian talvez tentasse proteger Azriel; e a própria Mor talvez tentasse proteger Azriel de si mesma também.

— Rhys virá em alguns momentos para nos dar notícias, aparentemente. Amren não lhe disse?

— Esqueci — comentou Amren, ainda limpando as unhas. — Estava me divertindo demais vendo Feyre fugir das técnicas infalíveis de Cassian para conseguir com que as pessoas façam o que ele quer.

As sobrancelhas de Cassian se ergueram.

— Você está aqui há uma hora.

— Ops! — exclamou Amren.

Cassian ergueu as mãos.

— Levante da cadeira e pague vinte flexões...

Um grunhido cruel e sobrenatural o interrompeu.

Mas Rhys desceu as escadas e não pude decidir se deveria me sentir aliviada ou desapontada porque a luta Cassian versus Amren foi tão subitamente interrompida.

Ele estava com as roupas finas, não o couro de luta, as asas fora de vista. Rhys olhou para todos, para mim, para as adagas que eu tinha deixado na terra, e depois disse:

— Desculpe interromper quando as coisas ficavam interessantes.

— Felizmente, para as bolas de Cassian — disse Amren, aninhando-se de volta na espreguiçadeira —, você chegou na hora certa.

Cassian deu um grunhido fraco para ela.

Rhys gargalhou e disse para nenhum de nós em especial:

— Prontos para tirar umas férias de verão?

— A Corte Estival convidou você? — Quis saber Mor.

— É claro que sim. Feyre, Amren e eu vamos amanhã.

Apenas nós três? Cassian pareceu pensar o mesmo, as asas farfalharam quando cruzou os braços e encarou Rhys.

— A Corte Estival é cheia de tolos esquentados e canalhas arrogantes — avisou ele. — Eu deveria ir junto.

— Você se encaixaria direitinho — cantarolou Amren. — É uma pena que não vai mesmo assim.

Cassian apontou o dedo para ela.

— Cuidado, Amren.

Ela exibiu os dentes em um sorriso malicioso.

— Acredite em mim, prefiro não ir também.

Fechei a boca para conter um sorriso ou uma careta, não sabia qual.

Rhys esfregou as têmporas.

— Cassian, considerando o fato de que da última vez que visitou, não acabou bem...

— Eu destruí um prédio...

— E — interrompeu Rhys. — Considerando que morrem de medo da doce Amren, ela é a escolha mais sábia.

Eu não sabia se havia alguém vivo que não morria de medo de Amren.

— Poderia facilmente ser uma armadilha — insistiu Cassian. — Quem pode dizer que o atraso na resposta não foi porque estão contatando nossos inimigos para fazer uma emboscada?

— É por isso também que Amren vai — explicou Rhys, simplesmente.

Amren franzia a testa; entediada e irritada.

Rhys continuou, casualmente demais:

— Há também muito tesouro que pode ser encontrado na Corte Estival. Se o Livro estiver escondido, Amren, você pode encontrar outros objetos de que gostará.

— Merda! — xingou Cassian, erguendo as mãos de novo. — Sério, Rhys? Já é ruim o bastante que vamos furtar deles, mas roubar descaradamente...

— Rhysand tem razão — ponderou Amren. — O Grão-Senhor deles é jovem e inexperiente. Duvido que tenha tido muito tempo para catalogar o tesouro herdado desde que foi nomeado Sob a Montanha. Duvido que saiba que tem algo faltando. Muito bem, Rhysand... Estou dentro.

Não era mesmo melhor que um dragão cuspidor de fogo guardando o tesouro. Mor me lançou um olhar secreto, sutil, que comunicava o mesmo, e engoli uma risada.

Cassian começou a protestar de novo, mas Rhys disse, baixinho:

— Vou precisar de você, não de Amren, no reino humano. A Corte Estival o baniu pela eternidade, e, embora sua presença servisse como uma boa distração enquanto Feyre faz o que precisa, poderia levar a mais problemas do que vale a pena.

Enrijeci o corpo. O que eu precisava fazer... ou seja, rastrear aquele Livro dos Sopros e roubá-lo. Feyre, Quebradora da Maldição... e ladra.

— Apenas fique calmo, Cassian — disse Amren, com os olhos um pouco distantes, pois sem dúvida imaginava o tesouro que poderia roubar da Corte Estival. — Ficaremos bem sem sua arrogância e sem que saia grunhindo para todos. O Grão-Senhor deles deve um favor a Rhys por lhe ter salvado a vida Sob a Montanha, e por ter guardado seus segredos.

As asas de Cassian estremeceram, mas Mor se intrometeu:

— E o Grão-Senhor provavelmente também quer saber qual é nossa posição no conflito iminente.

As asas de Cassian se acalmaram de novo. Ele inclinou o queixo para mim.

— Feyre, no entanto... Uma coisa é tê-la aqui, mesmo quando todos sabem. Outra coisa é levá-la para uma corte diferente e apresentá-la como um membro da sua.

A mensagem que aquilo mandaria para Tamlin. Como se minha carta não bastasse.

Mas Rhys tinha terminado. Ele inclinou a cabeça para Amren e caminhou até o portal em arco. Cassian avançou um passo, mas Mor ergueu a mão.

— Esqueça — murmurou ela. Cassian a olhou com raiva, mas obedeceu.

Tomei isso como uma chance de seguir Rhys, a escuridão quente dentro da Casa do Vento me cegava. Meus olhos feéricos se ajustaram rapidamente, mas, durante os primeiros passos pelo estreito corredor, segui Rhys apenas pela memória.

— Mais alguma armadilha da qual eu deva saber antes de partirmos amanhã? — perguntei às costas dele.

Rhys olhou por cima do ombro, parando no alto da plataforma das escadas.

— E aqui estava eu, pensando que seus bilhetes na outra noite indicavam que me perdoara.

Prestei atenção àquele meio sorriso, ao peito que eu talvez tivesse sugerido que lamberia, e para o qual evitara olhar durante os últimos quatro dias, e parei a uma distância segura.

— Era de se pensar que um Grão-Senhor teria coisas mais importantes a fazer que passar bilhetinhos de um lado para outro à noite.

— Tenho coisas mais importantes a fazer — ronronou Rhys. — Mas acho que sou incapaz de resistir à tentação. Da mesma forma que você não pode resistir a me observar sempre que saímos. Tão ciumenta.

Minha boca ficou um pouco seca. Mas... flertar com ele, lutar com ele... Era fácil. Divertido.

Talvez eu merecesse aquelas duas coisas.

Então, encurtei a distância entre nós, passei suavemente por Rhys e falei:

— Você não consegue ficar longe de mim desde o Calanmai, ao que parece.

Algo ondulou nos olhos de Rhysand, algo que não identifiquei, mas ele deu um peteleco em meu nariz... com tanta força que eu sibilei e bati em sua mão.

— Mal posso esperar para ver o que essa sua língua afiada pode fazer na Corte Estival — disse Rhys, com o olhar fixo em minha boca, e se dissipou na sombra.