Corte de Névoa e Fúria
Capítulo 38
Amren levou o Livro para onde quer que fosse sua casa em Velaris, deixando nós cinco para comer. Enquanto Rhys contava sobre nossa visita à Corte Estival, consegui tomar meu café da manhã antes que a exaustão de ter ficado acordada a noite inteira, de ter destrancado aquelas portas e de ter chegado muito perto de morrer me atingisse. Quando acordei, a casa parecia vazia, o sol da tarde estava morno e dourado, e o dia, tão incomumente quente e lindo que levei um livro para o pequeno jardim nos fundos.
O sol, por fim, mudou, sombreando o jardim até esfriar de novo. Ainda não estava muito disposta a desistir de seus raios; então, subi os três andares até o pátio do telhado para vê-lo se pôr.
É claro — é claro — que Rhysand já estava sentado em uma das cadeiras de ferro pintadas de branco, com um dos braços jogado para trás enquanto a outra mão segurava casualmente um copo com algum tipo de bebida, e um decantador de cristal cheio da mesma estava na mesa diante de Rhys.
As asas estavam abertas às costas, até o piso de azulejo, e me perguntei se Rhys estaria aproveitando o dia incomumente ameno para banhá-las ao sol; depois, pigarreei.
— Eu sei que você está aí — disse Rhys, sem dar as costas à vista do rio Sidra e do mar vermelho-dourado além.
Fiz uma expressão de raiva.
— Se quer ficar sozinho, posso ir.
Rhys apontou com o queixo na direção da cadeira vazia à mesa de ferro. Não era um convite entusiasmado, mas... eu me sentei.
Havia uma caixa de madeira ao lado do decantador; e talvez eu tivesse pensado que era algum ingrediente para o que quer que Rhys estivesse bebendo, caso não tivesse notado a adaga de madrepérola na tampa.
Se não tivesse jurado que sentia o cheiro do mar e do calor e do solo que eram de Tarquin.
— O que é isso?
Rhys esvaziou o copo, ergueu a mão — o decantador flutuou até ele em um vento fantasma — e se serviu de mais um dedo antes de falar.
— Debati por um bom tempo, sabe — revelou Rhys, encarando sua cidade. — Se deveria simplesmente pedir o Livro a Tarquin. Mas achei que ele poderia muito bem dizer que não, e em seguida vender a informação para quem fizesse o lance mais alto. Achei que pudesse dizer que sim, e ainda acabaria com pessoas demais a par de nossos planos e com o potencial para que essa informação se espalhasse. E, no fim das contas, precisava que o motivo de nossa missão permanecesse em segredo pelo máximo de tempo possível. — Rhys bebeu de novo e passou uma das mãos pelos cabelos preto-azulados. — Não gostei de roubar dele. Não gostei de ferir os guardas de Tarquin. Não gostei de sumir sem dizer uma palavra, quando, com ou sem ambição, ele realmente queria uma aliança. Talvez até mesmo amizade. Nenhum outro Grão-Senhor sequer se deu o trabalho, ou ousou. Mas acho que Tarquin queria ser meu amigo.
Olhei de Rhysand para a caixa e repeti:
— O que é isso?
— Abra.
Cuidadosamente, abri a tampa.
Dentro, aninhados em uma cama de veludo branco, três rubis brilharam, cada um do tamanho de um ovo de galinha. Cada um tão puro e de cor tão intensa que pareciam feitos de...
— Rubis de sangue — explicou Rhys.
Afastei os dedos que estavam se aproximando das pedras.
— Na Corte Estival, quando um insulto grave é cometido, eles mandam um rubi de sangue ao ofensor. Uma declaração oficial de que há um preço sobre sua cabeça, de que agora são caçados e, em breve, estarão mortos. A caixa chegou à Corte dos Pesadelos há uma hora.
Pela Mãe.
— Presumo que um desses rubis tenha meu nome. E o seu. E o de Amren.
A tampa se fechou com um vento sombrio.
— Cometi um erro — disse ele. Abri a boca, mas Rhysand continuou: — Eu deveria ter apagado as mentes dos guardas e deixado que continuassem. Em vez disso, eu os apaguei. Faz um tempo desde que precisei... me defender fisicamente daquele jeito, e estava tão concentrado no treinamento illyriano que esqueci o outro arsenal a minha disposição. Eles provavelmente acordaram e foram direto para Tarquin.
— Mesmo assim, ele logo teria notado que o livro sumira.
— Poderíamos ter negado o roubo e dito que havia sido uma coincidência. — Rhysand esvaziou o copo. — Cometi um erro.
— Não é o fim do mundo se fizer isso de vez em quando.
— Você acaba de saber que é agora inimiga pública número um da Corte Estival e não vê problema nisso?
— Vejo. Mas não o culpo.
Rhys expirou, encarou a cidade conforme o calor do dia sucumbia ao frio do inverno mais uma vez. Aquilo não importava para ele.
— Talvez possa devolver o Livro depois que neutralizar o Caldeirão... pedir desculpas.
Rhys riu com escárnio.
— Não. Amren vai ficar com aquele livro por quanto tempo precisar.
— Então, compense Tarquin de alguma forma. Obviamente, você queria ser amigo dele tanto quanto Tarquin queria ser seu. Não estaria tão chateado se não fosse verdade.
— Não estou chateado. Estou com raiva.
— Semântica.
Rhys me deu um meio sorriso.
— Disputas como a que acabamos de iniciar podem durar séculos, milênios. Se esse é o custo de impedir essa guerra, de ajudar Amren... eu o pago.
Ele pagaria com tudo que tinha, percebi. Com qualquer esperança que algum dia teve para si, com a própria felicidade.
— Os outros sabem... sobre os rubis de sangue?
— Azriel foi quem os trouxe para mim. Estou debatendo como contar a Amren.
— Por quê?
Escuridão preencheu aqueles lindos olhos.
— Porque a resposta dela seria ir até Adriata e apagar a cidade do mapa.
Estremeci.
— Exatamente — declarou Rhys.
Contemplei Velaris com ele, ouvindo os sons do dia se encerrando... e da noite iniciando. Adriata parecia rudimentar em comparação.
— Entendo — falei, esfregando as mãos frias para aquecê-las — por que fez o que precisou fazer para proteger esta cidade. — Imaginar a destruição que tinha sido infligida a Adriata ali, em Velaris, fez meu sangue gelar. Os olhos de Rhys desviaram para mim, cautelosos e inexpressivos. Engoli em seco. — E entendo por que faria de tudo para mantê-la a salvo durante os tempos que virão.
— E seu argumento é?
Um dia ruim; aquele era um dia ruim para Rhys, percebi. Não mostrei raiva diante de seu tom ríspido.
— Enfrente essa guerra, Rhysand, e depois se preocupe com Tarquin e os rubis de sangue. Anule o Caldeirão, impeça o rei de destruir a muralha e escravizar o reino humano de novo; pensaremos no resto depois.
— Parece que você planeja ficar aqui um tempo. — Uma pergunta casual, mas carregada.
— Posso encontrar minha própria residência se é a isso que está se referindo. Talvez use aquele salário generoso para conseguir algo exuberante para mim.
Vamos lá. Pisque para mim. Brinque comigo. Apenas... tire essa expressão do rosto.
Rhys apenas disse:
— Poupe seu salário. Seu nome já foi acrescentado à lista daqueles aprovados para usar meu crédito residencial. Compre o que quiser. Compre uma casa inteira se quiser.
Trinquei os dentes, e talvez fosse pânico ou desespero, mas falei, em tom doce:
— Vi uma loja bonitinha na outra margem do Sidra outro dia. Vendia o que pareciam ser muitas coisinhas de renda. Posso comprar isso com seu crédito também, ou sai de meus fundos pessoais?
Aqueles olhos violeta se voltaram para mim de novo.
— Não estou a fim.
Não havia humor, nenhuma malícia. Eu poderia me aquecer em uma lareira dentro da casa, mas...
Rhysand tinha ficado. E lutado por mim.
Semana após semana, ele lutou por mim, mesmo quando eu não tinha reação, mesmo quando mal conseguia falar, me importar se vivia ou morria ou comia ou passava fome. Não podia deixar Rhys com seus pensamentos sombrios, com a própria culpa. Rhys os suportara sozinhos por muito tempo.
Então, eu o encarei de volta.
— Nunca soube que illyrianos eram bêbados tão deprimidos.
— Não estou bêbado, estou bebendo — argumentou ele, exibindo um pouco os dentes.
— De novo, semântica. — Eu me recostei na cadeira, desejando ter levado um casaco. — Talvez devesse ter dormido com Cresseida no fim das contas, para que vocês dois pudessem ficar tristes e solitários juntos.
— Então, você pode ter tantos dias ruins quanto quiser, mas eu não tenho direito a algumas horas?
— Ah, pode levar o tempo que quiser para se deprimir. Eu o convidaria para ir comigo comprar aquelas rendinhas íntimas, mas... fique sentado aí para sempre se precisar.
Rhys não respondeu.
Continuei:
— Talvez eu mande algumas a Tarquin, com uma oferta de usá-las para ele se nos perdoar. Talvez pegue esses rubis de sangue de volta.
A boca de Rhys levemente, muito levemente se repuxou nos cantos.
— Tarquin veria isso como uma provocação.
— Eu dei a ele alguns sorrisos, e ele me entregou uma herança de família. Aposto que me daria as chaves do território se eu aparecesse naquelas roupas íntimas.
— Alguém aqui se acha muito.
— Por que não deveria? Você parece ter dificuldades para não me olhar dia e noite.
Ali estava: um grão de verdade e uma pergunta.
— Devo negar — começou Rhys, mas algo se iluminou naqueles olhos — que a acho atraente?
— Você jamais disse isso.
— Já disse muitas vezes, e com muita frequência, o quanto a acho atraente.
Dei de ombros, mesmo ao pensar em todas aquelas vezes, quando as ignorara como elogios provocadores, nada mais.
— Bem, talvez devesse fazer um trabalho melhor.
O brilho nos olhos de Rhysand se tornou algo predatório. Adrenalina percorreu meu corpo quando ele apoiou os braços fortes na mesa e ronronou:
— Isso é um desafio, Feyre?
Encarei aquele olhar predatório... o olhar do macho mais poderoso de Prythian.
— Será?
As pupilas de Rhys se dilataram. A tristeza silenciosa sumira, com a culpa que o isolava. Apenas aquela concentração letal... em mim. Em minha boca. No movimento da minha garganta enquanto eu tentava manter a respiração equilibrada. Ele falou, devagar, em voz baixa:
— Por que não vamos até aquela loja agora mesmo, Feyre, para que você possa experimentar aquelas coisinhas de renda, para que eu possa ajudá-la a escolher uma para mandar a Tarquin.
Meus dedos dos pés se contraíram dentro dos chinelos forrados de lã. Estávamos prestes a cruzar juntos uma fronteira perigosa. O vento noturno beijado pelo frio farfalhou nossos cabelos.
Mas o olhar de Rhys se voltou para o céu — e, um segundo depois, Azriel disparou das nuvens como uma lança de escuridão.
Eu não tinha certeza se deveria me sentir aliviada, mas saí antes que Azriel pudesse pousar, dando ao Grão-Senhor e ao mestre-espião alguma privacidade.
Assim que entrei na escuridão da escada, o calor se esvaiu de dentro de mim, deixando uma sensação fria e nauseante em meu estômago.
Uma coisa era flertar, e outra era... aquilo.
Eu amara Tamlin. Amara tanto que não me importei de me destruir por isso — por ele. Então, tudo aconteceu, e agora eu estava ali, e... poderia muito bem ter ido àquela lojinha bonita com Rhysand.
Quase conseguia ver o que aconteceria:
As moças da loja teriam sido educadas — um pouco nervosas — e nos dariam privacidade enquanto Rhys se sentava no sofá nos fundos da loja e eu iria para trás da cabine fechada pela cortina a fim de experimentar o conjunto de renda vermelha que já vira três vezes. E, quando eu saísse da cabine, reunindo mais coragem que sentia, Rhys teria me olhado de cima a baixo. Duas vezes.
E teria continuado me olhando enquanto informava as moças da loja que o estabelecimento estava fechado e que elas deveriam voltar no dia seguinte, e nós deixaríamos a conta no balcão.
Eu teria ficado ali, nua, exceto pelos retalhos de renda vermelha, enquanto ouvíamos os ruídos discretos e rápidos das vendedoras fechando a loja e partindo.
E Rhysand teria me olhado o tempo inteiro: para meus seios, visíveis pela renda; para minha barriga reta, agora finalmente parecendo menos faminta e dura. Para a curva de meus quadris e coxas — para o ponto entre elas. Então, Rhysand me encararia de novo e flexionaria um dedo com um único murmúrio:
— Venha cá.
E eu teria caminhado até ele, ciente de cada passo, conforme, por fim, parasse diante de onde ele estava. Entre as pernas de Rhys.
As mãos dele deslizariam por minha cintura, os calos arranhariam minha pele. Então, Rhys me puxaria mais para perto antes de se inclinar para roçar os lábios em meu umbigo, a língua...
Xinguei quando me choquei contra a pilastra na plataforma da escada.
E pisquei; pisquei quando o mundo retornou e percebi...
Olhei com raiva para o olho tatuado em minha mão e sibilei, com a língua e com aquela voz silenciosa dentro de nossa ligação:
— Canalha.
No fundo da mente, uma voz masculina sensual riu uma risada como a meia-noite.
Meu rosto queimava, eu xingava Rhys pela visão que ele passara por meus escudos mentais, e os reforcei quando entrei no quarto. E tomei um banho muito, muito frio.
Comi com Mor naquela noite, ao lado do fogo crepitante na sala de jantar do solar, Rhys e os demais estavam em algum outro lugar, e, quando Mor finalmente perguntou por que eu fazia cara feia toda vez que o nome de Rhysand era mencionado, contei a ela sobre a visão que Rhys me mandara. Mor riu até soltar vinho pelo nariz e, quando fiz cara feia para ela, me disse que eu deveria me sentir orgulhosa: quando Rhys estava pronto para ficar deprimido, apenas um milagre o tirava daquilo.
Tentei ignorar a leve sensação de triunfo — mesmo quando me deitei.
Estava apenas começando a cair no sono, bem depois das 2 horas da manhã, pois conversara com Mor no sofá da sala durante horas e horas sobre todos os lugares ótimos e terríveis que ela vira, quando a casa soltou um gemido.
Como se a própria madeira estivesse sento dobrada, a casa começou a gemer e a estremecer; as lâmpadas de vidro colorido em meu quarto tilintaram.
Eu me sentei, sobressaltada, virando-me para a janela aberta. Céus limpos, nada...
Nada além de escuridão entrando em meu quarto pela porta do corredor.
Eu conhecia aquela escuridão. Uma semente vivia em mim.
Ela escorria para dentro pelas rachaduras na porta, como uma enchente. A casa estremeceu de novo.
Disparei da cama, escancarei a porta, e a escuridão passou por mim em um vento fantasma, cheia de estrelas e bater de asas e... dor.
Tanta dor, e desespero, e culpa, e medo.
Disparei para o corredor, completamente cega na escuridão impenetrável. Mas havia um fio entre nós, e eu o segui — até onde sabia que o quarto dele ficava. Procurei a maçaneta, então...
Mais noite e estrelas e vento saíram, meus cabelos voando ao meu redor, e ergui um braço para proteger o rosto quando entrei no quarto.
— Rhysand.
Nenhuma resposta. Mas eu conseguia senti-lo ali, sentir aquela linha da vida entre nós.
Segui a linha até minhas canelas baterem no que só podia ser a cama dele.
— Rhysand — chamei, por cima do vento e da escuridão. A casa estremeceu, as tábuas do piso estalaram sob meus pés. Bati na cama, sentindo lençóis e cobertores e abaixo, então...
Então, um corpo masculino duro, tenso. Mas a cama era enorme, e não conseguia encontrá-lo.
— Rhysand!
Por toda a volta, a escuridão girava, o início e o fim do mundo.
Subi na cama, atrapalhada, disparando até Rhys, sentindo o que era seu braço, depois, a barriga, então, os ombros. A pele de Rhys estava congelando quando lhe segurei os ombros e gritei seu nome.
Nenhuma resposta, e deslizei a mão para cima, para o pescoço de Rhys, até a boca — para me certificar de que ele estava respirando, de que aquele não era o poder de Rhysand fluindo para longe dele...
Hálito gélido atingiu a palma de minha mão. E, me preparando, fiquei de joelhos, mirando às cegas, e o estapeei.
Minha palma doeu... mas Rhys não se moveu. Eu o acertei de novo, puxando aquele laço entre nós, gritando o nome dele pela ligação, como se fosse um túnel, esmurrando aquela parede de ébano e adamantino dentro da mente de Rhys, rugindo para ela.
Uma fenda na escuridão.
Então, as mãos de Rhys estavam em mim, me virando, me prendendo ao colchão com habilidade, a mão com garras em meu pescoço.
Fiquei imóvel.
— Rhysand. — Respirei. Rhys, chamei pela ligação, colocando a mão contra aquele escudo interno.
A escuridão estremeceu.
Projetei meu poder; trevas contra trevas, acalmando sua escuridão, as beiradas ásperas, desejando que se acalmasse, que se suavizasse. Minha escuridão cantava uma canção de ninar para a dele, uma canção que minha babá cantara quando minha mãe me atirava em seus braços a fim de voltar para as festas.
— Foi um sonho — esclareci. A mão de Rhys estava tão fria. — Foi um sonho.
De novo, a escuridão parou. Lancei meus véus de noite para que a acariciassem, percorrendo mãos salpicadas de estrelas contra ela.
E por um segundo, a escuridão como nanquim se dissipou o bastante para que eu visse o rosto de Rhys acima de mim: lívido, lábios pálidos, olhos violeta arregalados, avaliando.
— Feyre — avisei. — Sou Feyre. — A respiração de Rhys estava entrecortada, irregular. Segurei o pulso que pegava minha garganta, pegava, mas sem machucar. — Você estava sonhando.
Desejei que aquela escuridão dentro de mim ecoasse isso, que cantasse até colocar aqueles medos selvagens para dormir, que acariciassem aquela parede de ébano dentro da mente de Rhysand, com cuidado, suavidade...
Então, como neve sacudida de uma árvore, a escuridão de Rhys se dissipou, levando a minha consigo.
E o luar invadiu o quarto — junto dos sons da cidade.
O quarto dele era parecido com o meu, a cama, tão grande que devia ter sido construída para acomodar asas, mas tudo era decorado com bom gosto e conforto. E Rhysand estava nu acima de mim... completamente nu. Não ousei olhar mais para baixo do que as tatuagens em seu peito.
— Feyre — disse Rhys, a voz rouca. Como se estivesse gritando.
— Sim — falei. Ele observou meu rosto, a mão com garras em minha garganta. E me soltou imediatamente.
Fiquei deitada ali, encarando o ponto em que Rhys agora estava ajoelhado na cama, esfregando o rosto com as mãos. Meus olhos traidores de fato ousaram olhar mais para baixo que o peito dele, mas minha atenção parou nas tatuagens gêmeas nos joelhos de Rhys: uma montanha alta encimada por três estrelas, uma em cada joelho. Linda... mas de alguma forma brutal.
— Você estava tendo um pesadelo — comentei, me sentando. Como se alguma represa tivesse estourado dentro de mim, olhei para a mão, e desejei que ela se dissipasse em sobras. E se dissipou.
Meio pensamento espalhou a escuridão de novo.
As mãos de Rhys, no entanto, ainda terminavam em garras longas e negras — e os pés... também terminavam em garras. As asas estavam expostas, apontando para baixo atrás dele. E me perguntei o quanto ele teria chegado perto de se transformar completamente naquela besta que certa vez me disse que odiava.
Rhysand abaixou as mãos, e as garras se dissiparam em dedos.
— Desculpe.
— Por isso fica aqui, e não na Casa. Não quer que os outros vejam isso.
— Eu costumo manter isso contido em meu quarto. Desculpe se a acordou.
Fechei as mãos em punho no colo, para evitar tocá-lo.
— Com que frequência isso acontece?
Os olhos violeta de Rhys encontraram os meus, e eu soube a resposta antes de ele dizer:
— A mesma com que acontece com você.
Engoli em seco.
— Com que sonhou esta noite?
Rhys sacudiu a cabeça, olhando pela janela... para onde neve cobrira os telhados próximos.
— Há lembranças de Sob a Montanha, Feyre, que é melhor não compartilhar. Mesmo com você.
Rhysand compartilhara coisas terríveis o suficiente comigo para que fossem... piores que pesadelos, então. Mas coloquei a mão em seu cotovelo, mesmo com o corpo nu.
— Quando quiser falar, me avise. Não contarei aos demais.
Fiz menção de deslizar para fora da cama, mas Rhys pegou minha mão, segurando-a contra o braço.
— Obrigado.
Observei a mão, o rosto sofrido. Tanta dor permanecia ali... e exaustão. O rosto que Rhys jamais deixaria que alguém visse.
Fiquei de joelhos e beijei sua bochecha; a pele de Rhys estava morna e macia sob minha boca. Aquilo tinha acabado antes de começar, mas... mas quantas noites eu quis que alguém fizesse o mesmo por mim?
Os olhos de Rhysand pareciam um pouco arregalados quando me afastei, e ele não me impediu quando saí da cama devagar. Eu estava quase cruzando a porta quando me voltei de novo para ele.
Ele ainda estava ajoelhado, as asas abaixadas sobre os lençóis brancos, a cabeça curvada, as tatuagens contrastantes com a pele dourada. Um príncipe sombrio e caído.
A pintura surgiu em minha mente.
Surgiu... e ficou ali, reluzindo, antes de se dissipar.
Mas ela permaneceu, brilhando de leve, naquele buraco dentro de meu peito.
O buraco que, devagar, começava a se curar.