Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 66 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 64

Rhysand ficou imóvel como a morte. Cassian grunhiu. Entre eles, Azriel tentou, mas fracassou, erguer a cabeça.

Mas eu encarava Tamlin — aquele rosto que eu amara e odiara tão profundamente — quando parou a bons 20 metros de nós.

Tamlin usava o boldrié... com facas de caça illyrianas, percebi.

Os cabelos dourados estavam mais curtos, e o rosto, mais magro desde a última vez que eu o vira. E os olhos verdes... Arregalados conforme me olhavam da cabeça aos pés. Arregalados quando ele viu meu traje de combate, a espada illyriana e as facas, o modo como eu estava de pé entre meu grupo de amigos — minha família.

Ele estava trabalhando com o rei de Hybern.

— Não — sussurrei.

Mas Tamlin ousou dar mais um passo para perto, me encarando como se eu fosse um fantasma. Lucien, com o olho de metal agitado, o impediu com a mão no ombro.

— Não — repeti, dessa vez mais alto.

— Qual foi o custo — disse Rhysand, baixinho, ao meu lado. Eu arranhava e rasgava a parede que separava nossas mentes; ofegava e empurrava aquele punho que continha minha magia.

Tamlin ignorou Rhys, olhando, por fim, para o rei.

— Tem minha palavra.

O rei sorriu.

Dei um passo na direção de Tamlin.

— O que você fez?

O rei de Hybern disse, do trono:

— Fizemos um acordo. Eu entrego você, e ele concorda em deixar que minhas forças entrem em Prythian pelo próprio território. Então, eu o uso como base enquanto removemos aquela muralha ridícula.

Sacudi a cabeça. Lucien se recusou a encarar o olhar de súplica que mandei em sua direção.

— Você é louco — sibilou Cassian.

Tamlin estendeu a mão.

— Feyre. — Uma ordem, com se eu não passasse de um cão convocado.

Não fiz qualquer movimento. Precisava me libertar; precisava libertar aquela porcaria de poder...

— Você — disse o rei, apontando um dedo grosso para mim — é uma fêmea muito difícil de capturar. É claro, também concordamos que vai trabalhar para mim depois que for devolvida para casa, para seu marido, mas... É futuro marido ou marido? Não me lembro.

Lucien olhava para todos nós, empalidecendo.

— Tamlin — murmurou ele.

Mas Tamlin não abaixou a mão esticada em minha direção.

— Vou levá-la para casa.

Recuei um passo... na direção de onde Rhysand ainda segurava Azriel com Cassian.

— E tem aquela outra parte também. A outra coisa que eu queria — continuou o rei. — Bem, Jurian queria. Dois coelhos com uma cajadada, na verdade. O Grão-Senhor da Corte Noturna morto, e descobrir quem eram seus amigos. Levou Jurian à loucura, sinceramente, você não ter revelado isso durante aqueles cinquenta anos. Então, agora você sabe, Jurian. E agora pode fazer o que quiser com eles.

Ao meu redor, meus amigos estavam tensos, rígidos. Até mesmo Azriel sutilmente levava a mão ensanguentada e coberta de cicatrizes às armas. Seu sangue se empoçava na beirada de minhas botas.

Eu disse, com firmeza, nitidamente, a Tamlin:

— Não vou a lugar nenhum com você.

— Vai dizer outra coisa, minha querida — replicou o rei — quando eu completar a parte final de meu acordo.

Horror se acumulou em meu estômago.

O rei apontou meu braço esquerdo com o queixo.

— Quebrar esse laço entre vocês dois.

— Por favor — sussurrei.

— De que outra forma Tamlin poderá ter sua noiva? Não pode ter uma esposa que foge para outro macho uma vez por mês.

Rhys permaneceu em silêncio, embora tenha agarrado Azriel com mais força. Observando, considerando, entendendo aquela trava sobre seu poder. A ideia de aquele silêncio entre nossas almas ser permanente...

Minha voz falhou quando eu disse a Tamlin, ainda do lado oposto do semicírculo irregular que formávamos diante do altar.

— Não. Não deixe que ele faça isso. Eu disse a você... eu disse a você que estava bem. Que eu parti...

— Você não estava bem— grunhiu Tamlin. — Ele usou aquele laço para manipulá-la. Por que acha que eu passava tanto tempo fora? Estava procurando uma forma de libertar você. E você partiu.

— Eu parti porque estava morrendo naquela casa!

O rei de Hybern emitiu um estalo com a língua.

— Não é o que esperava, é?

Tamlin grunhiu para ele, mas, de novo, estendeu a mão em minha direção.

— Venha para casa comigo. Agora.

— Não.

— Feyre. — Um comando irredutível.

Rhys mal respirava; mal se movia.

E percebi... percebi que era para evitar que seu cheiro se tornasse aparente. Nosso cheiro. Nosso laço da parceria.

A espada de Jurian já estava em punho... e ele olhava para Mor como se fosse matá-la primeiro. O rosto drenado de sangue de Azriel se contorceu com ódio quando ele reparou naquele olhar. Cassian, ainda segurando o amigo em pé, observava todos, avaliando, se preparando para lutar, para defender.

Parei de esmurrar o punho sobre meu poder. Eu o acariciei suavemente — com amor.

Sou feérica e não feérica, tudo e nada, eu disse ao feitiço que me segurava. Você não me detém. Sou como você: real e não, pouco mais que fiapos de poder reunidos. Você não me detém.

— Vou com você — declarei, baixinho, para Tamlin, para Lucien, que se mexia, desconfortável. — Se deixá-los em paz. Liberte-os.

Você não me detém.

O rosto de Tamlin se contraiu com ira.

— Eles são monstros. Eles são... — Tamlin não terminou conforme caminhou pelo salão para me agarrar. Para me levar para fora dali, e então, sem dúvida, atravessar para longe.

Você não me detém.

O punho que segurava meu poder relaxou. Sumiu.

Tamlin disparou até mim pelos poucos metros restantes. Tão rápido... tão rápido...

Eu me tornei névoa e sombra.

Atravessei para longe de seu alcance. O rei soltou uma gargalhada grave quando Tamlin tropeçou.

E saiu cambaleando para trás quando o punho de Rhys lhe acertou o rosto.

Ofegante, recuei até os braços de Rhysand quando um deles envolveu minha cintura, quando o sangue de Azriel sobre Rhys ensopou minhas costas. Atrás de nós, Mor saltou para preencher o espaço que Rhys tinha desocupado, passando o braço de Azriel por cima dos ombros.

Mas aquela parede de pedra terrível permanecia em minha mente e ainda bloqueava o poder do próprio Rhys.

Tamlin ficou de pé, limpando o sangue que agora escorria do nariz, conforme recuava para onde Lucien mantinha a posição com a mão na espada.

Mas no momento em que Tamlin se aproximou do seu Emissário, ele cambaleou um passo. O rosto de Tamlin ficou branco de ódio.

E eu soube que Tamlin tinha entendido um momento antes de o rei gargalhar.

— Não acredito. Sua noiva o deixou apenas para encontrar o parceiro. A Mãe tem um senso de humor deturpado, ao que parece. E que talento... diga, menina: como se livrou desse feitiço?

Eu o ignorei. Mas o ódio nos olhos de Tamlin fizeram meus joelhos falharem.

— Desculpe — pedi, e fui sincera.

Os olhos de Tamlin estavam sobre Rhysand, o rosto era quase selvagem.

— Você — grunhiu Tamlin, o som era mais animalesco que feérico. — O que fez com ela?

Atrás de nós, as portas se abriram e soldados entraram. Alguns se pareciam com o Attor. Alguns eram piores. Mais e mais, ocupando o salão, as saídas, armaduras e armas tilintando.

Mor e Cassian, com Azriel inerte, um peso morto entre eles, observaram cada soldado e arma, considerando nossas melhores chances de escapar. Eu os deixei fazer isso enquanto Rhys e eu encarávamos Tamlin.

— Não vou com você — disparei para Tamlin. — E mesmo que fosse... Seu tolo burro e covarde por nos vender a ele! Sabe o que ele quer fazer com aquele Caldeirão?

— Ah, vou fazer muitas, muitas coisas com ele — disse o rei.

E o Caldeirão surgiu de novo entre nós.

— Começando agora.

Mate-o mate-o mate-o.

Não sabia dizer se a voz era minha ou do Caldeirão. Não me importava. Eu me libertei.

Garras e asas e sombras estavam imediatamente ao meu redor, cercadas por água e fogo...

Então, sumiram, contidas quando aquela mão invisível agarrou meu poder de novo, com tanta força que arquejei.

— Ah — disse o rei para mim, emitindo um estalo com a língua —, isso. Olhe para você. Uma criança de todas as sete cortes, igual e diferente de todas. Como o Caldeirão ronrona em sua presença. Planejava usá-lo? Destruí-lo? Com aquele livro, podia fazer o que quisesse.

Eu não disse nada. O rei deu de ombros.

— Vai me contar em breve.

— Não fiz acordo algum com você.

— Não, mas seu mestre fez, então, vai obedecer.

Ódio liquefeito escorreu por mim. Sibilei para Tamlin:

— Se me levar daqui, se me afastar de meu parceiro, vou destruir você. Vou destruir sua corte e tudo que estima.

Os lábios de Tamlin se contraíram. Mas ele disse, simplesmente:

— Não sabe do que está falando.

Lucien encolheu o corpo.

O rei gesticulou com o queixo para os guardas na porta ao lado, pela qual Tamlin e Lucien tinham entrado.

— Não, ela não sabe. — As portas se abriram de novo. — Não haverá destruição — continuou o rei, conforme pessoas, conforme mulheres passaram por aquelas portas.

Quatro mulheres. Quatro humanas. As quatro rainhas restantes.

— Porque — disse o rei, quando os guardas das rainhas se enfileiraram atrás delas, arrastando algo no centro da formação — vai descobrir, Feyre Archeron, que é de seu interesse se comportar.

As quatro rainhas nos olharam com desprezo e ódio nos olhos. Ódio.

E se afastaram para deixar que seus guardas pessoais passassem.

Medo como eu jamais havia sentido entrou em meu coração quando os homens arrastaram minhas irmãs, amordaçadas e amarradas, diante do rei de Hybern.