Corte de Névoa e Fúria
Capítulo 44
Mas, apesar da carta, apesar da confusão entre nós, quando olhei no espelho uma hora depois, não consegui acreditar no que via refletido.
Fiquei tão aliviada nas últimas semanas por conseguir dormir que me esquecera de agradecer por manter a comida no estômago.
Meu rosto e meu corpo estavam cheios de novo. O que deveria ter levado mais semanas na forma humana fora apressado pelo milagre de meu sangue imortal. E o vestido...
Jamais tinha vestido nada como aquilo, e duvidava que algum dia vestiria algo assim de novo.
Feito de minúsculas gemas azuis, tão pálidas que quase pareciam brancas, ele se agarrava a todas as curvas e todas as depressões antes de descer ao chão e formar uma cauda que parecia luz estelar líquida. As mangas longas eram justas, terminando nos pulsos com punhos de puro diamante. O decote roçava minha clavícula, e a modéstia era compensada pela forma como o vestido envolvia áreas que supus que interessariam a uma fêmea exibir. Meus cabelos haviam sido afastados do rosto com dois pentes de prata e diamante, e soltos como uma cascata por minhas costas. E pensei, enquanto estava sozinha no banheiro, que talvez eu parecesse uma estrela cadente.
Rhysand não estava em lugar algum quando tomei coragem para ir ao jardim do telhado. As pedras no vestido tilintavam e farfalhavam contra o piso conforme eu caminhava pela casa quase escura, todas as luzes haviam sido atenuadas ou apagadas.
Na verdade, a cidade inteira apagara as luzes.
Uma figura alada e musculosa estava no alto do telhado, e meu coração deu um salto.
Mas então ele se virou, no momento em que o cheiro do feérico me atingiu. E algo em meu peito pesou um pouco quando Cassian soltou um assobio baixo.
— Devia ter deixado Nuala e Cerridwen me vestirem.
Eu não sabia se sorria ou se encolhia o corpo.
— Você está muito bonito apesar disso. — Ele estava. Tinha tirado o traje de combate e a armadura, vestia uma túnica preta cujo corte ressaltava aquele corpo de guerreiro. O cabelo preto de Cassian fora penteado e domado, até mesmo as asas pareciam mais limpas.
Cassian estendeu os braços. Os Sifões ainda estavam lá — uma manopla de metal com buracos no lugar dos dedos que se estendia por baixo das mangas feitas sob medida de seu casaco.
— Pronta?
Ele tinha me feito companhia nos últimos dois dias, me treinava todas as manhãs. Enquanto me mostrava mais detalhes sobre como usar uma lâmina illyriana, em grande parte como estripar alguém com ela, conversávamos sobre tudo: nossas vidas igualmente miseráveis quando crianças, caça, comida... Tudo, exceto Rhysand.
Cassian mencionara apenas uma vez que Rhysand estava na Casa, e supus que minha expressão dissera o suficiente a ele sobre não querer saber mais nada. Ele sorria para mim agora.
— Com todas essas pedras e contas, pode estar pesada demais para ser carregada. Espero que esteja praticando atravessar, caso eu a deixe cair.
— Engraçadinho. — Deixei que Cassian me pegasse nos braços antes de dispararmos para cima. Eu podia ainda não conseguir atravessar, mas desejei ter asas, percebi. Asas grandes e poderosas para que eu pudesse voar o quanto quisesse; para que pudesse ver o mundo e tudo que este tinha a oferecer.
Abaixo de nós, cada luz restante se apagou. Não havia lua; nenhuma música fluía nas ruas. Só havia o silêncio — como se estivesse esperando algo.
Cassian disparou pela escuridão silenciosa até onde a Casa do Vento se erguia. Eu conseguia distinguir multidões reunidas nas muitas varandas e nos pátios apenas pelo leve brilho de luz estelar em seus cabelos, e, depois, pelo tilintar dos copos e conversas baixas conforme nos aproximávamos.
Cassian me colocou no pátio lotado do lado de fora da sala de jantar, e apenas alguns convivas se deram o trabalho de olhar para nós. Esferas com luz feérica tênue dentro da Casa iluminavam travessas de comida e intermináveis fileiras de garrafas verdes de vinho espumante sobre as mesas. Cassian sumiu e voltou antes que eu desse por sua falta, colocando uma taça do vinho em minha mão. Nenhum sinal de Rhysand.
Talvez ele me evitasse a festa inteira.
Alguém chamou o nome de Cassian do outro lado do pátio, e ele me deu um tapinha no ombro antes de sair. Um macho alto, com o rosto oculto em sombras, entrelaçou o antebraço com o de Cassian em um cumprimento, seus dentes brancos reluziram na escuridão. Azriel já estava com o estranho, e as asas recolhidas para evitar que os convivas esbarrassem nelas. Ele, Cassian e Mor ficaram entre si durante o dia — o que era compreensível. Busquei sinais de meus outros...
Amigos.
A palavra ressoou em minha cabeça. Seria isso o que eram?
Amren não estava à vista, mas notei uma cabeça dourada no mesmo momento em que ela me viu, e Mor veio até meu lado. Ela usava um vestido totalmente branco, pouco mais que uma faixa de seda que mostrava as generosas curvas. De fato, um olhar por cima do ombro de Mor revelava Azriel olhando ostensivamente para as costas da feérica, e Cassian e o estranho já estavam distraídos em conversa para notar o que chamara a atenção do mestre-espião. Por um momento, a cobiça no rosto de Azriel fez meu estômago se apertar.
Eu me lembrava de me sentir daquela forma. Lembrava como era ceder àquilo. Como eu tinha chegado perto de fazê-lo na outra noite.
— Não vai demorar muito — avisou Mor.
— O quê? — Ninguém tinha me contado o que esperar, como se não quisesse estragar a surpresa da Queda das Estrelas.
— Até a diversão.
Olhei para a festa ao nosso redor...
— Esta não é a diversão?
Mor ergueu uma sobrancelha.
— Nenhum de nós se importa muito com essa parte. Depois que começar, você verá. — Mor tomou um gole do vinho espumante. — Esse é um vestido e tanto. Tem sorte que Amren está escondida no sótão, ou provavelmente o roubaria de você. Aquela dragoa vaidosa.
— Ela não vai fazer uma pausa na decodificação?
— Sim, e não. Algo a respeito da Queda das Estrelas a perturba, é o que diz. Quem sabe? Provavelmente faz isso para ser rebelde.
Mesmo enquanto falava, as palavras de Mor estavam distantes, o rosto, um pouco tenso. Eu disse, baixinho:
— Está... pronta para amanhã? — Amanhã, quando deixaríamos Velaris para evitar que qualquer um reparasse em nossos movimentos naquela área. Mor, Azriel me contara, nervoso, no café da manhã, voltaria para a Corte dos Pesadelos. Para verificar a... recuperação do pai.
Provavelmente não era o melhor lugar para discutir nossos planos, mas Mor deu de ombros.
— Não tenho escolha a não ser estar preparada. Vou com vocês para o acampamento, e, então, sigo meu caminho depois disso.
— Cassian ficará feliz com isso — comentei. Mesmo que fosse Azriel quem estivesse tentando ao máximo não encarar Mor.
Mor riu com deboche.
— Talvez.
Ergui uma sobrancelha.
— Então vocês dois...?
Outro gesto de ombros.
— Uma vez. Bem, nem isso. Eu tinha 17 anos, ele não era sequer um ano mais velho.
Quando tudo aconteceu.
Mas não havia escuridão no rosto de Mor quando ela suspirou.
— Pelo Caldeirão, aquilo foi há muito tempo. Visitei Rhys durante duas semanas no acampamento de guerra quando ele estava treinando, e Cassian, Azriel e eu viramos amigos. Uma noite, Rhys e a mãe precisaram voltar para a Corte Noturna, e Azriel foi com eles; então, Cassian e eu ficamos sozinhos. E, naquela noite, uma coisa levou à outra e... Eu queria que fosse Cassian quem fizesse aquilo. Eu queria escolher.
Um terceiro gesto de ombros. Eu me perguntei se Azriel tinha desejado ser o escolhido em vez do amigo. Se tinha admitido a Mor, ou a Rhys. Se ele se ressentia por ter estado fora naquela noite, por Mor não o ter considerado.
— Rhys voltou na manhã seguinte e, quando descobriu o que tinha acontecido... — Mor riu baixinho. — Tentamos não falar sobre o Incidente. Ele e Cassian... Nunca os vi brigar daquele jeito. Tomara que nunca mais veja. Sei que Rhys não estava com raiva por causa de minha virgindade, mas pelo perigo que perdê-la me fazia correr. Azriel ficou ainda mais irritado, embora tenha deixado Rhys brigar. Eles sabiam o que minha família faria por eu ter me rebaixado com um bastardo feérico inferior. — Mor passou a mão pelo abdômen, como se conseguisse sentir aquele prego que haviam cravado nela. — Estavam certos.
— Então, você e Cassian — falei, querendo desviar o assunto, aquela escuridão — nunca mais ficaram juntos depois daquilo?
— Não — disse Mor, rindo baixinho. — Eu estava desesperada, fui inconsequente naquela noite. Escolhi Cassian não apenas pela bondade, mas porque queria que minha primeira vez fosse com um dos lendários guerreiros illyrianos. Eu queria me deitar com o melhor dos guerreiros illyrianos, na verdade. E olhei uma vez para Cassian e soube. Depois que consegui o que queria, depois... de tudo, não gostei que aquilo tivesse causado um abismo entre ele e Rhys, ou mesmo entre ele e Az, então... nunca mais.
— E nunca ficou com mais ninguém depois disso? — Nem o frio e belo encanador de sombras que tentava com tanto afinco não a olhar com desejo no rosto?
— Eu tive amantes — esclareceu Mor. — Mas... fico entediada. E Cassian também as teve, então, não fique com esse olhar meloso de amor não correspondido. Ele só quer o que não pode ter, e se irrita há séculos porque fui embora e nunca mais olhei para trás.
— Ah, isso o deixa louco — disse Rhys, atrás de mim, e dei um salto. Mas o Grão-Senhor me circundava. Cruzei os braços quando ele parou e deu um risinho. — Você parece uma mulher de novo.
— Sabe mesmo elogiar as mulheres, primo — ironizou Mor, e deu um tapinha no ombro de Rhys ao ver um conhecido e ir cumprimentá-lo.
Tentei não olhar para Rhys, que estava de casaco preto, casualmente desabotoado no alto para que a camisa branca abaixo — também desabotoada no pescoço — mostrasse as tatuagens no peito exposto. Tentei não olhar, e fracassei.
— Planeja me ignorar um pouco mais? — perguntei, com frieza.
— Estou aqui agora, não estou? Não quero que me chame de covarde desprezível de novo.
Abri a boca, mas senti todas as palavras erradas começarem a sair. Então, eu a fechei e procurei por Azriel ou Cassian ou qualquer um que pudesse falar comigo. Ir até um estranho começava a parecer agradável quando Rhys falou, a voz um pouco rouca:
— Eu não estava punindo você. Só... precisava de tempo.
Não queria ter aquela conversa ali — com tanta gente ouvindo. Então, gesticulei para a festa e falei:
— Pode, por favor, me dizer sobre o que se trata essa... reunião?
Rhysand passou para trás de mim, rindo ao dizer ao meu ouvido:
— Olhe para cima.
De fato, quando olhei, a multidão se calou.
— Nenhum discurso para os convidados? — murmurei. Tranquilas... só queria que as coisas ficassem tranquilas entre nós de novo.
— Esta noite não se trata de mim, embora minha presença seja reconhecida e observada — disse ele. — Esta noite se trata disso.
Quando ele apontou...
Uma estrela disparou pelo céu, mais brilhante e mais próxima que qualquer uma que eu tivesse visto. A multidão e a cidade abaixo comemoraram, erguendo os copos conforme a estrela passou bem acima, e apenas quando ela desapareceu na curva do horizonte é que eles beberam intensamente.
Recuei um passo, na direção de Rhys — e rapidamente me afastei, para longe do calor, do poder e do cheiro dele. Tínhamos causado danos suficientes em uma posição semelhante na Corte dos Pesadelos.
Outra estrela cruzou o céu, rodopiando e girando no próprio eixo, como se estivesse celebrando a própria beleza iluminada. Ela foi seguida por outra, e outra, até uma brigada de estrelas ser lançada do horizonte, como se milhares de arqueiros as tivessem soltado dos poderosos arcos.
As estrelas passaram em cascata por cima de nós, enchendo o mundo de luz branca e azul. Eram como fogos de artifício vivos, e meu fôlego ficou preso na garganta conforme as estrelas continuavam caindo e caindo.
Eu jamais vira algo tão lindo.
E quando o céu estava cheio delas, quando as estrelas disparavam e dançavam e fluíam pelo mundo, a música começou.
Onde quer que estivessem, as pessoas começaram a dançar, se balançando e girando, algumas davam as mãos e rodopiavam, rodopiavam e rodopiavam ao som dos tambores, das cordas, das harpas tilintantes. Não era como o rilhar e as estocadas da Corte dos Pesadelos, mas uma dança alegre e pacífica. Pelo amor ao som, ao movimento e à vida.
Fiquei com Rhysand no limiar, entre observar as pessoas dançando no pátio, com as mãos erguidas, e as estrelas descendo, mais e mais perto, até que eu jurava que podia tê-las tocado se me inclinasse.
E lá estavam Mor e Azriel... e Cassian. Os três dançando juntos, a cabeça de Mor voltada para o céu, os braços erguidos, a luz das estrelas brilhando no branco do vestido. Dançando como se pudesse ser a última vez, fluindo entre Azriel e Cassian, como se os três fossem uma unidade, um único ser.
Olhei para trás e vi Rhys observando os três, com uma expressão suave. Triste.
Separados durante cinquenta anos e reunidos — apenas para serem separados tão rapidamente para lutar de novo pela liberdade.
Rhys me encarou e disse:
— Venha. Tem uma vista melhor. Mais silenciosa. — Ele estendeu a mão para mim.
Aquela tristeza, aquele peso, permaneceu nos olhos de Rhys. E não aguentei vê-la; assim como não aguentava ver meus três amigos dançando juntos como se fosse a última vez que o fariam.
Rhys me levou para uma varanda pequena e reservada que se projetava do nível superior da Casa do Vento. Nos pátios abaixo, a música ainda tocava, as pessoas ainda dançavam, as estrelas disparavam, próximas e ágeis.
Rhys me soltou quando me sentei no parapeito da varanda. Imediatamente desisti disso quando vi a altura, e recuei um passo por segurança.
Rhysand riu.
— Se você caísse, sabe que eu me daria o trabalho de salvá-la antes que atingisse o chão.
— Mas não até eu estar perto da morte?
— Talvez.
Apoiei a mão contra o parapeito, olhando para as estrelas que passavam.
— Como punição pelo que falei a você?
— Eu também disse coisas horríveis — murmurou Rhys.
— Eu não fui sincera — disparei. — Estava falando mais de mim que de você. E peço desculpas.
Rhys observou as estrelas por um momento antes de responder:
— Mas estava certa. Eu me afastei porque você estava certa. Embora fique feliz em saber que minha ausência pareceu uma punição.
Ri com escárnio, mas me senti grata pelo humor, pela forma como ele sempre conseguira me divertir.
— Alguma novidade com a esfera ou com as rainhas?
— Ainda nada. Estamos esperando que decidam responder.
Ficamos em silêncio de novo, e observei as estrelas.
— Não são... não são estrelas, na verdade.
— Não. — Rhys foi até meu lado no parapeito. — Nossos ancestrais achavam que sim, mas... São apenas espíritos, em uma migração anual para algum lugar. Por que escolhem este dia para aparecer, ninguém sabe.
Senti os olhos de Rhys sobre mim, e desviei o olhar das estrelas cadentes. Luz e sombra passaram pelo rosto dele. As comemorações e a música da cidade muito, muito abaixo mal eram audíveis por cima do barulho da multidão reunida na Casa.
— Deve haver centenas deles! — Eu consegui dizer, voltando meu olhar para as estrelas que passavam zunindo.
— Milhares — replicou Rhys. — Vão continuar passando até o alvorecer. Ou espero que sim. Há menos deles do que da última vez que vi a Queda das Estrelas.
Antes de Amarantha o trancafiar.
— O que está acontecendo com eles? — Olhei a tempo de ver Rhys dar de ombros. Algo doeu em meu peito.
— Eu queria saber. Mas eles continuam voltando, apesar disso.
— Por quê?
— Por que as coisas se atêm a outras? Talvez amem tanto o lugar para onde vão que vale a pena. Talvez continuem voltando até que reste apenas uma estrela. Talvez essa única estrela faça a viagem para sempre, com a esperança de que um dia, se continuar voltando com frequência, outra estrela a encontre de novo.
Franzi a testa para o vinho em minha mão.
— Esse é... um pensamento muito triste.
— Realmente. — Rhys apoiou os antebraços na beira da varanda, perto o bastante para que meus dedos os tocassem se eu ousasse.
Um silêncio calmo, intenso, nos envolveu. Palavras demais; eu ainda tinha palavras demais em mim.
Não sei quanto tempo se passou, mas devia ter sido um bom tempo, porque, quando Rhys falou de novo, eu me sobressaltei.
— A cada ano que passei Sob a Montanha e a Queda das Estrelas chegava, Amarantha se certificava de que eu... a satisfizesse. A noite toda. A Queda das Estrelas não é um segredo, mesmo para forasteiros, até mesmo a Corte dos Pesadelos sai de dentro da Cidade Escavada para olhar o céu. Então, ela sabia... Ela sabia o que significava para mim.
Parei de ouvir as comemorações ao nosso redor.
— Sinto muito. — Era tudo o que eu podia oferecer.
— Enfrentava aquilo me lembrando de que meus amigos estavam em segurança; que Velaris estava em segurança. Nada mais importava, contanto que eu tivesse isso. Ela podia usar meu corpo como quisesse. Eu não me importava.
— Então, por que não está lá embaixo com eles? — perguntei, mesmo ao guardar o horror do que tinha sido feito a ele no coração.
— Eles não sabem... o que ela fazia comigo durante a Queda das Estrelas. Não quero que isso estrague sua noite.
— Não acho que estragaria. Eles ficariam felizes por você deixar que eles dividissem o fardo.
— Assim como você conta com os outros para ajudar com os problemas?
Nós nos encaramos, perto o bastante para dividirmos uma respiração.
E talvez todas aquelas palavras acumuladas em mim... Talvez eu não precisasse delas no momento.
Meus dedos tocaram os dele. Quentes e firmes; pacientes como se quisessem ver o que mais eu poderia fazer. Talvez fosse o vinho, mas lhe acariciei o dedo com o meu.
E, quando me virei mais completamente para Rhys, algo ofuscante e brilhante se chocou contra meu rosto.
Recuei, dando um grito ao dobrar o corpo para a frente, protegendo o rosto da luz que eu ainda conseguia enxergar mesmo de olhos fechados.
Rhys soltou uma gargalhada sobressaltada.
Uma gargalhada.
E, quando percebi que meus olhos não tinham sido queimados nas órbitas, eu me virei para Rhys.
— Eu podia ter ficado cega! — sibilei, empurrando Rhys. Ele olhou meu rosto e caiu na gargalhada de novo. Gargalhada verdadeira, sincera, prazerosa e encantadora.
Limpei o rosto e, quando abaixei as mãos, fiquei boquiaberta. Luz verde pálida — como gotas de tinta — brilhava como sardas em minha mão.
Um espírito estelar esmagado. Não sabia se ficava horrorizada ou maravilhada. Ou enojada.
Quando fui limpar, Rhys segurou minhas mãos.
— Não — disse ele, ainda rindo. — Parece que suas sardas estão brilhando.
Minhas narinas se dilataram, e fui empurrar Rhysand de novo, não me importava se minha nova força o derrubasse da varanda. Ele podia conjurar asas; podia lidar com isso.
Rhys desviou de mim, virando para o parapeito da varanda, mas não rápido o bastante para evitar a estrela em disparada que colidiu com a lateral de seu rosto.
Rhys deu um salto para trás, xingando. Eu ri, o som saiu rouco de mim. Não uma risada alegre ou um risinho, mas uma gargalhada ruidosa.
E gargalhei de novo, e de novo, quando Rhys tirou as mãos dos olhos.
O lado esquerdo inteiro de seu rosto havia sido atingido.
Uma tinta de guerra celestial, era o que parecia. Eu conseguia ver por que Rhys não queria que eu me limpasse.
Rhys estava examinando as mãos, cobertas da poeira, e dei um passo na sua direção, olhando para a forma como aquilo brilhava e reluzia.
Rhys ficou completamente imóvel quando peguei uma de suas mãos na minha e tracei a forma de uma estrela no alto da palma, brincando com o brilho e as sombras, até que parecesse que uma das estrelas tinha nos atingido.
Os dedos de Rhys se fecharam com firmeza sobre os meus, e ergui o rosto. Ele sorria. E parecia tão dissonante de um Grão-Senhor, com a poeira brilhante na lateral do rosto, que sorri de volta.
Não tinha sequer percebido o que fizera até que o sorriso de Rhys se dissipou e a boca se abriu levemente.
— Sorria de novo — sussurrou ele.
Não tinha sorrido para ele. Nunca. Ou gargalhado. Sob a Montanha, jamais sorria, jamais dava risada. E depois...
E aquele macho diante de mim... meu amigo...
Apesar de tudo que Rhys havia feito, eu jamais sorrira para ele também. Mesmo quando tinha acabado... eu tinha acabado de pintar algo. Nele. Para ele.
Eu tinha pintado de novo.
Então, sorri para Rhys, um sorriso largo, sem me conter.
— Você é linda — sussurrou Rhysand.
O ar estava tenso demais, perto demais entre nossos corpos, entre nossas mãos unidas. Mas eu falei:
— Você me deve dois pensamentos, desde quando eu tinha acabado de chegar aqui. Diga em que está pensando.
Rhys esfregou o pescoço.
— Quer saber por que eu não falei ou vi você? Porque estava muito convencido de que você me jogaria para fora. Eu só... — Rhys passou a mão pelo cabelo e conteve uma gargalhada. — Achei que me esconder seria uma alternativa melhor.
— Quem diria que o Grão-Senhor da Corte Noturna teria medo de uma humana analfabeta? — ronronei. Ele sorriu, me cutucando com o cotovelo. — Esse é um — insisti. — Conte outro pensamento.
Os olhos de Rhys se detiveram em minha boca.
— Queria poder pegar de volta aquele beijo Sob a Montanha.
Eu às vezes esquecia aquele beijo, quando Rhys fizera aquilo para evitar que Amarantha soubesse que Tamlin e eu estávamos no corredor esquecido, agarrados. O beijo de Rhysand fora brutal, exigente, mas...
— Por quê?
O olhar dele recaiu sobre a mão que eu pintara então, como se fosse mais fácil encará-la.
— Porque não o tornei prazeroso para você, e estava com ciúme e irritado, e sabia que você me odiava.
Território perigoso, avisei a mim mesma.
Não. Sinceridade, era isso. Sinceridade e confiança. Eu jamais tivera aquilo com alguém.
Rhys ergueu o rosto, me encarando. E o que quer que estivesse em meu rosto, acho que devia estar espelhado no dele: a fome e o desejo e a surpresa.
Engoli em seco e tracei outra linha de poeira estelar pelo interior do pulso forte de Rhys. Achei que ele não estivesse respirando.
— Você... você quer dançar comigo? — sussurrei.
Ele ficou em silêncio por tanto tempo que ergui a cabeça para observar seu rosto. Mas seus olhos estavam iluminados, emoldurados em prata.
— Quer dançar? — perguntou Rhys, a voz rouca, entrelaçando os dedos nos meus.
Apontei com o queixo na direção da comemoração abaixo.
— Lá embaixo... com eles. — Onde a música chamava, onde a vida chamava. Onde ele deveria passar a noite com os amigos, e onde eu queria passar a noite com eles também. Até mesmo com os estranhos que participavam da festa.
Não me importava de sair das sombras, não me importava de sequer estar nas sombras, na verdade, contanto que ele estivesse comigo. Meu amigo por tantos perigos — que lutara por mim quando ninguém mais lutaria, nem mesmo eu.
— É claro que danço com você — disse Rhys, a voz ainda rouca. — A noite toda, se quiser.
— Mesmo que eu pise nos seus pés?
— Mesmo assim.
Rhysand se inclinou para mim e roçou a boca contra minha bochecha corada. Fechei os olhos diante do sussurro de um beijo, do desejo que me devastou depois dele, que talvez devastasse Prythian. E ao nosso redor, como se o próprio mundo estivesse, de fato, se desfazendo, chovia estrelas.
Grãos de poeira estelar brilhavam nos lábios de Rhys quando ele se afastou, enquanto eu o encarava, sem fôlego, enquanto Rhys sorria. O sorriso que o mundo provavelmente jamais veria, o sorriso do qual ele abrira mão pelo bem do povo, das terras. Ele disse, baixinho:
— Eu... sou muito feliz por tê-la conhecido, Feyre.
Pisquei para afastar a queimação em meus olhos.
— Vamos — falei, puxando a mão de Rhys. — Vamos nos juntar à dança.