Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 68 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 66

Não permiti que a declaração de Lucien fosse absorvida.

 

Nestha, no entanto, se virou para ele.

— Ela não é tal coisa — disse minha irmã, e o empurrou de novo.

Lucien não se moveu um centímetro. O rosto estava pálido como a morte enquanto encarava Elain. Minha irmã não disse nada, o anel de ferro reluzia, fosco, em seu dedo.

O rei de Hybern murmurou:

— Interessante. Muito interessante. — Ele se virou para as rainhas. — Estão vendo? Mostrei não uma, mas duas vezes que é seguro. Quem gostaria de ser Feita primeiro? Talvez consiga um senhor feérico bonitão como parceiro também.

A rainha mais nova deu um passo adiante, os olhos chegaram a percorrer os homens feéricos reunidos. Como se pudesse escolher entre eles.

O rei gargalhou.

— Muito bem, então.

Ódio percorreu meu corpo, tão violento que não o controlei, e não havia nenhuma canção em meu coração além do grito de guerra do ódio. Eu os mataria. Eu mataria todos eles...

— Se está disposto a oferecer barganhas — disse Rhys subitamente, ficando de pé e me puxando consigo —, talvez eu faça uma.

— Ahn?

Rhys deu de ombros.

Não. Bastava de acordos; bastava de sacrifícios. Bastava de ele se entregar, pouco a pouco.

Bastava .

E se o rei se recusasse, se não houvesse nada a fazer a não ser observar meus amigos morrerem...

Eu não podia aceitar aquilo. Não podia suportar... não aquilo.

E por Rhys, pela família que eu tinha encontrado... Eles nunca haviam precisado de mim; não de verdade. Apenas para anular o Caldeirão.

Eu tinha fracassado com eles. Assim como fracassara com minhas irmãs cujas vidas eu agora destruíra...

Pensei naquele anel me esperando em casa. Pensei no anel no dedo de Elain, de um homem que agora provavelmente a caçaria e mataria. Se Lucien sequer a deixasse partir.

Pensei em todas as coisas que queria pintar... e que jamais pintaria.

Mas por eles... por minha família, tanto a de sangue quanto a que escolhi, por meu parceiro... A ideia que me atingiu não pareceu tão assustadora.

Então, não tive medo.

Caí de joelho com um espasmo, segurando a cabeça enquanto trincava os dentes e soluçava, soluçava e ofegava, puxando os cabelos...

O punho daquele feitiço não teve tempo de me pegar de novo quando explodi além dele.

Rhys estendeu o braço para mim, mas liberei meu poder, um clarão daquele branco, luz pura, tudo que conseguiu escapar da represa do feitiço do rei. Um clarão de luz que era apenas para Rhys, apenas por causa de Rhys. Eu esperava que ele entendesse.

O poder irrompeu pelo salão, e a força reunida sibilou e recuou.

Até mesmo Rhys congelou — o rei e as rainhas ficaram boquiabertos. Minhas irmãs e Lucien tinham se virado também.

Mas ali, bem no fundo da luz da Corte Diurna... eu vi. Um poder nítido e purificador. Quebradora da Maldição — quebradora de feitiço. A luz açoitou cada amarra física, me mostrou os emaranhados de feitiços e encantamentos, me mostrou o caminho... Eu me acendi mais forte, procurando, procurando...

Enterrados dentro das paredes do castelo, os feitiços de proteção estavam fortemente entrelaçados.

Lancei aquela luz ofuscante em disparada mais uma vez — uma distração e uma carta na manga conforme eu partia os encantamentos por suas antigas artérias principais.

Agora, só precisava fazer meu papel.

A luz se dissipou, e eu estava aninhada no chão, a cabeça nas mãos.

Silêncio. Silêncio enquanto todos me olhavam, boquiabertos.

Até mesmo Jurian tinha perdido a arrogância no local em que estava apoiado contra a parede.

Mas meus olhos estavam apenas em Tamlin quando abaixei as mãos, inspirando, e pisquei. Olhei para o anfitrião, para o sangue e para a Corte Noturna, e, então, por fim, de volta para Tamlin quando sussurrei:

— Tamlin?

Ele não se moveu um centímetro. Além de Tamlin, o rei me olhava, boquiaberto. Se sabia que eu havia destruído suas proteções, se sabia que tinha sido intencional, não era minha preocupação; ainda não.

Pisquei de novo, como se minha mente se desanuviasse.

— Tamlin? — Olhei para as mãos, para o sangue, e, quando olhei para Rhys, quando vi meus amigos com expressões sombrias e minhas irmãs imortais ensopadas...

Não havia nada além de choque e confusão no rosto de Rhys quando recuei de perto dele.

Para longe deles. Na direção de Tamlin.

— Tamlin. — Eu consegui dizer de novo. O olho de Lucien se arregalou quando ele se colocou entre mim e Elain. Então, virei para o rei de Hybern. — Onde... — Virei para Rhysand de novo. — O que você fez comigo — sussurrei, um som grave, gutural. Recuando para Tamlin. — O que você fez?

Tire-as daqui. Tire minhas irmãs daqui.

Entre... por favor, entre na encenação. Por favor...

Não havia som, nenhum escudo, nenhum lampejo de sentimento em nosso laço. O poder do rei o tinha bloqueado completamente. Não havia nada que eu pudesse fazer contra aquilo, Quebradora da Maldição ou não.

Mas Rhys colocou as mãos nos bolsos quando ronronou:

— Como se libertou?

— O quê? — Jurian parecia fervilhar, afastando-se da parede e disparando até nós.

Mas eu me virei para Tamlin e ignorei as feições e o cheiro e as roupas, que eram todos errados. Ele me observou, desconfiado:

— Não deixe que ele me leve de novo, não deixe que ele... não... — Não pude conter o choro, que me fazia estremecer, não quando a força total do que eu estava fazendo me atingiu.

— Feyre — falou Tamlin, baixinho. E eu soube que tinha vencido.

Chorei mais intensamente.

Tire minhas irmãs daqui, implorei a Rhys, pelo laço silencioso. Destruí as defesas para você... para todos vocês. Tire-as daqui.

— Não deixe que ele me leve — chorei, de novo. — Não quero voltar.

E quando olhei para Mor, para as lágrimas que escorriam por seu rosto enquanto ajudava Cassian a se levantar, eu soube que ela percebeu o que eu queria dizer. Mas as lágrimas sumiram e se tornaram tristeza por Cassian, quando ela virou o rosto cheio de ódio, horrorizado, para Rhysand e disparou:

— O que você fez com essa garota?

Rhys inclinou a cabeça.

— Como conseguiu, Feyre? — Havia tanto sangue nele. Um último jogo... aquele era um último jogo que todos jogaríamos juntos.

Sacudi a cabeça. As rainhas tinham recuado metade do caminho, os guardas formavam uma parede entre nós.

Tamlin me observava com cautela. Lucien também.

Então, me virei para o rei. Ele sorria. Como se soubesse.

Mas falei:

— Quebre o laço.

Rhysand ficou imóvel como a morte.

Disparei para o rei, meus joelhos doeram quando me joguei ao chão diante do trono.

— Quebre o laço. O acordo, o... laço da parceria. Ele... ele me obrigou, ele me fez jurar...

— Não — falou Rhysand.

Eu o ignorei, mesmo quando meu coração se partiu, mesmo quando eu soube que ele não teve a intenção de falar...

— Faça-o — implorei ao rei, mesmo enquanto rezava silenciosamente para que ele não reparasse nas proteções destruídas, na porta que eu tinha deixado escancarada. — Sei que pode. Apenas... me liberte. Me liberte disso.

— Não — falou Rhysand.

Mas Tamlin olhava de mim para Rhys. E olhei para ele, o Grão-Senhor que um dia amei, e sussurrei:

— Basta. Basta de mortes, basta de assassinatos. — Eu chorava entre dentes. Obriguei-me a olhar para minhas irmãs. — Basta. Me leve para casa e liberte-as. Diga a ele que é parte do acordo e liberte-as. Mas basta, por favor.

Cassian, devagar, sentindo dor a cada momento, se virou o bastante para olhar para mim por cima de uma das asas destroçadas. E nos olhos cheios de dor dele, eu vi: a compreensão.

A Corte dos Sonhos. Eu tinha pertencido a uma corte de sonhos. E de sonhadores.

E pelos sonhos deles... pelo que tinham trabalhado, sacrificado... Eu podia fazer aquilo.

Tire minhas irmãs daqui , eu disse a Rhys, uma última vez, lançando a súplica por aquela parede de pedra entre nós.

Olhei para Tamlin.

— Basta. — Aqueles olhos verdes encontraram os meus, e a tristeza e o carinho neles foram a coisa mais terrível que eu já vira. — Me leve para casa.

Tamlin disse, inexpressivo, para o rei:

— Solte-as, quebre o laço de Feyre e vamos acabar com isso. As irmãs vêm conosco. Você já ultrapassou limites demais.

Jurian começou a protestar, mas o rei disse:

— Muito bem.

— Não! — Foi tudo o que Rhys disse, de novo.

Tamlin grunhiu para ele:

— Não dou a mínima se ela é sua parceira. Não dou a mínima se acha que tem direito a ela. Ela é minha, e, um dia, vou revidar cada pingo de dor que ela sentiu, cada gota de sofrimento e desespero. Um dia, talvez, quando ela decidir que quer acabar com você, ficarei feliz em obedecer.

Vá embora... apenas vá. Leve minhas irmãs junto .

Rhys me olhava.

— Não.

Mas eu recuei... até chegar ao peito de Tamlin, até que as mãos dele, quentes e pesadas, repousaram sobre meus ombros.

— Faça-o — disse Tamlin ao rei.

— Não — repetiu Rhys, a voz falhando.

Mas o rei apontou para mim. E gritei.

Tamlin segurou meus braços quando gritei e gritei devido à dor que rasgou meu peito, meu braço esquerdo.

Rhysand estava no chão, rugindo, e achei que ele tivesse dito meu nome, tivesse urrado enquanto eu me debatia e chorava. Eu estava sendo despedaçada, estava morrendo, eu estava morrendo...

Não. Não, eu não queria aquilo, não queria...

Um estalo soou em meus ouvidos.

E o mundo se partiu ao meio quando o laço se rompeu.