Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 30 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 28

Minhas irmãs tomaram café da manhã com Rhys e comigo; Azriel estava onde quer que tivesse levado o Attor. Cassian voara para se encontrar com ele assim que voltamos. Ele fizera a Nestha uma reverência debochada, e ela devolvera um gesto vulgar que eu não sabia que minha irmã conhecia.

Cassian apenas riu, e os olhos percorreram o vestido azul-gelo de Nestha com uma intenção predatória que, considerando o sibilo de ódio emitido por ela, ele sabia: a deixara irritada. Então, o feérico se foi, abandonando minha irmã sob o amplo portal, os cabelos castanho-dourados embaraçados pelo vento frio agitado pelas asas poderosas.

Levamos minhas irmãs à cidade para mandar nossa carta, e Rhys nos encantou para que ficássemos invisíveis enquanto elas entravam na lojinha para postá-la. Depois que voltamos para casa, as despedidas foram rápidas. Eu sabia que Rhys queria voltar a Velaris — pelo menos para descobrir o que o Attor planejava.

Eu disse isso a ele enquanto voava conosco pela muralha, para o calor de Prythian, e depois nos atravessava até Velaris.

A névoa da manhã ainda cobria a cidade e as montanhas em volta. O frio também permanecia — mas não era nem de perto tão impiedoso quanto o frio do mundo mortal. Rhys me deixou no saguão, soprando ar quente nas palmas das mãos congeladas, sem sequer dizer adeus.

Com fome de novo, encontrei Nuala e Cerridwen e devorei bolinhos de cebolinha com queijo enquanto pensava no que havia visto, no que tinha feito.

Menos de uma hora depois, Rhys me encontrou na sala de estar, os pés para o alto no sofá diante da lareira, um livro no colo e uma xícara de chá de rosa fumegante na mesa de centro diante de mim. Levantei quando ele entrou, observando-o em busca de um sinal de ferimento. Algum nó em meu peito se afrouxou quando não vi nada de errado.

— Está feito — disse ele, e passou a mão pelo cabelo preto-azulado. — Descobrimos o que precisávamos. — Eu me preparei para ser isolada, para ouvir que aquilo seria resolvido, mas Rhys acrescentou: — Cabe a você, Feyre, decidir o quanto de nossos métodos quer conhecer. Com o que pode lidar. O que fizemos com o Attor não foi bonito.

— Quero saber tudo — decidi. — Me leve até lá.

— O Attor não está em Velaris. Ele estava na Cidade Escavada, na Corte de Pesadelos, onde Azriel levou menos de uma hora para fazê-lo falar. — Esperei por mais, e, como se decidisse que eu não parecia prestes a desabar, Rhys se aproximou até que menos de 30 centímetros do tapete ornamentado restasse entre nós. As botas, em geral impecavelmente polidas... havia sangue prateado borrifado nelas. Apenas quando o encarei, Rhys falou: — Vou mostrar a você.

Eu sabia o que ele queria dizer, e me preparei, bloqueando o fogo crepitante e as botas, e o frio que restava ao redor de meu coração.

Imediatamente, estava na antecâmara da mente de Rhysand... um bolsão de lembrança que Rhys escavara para mim.

Escuridão fluiu ao meu redor, suave, sedutora, ecoando de um abismo de poder tão grande que não tinha fim nem início.

— Conte como a encontrou — disse Azriel, a voz baixa que destruíra inúmeros exércitos.

Eu — Rhys — estava encostada na parede mais afastada da cela, de braços cruzados. Azriel se agachou em frente ao lugar onde o Attor estava acorrentado a uma cadeira no centro da sala. Alguns andares abaixo, a Corte de Pesadelos seguia em frente, alheia ao fato de que seu Grão-Senhor viera.

Precisaria visitá-los em breve. Lembrar quem segurava a coleira.

Em breve. Mas não hoje. Não quando Feyre tinha atravessado.

E ainda estava transtornada comigo.

E com razão, se eu fosse honesto. Mas Azriel descobrira que uma pequena força inimiga tinha se infiltrado no Norte havia dois dias, e minhas suspeitas foram confirmadas. Para afetar a mim ou a Tamlin, eles queriam Feyre. Talvez para fazer experimentos próprios.

O Attor soltou uma risada baixa.

— Recebi notícia do rei de que era onde você estava. Não sei como ele sabia. Recebi a ordem e voei até a muralha o mais rápido possível.

A faca de Azriel estava desembainhada, apoiada em um joelho. Reveladora da Verdade — o nome aparecia estampado na bainha, em prateadas runas illyrianas. Ele já descobrira que o Attor e alguns outros estavam posicionados nos limites do território illyriano. Fiquei tentado a jogar o Attor em um dos acampamentos de guerra e ver o que os illyrianos fariam com ele.

Os olhos do Attor se voltaram para mim, brilhando com um ódio ao qual eu tinha me acostumado.

— Boa sorte ao tentar ficar com ela, Grão-Senhor.

Azriel falou:

— Por quê?

As pessoas costumavam cometer o erro de achar que Cassian fosse o mais selvagem; aquele que não podia ser domado. Mas Cassian era só esquentado — e seu temperamento podia ser usado para forjar e soldar. Havia um ódio gelado em Azriel que eu jamais conseguira aquecer. Nos séculos em que eu o conhecia, dissera pouco a respeito da vida, daqueles anos na fortaleza do pai, trancado na escuridão. Talvez o dom de encantar sombras tivesse vindo até ele então, talvez tivesse se ensinado a língua da sombra e do vento e da pedra. Os meios-irmãos tampouco eram comunicativos. Eu sabia porque os conheci, perguntei sobre o assunto e lhes destruí as pernas quando, em vez de responderem, cuspiram em Azriel.

Eles voltaram a andar... depois de algum tempo.

O Attor falou:

— Acha que não é de conhecimento de todos que você a levou de Tamlin?

Eu já sabia disso. Essa fora a tarefa de Azriel ultimamente: monitorar a situação com a Corte Primaveril e se preparar para nosso ataque contra Hybern.

Mas Tamlin fechara as fronteiras; selara-as tão fortemente que nem mesmo voar por cima delas à noite seria possível. E quaisquer ouvidos e olhos que Azriel tivesse um dia na corte tinham ficado surdos e cegos.

— O rei poderia ajudá-lo a ficar com ela, considerar poupá-lo, se trabalhasse com ele...

Conforme o Attor falava, vasculhei sua mente, cada pensamento era mais cruel e terrível que o seguinte. Ele nem mesmo sabia que eu tinha deslizado para dentro dela, mas... ali: imagens do exército que fora montado, idêntico àquele contra o qual eu lutara cinco séculos antes; dos litorais de Hybern cheios de navios, preparando-se para um ataque; do rei, sentado no trono no castelo em ruínas. Nenhum sinal de Jurian se arrastando por ali, ou do Caldeirão. Nenhum sussurro a respeito de o Livro ocupar suas mentes. Tudo que o Attor tinha confessado era verdade. E a criatura não tinha mais valor.

Az olhou por cima do ombro. O Attor entregara tudo a ele. Agora estava apenas tagarelando para ganhar tempo.

Eu me afastei da parede.

— Quebre suas pernas, destrua as asas e atire-o na costa de Hybern. Veja se sobrevive. — O Attor começou a se debater, a implorar. Parei à porta e falei para ele: — Lembro de todos os momentos. Agradeça por eu permitir que você viva. Por enquanto.

Não tinha me permitido ver as lembranças de Sob a Montanha: de mim, dos outros... do que o Attor tinha feito com aquela garota humana que entreguei a Amarantha no lugar de Feyre. Não me permiti ver como tinha sido espancar Feyre, atormentar e torturá-la.

Eu podia ter batido com o Attor contra as paredes. E precisava que ele mandasse uma mensagem mais do que precisava de minha vingança.

O Attor já gritava sob a lâmina afiada da Reveladora da Verdade quando deixei a cela.

Então, tudo acabou. Cambaleei para trás, retornando para meu corpo.

Tamlin fechara as fronteiras.

— Que situação na Corte Primaveril?

— Nenhuma. A partir de agora. Mas sabe até que ponto Tamlin pode ir para... proteger o que ele acha que é dele.

A imagem de tinta escorrendo pela parede destruída do escritório surgiu em minha mente.

— Deveria ter mandado Mor naquele dia — disse Rhys, como uma ameaça silenciosa.

Ergui os escudos mentais. Não queria falar sobre aquilo.

— Obrigada por me contar — agradeci, e peguei o livro e o chá para levar até o quarto.

— Feyre — disse Rhys. Não o impedi. — Desculpe... por enganar você mais cedo.

E aquilo, me deixar entrar na mente dele... foi uma oferta de paz.

— Preciso escrever uma carta.

A carta foi breve, simples. Mas cada palavra foi uma luta.

Não por causa de meu antigo analfabetismo. Não, agora eu podia ler e escrever muito bem.

Era por causa da mensagem que Rhys, de pé no saguão, agora lia:

Saí por vontade própria.

Sou bem-cuidada e estou segura. Sou grata por tudo que fez por mim, tudo que deu.

Por favor, não venha atrás de mim. Não vou voltar.

Rhysand rapidamente dobrou a carta ao meio, e ela sumiu.

— Tem certeza?

Talvez a carta pudesse ajudar com qualquer que fosse a situação que estivesse acontecendo na Corte Primaveril. Olhei pelas janelas além. A névoa que cobria a cidade tinha se dissipado, revelando um céu limpo e sem nuvens. E, de alguma forma, minha cabeça parecia mais leve que dias antes; meses.

Havia uma cidade lá fora, que eu mal tinha observado, ou com a qual mal me importava.

Eu queria aquilo: vida, pessoas. Queria vê-la, sentir a agitação em meu sangue. Sem obstáculos, sem limites para o que eu poderia encontrar ou fazer.

— Não sou o bicho de estimação de ninguém — argumentei. A expressão de Rhys estava contemplativa, e me perguntei se ele se lembrava de que tinha me dito a mesma coisa uma vez, quando eu estava quase perdida em minha culpa e meu desespero para entender. — E agora?

— Se faz alguma diferença, eu queria mesmo dar a você um dia para descansar...

— Não me paparique.

— Não estou. E mal chamo nosso encontro dessa manhã de descansar. Mas me perdoe por precisar fazer avaliações com base em sua condição física atual.

— Eu decidirei isso. E quanto ao Livro dos Sopros?

— Depois que Azriel voltar de tratar do Attor, vai colocar sua outra habilidade em uso e se infiltrar nas cortes das rainhas mortais para descobrir onde o estão guardando, e quais podem ser os planos delas. E, quanto à metade que fica em Prythian... Iremos à Corte Estival em alguns dias se meu pedido de visita tiver sido aprovado. Grão-Senhores visitando outras cortes deixam todos alertas. Lidaremos com o Livro então.

Rhys se calou, sem dúvida esperando que eu subisse arrastando os pés, que ficasse deprimida e fosse dormir.

Bastava; já estava cheia de dormir.

— Você me disse era melhor visitar esta cidade à noite. Era só conversa ou algum dia vai se dar o trabalho de me mostrar? — perguntei.

Soltei uma risada baixa enquanto Rhys me observava. Não me encolhi diante do olhar.

Quando os olhos de Rhysand encontraram os meus de novo, a boca se contorceu em um sorriso que muito poucos viam. Verdadeira diversão — talvez um pouco de felicidade com uma pontada de alívio. O macho por trás da máscara de Grão-Senhor.

— Jantar — disse ele. — Esta noite. Vamos descobrir se você, Feyre querida, está só de conversa, ou se permitirá que um Senhor da Noite a leve para se divertir.

 

Amren foi até meu quarto antes do jantar. Pelo visto, todos sairíamos naquela noite.

No andar de baixo, Cassian e Mor implicavam um com o outro sobre o que seria mais rápido: Cassian voando uma certa distância, ou Mor a atravessando. Presumi que Azriel estivesse perto, buscando abrigo nas sombras. Esperava que ele tivesse descansado depois de lidar com o Attor... e que descansasse um pouco mais antes de entrar no reino mortal para espionar aquelas rainhas.

Amren pelo menos bateu dessa vez, antes de entrar. Nuala e Cerridwen, que tinham terminado de colocar pentes de madrepérola em meus cabelos, olharam uma vez para a delicada fêmea e sumiram em lufadas de fumaça.

— Coisinhas assustadas — comentou Amren, os lábios vermelhos formando uma linha cruel. — Espectros sempre são.

— Espectros? — Eu me virei na cadeira diante da penteadeira. — Achei que fossem Grã-Feéricas.

— Metade — explicou Amren, avaliando minhas roupas turquesa, cobalto e brancas. — Espectros não passam de sombras e névoa, e são capazes de atravessar paredes, pedras, seja lá o que for. Nem mesmo quero saber como aquelas duas foram concebidas. Grão-Feéricos enfiam os paus em qualquer lugar.

Engasguei no que poderia ter sido uma risada ou uma tosse.

— Elas dão boas espiãs.

— Por que acha que agora estão sussurrando ao ouvido de Azriel que estou aqui?

— Achei que respondessem a Rhys.

— Elas respondem aos dois, mas foram treinadas por Azriel primeiro.

— Estão me espionando?

— Não. — Amren franziu a testa para um fio solto na camisa cor de nuvem de chuva. Os cabelos pretos na altura do queixo oscilaram quando ela ergueu a cabeça. — Rhys já disse diversas vezes para não o fazerem, mas não acho que Azriel algum dia vá confiar totalmente em mim. Então, estão relatando meus movimentos. E com um bom motivo.

— Por quê?

— Por que não? Eu ficaria desapontada se o mestre-espião de Rhysand não ficasse de olho em mim. Se nem mesmo desobedecesse a ordens para isso.

— Rhys não o pune por desobedecer?

Aqueles olhos prateados brilharam.

— A Corte do Sonhos é fundamentada em três coisas: defender, honrar e preservar. Esperava força bruta e obediência? Muitos dos altos oficiais de Rhysand têm pouco ou nenhum poder. Ele valoriza lealdade, esperteza, compaixão. Azriel, apesar da desobediência, está agindo para defender a corte de Rhys, o povo dele. Então, não. Rhysand não pune isso. Há regras, mas são flexíveis.

— E quanto ao Tributo?

— Que Tributo?

Levantei da banqueta.

— O Tributo... impostos, o que seja. Duas vezes por ano.

— Há impostos sobre os habitantes da cidade, mas não há Tributo. — Amren emitiu um estalo com a língua. — Mas o Grão-Senhor da Corte Primaveril cobra um.

Eu não queria pensar mesmo naquilo, ainda não; não com aquela carta agora a caminho de Tamlin, se é que já não tinha sido entregue. Então, peguei a pequena caixa na penteadeira e tirei de dentro o amuleto de Amren.

— Aqui. — Entreguei a coisa de ouro encrustada de joias. — Obrigada.

A sobrancelha de Amren se ergueu quando soltei o amuleto na palma de sua mão.

— Você me devolveu.

— Não sabia que era um teste.

Ela colocou o amuleto de volta na caixa.

— Fique com ele. Não tem magia.

Pisquei.

— Você mentiu...

Amren deu de ombros, dirigindo-se à porta.

— Encontrei no fundo de minha caixa de joias. Precisava de algo que a fizesse acreditar que poderia sair da Prisão de novo.

— Mas Rhys ficava olhando para ele...

— Porque Rhys me deu o cordão há duzentos anos. Ele estava provavelmente surpreso por vê-lo de novo, e se perguntou por que eu o tinha dado a você. Provavelmente preocupado com o fato de eu ter dado a joia a você.

Trinquei os dentes, mas Amren já estava deslizando para a porta com um alegre:

— De nada.