Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 38 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 36

O dia seguinte foi uma tortura. Uma tortura lenta, interminável, quente como o inferno.

 

Fingir interesse no continente conforme caminhava com Tarquin, conhecia seu povo, sorria para eles, ficou mais difícil conforme o sol percorreu o céu e então finalmente começou a descer em direção ao mar. Mentirosa, ladra, enganadora — era assim que me chamariam em breve.

Esperava que soubessem — que Tarquin soubesse — que o que tínhamos feito era pelo bem deles.

Arrogância suprema, talvez, pensar assim, mas... era verdade. Considerando a rapidez com que Tarquin e Cresseida tinham se olhado, me guiado para longe daquele templo... Aposto que não teriam entregado o livro. Por quaisquer que fossem os motivos, queriam o artefato.

Talvez esse novo mundo de Tarquin só pudesse ser construído com base na confiança... Mas ele não teria a chance de construí-lo se tudo fosse destruído pelos exércitos do rei de Hybern.

Foi o que disse para mim mesma, repetidas vezes, conforme caminhávamos pela cidade de Tarquin; conforme eu aturava os cumprimentos de seu povo. Talvez não tão alegres quanto aqueles em Velaris, mas... era uma acolhida esforçada e merecida. Aquelas pessoas tinham suportado o pior e agora tentavam superá-lo.

Como eu deveria superar minha escuridão.

Quando o sol por fim deslizou no horizonte, confessei a Tarquin que estava cansada e com fome — e, por ser gentil e hospitaleiro, ele me levou de volta, e me comprou uma torta de peixe assado a caminho de casa. Ele até mesmo comera um peixe frito nas docas naquela tarde.

O jantar foi o pior.

Partiríamos antes do café da manhã, mas eles não sabiam disso. Rhys mencionou voltar à Corte Noturna na tarde do dia seguinte, então, talvez uma partida mais cedo não parecesse tão suspeita. Ele deixaria um bilhete sobre assuntos urgentes, agradeceria a Tarquin pela hospitalidade e então sumiria para casa... para Velaris. Se tudo corresse de acordo com o planejado.

Havíamos descoberto onde os guardas estavam posicionados, como os turnos funcionavam e onde os postos ficavam no continente também.

E, quando Tarquin beijou minha bochecha ao me dar boa-noite, dizendo que desejava que aquela não fosse minha última noite e que talvez visse se poderia visitar a Corte Noturna em breve... Quase caí de joelhos para implorar seu perdão.

A mão de Rhysand em minhas costas era um aviso sólido para que eu mantivesse a calma... mesmo que o rosto só estampasse aquela diversão fria.

Fui para o quarto. E encontrei trajes de couro de guerra illyrianos me esperando. Junto daquele cinto de facas illyrianas.

Então, me vesti para batalha mais uma vez.

Rhys voou conosco para perto da maré baixa e nos deixou antes tomar os céus, onde ele circularia, monitoraria os guardas na ilha e no continente enquanto caçávamos.

A lama fedia, emitia ruídos aquosos e nos espremia a cada passo desde a estreita estrada do quebra-mar até a pequena ruína do templo. Cracas, algas marinhas e lapas se agarravam a pedras cinza — e cada passo para dentro da única câmara interna fazia com que aquela coisa em meu peito dissesse onde você está, onde você está, onde você está?

Rhys e Amren tinham verificado feitiços ao redor do local, mas não encontraram nada. Era estranho, mas era uma sorte. Graças à porta aberta, não ousamos arriscar acender uma luz, e, com as rachaduras na pedra acima, o luar fornecia iluminação suficiente.

Com os joelhos enterrados em lama, a água recuando e escorrendo pelas rochas, Amren e eu verificamos a câmara, com pouco mais de 12 metros de largura.

— Consigo sentir — sussurrei. — Como a mão de alguém, cheia de garras, percorrendo minha coluna. — De fato, minha pele formigava, os pelos se arrepiavam sob o traje quente de couro. — Está dormente.

— Não é à toa que o tenham escondido sob pedra e lama e mar — murmurou Amren, com a lama fazendo barulhos aquosos quando ela se virou onde estava.

Estremeci, as facas illyrianas em mim agora pareciam tão úteis quanto palitos de dente, e mais uma vez me virei onde estava.

— Não sinto nada nas paredes. Mas está aqui.

De fato, nós duas olhamos para baixo na mesma hora e nos encolhemos.

— Devíamos ter trazido uma pá — ponderou Amren.

— Não há tempo de pegar uma. — A maré estava totalmente baixa agora. Cada minuto contava. Não apenas para a água, que retornaria, mas para o alvorecer, que não estava muito longe.

Cada passo era um esforço em meio ao aperto firme da lama, e me concentrei naquela sensação, naquele chamado. Parei no centro da câmara; bem no centro. Aqui, aqui, aqui, sussurrou a coisa.

Eu me inclinei para baixo, estremecendo para a lama gelada, para os pedaços de concha e de destroços que arranharam minhas mãos expostas conforme comecei a empurrá-los.

— Rápido.

Amren sibilou, mas se abaixou para puxar a lama pesada e densa. Caranguejos e coisas ligeiras fizeram cócegas em meus dedos. Eu me recusei a pensar neles.

Então, cavamos e cavamos, até estarmos cobertas de lama salgada que queimava nossos inúmeros pequenos cortes conforme ofegávamos para um piso de pedra. E uma porta de chumbo.

Amren xingou.

— Chumbo para manter a força total dele do lado de dentro, para preservá-lo. Costumavam cobrir os sarcófagos dos grandes governantes com isso, porque achavam que um dia acordariam.

— Se o rei de Hybern sair por aí com aquele Caldeirão, podem muito bem acordar.

Amren estremeceu e apontou.

— A porta está selada.

Limpei a mão na única parte de mim que estava limpa — o pescoço — e usei a outra para raspar o restante da lama da porta redonda. Cada esbarro contra o chumbo lançava pontadas de frio por mim. Mas ali estava: um redemoinho entalhado no centro da porta.

— Isso está aqui há muito tempo — murmurei.

Amren assentiu.

— Não ficaria surpresa se, apesar da marca do poder do Grão-Senhor, Tarquin e seus predecessores jamais tivessem colocado os pés aqui, o feitiço de sangue neste lugar tivesse sido imediatamente transferido para eles depois que assumiram o poder.

— Por que desejar o Livro, então?

— Não iria querer esconder um objeto de terrível poder? Para que ninguém pudesse usá-lo para o mal, ou para ganho pessoal? Ou talvez o tenham trancafiado para ter poder de barganha se algum dia fosse necessário. Eu não tinha ideia de por que eles, de todas as cortes, receberam a metade do Livro para início de conversa.

Sacudi a cabeça e espalmei a mão no redemoinho no chumbo.

Um sobressalto me percorreu o corpo como relâmpago, e resmunguei, descendo meu peso sobre a porta.

Meus dedos congelaram ali, como se o poder estivesse sugando minha essência, bebendo como Amren bebia, e eu o senti hesitar, questionar...

Sou Tarquin. Sou verão; sou calor; sou mar e céu e campos cultivados.

Eu me tornei cada sorriso que Tarquin me lançara, me tornei o azul cristalino de seus olhos, o marrom de sua pele. Senti minha pele mudar, senti meus ossos se esticarem e mudarem. Até que eu fosse ele, e até que então eu tivesse um par de mãos masculinas, que agora faziam força contra a porta. Até que minha essência se tornasse o que eu tinha provado naquele escudo mental interior de Tarquin: mar e sol e maresia. Não me dei um momento para pensar em que poder teria acabado de usar. Não permiti que nenhuma parte de mim que não fosse o Grão-Senhor da Corte Estival transparecesse.

Sou seu mestre, e você me deixará passar.

A tranca resistiu com mais e mais força, e mal consegui respirar...

Então, ouviu-se um clique e um rangido.

Voltei para minha pele e recuei para a lama amontoada no momento em que a porta afundou e se afastou, entrando sob as pedras e revelando uma escada espiralada que descia para uma escuridão primitiva. E, com uma brisa úmida e salgada, de baixo subiram gavinhas de poder.

Do outro lado da escada, o rosto de Amren ficara mais pálido que o comum, os olhos prateados brilhavam fortemente.

— Nunca vi o Caldeirão — disse Amren. — Mas deve ser mesmo terrível se apenas um grão de seu poder tem... essa sensação.

De fato, aquele poder estava preenchendo a câmara, minha cabeça, meus pulmões; sufocando, afogando e seduzindo...

— Rápido — avisei, e uma pequena bola de luz feérica disparou para baixo da curva das escadas, iluminando degraus cinza desgastados escorregadios com lodo.

Saquei a faca de caça e desci, com uma das mãos apoiada na parede de pedra gelada, para evitar escorregar.

Desci uma curva, com Amren logo atrás, antes de luz feérica dançar sobre uma água pútrida na altura da cintura. Verifiquei a passagem ao pé das escadas.

— Tem um corredor e uma câmara além dele. Tudo livre.

— Então, suba correndo — disse Amren.

Eu me preparei e avancei para a água escura, contendo o grito diante da temperatura quase congelante, da oleosidade dali. Amren quase vomitou, pois a água praticamente lhe atingia o peito.

— Este lugar sem dúvida enche rápido depois que a maré sobe de novo — observou Amren, conforme arrastávamos as pernas pela água, franzindo a testa para os muitos vãos de drenagem nas paredes.

Seguimos devagar o bastante para que ela detectasse qualquer tipo de feitiço ou armadilha, mas... não havia nada. Nada mesmo. No entanto, quem desceria até lá, até tal lugar?

Tolos... tolos desesperados, isso sim.

O longo corredor de pedra terminava em uma segunda porta de chumbo. Atrás dela, aquele poder estava contido, cobrindo a marca de Tarquin.

— Está ali.

— Obviamente.

Fiz uma cara feia para Amren, nós duas estremecemos. O frio estava intenso o bastante para que eu me perguntasse se talvez já estaria morta caso ainda tivesse um corpo de humana. Ou perto de morrer.

Espalmei a mão na porta. Os puxões, os questionamentos e a exaustão foram piores dessa vez. Muito piores, e precisei apoiar a mão tatuada na porta para evitar cair de joelhos e gritar conforme o poder me pilhava.

Sou verão, sou verão, sou verão .

Não me transformei em Tarquin dessa vez — não precisei. Um clique e um rangido, e a porta de chumbo deslizou para a parede, águas se encontraram e agitaram quando cambaleei para trás, para os braços pacientes de Amren.

— Fechadura tão travessa — sibilou ela, estremecendo não apenas devido à água.

Minha cabeça estava girando. Mais uma fechadura e eu poderia muito bem desmaiar.

Mas a luz feérica tremeluziu para dentro da câmara diante de nós e paramos.

A água não tinha se encontrado com mais uma câmara, mas parado contra um umbral invisível. A câmara seca além estava vazia, exceto por um altar redondo e um pedestal.

Uma pequena caixa de chumbo estava sobre ele.

Amren gesticulou com a mão hesitante no ar acima de onde a água simplesmente... parava. Então, satisfeita por não haver feitiços ou truques, ela entrou, pingando nas pedras cinza ao ficar de pé na câmara, encolhendo um pouco o corpo, e me chamar.

Arrastando as pernas o mais rápido possível na água, eu a segui, quase caindo no chão quando meu corpo se ajustou ao ar repentino. Eu me virei... e, de fato, a água era uma parede negra, como se houvesse um painel de vidro mantendo-a no lugar.

— Sejamos rápidas — ordenou Amren, e não discordei.

Nós duas cuidadosamente verificamos a câmara: pisos, paredes, tetos. Nenhum sinal de mecanismos ou gatilhos ocultos.

Embora não fosse maior que um livro comum, a caixa de chumbo parecia engolir a luz feérica; e dentro dela, sussurrando... o selo do poder de Tarquin e o Livro.

E agora ouvi, com tanta clareza quanto se a própria Amren tivesse sussurrado:

Quem é você... o que é você? Chegue mais perto, me deixe sentir seu cheiro, me deixe vê-la...

Paramos de lados opostos do pedestal, a luz feérica pairava sobre a tampa.

— Nenhum feitiço — disse Amren, a voz pouco mais alta que o raspar de suas botas na pedra. — Nenhum feitiço. Precisa retirá-lo... carregá-lo para fora. — A ideia de tocar naquela caixa, de me aproximar daquela coisa dentro dela... — A maré está voltando — acrescentou Amren, verificando o teto.

— Cedo assim?

— Talvez o mar saiba. Talvez o mar seja o servo do Grão-Senhor.

E se ficássemos presas ali embaixo quando a água subisse...

Não achei que meus pequenos animais de água ajudariam. Pânico se contorceu em meu estômago, mas eu o afastei e reuni coragem, erguendo o queixo.

A caixa devia ser pesada e fria.

Quem é você, quem é você, quem é você...

Flexionei os dedos e estalei o pescoço. Sou verão; sou mar e sol e coisas verdes.

— Vamos lá, vamos lá — murmurou Amren. Acima, a água escorria pelas pedras.

Quem é você, quem é você, quem é você...

Sou Tarquin; sou Grão-Senhor; sou seu mestre.

A caixa se calou. Como se fosse resposta o bastante.

Peguei a caixa do pedestal, a frieza do metal feriu minhas mãos, e o poder percorreu meu sangue, como uma mancha de óleo.

Uma voz antiga e cruel sibilou:

Mentirosa.

E a porta bateu.