Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 62 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 60

– Velaris está segura — disse Rhys, nas altas horas da noite. — Os encantamentos que o Caldeirão tirou foram refeitos.

Não tínhamos parado a fim de descansar até então. Durante horas, trabalhamos, assim como o resto da cidade, para curar, para emendar, para caçar respostas de qualquer forma possível. E, agora, estávamos todos reunidos de novo; o relógio soava 3 horas da manhã.

Eu não sabia como Rhys se aguentava em pé enquanto ele se encostava na lareira da sala de estar. Já eu quase caía no sofá ao lado de Mor, nós duas cobertas de terra e sangue. Como o restante deles.

Jogado em uma poltrona feita para asas illyrianas, Cassian exibia uma expressão arrasada e se curava devagar o bastante para que eu soubesse que tinha drenado o poder durante aqueles longos minutos em que defendera a cidade sozinho. Mas os olhos cor de avelã ainda brilhavam com as chamas do ódio.

Amren não parecia muito melhor. As roupas cinzentas da minúscula fêmea estavam praticamente em frangalhos, e a pele por baixo era pálida como neve. Quase dormindo no sofá diante de mim, ela se encostava em Azriel, que ficava lançando olhares alarmados para ela, mesmo que os próprios ferimentos sagrassem um pouco. No dorso das mãos cobertas de cicatrizes, seus Sifões azuis estavam apagados, mudos. Completamente vazios.

Enquanto eu ajudava os sobreviventes no Arco-Íris a cuidar dos feridos, a contar os mortos e a começar os consertos, Rhys vinha checar de vez em quando, enquanto reconstruía os encantamentos com qualquer poder que tivesse restado em seu arsenal. Durante uma de nossas breves pausas, Rhys me contou o que Amren tinha feito do lado dela do rio.

Com o poder sombrio, ela disparou ilusões para as mentes dos soldados. Eles acreditavam que tinham caído no Sidra e estavam se afogando; acreditavam que voavam milhares de quilômetros acima e tinham mergulhado, rápidos e ligeiros, para a cidade — apenas para encontrar a rua a poucos metros, e terem os crânios esmagados. Sobre os mais cruéis, os mais vis, Amren liberou os próprios pesadelos — até que morressem de terror, os corações cedendo.

Alguns haviam caído no rio, bebendo o próprio sangue, que se esvaía enquanto se afogavam. Alguns tinham desaparecido de vez.

— Velaris pode estar segura — respondeu Cassian, sem se dar o trabalho de levantar a cabeça de onde ela repousava contra o encosto da poltrona. — Mas por quanto tempo? Hybern sabe sobre este lugar, graças àquelas rainhas. Para quem mais vão vender a informação? Quanto tempo teremos até que outras cortes venham xeretar? Ou até que Hybern use aquele Caldeirão de novo para derrubar nossas defesas?

Rhys fechou os olhos, os ombros estavam tensos. Eu já conseguia ver o peso que recaía sobre aquela cabeça de cabelos pretos.

Odiava acrescentar ao fardo, mas falei:

— Se todos formos a Hybern para destruir o Caldeirão... quem defenderá a cidade?

Silêncio. Rhys engoliu em seco.

Amren disse:

— Eu fico. — Cassian abriu a boca para protestar, mas Rhys olhou lentamente para a imediata. Amren o encarou de volta ao acrescentar: — Se Rhys precisar ir a Hybern, então sou a única de vocês que pode guardar a cidade até que ajuda chegue. Hoje foi uma surpresa. Uma ruim. Quando partirem, estaremos melhor preparados. Os novos encantamentos que fizemos não cairão tão facilmente.

Mor soltou um suspiro.

— Então, o que fazemos agora?

— Dormimos. Comemos — respondeu Amren, simplesmente.

E foi Azriel quem acrescentou, com a voz rouca em consequência da cólera da batalha:

— E depois retaliamos.

 

Rhys não foi deitar.

E, quando saí do banho, a água cheia de sujeira e sangue, ele não estava em lugar algum.

Mas procurei pelo laço entre nós e subi, arrastando os pés, as pernas rígidas reclamando de dor. Ele estava sentado no telhado, no escuro. As asas imensas se abriam atrás de Rhys, caindo sobre os azulejos.

Deslizei para seu colo, abraçando seu pescoço.

Ele olhava para a cidade à volta.

— Tão poucas luzes. Tão poucas luzes restantes esta noite.

Não olhei. Apenas tracei as linhas do rosto de Rhys e, depois, passei o polegar por sua boca.

— Não é culpa sua — garanti, em voz baixa.

Os olhos de Rhys se voltaram para os meus, mal visíveis na escuridão.

— Não é? Entreguei a cidade a elas. Disse que estava disposta a arriscá-la, mas... não sei quem odeio mais: o rei, aquelas rainhas ou a mim.

Eu lhe afastei os cabelos do rosto. Rhys pegou minha mão, impedindo os movimentos de meus dedos.

— Você me deixou de fora — sussurrou Rhys. — Você... fez um escudo contra mim. Completamente. Não consegui encontrar uma entrada.

— Desculpe.

Rhys soltou uma risada amarga.

— Desculpe? Sinta-se impressionada. Aquele escudo... O que você fez com o Attor... — Rhys sacudiu a cabeça. — Poderia ter sido morta.

— Vai me dar um sermão por isso?

Rhys franziu a testa. Depois, enterrou o rosto em meu ombro.

— Como poderia dar um sermão por defender meu povo? Quero brigar, sim, por não ter voltado para casa, mas... escolheu lutar por eles. Por Velaris. — Rhysand beijou meu pescoço. — Não mereço você.

Meu coração se apertou. Rhys foi sincero: se sentia realmente daquela forma. Acariciei seus cabelos de novo. E disse a Rhys, as palavras eram o único som na cidade silenciosa e escura:

— Merecemos um ao outro. E merecemos ser felizes.

Rhys estremeceu contra mim. E quando seus lábios encontraram os meus, deixei que me deitasse nos azulejos do telhado e fizesse amor comigo sob as estrelas.

 

Amren desvendou o código na tarde seguinte. A notícia não era boa.

— Para anular o poder do Caldeirão — disse ela, como cumprimento, conforme nos reuníamos em volta da mesa de jantar na casa da cidade, depois de voltarmos às pressas dos reparos que estávamos todos fazendo, tendo dormido muito pouco —, é preciso tocar o Caldeirão e dizer estas palavras. — Ela as escrevera para mim em um pedaço de papel.

— Tem certeza disso? — perguntou Rhys. Ele ainda estava arrasado devido ao ataque, por ter curado e ajudado o povo o dia inteiro.

Amren sibilou.

— Estou tentando não me sentir ofendida, Rhysand.

Mor cutucou-os para abrir caminho, encarando os dois pedaços do Livro dos Sopros reunidos.

— O que acontece se juntarmos as duas metades?

— Não as junte — disse Amren, simplesmente.

Com cada pedaço disposto, as vozes se misturavam e cantavam e sibilavam — mal e bem e loucura; escuridão e luz e caos.

— Se unir as partes — esclareceu Amren, quando Rhys lhe lançou um olhar inquisidor —, a explosão de poder poderá ser sentida em todos os cantos e buracos da terra. Não vai apenas atrair o rei de Hybern. Vai atrair inimigos muito mais antigos e mais desprezíveis. Coisas que estão dormentes há muito tempo... e devem permanecer assim.

Eu me encolhi um pouco. Rhys colocou a mão em minhas costas.

— Então, atacamos agora — disse Cassian. O rosto havia se curado, mas Cassian mancava devido a um ferimento que eu não conseguia ver por baixo do traje de combate. Ele indicou Rhys com o queixo. — Como você não pode atravessar sem ser rastreado, Mor e Az atravessam com todos nós, Feyre quebra o Caldeirão, e nós partiremos. Entraremos e sairemos antes que qualquer um perceba, e o rei de Hybern terá uma nova panela.

Engoli em seco.

— Pode estar em qualquer lugar do castelo.

— Sabemos onde está — replicou Cassian.

Pisquei. Azriel disse, para mim:

— Conseguimos descobrir que ele está nos andares inferiores. — Por meio da espionagem, do planejamento para aquela viagem durante tantos meses. — Cada centímetro do castelo e da terra ao redor é pesadamente vigiado, mas não é impossível passar. Calculamos o tempo para um pequeno grupo de nós entrar, rápida e silenciosamente, e sair antes que saibam o que está acontecendo.

— Mas o rei de Hybern poderia notar a presença de Rhys assim que ele chegar. E se Feyre precisar de tempo para anular o caldeirão, e não soubermos quanto tempo, essa é uma variável arriscada — argumentou Mor.

Cassian rebateu:

— Consideramos isso. Então, você e Rhys atravessarão conosco até a costa; voaremos, e ele fica. — Precisariam me atravessar, percebi, porque eu ainda não tinha a habilidade para fazer isso por longas distâncias. Pelo menos não com muitas paradas no meio. — E quanto ao encantamento — continuou Cassian —, é um risco que precisaremos correr.

Fez-se silêncio enquanto eles esperavam pela resposta de Rhys. Meu parceiro observou meu rosto, de olhos arregalados.

— É um plano sólido — insistiu Azriel. — O rei não conhece nossos cheiros. Destruímos o Caldeirão e sumimos antes que ele note... Será um insulto mais grave que a rota direta e sangrenta que estávamos considerando, Rhys. Nós os derrotamos ontem, então entrarmos naquele castelo... — A vingança realmente dançava naquele rosto normalmente plácido. — Deixaremos alguns lembretes de que ganhamos a última e maldita guerra por um motivo.

Cassian assentiu sombriamente. Até mesmo Mor sorriu um pouco.

— Está me pedindo — disse Rhys, por fim, calmo demais — para ficar de fora enquanto minha parceira entra na fortaleza do rei?

— Sim — respondeu Azriel, com igual calma, e Cassian se colocou levemente entre os dois. — Se Feyre não conseguir anular o Caldeirão fácil ou rapidamente, nós o roubaremos, enviaremos os pedaços de volta ao desgraçado quando terminarmos de destruí-lo. De toda forma, Feyre o chama pelo laço quando tivermos terminado, e você e Mor nos atravessam para fora. Não poderão rastreá-lo rápido o bastante se for apenas nos buscar.

Rhysand se sentou no sofá ao meu lado, por fim, suspirando. Ele desviou o olhar para mim.

— Se quiser ir, então vá, Feyre.

Se eu já não estivesse apaixonada por ele, poderia tê-lo amado por aquilo, por não insistir que eu ficasse, mesmo que aquilo enlouquecesse os instintos de Rhys, por não me trancafiar depois do que acontecera no dia anterior.

E percebi... percebi o quanto tinha sido maltratada antes se meus padrões tinham se tornado tão baixos. Se a liberdade que eu tinha recebido parecia um privilégio e não um direito inerente.

Os olhos de Rhys ficaram sombrios, e eu soube que ele lia o que eu pensava e sentia.

— Você pode ser minha parceira — começou Rhysand. — Mas ainda é uma pessoa independente. Decide seu destino, faz suas escolhas. Não eu. Você escolheu ontem. Escolhe todos os dias. Para sempre.

E talvez ele só entendesse porque Rhysand também estivera impotente, sem escolhas, fora forçado a fazer coisas muito terríveis, e trancafiado. Trancei meus dedos nos dele e apertei. Juntos... juntos encontraríamos nossa paz, nosso futuro. Juntos lutaríamos por eles.

— Vamos para Hybern — decidi.

 

Eu estava no meio das escadas, uma hora depois, quando percebi que ainda não fazia ideia de para que quarto ir. Tinha usado meu quarto desde que tínhamos voltado do chalé, mas... e o dele?

Com Tamlin, ele ficara com o próprio quarto e dormia no meu. E supus... supus que seria igual.

Eu estava quase na porta do quarto quando Rhysand falou, atrás de mim:

— Podemos usar seu quarto se quiser, mas... — Ele se inclinava contra a porta aberta do próprio quarto. — Ou o seu ou o meu, mas vamos dividir um de agora em diante. Apenas me diga se eu deveria passar minhas roupas para o seu. Se não tem problema para você.

— Não quer... não quer seu próprio espaço?

— Não — respondeu Rhys, diretamente. — A não ser que você queira. Preciso que me proteja de nossos inimigos com seus lobos d’água.

Ri com deboche. Ele tinha me obrigado a contar essa parte da história várias vezes. Indiquei o quarto de Rhys com o queixo.

— Sua cama é maior.

E foi isso.

Entrei e encontrei minhas roupas já ali, um segundo armário agora ao lado do dele. Encarei a imensa cama e, depois, o espaço aberto ao nosso redor.

Rhys fechou a porta e foi até uma pequena caixa na mesa... e silenciosamente a entregou para mim.

Meu coração acelerou quando abri a tampa. A safira em formato de estrela reluziu à luz da vela, como se fosse um dos espíritos da Queda das Estrelas preso na pedra.

— O anel de sua mãe?

— Minha mãe me deu esse anel para me lembrar de que estaria sempre comigo, mesmo durante a pior parte de meu treinamento. E quando alcancei a maioridade, ela o tirou. Era uma herança de sua família, fora entregue de uma fêmea a outra durante muitos, muitos anos. Minha irmã ainda não tinha nascido, então, não o teria entregue a ela, mas... Minha mãe o deu à Tecelã. E então me disse que, se eu devesse me casar ou ter uma parceira, essa fêmea deveria ser esperta ou forte o bastante para recuperá-lo. E, se a fêmea não fosse qualquer dessas coisas, não sobreviveria ao casamento. Prometi a minha mãe que qualquer coisa em potencial ou parceira seria testada... Então, o anel ficou lá durante séculos.

Meu rosto corou.

— Você disse que era algo de valor...

— É. Para mim e para minha família.

— Então, minha viagem à Tecelã...

— Vital para que descobríssemos se você podia detectar esses objetos. Mas... escolhi o objeto por puro egoísmo.

— Então, ganhei meu anel de casamento sem nem ser perguntada se queria me casar com você?

— Talvez.

Inclinei a cabeça.

— Você... você quer que eu o use?

— Apenas se você quiser.

— Quando formos para Hybern... digamos que as coisas não deem certo. Alguém vai poder notar que somos parceiros? Poderiam usar isso contra você?

Ódio lampejou nos olhos de Rhys.

— Se nos virem juntos e puderem sentir nosso cheiro ao mesmo tempo, saberão.

— E se eu aparecer sozinha, usando um anel de casamento da Corte Noturna...

Rhys grunhiu baixinho.

Eu fechei a caixa, deixando o anel dentro.

— Depois que anularmos o Caldeirão, quero fazer tudo. Declarar a parceria, casar, dar uma festa idiota e convidar todos em Velaris, tudo isso.

Rhys pegou a caixa de minhas mãos e a colocou na cômoda, antes de me levar para a cama.

— E se eu quiser dar um passo além disso?

— Estou ouvindo — ronronei, quando Rhys me deitou nos lençóis.