Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 65 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 63

Medi a distância entre meus amigos e Jurian, comparei minha espada às espadas gêmeas cruzadas às costas dele. Cassian deu um passo na direção do guerreiro que descia e grunhiu:

 

— Você.

Jurian riu com escárnio.

— Trabalhou até conseguir subir de patente, foi? Parabéns.

Senti quando ele deslizou até nós. Como uma ondulação de noite e ira, Rhys surgiu ao meu lado. O Livro sumiu imediatamente, o movimento foi tão sutil, quando Rhys o tirou de mim e o enfiou no próprio casaco, que mal registrei que acontecera.

Mas assim que o metal deixou minhas mãos... Pela Mãe, o que acontecera? Eu tinha fracassado, tão completamente, ficara tão pateticamente sobrepujada por ele...

— Você parece bem, Jurian — comentou Rhys, caminhando até o lado de Cassian, casualmente se colocando entre mim e o antigo guerreiro. — Para um cadáver.

— Da última vez que o vi — disse Jurian, com desprezo —, estava aquecendo os lençóis de Amarantha.

— Então, você se lembra — ponderou Rhysand, mesmo enquanto meu ódio disparava. — Interessante.

Os olhos de Jurian se voltaram para Mor.

— Onde está Miryam?

— Está morta — respondeu Mor, simplesmente. A mentira que era contada há quinhentos anos. — Ela e Drakon se afogaram no mar Erythrian. — O rosto impassível da princesa dos pesadelos.

— Mentirosa — cantarolou Jurian. — Sempre foi uma mentirosa, Morrigan.

Azriel grunhiu, o som era diferente de tudo que eu já ouvira dele antes.

Jurian o ignorou, o peito começava a se inquietar.

— Para onde levou Miryam?

— Para longe de você — sussurrou Mor. — Eu a levei para o príncipe Drakon. Eles se tornaram parceiros e se casaram na noite em que você assassinou Clythia. E ela nunca mais pensou em você.

Ira contraiu o rosto bronzeado dele. Jurian — herói das legiões humanas... que pelo caminho tinha se transformado em um monstro tão terrível quanto aquele contra os quais lutara.

Rhys estendeu o braço para trás, para pegar minha mão. Tínhamos visto o bastante. Segurei a borda do caldeirão de novo, desejando que ele obedecesse, que viesse conosco. E me preparei para o vento e para a escuridão.

Mas não surgiram.

Mor segurou as mãos de Cassian e de Azriel... e permaneceu imóvel.

Jurian sorriu.

Rhysand falou, apertando minha mão na dele:

— Novo truque?

Jurian deu de ombros.

— Fui enviado para distrair você, enquanto ele fazia o feitiço. — O sorriso de Jurian se tornou lupino. — Não deixará este castelo a não ser que ele permita. Ou em pedaços.

Meu sangue gelou. Cassian e Azriel se agacharam em posição de luta, mas Rhys inclinou a cabeça. Senti seu poder sombrio se elevar mais e mais, como se fosse destruir Jurian bem ali.

Mas nada aconteceu. Nem mesmo um roçar de vento salpicado de noite.

— E tem isso — avisou Jurian. — Não se lembrou? Talvez tenha se esquecido. Foi bom eu estar lá, desperto a cada momento, Rhysand. Ela roubou o livro de feitiços dele para tomar seus poderes.

Dentro de mim, como uma chave clicando em uma fechadura, aquele núcleo derretido de poder apenas... parou. Qualquer que fosse o fio até ele, entre minha mente e minha alma, tinha sido partido; não, esmagado com tanta força por aquela mão invisível que nada conseguia fluir.

Procurei a mente de Rhys, o laço...

E me choquei contra uma parede dura. Não adamantina, mas de uma pedra estranha, insensível.

— Ele se certificou — continuou Jurian, quando me choquei contra aquela parede interna, tentando conjurar meus dons, inutilmente — de que aquele livro em especial fosse devolvido. Ela não sabia como usar metade dos feitiços mais cruéis. Sabe como é não poder dormir, beber ou comer ou respirar ou sentir durante quinhentos anos? Entende como é estar constantemente acordado, ser forçado a observar tudo que ela fazia?

Aquilo o deixara louco — torturara a alma de Jurian até que ficasse louco. Era isso o brilho aguçado em seus olhos.

— Não deve ter sido tão ruim — argumentou Rhys, embora eu soubesse que ele estava liberando cada gota de vontade naquele feitiço que nos continha, que nos amarrava — se você está agora trabalhando para o mestre dela.

Um lampejo de dentes brancos demais.

— Seu sofrimento será longo e completo.

— Parece delicioso — assegurou Rhys, agora nos virando para sair da sala. Um grito silencioso para correr.

Mas alguém surgiu no alto das escadas.

Eu o conhecia... em meus ossos. Os cabelos pretos na altura dos ombros, a pele áspera, as roupas que pendiam mais para o lado prático que o elegante. Ele era de uma altura surpreendentemente mediana, mas musculoso como um jovem.

Mas o rosto — o qual parecia, talvez, o de um homem humano na faixa dos 40 anos... imperturbavelmente bonito. Para esconder os infinitos olhos pretos e cheios de ódio que queimavam ali.

— A armadilha foi tão fácil que estou sinceramente um pouco desapontado por vocês não a terem percebido — disse o rei de Hybern.

Mais rápido que qualquer um de nós poderia ver, Jurian disparou um dardo de freixo escondido no peito de Azriel.

Mor gritou.

 

Não tivemos escolha a não ser seguir o rei.

O dardo de freixo estava coberto de veneno de sangue que o rei de Hybern alegava fluir onde ele quisesse. Se resistíssemos, se não fôssemos com ele até o andar de cima, o veneno dispararia para o coração de Azriel. E com nossa magia travada, sem a habilidade de atravessar...

Se eu de alguma forma conseguisse chegar a Azriel, dar a ele um punhado de meu sangue... Mas levaria tempo demais, requereria movimentos demais.

Cassian e Rhysand carregavam Azriel entre eles, o sangue do mestre-espião escorria pelo chão atrás de nós conforme subíamos as escadas espiraladas do castelo do rei.

Tentei não ficar no caminho conforme Mor e eu os seguíamos, com Jurian atrás de nós. Mor tremia — tentava muito não tremer, mas tremia conforme encarava a ponta daquela seta, visível no espaço entre as asas de Azriel.

Nenhum de nós ousou acertar o rei de Hybern conforme ele caminhava adiante, liderando o caminho. O rei levara consigo o Caldeirão, fazendo-o desaparecer com um estalar de dedos e um olhar sarcástico para mim.

Sabíamos que o rei não estava blefando. Seria preciso um movimento da parte deles para que Azriel morresse.

Os guardas estavam à vista agora. E os cortesãos. Grão-Feéricos e criaturas — não sabia em que categoria se encaixavam — que sorriam como se fôssemos a próxima refeição.

Os olhos das criaturas estavam mortos. Vazios.

Não havia nenhuma mobília, nenhuma obra de arte. Como se o castelo fosse o esqueleto de alguma criatura poderosa.

O salão do trono estava com as portas abertas, e parei. Um salão do trono... o salão do trono que aperfeiçoara a inclinação de Amarantha para demonstrações públicas de crueldade. Luzes feéricas serpenteavam pelas paredes brancas como ossos, e as janelas davam para o mar que quebrava bem abaixo.

O rei subiu em um altar escavado de um único bloco de esmeralda escura — o trono fora montado de ossos de... Senti o sangue se esvair de meu rosto. Ossos humanos. Amarronzados e lisos pela idade.

Paramos diante do trono, com Jurian observando nossas costas. As portas do salão do trono se fecharam.

O rei disse, para ninguém em particular:

— Agora que cumpri com a minha parte do acordo, espero que cumpram com a de vocês. — Das sombras perto de uma porta lateral, duas figuras emergiram.

Comecei a sacudir a cabeça como se pudesse não ver o que estava vendo conforme Lucien e Tamlin caminharam até a luz.