Corte de Névoa e Fúria
Capítulo 51
Nós nos chocamos contra lama congelante do lado de fora da pequena casa de pedra.
Acho que Rhys pretendia nos atravessar para dentro dela, mas seus poderes tinham se esvaído. Do outro lado do pátio, vi Cassian — e Mor — na janela da casa, tomando café da manhã. Seus olhos se arregalaram, e depois eles dispararam para a porta.
— Feyre — gemeu Rhys, os braços nus cedendo conforme ele tentava ficar de pé.
Deixei Rhys deitado na lama e disparei para a casa.
A porta se escancarou, e Cassian e Mor corriam até nós, verificando cada centímetro de nossos corpos. Cassian percebeu que eu estava inteira e disparou para Rhys, que lutava para se levantar, a pele exposta coberta de lama, mas Mor... Mor viu meu rosto.
Fui até ela, com frio, vazia.
— Quero que me leve para algum lugar bem longe — falei. — Agora mesmo. — Eu precisava fugir, precisava pensar, ter espaço, silêncio e paz.
Mor examinou nós dois, mordendo o lábio.
— Por favor — pedi, e minha voz falhou à palavra.
Atrás de mim, Rhys gemeu meu nome de novo.
Mor observou meu rosto outra vez e segurou minha mão.
Nós sumimos em vento e noite.
A claridade me agrediu, e absorvi os arredores: montanhas e neve a nossa volta, fresca e reluzente à luz do meio-dia, tão limpa contra a terra em mim.
Estávamos no alto dos picos, e, a cerca de 100 metros, um chalé repousava, enfiado entre dois picos mais altos das montanhas, protegendo-o do vento. A casa parecia escura, não havia nada ao redor até onde eu enxergava.
— A casa está protegida, para que ninguém possa atravessar para dentro. Ninguém pode passar além deste ponto, na verdade, sem a permissão de nossa família. — Mor deu um passo adiante, a neve estalando sob as botas. Sem o vento, o dia estava ameno o bastante para me lembrar de que a primavera tinha chegado ao mundo, embora apostasse que estaria congelando depois que o sol se fosse. Segui Mor, e algo formigava em minha pele. — Você tem... permissão de entrar — disse Mor.
— Porque sou a parceira dele?
Ela continuou caminhando pela neve na altura dos joelhos.
— Adivinhou, ou ele contou?
— O Suriel me contou. Depois que fui caçá-lo buscando informação sobre como curar Rhys.
Ela xingou.
— Ele... ele está bem?
— Vai viver — respondi. Mor não fez mais perguntas. E não estava me sentindo generosa para fornecer mais informações. Chegamos à porta do chalé, a qual Mor destrancou com um gesto de mão.
Um cômodo principal, com painéis de madeira, consistindo de uma cozinha à direita, e uma sala de estar com um sofá de couro coberto de peles à esquerda; e um pequeno corredor nos fundos que dava para dois quartos e um banheiro compartilhado, nada mais.
— Éramos mandados para cá para “refletir” quando éramos jovens — disse Mor. — Rhys costumava contrabandear para cá livros e bebida alcoólica para mim.
Eu me encolhi ao ouvir seu nome.
— É perfeito — assegurei, tensa. Mor gesticulou com a mão, e uma fogueira tomou vida na lareira; o calor inundou a sala. Comida apareceu nos balcões da cozinha, e algo nos canos rangeu. — Não precisa de lenha — disse ela. — Vai queimar até que você vá embora. — Mor ergueu uma sobrancelha como se para perguntar quando seria.
Virei o rosto.
— Por favor, não conte a ele onde estou.
— Ele vai tentar encontrá-la.
— Diga que não quero ser encontrada. Não por um tempo.
Mor mordeu o lábio.
— Não é de minha conta...
— Então, não diga nada.
Ela disse mesmo assim.
— Ele queria contar. E estava acabando com ele não o fazer. Mas... Eu nunca o vi tão feliz quanto como fica quando estão juntos. E não acho que essa felicidade tenha algo a ver com você ser parceira dele.
— Não me importo. — Mor ficou em silêncio, e consegui sentir as palavras que ela queria dizer se acumulando. Então, eu disse: — Obrigada por me trazer aqui. — Uma dispensa educada.
Mor fez uma reverência com a cabeça.
— Voltarei em três dias. Há roupas nos quartos, e toda a água quente que quiser. A casa é encantada para cuidar de você, apenas deseje ou fale de coisas, e tudo será feito.
Eu só queria solidão e silêncio, mas... um banho quente parecia uma boa forma de começar.
Mor deixou o chalé antes que eu conseguisse dizer mais alguma coisa.
Sozinha, sem ninguém por perto em quilômetros, fiquei na cabine silenciosa e encarei o nada.