Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 54 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Parte Três: A Casa de Névoa

PARTE TRÊS

A CASA DE NÉVOA

Havia uma banheira funda embutida no chão do chalé na montanha — grande o bastante para acomodar asas illyrianas. Eu a enchi com água quase escaldante, sem me importar com como a magia daquela casa operava, apenas que funcionava. Sibilando e me encolhendo, entrei.

Três dias sem um banho, e eu podia ter chorado ao sentir o calor e a limpeza.

Não importava que certa vez eu tivesse passado semanas sem banho — não quando conseguir água quente para isso no chalé de minha família era mais problemático do que valia a pena. Não quando sequer tínhamos uma banheira e eram precisos baldes e baldes de água para nos limparmos.

Eu me lavei com um sabonete escuro que tinha cheiro de fumaça e pinho, e, quando terminei, fiquei sentada ali, observando o vapor espiralar entre as poucas velas.

Parceira.

A palavra me afugentou do banho mais cedo do que eu queria, e me cercou enquanto eu colocava as roupas que encontrara em uma gaveta do quarto: legging preta, um suéter grande, cor de creme, que ia até o meio da coxa, e meias grossas. Meu estômago roncou e percebi que não comia desde o dia anterior, porque...

Porque ele estava ferido e eu tinha perdido a cabeça — ficado completamente louca — quando Rhys foi tirado de mim, abatido do céu como um pássaro.

Agi por instinto, por um impulso de proteger Rhys que vinha de um lugar tão profundo em mim...

Tão profundo em mim...

Encontrei um pote de sopa no balcão de madeira que Mor devia ter levado, e descobri uma panela de ferro para aquecê-la. Pão fresco e crocante estava perto do fogão, e comi metade enquanto esperava a sopa esquentar.

Ele suspeitara daquilo antes de que eu nos tivesse libertado de Amarantha.

Meu casamento... Rhys o interrompera para me poupar de um erro terrível, ou por interesse próprio? Porque eu era sua parceira, e permitir que eu me atasse a outra pessoa era inaceitável?

Jantei em silêncio, apenas com o crepitar do fogo como companhia.

E sob a barreira de meus pensamentos, um latejar de alívio.

Meu relacionamento com Tamlin estava condenado desde o início. Eu tinha partido — apenas para encontrar meu parceiro. Para ir até meu parceiro.

Se eu tentava poupar nós dois da vergonha, de boatos, somente... somente haver encontrado meu parceiro funcionaria.

Eu não era um lixo mentiroso e traidor. Nem de perto. Mesmo que Rhys... Rhys soubesse que eu era sua parceira.

Enquanto eu dividia a cama com Tamlin. Por meses e meses. Ele sabia que eu estava compartilhando a cama com Tamlin, e não deixara transparecer. Ou talvez não se importasse.

Talvez não quisesse o laço. Esperava que se desfizesse.

Eu não devia nada a Rhysand então... não tinha nada por que me desculpar.

Mas ele sabia que eu reagiria mal. Que me machucaria mais do que me ajudaria.

E se eu soubesse?

E se eu soubesse que Rhys era meu parceiro enquanto amava Tamlin?

Aquilo não desculpava o fato de ele não ter me contado. Não desculpava as últimas semanas, durante as quais me odiei tanto por desejar Rhys tão intensamente — quando ele deveria ter me contado. Mas... eu entendia.

Lavei a louça, limpei as migalhas da pequena mesa de jantar entre a cozinha e a sala de estar, e deitei em uma das camas.

Apenas na noite anterior, estava aninhada ao seu lado, contando as respirações de Rhys para me certificar de que ele não tinha parado de respirar. E na noite anterior a essa, estava nos braços dele, com seus dedos entre minhas pernas, a língua em minha boca. E agora... Embora o chalé estivesse quente, os lençóis estavam frios. A cama era grande; vazia.

Pela pequena janela de vidro, a propriedade coberta de neve ao meu redor brilhava azul ao luar. O vento parecia um gemido oco, soprando grandes e reluzentes tufos de neve para além do chalé.

Eu me perguntei se Mor teria contado a Rhys onde eu estava.

Se ele, de fato, iria atrás de mim.

Parceiro.

Meu parceiro.

 

A luz do sol refletida na neve me acordou, e semicerrei os olhos diante da claridade, me xingando por não ter fechado as cortinas. Precisei de um momento para me lembrar de onde estava; de por que estava naquele chalé isolado, no interior das montanhas de — não sabia que montanhas eram aquelas.

Rhys certa vez mencionara um retiro preferido que Mor e Amren tinham queimado até virar cinzas durante uma briga. Eu me perguntei se seria aquele; se fora reconstruído. Tudo era confortável; gasto, mas relativamente em boas condições.

Mor e Amren sabiam.

Não conseguia decidir se eu as odiava por aquilo.

Sem dúvida, Rhys ordenara que ficassem quietas, e elas respeitaram seu desejo, mas...

Fiz a cama, preparei o café da manhã, lavei a louça e, depois, fiquei no centro da sala de estar.

Eu tinha fugido.

Exatamente como Rhys esperava que eu fugisse — como eu tinha dito a ele que qualquer um em sã consciência teria fugido dele. Como uma covarde, como uma tola, deixei Rhys ferido na lama gelada.

Tinha fugido dele — um dia depois de dizer que ele era a única coisa à qual eu jamais daria as costas.

Tinha exigido sinceridade e, no primeiro teste verdadeiro, nem mesmo deixara que Rhys a demonstrasse. Não dera a Rhys a consideração de ouvir seu lado.

Você me vê.

Bem, eu tinha me recusado a vê-lo. Talvez tivesse me recusado a ver o que estava bem diante de mim.

Tinha lhe dado as costas.

E talvez... talvez não devesse.

 

O tédio me atingiu no meio do dia.

Tédio supremo e inflexível, porque estava presa do lado de dentro enquanto ouvia a neve que derretia pingar morosamente do telhado no dia ameno de primavera.

Isso me deixou curiosa — e depois que terminei de revirar as gavetas e os armários dos dois quartos (roupas, fitas velhas, facas e armas entre elas, como se alguém as tivesse enfiado ali dentro e simplesmente esquecido), os armários da cozinha (comida, conservas, panelas e frigideiras, um livro de receitas manchado), e a sala de estar (cobertores, alguns livros, mais armas escondidas por toda parte), eu me aventurei na despensa.

Para o retiro de um Grão-Senhor, o chalé era... incomum, porque tudo tinha sido feito e decorado com esmero, mas... casualmente. Como se aquele fosse o único lugar ao qual todos pudessem ir, se jogar em camas e no sofá, e não ser ninguém além deles mesmos, se revezando na cozinha à noite e na caça e na limpeza e...

Família.

Parecia uma família; aquela que eu jamais tivera, nunca ousara desejar de verdade. Tinha parado de esperar por isso quando me acostumei com o espaço e a formalidade de morar em uma mansão. De ser um símbolo de um povo quebrado, o ídolo de ouro e a marionete de uma Grã-Sacerdotisa.

Abri a porta da despensa, e uma lufada de ar frio me cumprimentou, mas velas se acenderam, graças à magia que mantinha o lugar aconchegante. Prateleiras sem poeira (outro truque mágico, sem dúvida) brilhavam com mais comida armazenada. Livros, equipamento esportivo, mochilas e cordas e, surpresa, mais armas. Vasculhei tudo, aqueles resquícios de aventuras do passado e do futuro, e quase não vi quando passei por elas.

Meia dúzia de latas de tinta.

Papel e algumas telas. Pincéis velhos e salpicados de tinta de mãos preguiçosas.

Havia outros materiais de desenho e pintura — tintas pastel e aquarela, o que parecia ser carvão para desenho, mas... encarei a tinta, os pincéis.

Qual deles havia tentado pintar enquanto estava preso aqui, ou aproveitando umas férias com todos eles?

Eu disse a mim mesma que minhas mãos estavam trêmulas devido ao frio quando as estendi para a tinta e abri a tampa.

Ainda fresca. Provavelmente devido à magia que preservava o lugar.

Olhei para o interior escuro e reluzente da lata que tinha aberto: azul.

Então, comecei a pegar os materiais.

 

Pintei o dia todo.

E quando o sol sumiu, pintei a noite toda.

A lua tinha descido quando lavei as mãos e o rosto e o pescoço, e caí na cama, sem me incomodar em tirar a roupa antes de a inconsciência me levar embora.

Eu estava acordada, com o pincel na mão, antes que o sol da primavera pudesse voltar ao trabalho de descongelar as montanhas ao meu redor.

Parei apenas por tempo o bastante para comer. O sol se punha de novo, exausto devido à depressão que tinha causado à camada de neve do lado de fora, quando uma batida soou à porta da frente.

Coberta de tinta — com o suéter creme totalmente arruinado — congelei.

Outra batida, leve, mas insistente. Depois, um:

— Por favor, não esteja morta.

Não sabia se foi alívio ou desapontamento que fez meu peito afundar quando abri a porta e encontrei Mor soprando ar quente nas mãos em concha.

Ela olhou para a tinta em minha pele, em meus cabelos. Para o pincel em minha mão.

E, então, para o que eu tinha feito.

Mor entrou, vinda da noite fria de primavera, e soltou um assobio baixo quando fechou a porta.

— Bem, você certamente anda ocupada.

De fato.

Pintei quase todas as superfícies da sala principal.

E não apenas com grandes pinceladas de cor, mas com decorações — pequenas imagens. Algumas eram básicas: grupos de estacas de gelo caindo pelas laterais do portal. Elas se derretiam aos primeiros sinais de neve e, depois, se tornavam flores exuberantes de verão, antes de ficarem mais claras e mais intensas como folhas de outono. Eu tinha pintado um anel de flores ao redor da mesa de carteado, perto da janela; e folhas e chamas crepitantes em volta da mesa de jantar.

Mas entre as decorações intricadas, eu os tinha pintado. Pedaços de Mor e Cassian e Azriel e Amren... e Rhys.

Mor foi até a grande lareira, onde eu pintara a moldura superior de preto, ressaltado com veios de ouro e vermelho. De perto, era um trecho sólido e belo de tinta. Mas do sofá...

— Asas illyrianas — falou Mor. — Ah, eles nunca vão parar de se gabar disso.

Mas ela foi até a janela, a qual eu tinha emoldurado com mechas espiraladas de dourado, cobre e bronze. Mor levou o dedo ao cabelo, inclinando a cabeça.

— Bonito — elogiou ela, observando a sala de novo.

Os olhos de Mor recaíram sobre o portal que dava para o corredor dos quartos, e ela fez uma careta.

— Por que — disse ela — os olhos de Amren estão ali?

De fato, acima da porta, no centro do aro, eu tinha pintado um par de olhos prateados brilhantes.

— Porque ela está sempre vigiando.

Mor riu com escárnio.

— Isso não vai funcionar. Pinte meus olhos ao lado dos dela. Assim, os machos desta família saberão que nós duas estamos vigiando da próxima vez que vierem para cá se embebedar por uma semana seguida.

— Eles fazem isso?

— Costumavam fazer. — Antes de Amarantha. — Todo outono, os três se trancavam nesta casa durante cinco dias, e bebiam e bebiam e caçavam e caçavam, então voltavam para Velaris parecendo quase mortos, mas sorrindo como tolos. Meu coração se aquece ao saber que, de agora em diante, precisarão fazer isso com Amren e eu encarando.

Um sorriso repuxou meus lábios.

— De quem é essa tinta?

— Amren — respondeu Mor, revirando os olhos. — Estávamos todos aqui um verão, e ela queria se ensinar a pintar. Fez isso durante uns dois dias, antes de se cansar e decidir começar a caçar pobres criaturas.

Uma risada silenciosa escapou de mim. Caminhei até a mesa, a qual eu tinha usado como superfície principal para misturar e organizar as tintas. E talvez eu fosse uma covarde, mas fiquei de costas para Mor ao dizer:

— Alguma notícia de minhas irmãs?

Mor começou a vasculhar os armários, para procurar comida ou para avaliar o que eu precisava. Ela disse, por cima de um ombro:

— Não. Ainda não.

— Ele está... ferido? — Eu o tinha deixado na lama gelada, ferido e limpando o veneno do organismo. Tentei não pensar nisso enquanto pintava.

— Ainda se recuperando, mas bem. Com raiva de mim, é claro, mas pode enfiar essa raiva naquele lugar.

Combinei o amarelo-dourado de Mor com o vermelho que tinha usado nas asas illyrianas, e misturei até que um laranja vibrante surgisse.

— Obrigada... por não contar a ele que eu estou aqui.

Um gesto de ombros. Comida começou a aparecer no balcão: pão fresco, frutas, potes com algo que eu conseguia cheirar do outro lado da cozinha e quase me fez gemer de fome.

— Mas você deveria conversar com ele. Fazer com que remoa isso, é claro, mas... ouça o lado dele. — Mor não me olhou ao falar. — Rhys sempre tem os motivos dele, e pode ser infernalmente arrogante, mas em geral está certo com relação aos próprios instintos. Comete erros, mas... Você deveria ouvi-lo.

Eu tinha decidido que ouviria, mas falei:

— Como foi sua visita à Corte dos Pesadelos?

Mor parou, o rosto ficou incomumente pálido.

— Boa. É sempre um prazer ver meus pais. Como você deve imaginar.

— Seu pai está melhorando? — Acrescentei o cobalto dos Sifões de Azriel ao laranja e misturei até que um marrom intenso surgisse.

Um pequeno sorriso sombrio.

— Devagar. Talvez eu tenha partido mais alguns ossos quando o visitei. Minha mãe me baniu dos aposentos particulares de ambos desde então. Uma pena.

Alguma parte selvagem de mim sorriu com prazer primitivo ao ouvir aquilo.

— Uma pena mesmo — ironizei. Acrescentei um pouco de branco-neve para clarear o marrom, verifiquei contra o olhar que Mor lançou para mim, e depois peguei um banquinho a fim de alcançar, e comecei a pintar o portal. — Rhys a obriga mesmo a fazer isso com frequência? Aturar as visitas a eles?

Mor se encostou no balcão.

— Rhys me deu permissão, no dia em que se tornou Grão-Senhor, para matar todos eles quando eu tivesse vontade. Vou a essas reuniões, vou à Corte dos Pesadelos para... lembrar-lhes disso às vezes. E para manter a comunicação entre nossas duas cortes, por mais difícil que seja. Se entrasse lá amanhã e matasse meus pais, ele não piscaria. Talvez fosse um inconveniente, mas... ficaria feliz.

Eu me concentrei na mancha de marrom-caramelo que pintava ao lado dos olhos de Amren.

— Sinto muito... por tudo que você suportou.

— Obrigada — agradeceu Mor, aproximando-se para me observar. — Visitá-los sempre me deixa nervosa.

— Cassian pareceu preocupado. — Outra pergunta intrometida.

Mor deu de ombros.

— Cassian, acho, também aproveitaria a oportunidade para destruir aquela corte inteira. Começando por meus pais. Talvez eu deixe que faça isso um ano, como presente. Para ele e para Azriel. Seria um presente perfeito de solstício.

Perguntei, talvez um pouco casualmente demais:

— Você me contou sobre a vez com Cassian, mas... e com Azriel, já...?

Uma risada afiada.

— Não. Azriel? Depois daquela vez com Cassian, jurei me afastar de todos os amigos de Rhys. Azriel não tem poucas amantes, no entanto, não se preocupe. Ele as mantém em segredo melhor que nós, mas... ele as tem.

— Então, se estivesse interessado, você...?

— A questão, na verdade, não seria eu. Seria ele. Eu poderia tirar a roupa bem na frente de Azriel, e ele não moveria um músculo. Talvez tenha enfrentado e provado que aqueles canalhas illyrianos estavam errados todas as vezes, mas não importa se Rhys o fizer príncipe de Velaris, Azriel vai se enxergar como um bastardo qualquer, e não se achará bom o bastante para ninguém. Principalmente eu.

— Mas... você está interessada?

— Por que está perguntando essas coisas? — A voz de Mor ficou tensa, afiada. Mais cautelosa do que eu jamais tinha ouvido.

— Ainda estou tentando entender como vocês trabalham juntos.

Um riso de escárnio, e aquela cautela se dissipou. Tentei não parecer aliviada.

— Temos cinco séculos de história complicada para você entender. Boa sorte.

De fato. Terminei os olhos dela: um pouco de castanho-mel nos olhos cor de mercúrio de Amren. Mas, quase em resposta, Mor declarou;

— Pinte os de Azriel. Ao lado dos meus. E os de Cassian ao lado dos de Amren.

Ergui as sobrancelhas.

Mor me deu um sorriso inocente.

— Para todos podermos vigiar você.

Apenas sacudi a cabeça e desci do banquinho para começar a entender como pintar olhos cor de avelã.

— É tão ruim assim... ser a parceira dele? Ser parte de nossa corte, nossa família, com história complicada e tudo? — perguntou Mor, baixinho.

Misturei a pintura no pequeno prato, as cores se mesclando a tantas vidas misturadas.

— Não — sussurrei. — Não, não é.

E tive minha resposta.