Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 20 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 18

Amren estava de pé diante de minha cama.

 

Recuei com um sobressalto, me chocando contra a cabeceira, com a visão ofuscada pela luz da manhã que entrava a toda, e em busca de uma arma, qualquer coisa para usar...

— Não é surpresa que esteja tão magra se vomita as tripas toda noite. — Ela farejou e contraiu o lábio. — Está fedendo a vômito.

A porta do quarto estava fechada. Rhys dissera que ninguém entrava sem a permissão dele, mas...

Amren jogou algo na cama. Um pequeno amuleto de ouro com pérola e uma pedra azul leitosa.

— Isso me tirou da Prisão. Use, e jamais poderão prendê-la.

Não toquei no amuleto.

— Vou deixar uma coisa bem clara — disse Amren, apoiando as duas mãos na madeira entalhada ao pé da cama. — Não dou esse amuleto à toa. Mas pode pegar emprestado, enquanto faz o que precisa ser feito, e devolva para mim quando terminar. Se ficar com ele, vou atrás de você, e os resultados não serão agradáveis. Mas é seu para usar na Prisão.

Quando meus dedos roçaram o metal e a pedra frios, Amren havia saído.

Rhys não estava errado quando a comparou a um dragão cuspidor de fogo.

 

Rhys ficava franzindo a testa para o amuleto conforme subíamos a encosta da Prisão, tão íngreme que às vezes precisávamos subir de quatro. Subíamos mais e mais alto, e bebi dos incontáveis córregos que desciam pelos calombos e pelas depressões na encosta de musgo e grama. Ao nosso redor, a névoa pairava, açoitada pelo vento cujo gemido oco abafava os estalos de nossos passos.

Quando vi Rhys olhando para o colar pela décima vez, falei:

— O quê?

— Ela deu isso a você.

Não era uma pergunta.

— Deve ser sério, então — falei. — O risco com...

— Não diga nada que não quer que outros ouçam. — Ele apontou para a pedra sob nós. — Os detentos não têm nada melhor a fazer que ouvir pela terra e pelas rochas em busca de fofoca. Venderão qualquer tipo de informação por comida, sexo, talvez uma lufada de ar.

Eu podia fazer aquilo; podia dominar aquele medo.

Amren tinha saído daquela prisão. E ficou fora. E o amuleto... ele também me manteria livre.

— Desculpe — pedi. — Por ontem. — Eu tinha passado horas na cama, incapaz de me mover ou pensar.

Rhys estendeu a mão para me ajudar a subir uma rocha especialmente íngreme, me puxando facilmente para cima, onde ele estava agachado no topo. Fazia tanto tempo — tempo demais — desde que eu estivera ao ar livre, usara meu corpo, dependera dele. Minha respiração estava entrecortada, mesmo com a nova imortalidade.

— Não tem por que pedir desculpas — falou Rhys. — Está aqui agora. — Mas era tão covarde que jamais teria ido sem aquele amuleto. Rhys acrescentou, com um piscar de olho: — Não vou descontar de seu pagamento.

Eu estava ofegante demais para fazer cara feia. Subimos até que a face superior da montanha se tornou uma muralha diante de nós, nada além de encostas gramadas se estendiam atrás, muito abaixo, até onde elas fluíam para o mar cinzento inquieto. Rhys sacou a espada das costas com um movimento ágil.

— Não pareça tão surpresa — avisou ele.

— Eu... nunca vi você com uma arma. — Além da adaga que ele pegou para cortar a garganta de Amarantha no final, para me poupar da dor.

— Cassian gargalharia até ficar rouco se ouvisse isso. E então me obrigaria a entrar com ele no ringue de luta.

— Ele consegue derrotar você?

— No combate corpo a corpo? Sim. Seria uma vitória suada, para variar, mas ele venceria. — Sem arrogância, sem orgulho. — Cassian é o melhor guerreiro que já encontrei em qualquer corte, qualquer terra. Ele lidera meus exércitos por isso.

Não duvidei da alegação. E o outro illyriano...

— Azriel... as mãos dele. As cicatrizes, quero dizer — expliquei. — De onde vieram?

Rhys ficou calado um momento. Então falou, bem baixo:

— O pai dele tinha dois filhos legítimos, ambos mais velhos que Azriel. Ambos cruéis e mimados. Aprenderam com a mãe, a esposa do senhor. Durante os 11 anos em que Azriel viveu na fortaleza do pai, ela se certificou de que ele fosse mantido em uma cela sem janelas, sem luz. Deixavam que Azriel saísse durante uma hora todo dia, deixavam que visse a mãe durante uma hora por semana. Não tinha permissão para treinar, para voar ou qualquer das coisas que os instintos illyrianos berrassem para que fizesse. Quando estava com 8 anos, os irmãos decidiram que seria divertido ver o que acontecia quando se misturava os dons de cura rápida de um illyriano com óleo... e fogo. Os guerreiros ouviram Azriel gritar. Mas não rápido o bastante para salvar suas mãos.

Fui tomada por náusea. Mas pela história, Azriel ainda moraria com eles por mais três anos. Que outros horrores teria suportado antes de ser enviado para aquele acampamento na montanha?

— Os... os irmãos foram punidos?

O rosto de Rhys estava impassível como a rocha e o vento e o mar ao nosso redor quando ele disse, com uma quietude letal:

— Por fim, sim.

Havia tanto primitivismo nas palavras que mudei de assunto:

— E Mor, o que ela faz por você?

— Mor é quem chamarei quando os exércitos fracassarem e Cassian e Azriel estiverem mortos.

Meu sangue gelou.

— Portanto ela deve esperar até então?

— Não. Como minha terceira, Mor é minha... supervisora da corte. Ela supervisiona a dinâmica entre a Corte dos Pesadelos e a Corte dos Sonhos, e governa tanto Velaris quanto a Cidade Escavada. Creio que no reino mortal ela poderia ser considerada uma rainha.

— E Amren?

— Os deveres como minha imediata a tornam minha conselheira política, biblioteca ambulante e executora do trabalho sujo. Eu a nomeei depois que conquistei o trono. Mas era minha aliada, e talvez minha amiga, bem antes disso.

— Quero dizer... nessa guerra em que seus exércitos fracassem e Cassian e Azriel morram, e até mesmo Mor se vá. — Cada palavra era como gelo na língua.

Rhys parou enquanto esticava a mão para a face exposta da rocha diante de nós.

— Se esse dia chegar, vou encontrar uma forma de quebrar o feitiço sobre Amren e libertá-la no mundo. E pedir que me mate primeiro.

Pela Mãe.

— O que ela é? — Depois da conversa naquela manhã, talvez fosse burrice perguntar.

— Outra coisa. Algo pior que nós. E, se algum dia encontrar uma forma de se livrar da prisão de carne e osso... que o Caldeirão nos salve.

Estremeci de novo e encarei a parede de pedra nua.

— Não posso escalar rocha exposta assim.

— Não precisa — disse Rhys, espalmando uma das mãos na pedra. Como uma miragem, ela sumiu com um irradiar de luz.

Portões pálidos, escavados, estavam no lugar, tão altos que o topo parecia perdido em meio à névoa.

Portões de ossos.

 

Os portões de ossos se abriram silenciosamente, revelando uma caverna de um preto tão semelhante ao nanquim como eu nunca tinha visto, nem mesmo Sob a Montanha.

Segurei o amuleto no pescoço, o metal estava quente contra a palma da mão. Amren tinha saído. Eu também sairia.

Rhys colocou a mão morna em minhas costas e me guiou para dentro, três bolas de luar oscilavam diante de nós.

Não... não, não, não, não...

— Respire — disse ele, ao meu ouvido. — Tome fôlego.

— Onde estão os guardas? — Consegui falar apesar do aperto nos pulmões.

— Eles moram dentro da rocha da montanha — murmurou Rhys, quando sua mão encontrou a minha e a envolveu ao me puxar para dentro da escuridão imortal. — Eles só emergem na hora de comer, ou para lidar com prisioneiros inquietos. Não passam de sombras de pensamento e um antigo feitiço.

Com as pequenas luzes flutuando adiante, tentei não olhar por muito tempo para as paredes cinza. Principalmente quando eram tão toscamente escavadas que as partes pontiagudas poderiam ser um nariz, ou uma testa enrugada, ou um par de lábios arrogantes.

O chão seco não exibia nada além de pequenas pedras. E havia silêncio. Silêncio absoluto conforme passamos por uma curva e a última luz do mundo enevoado se dissipou em escuridão.

Eu me concentrei na respiração. Não podia ficar presa ali; não podia ficar trancada naquele lugar horrível, morto.

O caminho mergulhava mais profundamente no interior da montanha, e segurei forte os dedos de Rhys para evitar perder o equilíbrio. Ele ainda carregava a espada na outra mão.

— Todos os Grão-Senhores têm acesso? — Minhas palavras saíram tão baixas que foram devoradas pela escuridão. Mesmo aquele poder retumbante nas veias tinha sumido, enterrado em algum lugar em meus ossos.

— Não. A Prisão é a própria lei; a ilha pode até ser uma oitava corte. Mas está sob minha jurisdição, e meu sangue é a chave dos portões.

— Você poderia libertar os presos?

— Não. Depois que a sentença é proferida e um prisioneiro passa por aqueles portões... Ele pertence à Prisão. Ela jamais o deixará sair. Sentenciar pessoas para cá é algo que levo muito, muito a sério.

— Você já...

— Sim. E agora não é hora de falar disso. — Rhysand segurou minha mão para dar ênfase.

Seguimos para baixo, em meio à escuridão.

Não havia portas. Nenhuma luz.

Nenhum som. Nem mesmo água escorrendo.

Mas eu conseguia senti-los.

Conseguia senti-los dormindo, caminhando de um lado para outro, passando mãos e garras pelo outro lado das paredes.

Eram antigos e cruéis, de uma forma que eu jamais tinha conhecido, nem mesmo com Amarantha. Eram infinitos, e pacientes, e aprenderam a linguagem da escuridão, da pedra.

— Quanto tempo — sussurrei. — Quanto tempo ela ficou aqui? — Não ousei dizer o nome dela.

— Azriel procurou uma vez. Nos arquivos de nossos templos e bibliotecas mais antigos. Só encontrou uma vaga menção de que ela entrou antes de Prythian ser dividida nas cortes, e emergiu depois que estas foram estabelecidas. Sua prisão é de antes de nossa escrita. Não sei por quanto tempo ficou aqui, alguns milênios parecem um palpite justo.

Horror se acumulou em minha garganta.

— Nunca perguntou?

— Por que me daria o trabalho? Ela vai contar quando for necessário.

— De onde ela veio? — O broche que Rhysand dera a Amren, um presente tão pequeno, para um monstro que um dia morara ali.

— Não sei. Embora haja lendas que alegam que, quando o mundo nasceu, havia... fendas no tecido dos mundos. Que no caos da Formação, criaturas de outros mundos podiam passar por uma delas e entrar em outro. Mas as fendas se fechavam quando queriam, e as criaturas podiam ficar presas, sem poder voltar para casa.

Era mais assustador do que eu podia compreender: tanto monstros caminharem entre mundos quanto o terror de ficar presa em outro mundo.

— Acha que ela era um desses?

— Acho que ela é a única de seu tipo, e não há registro de outros terem existido. Mesmo os Suriel existem em números, ainda que pequenos. Mas ela... e alguns daqueles na Prisão... Acho que vieram de outro lugar. E estão procurando um caminho de volta há muito, muito tempo.

Eu tremia sob o couro revestido de pele, a respiração se condensava diante de mim.

Mais e mais para baixo nós fomos, e perdi a noção do tempo. Poderiam ter se passado horas ou dias, e paramos apenas quando meu corpo inútil e cansado exigia água. Mesmo enquanto bebia, ele não soltava minha mão. Como se a rocha fosse me engolir para sempre. Eu garanti que esses intervalos fossem breves e raros.

E, mesmo assim, prosseguimos mais para o fundo. Apenas as luzes e a mão de Rhys me impediam de sentir como se estivesse prestes a cair direto para a escuridão. Por um segundo, o fedor de minha cela no calabouço entupiu meu nariz, e os estalos de feno mofado roçaram minha bochecha...

A mão de Rhys se apertou em volta da minha.

— Só mais um pouco.

— Devemos estar perto da base agora.

— Passamos dela. O Entalhador de Ossos está enjaulado sob as raízes da montanha.

— Quem é ele? O que é ele? — Só tinha sido informada do que deveria dizer, não do que deveria esperar. Sem dúvida para evitar que eu entrasse em pânico de vez.

— Ninguém sabe. Ele aparece como quer aparecer.

— Metamorfo?

— Sim e não. Ele vai aparecer para você como uma coisa, e eu posso estar bem ao lado e ver outra.

Tentei não começar a balir como uma ovelha.

— E esse entalhar de ossos?

— Você verá. — Rhys parou diante de um pedaço liso de pedra. O corredor continuava para baixo, abaixo até a escuridão imemorial. O ar ali era sufocante, compacto. Mesmo a condensação de minha respiração no ar frio parecia ter vida curta.

Rhysand, por fim, soltou minha mão, apenas para apoiar a dele, de novo, na pedra lisa. A pedra ondulou sob sua palma, formando... uma porta.

Como os portões acima, era feita de marfim — osso. E na superfície estavam entalhadas inúmeras imagens: flora e fauna, mares e nuvens, estrelas e luas, crianças e esqueletos, criaturas belas e feias...

A porta se afastou. A cela era como breu, mal discernível do corredor...

— Entalhei as portas de todos os prisioneiros neste lugar — disse uma voz baixa do lado de dentro. — Mas a minha ainda me é a preferida.

— Preciso concordar — disse Rhysand. Ele entrou, a luz oscilou acima e iluminou um menino de cabelos pretos sentados contra a parede mais afastada, os olhos de um azul assombroso observaram Rhysand e, então, deslizaram para onde eu estava à espreita, na entrada.

Rhys levou a mão a uma bolsa que eu não tinha percebido que carregava; não, uma que ele conjurou de qualquer que fosse o bolso entre reinos que usava como armário. Rhys atirou um objeto para o menino, que não parecia ter mais de 8 anos. Branco reluziu quando o objeto emitiu um clangor no piso de pedra áspera. Outro osso, longo e firme... e pontiagudo de um lado.

— A fíbula responsável pelo golpe mortal quando Feyre matou o Verme de Middengard — disse Rhys.

Meu sangue congelou. Eu tinha disposto tantos ossos na armadilha; não reparei em qual acabara com o Verme. E não achei que alguém tivesse reparado.

— Entre. — Foi tudo o que o Entalhador de Ossos disse, e não havia inocência, nenhuma bondade na voz daquela criança.

Dei um passo para dentro e mais nenhum.

— Faz uma era — disse o menino, me observando com atenção — desde que algo novo surgiu neste mundo.

— Oi — sussurrei.

O sorriso do menino era um deboche de inocência.

— Está com medo?

— Sim — respondi. Nunca minta, essa fora a primeira ordem de Rhysand.

O menino ficou de pé, mas se manteve do outro lado da cela.

— Feyre — murmurou ele, inclinando a cabeça. A esfera de luz feérica cobria os cabelos cor de nanquim com prata. — Fey-re — repetiu ele, separando as sílabas, como se conseguisse sentir o gosto. Por fim, o menino esticou a cabeça. — Aonde foi quando morreu?

— Uma pergunta por outra — respondi, como tinha sido instruída no café da manhã.

O Entalhador de Ossos inclinou a cabeça para Rhysand.

— Você sempre foi mais esperto que seus ancestrais. — Mas aqueles olhos se fixaram em mim. — Conte aonde foi, o que viu... e responderei sua pergunta.

Rhys me deu um aceno de cabeça sutil, mas os olhos mostravam cautela. Porque o que o menino tinha pedido...

Precisei me acalmar para pensar, para lembrar.

Mas havia sangue e morte e dor e gritos... e ela estava me partindo, me matando tão devagar, e Rhys estava lá, urrando de fúria enquanto eu morria, Tamlin implorando por minha vida, de joelhos, diante do trono dela... mas havia tanta dor, e eu queria que terminasse, queria que tudo acabasse...

Rhys ficou imóvel enquanto monitorava o Entalhador de Ossos, como se essas lembranças fluíssem livremente pelo escudo mental que eu me certifiquei de que estivesse intacto naquela manhã. E me perguntei se ele achava que eu desistira, bem ali.

Fechei as mãos em punhos.

Eu havia sobrevivido; tinha saído. E sairia hoje.

— Ouvi o estalo — falei. A cabeça de Rhys virou para mim. — Ouvi o estalo quando ela quebrou meu pescoço. Estava em meus ouvidos, mas também dentro de meu crânio. Eu morri antes de sentir qualquer coisa além da primeira descarga de dor.

Os olhos violentos do Entalhador de Ossos pareceram brilhar mais.

— Então, tudo ficou escuro. Um tipo diferente de escuridão que a deste lugar. Mas havia um... fio — continuei. — Uma corda. E eu a puxei... e de repente consegui ver. Não por meus olhos, mas... mas pelos dele — falei, inclinando a cabeça na direção de Rhys. Abri os dedos da mão tatuada. — E soube que estava morta, e que esse pedaço ínfimo de espírito era tudo que restava de mim, apegando-se ao fio de nosso acordo.

— Mas tinha alguém lá, viu alguma coisa além?

— Havia apenas aquela ligação na escuridão.

O rosto de Rhysand tinha ficado pálido, a boca era uma linha fina.

— E quando fui Feita de novo — falei —, segui aquela ligação de volta... até mim. Eu sabia que meu lar ficava na outra ponta. Havia luz então. Como nadar em vinho espumante...

— Sentiu medo?

— Eu só queria voltar para... para as pessoas ao meu redor. Queria tanto que não tive espaço para medo. O pior tinha acontecido, e a escuridão estava calma e silenciosa. Não parecia um lugar ruim para se esvair. Mas eu queria ir para casa. Então, segui a ligação até voltar para casa.

— Não havia outro mundo — insistiu o Entalhador de Ossos.

— Se havia, ou se há, não vi.

— Nenhuma luz, nenhum portal?

Aonde você quer chegar? A pergunta quase escapuliu de minha boca.

— Era apenas paz e escuridão.

— Você tinha um corpo?

— Não.

— Você...

— Já basta de você — disse Rhysand, ronronando, e o som pareceu veludo sobre o aço mais afiado. — Disse uma pergunta por outra. Agora já fez... — Ele contou nos dedos. — Seis.

O Entalhador de Ossos se reclinou contra a parede e deslizou até se sentar.

— É raro o dia em que conheço alguém que voltou da verdadeira morte. Perdoe-me por querer espiar por trás da cortina. — Ele gesticulou com a mão delicada em minha direção. — Pergunte, menina.

— Não há corpo, nada além de, talvez, um pedaço de osso — falei, com o máximo de firmeza que podia. — Haveria uma forma de ressuscitar essa pessoa? Cultivar um novo corpo e colocar a alma ali dentro.

Aqueles olhos brilharam.

— A alma estava preservada de alguma forma? Contida?

Tentei não pensar no anel que Amarantha usava, na alma que ela prendera para testemunhar cada horror e depravação.

— Sim.

— Não tem como.

Quase suspirei aliviada.

— A não ser... — O menino tamborilou cada dedo no polegar, a mão parecia um inseto pálido se estremecendo. — Há muito tempo, antes dos Grão-Feéricos, antes dos homens, havia um Caldeirão... Dizem que a magia estava contida dentro dele, que o mundo nascera nele. Mas caiu nas mãos erradas. E coisas grandiosas e terríveis foram feitas com ele. Coisas foram forjadas com ele. Coisas tão malignas que o Caldeirão foi, por fim, roubado de volta, a um grande custo. Não podia ser destruído, pois tinha Feito todas as coisas, e, se fosse quebrado, a vida deixaria de existir. Então, foi escondido. E esquecido. Apenas com aquele Caldeirão algo que está morto poderia ser refeito dessa forma.

O rosto de Rhysand era de novo uma máscara de calma.

— Onde o esconderam?

— Conte um segredo que ninguém sabe, Senhor da Noite, e contarei o meu.

Eu me preparei para qualquer que fosse a verdade horrível que estava prestes a vir. Mas Rhysand disse:

— Meu joelho direito sente uma pontada de dor quando chove. Eu o machuquei durante a Guerra, e dói desde então.

O Entalhador de Ossos conteve uma risada rouca, mesmo quando olhei para Rhys boquiaberta.

— Você sempre foi meu preferido — disse ele, dando um sorriso que eu jamais, nem um por um momento, pensaria que era infantil. — Muito bem. O Caldeirão foi escondido no fundo de um lago congelado em Lapplund... — Rhys começou a se virar para mim, como se fosse para lá imediatamente, mas o Entalhador de Ossos acrescentou: — E sumiu há muito, muito tempo. — Rhys parou. — Não sei para onde foi, ou onde está agora. Milênios antes de você nascer, os três pés sobre os quais ele se apoia foram separados da base em uma tentativa de fraturar parte do poder. Funcionou, por pouco. Retirar os pés foi como cortar a primeira articulação de um dedo. É nojento, mas ainda dá para usar o resto com alguma dificuldade. Os pés foram escondidos em três templos diferentes: Cesere, Sangravah e Itica. Se eles sumiram, é provável que o Caldeirão esteja mais uma vez ativo, e que aquele que o use queria o artefato com poder total, e não com um fiapo faltando.

Por isso os templos tinham sido saqueados. Para conseguirem os pés nos quais o Caldeirão se apoiava e restaurar seu poder total. Rhys apenas disse:

— Suponho que você não saiba quem tem o Caldeirão agora.

O Entalhador de Ossos apontou um pequeno dedo para mim.

— Prometa que me dará os ossos dela quando ela morrer, e vou pensar a respeito. — Enrijeci o corpo. — Não... acho que nem você prometeria isso, Rhysand.

Eu poderia ter chamado o olhar no rosto de Rhys de um aviso.

— Obrigado pela ajuda — agradeceu ele, e colocou a mão em minhas costas para me guiar para fora.

Mas se ele soubesse... Virei de novo para a criatura menino.

— Havia uma escolha... na Morte — falei.

Rhys tinha se contraído as minhas costas, mas permaneceu no lugar. Quente, firme. E me perguntei se o toque serviria mais para reconfortar Rhys de que eu estava ali, ainda respirando.

— Eu sabia — continuei — que poderia flutuar para a escuridão. E escolhi lutar, aguentar um pouco mais. Mas sabia que, se quisesse, eu poderia ter me dissipado. E talvez fosse um novo mundo, um reino de descanso e paz. Mas eu não estava pronta para ele, não para ir até lá sozinha. Eu sabia que havia outra coisa esperando além daquela escuridão. Algo bom.

Por um momento, aqueles olhos azuis brilharam mais. Então, o menino disse:

— Você sabe quem tem o Caldeirão, Rhysand. Quem anda pilhando os templos. Só veio até aqui confirmar aquilo de que há muito desconfia.

— O rei de Hybern.

Pesar percorreu minhas veias e se acumulou em meu estômago. Eu não deveria ter me sentido surpresa, deveria saber, mas...

O entalhador não disse nada mais. Ficou esperando outra verdade.

Então, ofereci mais um estilhaço meu.

— Quando Amarantha me fez matar aqueles dois feéricos, se o terceiro não fosse Tamlin, eu teria enfiado a adaga em meu coração no fim.

Rhys ficou imóvel.

— Eu sabia que o que eu tinha feito não teria volta — acrescentei, me perguntando se a chama azul nos olhos do entalhador poderia queimar minha alma destruída até virar chamas. — E depois que lhes quebrei a maldição, depois que soube que tinha salvado a todos, só queria tempo o suficiente para virar aquela adaga para mim. Só decidi que queria viver quando ela me matou, e sabia que não tinha terminado o que quer... o que quer que eu tivesse nascido para fazer.

Ousei olhar para Rhys, e havia algo parecido com desolação no lindo rosto. Sumiu em um piscar de olhos.

Até mesmo Entalhador de Ossos falou, com suavidade:

— Com o Caldeirão, seria possível fazer outras coisas além de ressuscitar os mortos. Seria possível destruir a muralha.

A única coisa que mantinha as terras humanas — minha família — a salvo não apenas de Hybern, mas de outros feéricos.

— É possível que Hybern esteja quieto por tantos anos porque o rei estava procurando o Caldeirão, aprendendo seus segredos. Ressurreição de um indivíduo específico pode muito bem ter sido o primeiro teste depois que os pés foram reunidos, e agora ele descobre que o Caldeirão é pura energia, puro poder. E, como qualquer magia, pode ser esgotado. Então, ele vai deixar o Caldeirão descansar, deixar que reúna forças, aprender seus segredos para alimentar o artefato com mais energia, mais poder.

— Tem uma forma de impedi-lo? — sussurrei.

Silêncio. Silêncio cheio de expectativa, aguardando.

A voz de Rhys estava rouca quando ele falou:

— Não ofereça a ele mais um...

— Quando o Caldeirão foi feito — interrompeu o entalhador —, o artesão sombrio usou o restante do minério derretido para forjar um livro. O Livro dos Sopros. Nele, escritos entre as palavras entalhadas, estão os feitiços para negar o poder do Caldeirão, ou controlá-lo por completo. Mas, depois da Guerra, ele foi dividido em dois. Um pedaço foi para os feéricos, e o outro, para as seis rainhas humanas. Era parte do Tratado, puramente simbólico, pois o Caldeirão estava perdido havia milênios, e era considerado um mito. O Livro, acreditava-se, era inofensivo, porque semelhante atrai semelhante, e apenas aquele que foi Feito pode proferir os feitiços e conjurar seu poder. Nenhuma criatura nascida na terra pode usá-lo, então, os Grão-Senhores e os humanos o desconsideraram, como pouco mais que uma herança histórica, mas, se o Livro estivesse nas mãos de algo que foi refeito... Seria preciso testar tal teoria, é claro, mas... pode ser possível.

Os olhos do entalhador se semicerraram, tornando-se fendas, devido ao interesse conforme eu percebia... percebia...

— Então, agora o Grão-Senhor Estival possui nosso pedaço — continuou ele. — E as rainhas mortais reinando têm o outro enclausurado no palácio reluzente delas à beira do mar. A metade de Prythian está vigiada, protegida com feitiços de sangue ligados à própria Corte Estival. Aquele pertencente às rainhas mortais... Elas foram astutas ao receberem o presente. Usaram nosso povo para colocar um feitiço no Livro, para prendê-lo, de modo que, se algum dia fosse roubado, se, digamos, um Grão-Senhor atravessasse para o castelo delas e o roubasse... o Livro derreteria em minério e seria perdido. Deve ser dado voluntariamente por uma rainha mortal, sem truques, sem mágica envolvida. — Uma risadinha. — Criaturas tão inteligentes e adoráveis os humanos.

O entalhador parecia perdido em memórias antigas; então, ele sacudiu a cabeça e terminou:

— Reúna as duas metades do Livro dos Sopros e conseguirá anular os poderes do Caldeirão. Com sorte, antes que retorne à força total e destrua aquela muralha.

Não me dei o trabalho de agradecer. Não com a informação que ele nos dera. Não quando eu tinha sido forçada a dizer aquelas coisas... e ainda conseguia sentir a atenção de Rhys. Era como se ele suspeitasse, mas jamais acreditasse no quão gravemente eu tinha sido destruída naquele momento com Amarantha.

Nós viramos, a mão de Rhys deslizou de minhas costas e segurou minha mão.

O toque era leve — carinhoso. E subitamente não tive forças para sequer segurar de volta.

O entalhador pegou o osso que Rhysand tinha levado para ele e sopesou o objeto naquelas mãos infantis.

— Vou entalhar sua morte aqui, Feyre.

Mais e mais para cima na escuridão nós seguimos, pela pedra dormente e os monstros que viviam dentro dela. Por fim, falei para Rhys:

— O que você viu?

— Você primeiro.

— Um menino, por volta de 8 anos; cabelos pretos, olhos azuis.

Rhys estremeceu; o gesto mais humano que eu o vira fazer.

— O que você viu? — insisti.

— Jurian — falou Rhys. — Ele tinha exatamente a mesma aparência de Jurian da última vez que o vi: enfrentando Amarantha quando lutaram até a morte.

Não queria saber como o Entalhador de Ossos sabia sobre quem tínhamos ido perguntar.