Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 45 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 43

O vento rugia em volta de mim e Rhys conforme ele atravessava do céu acima da corte. Mas Velaris não nos recebeu.

Em vez disso, estávamos de pé à margem de um lago montanhoso iluminado pelo luar e cercado por pinheiros, bem acima do mundo. Deixamos a corte como chegamos — com arrogância e de forma ameaçadora. Aonde Cassian, Azriel e Mor tinham ido com a esfera, eu não fazia ideia.

Sozinho na beira do lago, Rhys falou, a voz rouca:

— Desculpe.

Pisquei.

— Que motivo você teria para se desculpar?

As mãos de Rhys tremiam... como consequência da fúria devido ao xingamento que Keir direcionou a mim, ao que ele ameaçara. Talvez nos tivesse levado até lá antes de voltarmos para casa atrás de alguma privacidade antes de os amigos interromperem.

— Eu não deveria tê-la deixado ir. Deixado que visse aquela parte de nós. De mim. — Eu jamais vira Rhys tão aberto, tão... hesitante.

— Estou bem. — Eu não sabia o que pensar a respeito do que fora feito. Tanto entre nós quanto com Keir. Mas tinha sido minha escolha. Interpretar aquele papel, vestir aquelas roupas. Deixar que Rhys me tocasse. Mas... falei devagar: — Sabíamos o que esta noite exigiria de nós. Por favor, por favor, não comece... a me proteger. Não dessa forma. — Ele sabia o que eu queria dizer. Tinha me protegido Sob a Montanha, mas aquele ódio primitivo de macho que mostrara a Keir... Um escritório destruído sujo de tinta surgiu em minha memória.

— Eu nunca, nunca a vou trancafiar, obrigá-la a ficar para trás. Mas, quando ele a ameaçou esta noite, quando a chamou de... — Vadia. Era como chamavam a ele. Durante cinquenta anos, sibilavam aquilo. Eu ouvira Lucien disparar as palavras na cara de Rhys. Ele soltou um fôlego entrecortado. — É difícil segurar meus instintos — explicou Rhys, a voz rouca.

Instintos. Exatamente como... como outra pessoa tinha instintos de proteger, de me esconder.

— Então, deveria ter se preparado melhor — disparei. — Parecia estar muito bem até que Keir falou...

— Matarei qualquer um que faça mal a você — grunhiu Rhys. — Matarei e demorarei muito fazendo isso. — Ele ficou sem fôlego. — Vá em frente. Pode me odiar... me desprezar.

— Você é meu amigo — declarei, e minha voz falhou na palavra. Odiei as lágrimas que me escorreram pelo rosto. Nem mesmo sabia por que estava chorando. Talvez devido ao fato de que tinha parecido real naquele trono com ele, mesmo que por um momento, e... e provavelmente não fora. Não para ele. — Você é meu amigo, e entendo que é Grão-Senhor. Entendo que defenderá sua verdadeira corte, e punirá ameaças contra ela. Mas não posso... Não quero que pare de me contar as coisas, de me convidar para fazer coisas, por causa das ameaças contra mim.

Escuridão ondulou, e asas se abriram nas costas de Rhys.

— Não sou ele — sussurrou Rhys. — Jamais serei ele, agirei como ele. Ele trancafiou você e a deixou definhar e morrer.

— Ele tentou...

— Pare de comparar. Pare de me comparar a ele.

As palavras me interromperam. Pisquei.

— Acha que não sei como as histórias são escritas, como esta história será escrita? — Rhys levou as mãos ao peito, o rosto mais aberto, mais angustiado do que eu já vira. — Sou o senhor sombrio que roubou a noiva da primavera. Sou um demônio e um pesadelo, e terei um final triste. Ele é o príncipe de ouro, o herói que poderá ficar com você como recompensa por não morrer de burrice ou arrogância.

As coisas que amo têm uma tendência a ser tiradas de mim. Rhys admitira isso Sob a Montanha.

Mas suas palavras eram como combustível para meu temperamento, para qualquer poço de medo que estivesse se abrindo dentro de mim.

— E quanto a minha história? — sibilei. — E quanto a minha recompensa? E quanto ao que eu quero?

— O que você quer, Feyre?

Não tive resposta. Não sabia. Não mais.

— O que você quer, Feyre?

Fiquei em silêncio.

A risada de Rhys saiu amargamente suave.

— Foi o que pensei. Talvez devesse tirar um tempo para descobrir isso um dia desses.

— Talvez eu não saiba o que quero, mas pelo menos não escondo o que sou atrás de uma máscara — argumentei, fervilhando. — Pelo menos deixo que vejam quem sou, pedaços quebrados e tudo. Sim, é para salvar seu povo. Mas e quanto às outras máscaras, Rhys? E quanto a deixar que seus amigos vejam seu verdadeiro rosto? Mas talvez seja mais fácil não o fazer. Porque o que acontece se deixar alguém entrar? E se a pessoa vir tudo, mas ainda assim der as costas? Quem poderia culpá-la, quem iria querer lidar com esse tipo de confusão?

Ele se encolheu.

O Grão-Senhor mais poderoso da história se encolheu. E eu sabia que o tinha atingido com força... e profundamente.

Muita força. Muito profundamente.

— Rhys — falei.

— Vamos para casa.

A palavra pairou entre nós, e me perguntei se ele a retiraria — mesmo quando esperei que minha boca disparasse que não era minha casa. Mas pensar nos céus azuis limpos e frescos de Velaris ao pôr do sol, a faísca das luzes da cidade...

Antes que eu pudesse dizer que sim, Rhys pegou minha mão, sem me encarar, e nos atravessou.

O vento parecia vazio conforme rugia ao nosso redor, a escuridão era fria e estranha.

 

Cassian, Azriel e Mor estavam, de fato, esperando na casa da cidade. Dei boa-noite a eles enquanto cercavam Rhysand em busca de respostas a respeito do que Keir tinha dito para provocá-lo.

Eu ainda estava com o vestido — que parecia vulgar em Velaris —, mas me peguei seguindo para o jardim, como se o luar e o frio pudessem purificar minha mente.

No entanto, se quisesse ser sincera... Eu esperava por ele. O que tinha dito...

Eu fora horrível. Rhys me contou aqueles segredos, aquelas vulnerabilidades em confidência. E eu as atirei na cara dele.

Porque eu sabia que o machucaria. E sabia que não estava falando sobre Rhys, não de verdade.

Minutos se passaram, a noite ainda parecia fria o bastante para me lembrar de que a primavera não tinha chegado de vez, e estremeci, esfregando os braços conforme a lua cruzava o céu. Ouvia a fonte e a música da cidade... Ele não veio. Eu não tinha certeza do que sequer diria a Rhys.

Sabia que ele e Tamlin eram diferentes. Sabia que a raiva protetora de Rhysand naquela noite fora justificada, que eu teria uma reação semelhante. Estava sedenta por sangue ao ouvir os mínimos detalhes do sofrimento de Mor, queria puni-los por aquilo.

Eu conhecia os riscos. Sabia que ficaria sentada em seu colo, tocando-o, usando-o. Eu o estava usando havia um tempo agora. E talvez devesse contar a Rhys que não... não queria ou esperava nada dele.

Talvez Rhysand precisasse flertar comigo, me provocar, como distração e para ter um senso de normalidade, tanto quanto eu.

E talvez eu tivesse dito o que disse a ele porque... porque percebi que poderia muito bem ser a pessoa que não deixava ninguém me conhecer. E naquela noite, quando Rhys se encolheu depois que viu como ele me afetava... aquilo esmagara algo em meu peito.

Eu tinha sentido ciúmes... de Cresseida. Estava tão profundamente infeliz naquela barca porque queria ser aquela para quem ele sorria daquela forma.

E sabia que era errado, mas... Não achava que Rhys me chamaria de vadia se eu quisesse... se eu o quisesse. Não importava quão pouco tempo tinha se passado depois de Tamlin.

E seus amigos também não. Não quando haviam sido chamados da mesma coisa, ou pior.

E aprenderam a viver — e a amar — depois disso. Apesar disso.

Então, talvez fosse a hora de confessar isso a Rhysand. De explicar que eu não queria fingir. Não queria ignorar como se fosse uma piada, um plano ou uma distração.

E seria difícil, e eu estava com medo, e talvez fosse difícil lidar com aquilo, mas... eu estava disposta a tentar — com ele. Tentar... ser alguma coisa. Juntos. Se aquilo era puramente sexual, ou se era mais, ou um meio-termo, ou além disso, eu não sabia. Nós descobriríamos.

Eu estava curada — ou me curando — o suficiente para querer tentar.

Se ele estivesse disposto a tentar também.

Se não desse as costas quando eu dissesse o que queria: ele.

Não o Grão-Senhor, não o macho mais poderoso da história de Prythian.

Apenas... ele. A pessoa que mandara música para aquela cela; que pegara aquela faca no trono de Amarantha para lutar por mim quando ninguém mais ousou, e que continuou lutando por mim todo dia desde então, recusando-se a me deixar desabar e definhar.

Então, esperei por Rhys no jardim frio sob o luar.

Mas ele não veio.

 

Rhys não apareceu no café da manhã. Ou no almoço. Não estava nem na casa.

Eu até escrevi um bilhete no último papel que usamos.

Quero falar com você.

Esperei trinta minutos até o papel sumir.

Mas ele permaneceu na palma de minha mão — até que o atirei ao fogo.

Eu fiquei tão irritada que saí andando pelas ruas batendo os pés, e mal reparei que o dia estava morno, ensolarado, que o próprio ar agora parecia envolto em limão e flores selvagens e grama nova. Agora que tínhamos a esfera, ele sem dúvida entraria em contato com as rainhas. As quais sem dúvida desperdiçariam nosso tempo, apenas para nos lembrar de que eram importantes; que elas também tinham poder.

Parte de mim desejava que Rhys pudesse lhes esmagar os ossos, como tinha feito com Keir na noite anterior.

Fui para o apartamento de Amren do outro lado do rio, precisando da caminhada para espairecer.

O inverno tinha, de fato, cedido lugar à primavera. Quando cheguei à metade do caminho, meu sobretudo estava jogado sobre o braço, e meu corpo, brilhoso com suor sob o suéter pesado cor de creme.

Encontrei Amren da mesma forma que a vira da última vez: curvada sobre o Livro, papéis espalhados ao redor. Apoiei o corpo no balcão.

Amren falou, sem erguer o rosto:

— Ah. O motivo pelo qual Rhys quis arrancar minha cabeça essa manhã.

Encostei no balcão, franzindo a testa.

— Para onde ele foi?

— Caçar quem atacou vocês ontem.

Se tinham flechas de freixo no arsenal... Tentei acalmar a preocupação profunda.

— Acha que foi a Corte Estival? — O rubi de sangue ainda estava no chão, ainda usado como peso de papel contra a brisa do rio que soprava das janelas abertas. O colar de Varian estava agora ao lado da cama de Amren. Como se ela tivesse caído no sono olhando para ele.

— Talvez — ponderou, passando o dedo por uma linha de texto. Ela devia estar realmente absorta, para sequer se incomodar com o sangue. Pensei em deixá-la sozinha. Mas Amren continuou: — Independentemente disso, parece que nossos inimigos colocaram um rastreador na magia de Rhys. O que significa que podem encontrá-lo quando ele atravessa para qualquer lugar, ou se usa seus poderes. — Amren por fim ergueu o rosto. — Vocês vão deixar Velaris em dois dias. Rhys quer que se posicionem em um dos acampamentos de guerra illyrianos, de onde voarão até as terras humanas quando as rainhas mandarem notícias.

— Por que não hoje?

— Porque a Queda das Estrelas é amanhã à noite, a primeira que passamos juntos em cinquenta anos. Espera-se que Rhys participe, em meio ao povo.

— O que é Queda das Estrelas?

Os olhos de Amren brilharam.

— Fora destas fronteiras, o resto do mundo celebra a data de amanhã como Nynsar, o Dia das Sementes e Flores. — Quase me encolhi ao ouvir aquilo. Não tinha percebido quanto tempo havia se passado desde que eu chegara ali. — Mas a Queda das Estrelas — falou Amren —, apenas na Corte Noturna é possível testemunhá-la, apenas neste território a Queda das Estrelas é comemorada no lugar das festividades de Nynsar. O restante, o porquê disso, você vai descobrir. É melhor se for surpresa.

Bem, isso explicava por que as pessoas pareciam já estar se preparando para algum tipo de comemoração: Grão-Feéricos e feéricos correndo para casa com os braços cheios de buquês de flores selvagens de cores vibrantes, e laços de fita e comida. As ruas eram varridas e limpas, as fachadas das lojas, arrumadas com mãos ágeis e habilidosas.

— Vamos voltar para cá depois de partirmos? — perguntei.

Amren voltou para o Livro.

— Não por um tempo.

Algo em meu peito começou a afundar. Para um imortal, um tempo devia ser... muito tempo.

Tomei aquilo como um convite para partir, e segui até a porta nos fundos do apartamento. Mas Amren disse:

— Quando Rhys voltou, depois de Amarantha, ele era um fantasma. Fingia que não era, mas era. Você o fez recuperar a vida.

As palavras ficaram emperradas, e eu não quis pensar naquilo, não quando qualquer que fosse o bem que eu tivesse feito, qualquer que fosse o bem que tínhamos feito um para o outro, pudesse ter sido varrido pelo que eu dissera a Rhys.

Então, falei:

— Ele tem sorte por ter todos vocês.

— Não — rebateu Amren, baixinho, com mais suavidade do que eu jamais ouvira. — Nós temos sorte de tê-lo, Feyre. — Eu me virei da porta. — Conheci muitos Grão-Senhores — continuou Amren, estudando o papel. — Cruéis, espertos, fracos, poderosos. Mas nunca um que sonhava. Não como ele.

— Sonha com o quê? — Sussurrei.

— Com paz. Com liberdade. Com um mundo unido, um mundo que floresça. Com algo melhor... para todos nós.

— Ele acha que será lembrado como o vilão da história.

Amren riu com deboche.

— Mas eu me esqueci de contar a ele — falei, baixinho, abrindo a porta — que o vilão costuma ser a pessoa que trancafia a donzela e joga a chave fora.

— Ah?

Dei de ombros.

— Foi ele quem me libertou.

 

Se você se mudou para outro lugar, escrevi, depois de sair do apartamento de Amren e voltar para casa, poderia ao menos ter me dado as chaves desta casa. Sempre deixo a porta destrancada quando saio. Está ficando tentador demais para ladrões.

Nenhuma resposta. A carta nem mesmo sumiu.

Tentei depois do café da manhã, no dia seguinte — a manhã da Queda das Estrelas. Cassian diz que você está emburrado na Casa do Vento. Que comportamento mais indigno de um Grão-Senhor. E meu treinamento?

De novo, nenhuma resposta.

Minha culpa e... e o que mais fosse aquilo... começou a mudar. Mal consegui me controlar para não rasgar o papel quando escrevi o terceiro bilhete depois do almoço.

Isso é punição? Ou as pessoas em seu Círculo Íntimo não recebem segundas chances quando o irritam? Você é um covarde desprezível.

Eu estava saindo da banheira, e a cidade fervilhava com os preparativos das festividades ao pôr do sol, quando olhei para a mesa na qual tinha deixado a carta.

E a vi sumir.

Nuala e Cerridwen chegaram para me ajudar a me vestir, e tentei não encarar a mesa conforme esperava, esperava e esperava pela resposta.

Ela não veio.