Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 27 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 25

Parada sob o trançado formado pelas árvores cobertas de neve, observei a floresta dormente e me perguntei se os pássaros tinham ficado quietos por causa de minha presença. Ou da do Grão-Senhor ao meu lado.

— Congelar a bunda de manhã cedo não é como eu pretendia passar nosso dia de folga — comentou Rhysand, franzindo a testa para o bosque. — Deveria levá-la até as estepes illyrianas quando voltarmos, a floresta lá é muito mais interessante. E mais quente.

— Não faço ideia de onde ficam. — Neve estalou sob as botas que Rhys conjurara quando declarei que queria treinar com ele. E não fisicamente, mas... com os poderes que eu tinha. O que quer que fossem. — Você me mostrou um mapa em branco daquela vez, lembra?

— Por precaução.

— Algum dia verei um mapa decente, ou me restará adivinhar onde tudo fica?

— Você está com um humor ótimo hoje — observou Rhys, e ergueu a mão no ar entre nós. Um mapa dobrado surgiu, o qual ele se demorou bastante a abrir. — Para não achar que não confio em você, Feyre, querida... — Rhysand apontou para o sul das ilhas Norte. — Estas são as estepes. Quatro dias nessa direção a pé — ele traçou o dedo para cima, na direção das montanhas ao longo das ilhas — a levarão ao território illyriano.

Observei o mapa, reparei na península que se projetava para cima até a metade da costa oeste da Corte Noturna, e no nome marcado ali. Velaris. Rhys certa vez me mostrara um mapa vazio — quando eu pertencia a Tamlin e não passava de uma espiã e prisioneira. Porque ele sabia que eu contaria a Tamlin sobre as cidades, as localizações.

E que Ianthe também poderia descobrir a respeito delas.

Afastei aquele peso no peito, no estômago.

— Aqui — falou Rhys, ao guardar o mapa no bolso e gesticular para a floresta ao nosso redor. — Vamos treinar aqui. Estamos bem longe agora.

Bem longe da casa, de qualquer um, para evitar sermos detectados. Ou evitar casualidades.

Rhys estendeu a mão, e uma vela espessa e curta apareceu em sua palma. Ele a colocou no chão nevado.

— Acenda, encharque com água e seque o pavio.

Eu sabia que ele queria dizer sem usar as mãos.

— Não consigo fazer nenhuma dessas coisas — admiti. — E quanto ao escudo físico? — Pelo menos eu tinha conseguido fazer isso em parte.

— Isso é para outra hora. Hoje, sugiro que comece tentando outra faceta de seu poder. Que tal metamorfose?

Encarei Rhys com raiva.

— Então, pratiquemos fogo, água e ar. — Canalha... canalha insuportável.

Rhys não insistiu no assunto, ainda bem; não perguntou por que mudar de forma talvez fosse o único poder que eu jamais me daria o trabalho de destrinchar e dominar. Talvez pelo mesmo motivo pelo qual eu não queria exatamente perguntar sobre uma peça-chave de sua história, não queria saber se Azriel e Cassian haviam ajudado quando a família governante da Corte Primaveril fora morta.

Olhei para Rhys da cabeça aos pés: a vestimenta de guerreiro illyriano, a espada sobre o ombro, as asas e aquela sensação geral de poder sobrepujante que sempre irradiava.

— Talvez você devesse... ir.

— Por quê? Você pareceu tão insistente para que eu a treinasse.

— Não posso me concentrar com você por perto — confessei. — E vá... para longe. Posso sentir você a um cômodo de distância.

Uma curva sugestiva moldou os lábios de Rhysand.

Revirei os olhos.

— Por que não se esconde em um daqueles reinos-bolsões por um tempo?

— Não funciona assim. Não tem ar lá. — Lancei um olhar a Rhys para indicar que então ele definitivamente deveria se esconder lá, e Rhys gargalhou. — Tudo bem. Pode praticar o quanto quiser em privacidade. — Ele indicou minha tatuagem com o queixo. — Grite pelo laço se conseguir realizar alguma coisa antes do café da manhã.

Franzi a testa para o olho em minha palma.

— O que... literalmente gritar para a tatuagem?

— Poderia tentar esfregá-la em certas partes do corpo e talvez eu chegue mais rápido.

Rhys desapareceu antes que eu conseguisse lhe atirar a vela.

Sozinha na floresta emoldurada por gelo, repassei as palavras de Rhysand, e uma risada baixa saiu de dentro de mim.

Imaginei se deveria ter testado o arco e as flechas que tinha recebido antes de pedir que ele saísse. Ainda não experimentara o arco illyriano — não atirava em nada havia meses, na verdade.

Encarei a vela. Nada aconteceu.

Uma hora se passou.

Pensei em tudo que me enraivecia, me enojava; pensei em Ianthe e sua arrogância, as exigências. Nem mesmo um fiapo de fumaça surgiu.

Quando meus olhos estavam quase sangrando, fiz uma pausa para vasculhar a sacola que levara. Encontrei pão fresco, uma lata de ensopado magicamente aquecida e um bilhete de Rhysand que dizia:

Estou entediado. Alguma faísca?

Não foi surpreendente que uma caneta tivesse se agitado no fundo da sacola.

Peguei a caneta e rabisquei minha resposta no topo da lata antes de observar a carta sumir de minha mão: Não, enxerido. Não tem coisas importantes a fazer?

A carta voltou um momento depois.

Estou vendo Cassian e Nestha se atracarem de novo por causa do chá. Você me submeteu quando me expulsou do treinamento. Achei que fosse nosso dia de folga.

Ri com deboche e escrevi em resposta: Tadinho do Grão-Senhor. A vida é tão difícil.

O papel sumiu e, então, reapareceu; a letra dele agora estava perto do alto do papel, a única parte de espaço vazio que restara. A vida é melhor quando você está por perto. E olhe como sua letra é linda.

Quase pude sentir Rhysand esperando do outro lado, na sala ensolarada do café da manhã, prestando atenção em parte à briga entre minha irmã e o guerreiro illyriano. Um leve sorriso curvou meus lábios. Você é um galanteador sem-vergonha, escrevi de volta.

A página sumiu. Observei a palma de minha mão aberta, esperando que retornasse.

E estava tão concentrada naquilo que não reparei que havia alguém atrás de mim até que a mão cobriu minha boca e me levantou.

Eu me debati, mordendo e arranhando, gritando conforme quem quer que fosse me levantava.

Tentei me desvencilhar, a neve se agitava ao nosso redor, como poeira em uma estrada, mas os braços que me pegaram não se moviam, eram como faixas de ferro e...

Uma voz rouca soou em meu ouvido:

— Pare, ou vou partir seu pescoço.

Eu conhecia aquela voz. Ela espreitava meus pesadelos.

O Attor.