Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 10 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 8

Uma semana depois, o Tributo chegou.

 

Eu pude passar apenas um dia com Tamlin — um dia perambulando pela propriedade, fazendo amor no gramado alto de um campo ensolarado, seguido de um jantar calmo e particular — antes que ele fosse chamado para a fronteira. Tamlin não me contou por que ou para onde. Apenas que eu deveria permanecer na propriedade, e que teria sentinelas me vigiando o tempo todo.

Então, passei a semana sozinha, acordando no meio da noite para vomitar as tripas, para chorar em meio aos pesadelos. Ianthe, se soubera do massacre das irmãs no norte, não dissera nada a respeito nas poucas vezes em que a vi. E, considerando o quão pouco eu gostava de ser forçada a conversar sobre todas as coisas que me incomodavam, escolhi não mencionar nada durante as horas que ela passava visitando, ajudando a escolher minhas roupas, meu cabelo, minhas joias para o Tributo.

Quando pedi que Ianthe explicasse o que eu poderia esperar do Tributo, ela apenas disse que Tamlin cuidaria de tudo. Eu deveria observar ao lado dele, prestar atenção.

Bem fácil... e talvez um alívio que não esperassem que eu falasse ou agisse.

Mas eu tinha feito muito esforço para não olhar para o olho tatuado em minha palma... e lembrar o que Rhys me dissera, grunhindo.

Tamlin havia voltado na noite anterior apenas para supervisionar o Tributo do dia. Tentei não levar aquilo para o lado pessoal, não quando ele tinha tanto sobre os ombros. Mesmo que Tamlin não me contasse muito sobre o Tributo além do que Ianthe tinha mencionado.

Sentada ao lado de Tamlin sobre um altar no salão principal de mármore e ouro da mansão, suportei as fileiras intermináveis de olhares, lágrimas, gratidão e bênçãos pelo que eu fizera.

Com a habitual túnica azul-claro com capuz, Ianthe estava posicionada perto das portas, oferecendo bênçãos àqueles que partiam, palavras de conforto aos que perdiam completamente a compostura em minha presença, promessas de que o mundo estava melhor agora, de que o bem prevalecera sobre o mal.

Depois de vinte minutos, eu parecia quase me agitar de inquietude. Depois de quatro horas, parei de ouvir completamente.

Eles continuavam a vir, os emissários, representando cada cidade e povo na Corte Primaveril, trazendo pagamentos na forma de ouro ou joias ou galinhas ou colheitas ou roupas. Não importava o que fosse, contanto que equivalesse ao que deviam. Lucien ficou ao pé do altar, contabilizando cada quantia, armado até os dentes como as dez outras sentinelas posicionadas pelo salão. Aquela era a sala de recepção, como a chamara Lucien, embora se parecesse muito com um salão de trono para mim. Imaginei se ele chamava assim porque as outras palavras...

Eu tinha passado muito tempo em outro salão do trono. Assim como Tamlin.

E não o passara sentada em um altar, como Tamlin, mas ajoelhada diante dele. Aproximava-me daquele altar como a feérica esguia, de pele cinzenta, que avançava acanhada da frente da fila interminável cheia de Grão-Feéricos inferiores.

Ela não usava roupas. Os longos cabelos escuros pendiam esmaecidos sobre os seios empinados e firmes — e os imensos olhos eram completamente negros. Como um lago parado. E, conforme se movia, a luz da tarde reluzia na sua pele iridescente.

O rosto de Lucien se contraiu em reprovação, mas ele não fez comentários quando a feérica inferior abaixou o rosto delicado e de feições pontiagudas e cobriu, com os magros dedos palmados, os seios.

— Em nome dos espectros da água, eu o cumprimento, Grão-Senhor — disse a feérica, com a voz estranha, sibilante, os lábios carnudos e sensuais revelando dentes afiados e irregulares como os de um lúcio. Os ângulos agudos das feições do rosto destacavam aqueles olhos pretos como carvão.

Eu vira o tipo dela antes. No lago, logo além do limite da mansão. Havia cinco delas morando entre os juncos e as ninfeias. Eu mal conseguira ver mais que as cabeças reluzentes despontando pela superfície vítrea; jamais soubera o quanto eram assustadoras de perto. Graças ao Caldeirão que jamais nadei naquele lago. Tinha a sensação de que a feérica me seguraria com aqueles dedos palmados — aquelas unhas pontudas se enterrariam fundo — e me puxaria para baixo da superfície antes que eu conseguisse gritar.

— Bem-vinda — cumprimentou Tamlin. Depois de cinco horas, ele parecia tão disposto quanto naquela manhã.

Imaginei que, com o retorno dos poderes, poucas coisas cansassem Tamlin agora.

O espectro da água se aproximou, o pé palmado e cheio de garras era salpicado de cinza. Lucien deu um passo casual entre nós.

Por isso ele estava posicionado do meu lado do altar.

Trinquei os dentes. Quem eles acreditavam que nos atacaria em nosso lar, ou em nossa terra, se não estavam convencidos de que Hybern poderia organizar uma ofensiva? Até mesmo Ianthe parara com os murmúrios baixos no fundo do salão para monitorar o encontro.

Aparentemente, aquela conversa não era como as demais.

— Por favor, Grão-Senhor — implorou a feérica, com uma reverência tão baixa que os cabelos pretos como nanquim roçaram o mármore. — Não há mais peixes no lago.

O rosto de Tamlin era como granito.

— Independentemente, espera-se que você pague. — A coroa sobre a cabeça de Tamlin reluziu à luz da tarde. Feita com esmeraldas, safiras e ametista, o ouro fora moldado em uma grinalda das primeiras flores da primavera. Era uma de cinco coroas pertencentes à linhagem de Tamlin.

A feérica expôs as palmas das mãos, mas Tamlin a interrompeu.

— Não há exceções. Tem três dias para apresentar o que é devido, ou oferecer o dobro no Tributo seguinte.

Foi difícil evitar olhar com espanto para o rosto imóvel e para as palavras sem misericórdia. No fundo, Ianthe deu um aceno de confirmação para ninguém em particular.

O espectro da água não tinha nada para comer... como Tamlin podia esperar que ela desse comida a ele?

— Por favor — sussurrou a feérica entre os dentes afiados, a pele prateada e sarapintada reluzindo quando ela começou a tremer. — Não restou nada no lago.

O rosto de Tamlin não se alterou.

— Você tem três dias...

— Mas não temos ouro!

— Não me interrompa — disse Tamlin. Virei o rosto, incapaz de suportar aquela expressão impiedosa.

A feérica abaixou ainda mais a cabeça.

— Perdão, meu senhor.

— Tem três dias para pagar, ou traga o dobro no mês seguinte — repetiu Tamlin. — Se falhar em fazer isso, conhece as consequências. — Tamlin gesticulou com a mão para dispensá-la. Fim da conversa.

Depois de um último olhar desesperançado para Tamlin, o espectro da água saiu do salão. Enquanto o feérico seguinte — um gamo com pernas de bode que carregava o que parecia ser um cesto de cogumelos — pacientemente esperava para ser convidado a se aproximar do altar, eu me virei para Tamlin.

— Não precisamos de um cesto de peixes — murmurei. — Por que fazê-la sofrer assim?

Tamlin voltou os olhos na direção de Ianthe, que tinha se afastado para permitir que a criatura passasse; Ianthe manteve uma das mãos nas joias do cinto. Como se a feérica pudesse arrancá-las para usar como pagamento. Tamlin franziu a testa.

— Não posso fazer exceções. Se fizer, todos exigirão o mesmo tratamento.

Segurei com força os braços da cadeira, um pequeno assento de carvalho ao lado do imenso trono de rosas entalhadas de Tamlin.

— Mas não precisamos dessas coisas. Por que precisamos de um velocino de ouro, ou de um pote de geleia? Se ela não tem mais peixes, três dias não farão diferença. Por que fazer com que passe fome? Por que não a ajudar a encher novamente o lago? — Eu tinha passado muitos anos com o estômago vazio para ignorar aquilo, para não querer gritar diante daquela injustiça.

Os olhos esmeralda de Tamlin se suavizaram quando ele leu cada pensamento em meu rosto, mas disse:

— Porque é assim que as coisas são. Era assim que meu pai fazia, e o pai dele, e o modo como meu filho o fará. — Tamlin ofereceu um sorriso e estendeu a mão para a minha. — Algum dia.

Algum dia. Se conseguíssemos nos casar. Se eu me tornasse um fardo menor e nós dois escapássemos das sombras que nos perseguiam. Não tínhamos sequer tocado no assunto. Ianthe, ainda bem, também não dissera nada.

— Ainda podemos ajudá-la, encontrar alguma forma de manter aquele lago abastecido.

— Já temos muito com que lidar. Distribuir esmolas não vai ajudar no longo prazo.

Abri a boca, mas depois a fechei. Não era hora de debater.

Então, me desvencilhei da mão de Tamlin quando ele gesticulou para que o gamo com pernas de bode se aproximasse por fim.

— Preciso de ar — falei, e levantei da cadeira. Não dei a Tamlin a chance de protestar antes de sair do altar batendo os pés. Tentei não reparar nas três sentinelas que Tamlin mandou atrás de mim, ou na fileira de emissários que olhou boquiaberta e sussurrou conforme atravessei o salão.

Ianthe tentou me alcançar quando parti em disparada, mas eu a ignorei.

Passei pelas portas e caminhei o mais rápido que ousei para depois da fila reunida que serpenteava pelos degraus até a passagem principal de carvalho. Além do emaranhado de vários corpos, de Grão-Feéricos e de feéricos inferiores, vi a silhueta do espectro retrocedendo, dando a volta por nossa casa... na direção do lago além da propriedade. Ela caminhava arrastando os pés, limpando os olhos.

— Com licença — chamei, alcançando-a, as sentinelas ao meu encalço mantiveram uma distância respeitosa.

O espectro da água parou no limite da casa, virando-se com uma leveza sobrenatural. Evitei a ânsia de recuar um passo quando aquelas feições extraterrenas me devoraram. Mantendo-se a apenas poucos passos de distância, os guardas monitoravam com as mãos nas armas.

O nariz da feérica quase não passava de duas fendas, e guelras delicadas se abriam sob suas orelhas.

O espectro da água inclinou levemente a cabeça. Não foi uma reverência completa, porque eu não era ninguém, mas o reconhecimento de que eu era o brinquedinho do Grão-Senhor.

— Sim? — sibilou ela, os dentes afiados reluziram.

— Quanto é seu Tributo?

Meu coração bateu mais rápido quando vi os dedos palmados e os dentes afiados como lâminas. Tamlin certa vez me dissera que os espectros da água comiam qualquer coisa. E se não restavam mais peixes...

— Quanto ouro ele quer... qual é o valor de seus peixes em ouro?

— Muito mais do que você tem nos bolsos.

— Então, tome — falei, abrindo o fecho de uma pulseira de ouro encrustada de rubis, uma que Ianthe me dissera que combinava melhor com minhas cores que a prateada que quase usei. Ofereci a ela. — Tome isto. — Antes que a feérica conseguisse pegá-la, arranquei o colar de ouro de meu pescoço e os diamantes em formato de gota de minhas orelhas. — E estas. — Estendi as mãos, que reluziam com ouro e joias. — Dê a ele o que deve; depois, compre comida — mandei, engolindo em seco quando os olhos dela se arregalaram. A aldeia próxima tinha um pequeno mercado toda semana, uma reunião incipiente de barracas por enquanto, que eu esperava ajudar a prosperar. De alguma forma.

— E que pagamento você requer?

— Nada. É... não é um acordo. Apenas tome. — Estendi mais as mãos. — Por favor.

O espectro da água franziu a testa ao ver as joias que pendiam de minhas mãos.

— Não deseja nada em troca?

— Nada. — Os feéricos na fila agora encaravam sem disfarçar. — Por favor, apenas leve.

Com um último olhar atento, os dedos frios e úmidos roçaram os meus, pegando as joias. Elas brilhavam como água nas mãos palmadas da feérica.

— Obrigada — disse ela, e fez uma reverência profunda dessa vez. — Não vou esquecer tal gentileza. — A voz do espectro da água sibilava sobre as palavras, e estremeci de novo quando os olhos negros ameaçaram me engolir inteira. — Assim como nenhuma de minhas irmãs.

Ela caminhou de volta para a mansão, e os rostos de minhas três sentinelas pareciam contraídos em reprovação.

Eu estava sentada à mesa de jantar com Lucien e Tamlin. Nenhum deles falou, mas o olhar de Lucien ficava passando de mim para Tamlin, e, depois, para o próprio prato.

Depois de dez minutos de silêncio, soltei o garfo e falei para Tamlin:

— O que foi?

Tamlin não hesitou.

— Você sabe o que foi.

Não respondi.

— Você deu àquele espectro da água suas joias. Joias que eu dei a você.

— Temos toda uma porcaria de casa cheia de ouro e joias.

Lucien respirou fundo, como se dissesse: “Lá vamos nós.”

— Por que não deveria dar a ela? — indaguei. — Essas coisas não significam nada para mim. Jamais usei a mesma joia duas vezes! Quem se importa com isso?

Os lábios de Tamlin se contraíram.

— Porque você menospreza as leis desta corte quando se comporta dessa forma. Porque é assim que as coisas são feitas aqui, e quando entrega àquela feérica glutona o dinheiro de que precisa, faz com que eu, faz com que a corte inteira pareça fraca.

— Não fale comigo assim — avisei, exibindo os dentes. Tamlin bateu com a mão na mesa, as garras despontaram pela pele, mas eu me inclinei para a frente, apoiando as mãos na madeira. — Você ainda não faz ideia de como era para mim estar à beira da inanição durante meses. E pode chamá-la de glutona o quanto quiser, mas também tenho irmãs e lembro como era voltar para casa sem comida. — Acalmei meu peito ofegante, e aquela força sob minha pele se agitou, ondulando pelos ossos. — Talvez ela gaste todo o dinheiro em coisas idiotas, talvez ela e as irmãs não tenham autocontrole. Mas não vou arriscar e deixar que passem fome por causa de uma regra ridícula que seus ancestrais inventaram.

Lucien pigarreou.

— Ela não fez por mal, Tam.

— Eu sei que não fez por mal — disparou Tamlin.

Lucien continuou encarando o amigo.

— Coisas piores já aconteceram, coisas piores podem acontecer. Apenas relaxe.

Os olhos esmeralda de Tamlin estavam selvagens quando ele grunhiu para Lucien.

— Pedi sua opinião?

Aquelas palavras, o olhar que Tamlin lançou a Lucien e a forma como Lucien abaixou a cabeça — meu temperamento era um rio incandescente nas veias. Olhe para cima, implorei silenciosamente a Lucien. Resista. Ele está errado, e nós estamos certos. O maxilar de Lucien se contraiu. Aquela força ressoou em mim de novo, vazando, disparando para Lucien. Não recue...

Então, eu desapareci.

Ainda ali, ainda vendo com meus olhos, mas também meio que olhando por outro ângulo na sala, a partir do lugar de alguém com vista privilegiada...

Pensamentos se chocaram contra mim, imagens e memórias, um padrão de pensamento e sentimento que era antigo e inteligente e triste, tão infinitamente triste e tomado pela culpa, sem esperanças...

Então, eu estava de volta, piscando, sem que mais de um segundo tivesse se passado enquanto eu olhava para Lucien boquiaberta.

Sua cabeça. Eu estivera dentro de sua cabeça, deslizara pelas paredes mentais de Lucien...

Fiquei de pé, e joguei o guardanapo na mesa com mãos que estavam perturbadoramente firmes.

Eu sabia de quem aquele dom viera. Meu jantar subiu pela garganta, mas forcei ele para baixo.

— Não acabamos essa refeição — grunhiu Tamlin.

— Ah, deixe de ser tão egocêntrico! — disparei, e depois saí.

Podia jurar que tinha visto duas impressões queimadas de mãos na madeira despontando de baixo de meu guardanapo. Rezei para que nenhum dos dois tivesse reparado.

E para que Lucien permanecesse ignorante à violação que eu acabara de cometer.