Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 11 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 9

Caminhei de um lado para outro no quarto por um bom tempo. Talvez eu tivesse me confundido ao ver aquelas queimaduras; talvez já estivessem lá. Talvez eu não tivesse, de alguma forma, conjurado calor e marcado a madeira. Talvez não tivesse deslizado para a mente de Lucien, como se estivesse passando de um cômodo para outro.

 

Como sempre fazia, Alis foi me ajudar a trocar de roupa para dormir. Enquanto eu estava sentada diante da penteadeira, deixando que ela penteasse meu cabelo, encolhi o corpo ao ver meu reflexo. O roxo sob os olhos parecia permanente agora... a palidez de meu rosto. Até meus lábios estavam um pouco lívidos, e suspirei quando fechei os olhos.

— Você deu suas joias a um espectro da água — ponderou Alis, e encontrei o reflexo dela no espelho. A pele marrom de Alis parecia couro amassado, os olhos escuros reluziram por um momento antes que se concentrasse em meu cabelo. — São um tipo ardiloso.

— Ela disse que estavam famintas, que não tinham comida — murmurei.

Alis cuidadosamente desfez um nó.

— Não havia um feérico naquela fila hoje que teria dado dinheiro a ela. Nenhum teria ousado. Muitos já foram para o túmulo de água por causa da fome delas. Apetite insaciável... é a maldição dos espectros. Suas joias não durarão uma semana.

Bati um pé no chão.

— Mas — continuou Alis, apoiando a escova para fazer uma trança única em meu cabelo. Os dedos longos e finos roçaram minha cabeça. — Ela jamais esquecerá. Enquanto viver, não importa o que você tenha dito, ela está em dívida com você. — Alis terminou a trança e me deu um tapinha no ombro. — Feéricos demais experimentaram a fome nesses últimos cinquenta anos. Não pense que essa história não vai se espalhar.

Eu tinha medo disso talvez mais que qualquer coisa.

 

Passava da meia-noite quando desisti de esperar; caminhei até o fim dos corredores escuros e silenciosos e o encontrei no escritório, sozinho, pelo menos uma vez.

Uma caixa de madeira envolta em um laço rosa espesso repousava na pequena mesa entre o conjunto de poltronas.

— Eu já estava subindo — disse Tamlin, e ergueu a cabeça para uma rápida observação de meu corpo, para se certificar de que estava tudo certo, tudo estava bem. — Você deveria estar dormindo.

Fechei a porta atrás de mim. Eu sabia que não conseguiria dormir; não com as palavras que Tamlin gritara ainda ecoando em meus ouvidos.

— Você também — falei, a voz tão tênue quanto o espaço entre nós. — Você trabalha demais. — Cruzei o cômodo para me apoiar na poltrona, olhando para o presente enquanto Tamlin me observava.

— Por que acha que eu tinha tão pouco interesse em ser Grão-Senhor? — disse ele, e ficou de pé para dar a volta na mesa. Tamlin beijou minha testa, a ponta de meu nariz, a boca. — Tanta papelada — resmungou ele contra meus lábios. Eu ri, mas Tamlin tocou com a boca a pele exposta entre meu pescoço e o ombro. — Desculpe — murmurou Tamlin, e senti arrepios na coluna. Ele beijou meu pescoço de novo. — Desculpe.

Passei a mão pelo braço dele.

— Tamlin — comecei a falar.

— Eu não deveria ter dito aquelas coisas — sussurrou Tamlin contra minha pele. — Para você ou para Lucien. Não quis dizer nenhuma delas.

— Eu sei — admiti, e o corpo de Tamlin relaxou contra o meu. — Desculpe por ter perdido a cabeça.

— Você tinha todo o direito — argumentou Tamlin, embora eu tecnicamente não tivesse. — Eu estava errado.

O que ele havia dito era verdade: se abrisse exceções, outros feéricos exigiriam o mesmo tratamento. E o que eu tinha feito poderia ser visto como menosprezo.

— Talvez eu estivesse...

— Não. Você estava certa. Não entendo como é passar fome... ou nada disso.

Eu recuei um pouco para inclinar a cabeça na direção do presente que esperava ali, mais que disposta a deixar que aquilo fosse o fim da discussão. Dei um sorriso leve, brincalhão.

— Para você?

Tamlin mordiscou minha orelha em resposta.

— Para você. De mim. — Um pedido de desculpas.

Sentindo-me mais leve do que me sentia havia dias, desfiz o laço e observei a caixa de madeira clara abaixo dele. Devia ter 60 centímetros de altura e 90 de largura, com uma alça de ferro sólida presa ao topo; nenhum brasão ou letras indicavam o que podia estar dentro. Certamente não era um vestido, mas...

Por favor, que não seja uma coroa .

Embora, certamente, uma coroa ou um diadema estariam guardados em algo menos... rudimentar.

Abri o pequeno fecho de latão e ergui a tampa larga.

Era pior que uma coroa na verdade.

Embutidos na caixa havia compartimentos, bolsos e presilhas, todos cheios de pincéis e tintas e carvão e folhas de papel. Um kit de pintura de viagem.

Vermelho... a tinta vermelha dentro do frasco de vidro era tão forte, o azul era tão deslumbrante quanto os olhos daquela mulher feérica que matei...

— Achei que gostaria de carregar pela propriedade. Em vez de arrastar todas aquelas sacolas, como sempre faz.

Os pincéis estavam novos, reluzentes; os pelos, macios e limpos.

Olhar para aquela caixa, para o que estava dentro, foi como examinar um cadáver limpo por um corvo.

Tentei sorrir. Tentei desejar que alguma alegria percorresse meus olhos.

Tamlin falou:

— Você não gostou.

— Não — consegui responder. — Não, é maravilhoso. — E era. Era mesmo.

— Achei que se começasse a pintar de novo... — Esperei que Tamlin terminasse.

Ele não terminou.

Meu rosto corou.

— E você? — perguntei, baixinho. — A papelada vai ajudar com alguma coisa?

Ousei encarar Tamlin. Seu temperamento se acendeu ali. Mas Tamlin disse:

— Não estamos falando de mim. Estamos falando... de você.

Observei a caixa e o conteúdo novamente.

— Sequer permitirão que eu perambule por onde quiser para pintar? Ou haverá uma escolta também?

Silêncio.

Um não; e um sim, então.

Comecei a tremer, mas por mim, por nós, eu me obriguei a dizer:

— Tamlin... Tamlin, não posso viver com guardas em volta de mim dia e noite. Não posso viver com esse sufocamento. Apenas me deixe ajudá-lo... me deixe trabalhar com você.

— Você já ofereceu o suficiente, Feyre.

— Eu sei. Mas... — Eu o encarei. Encarei Tamlin de volta, todo o poder do Grão-Senhor da Corte Primaveril. — É mais difícil me matar agora. Sou mais rápida, mais forte...

— Minha família era mais rápida e mais forte que você. E foram assassinados com muita facilidade.

— Então, case com alguém que possa suportar isso.

Ele piscou. Devagar. Depois, falou com a voz terrivelmente baixa:

— Não quer se casar comigo, então?

Tentei não olhar para o anel em meu dedo, para aquela esmeralda.

— É claro que quero. É claro que quero. — Minha voz falhou. — Mas você... Tamlin... — As paredes pareceram se aproximar. O silêncio, os guardas, os olhares. O que eu vira no Tributo naquele dia. — Estou me afogando — consegui dizer. — Estou me afogando. E quanto mais faz isso, quanto mais guardas... Poderia muito bem estar enfiando minha cabeça na água.

Nada naqueles olhos, naquele rosto.

Mas então...

Gritei, o instinto tomou conta quando o poder de Tamlin irrompeu pelo cômodo.

As janelas se quebraram.

A mobília se partiu.

E aquela caixa de tintas e pincéis e papel...

Ela explodiu em poeira, vidro e madeira.