Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 63 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 61

Eu jamais usara tanto aço. Lâminas foram presas por todo o meu corpo, escondidas nas botas, nos meus bolsos internos. E ainda tinha a espada illyriana em minhas costas.

 

Apenas algumas horas antes, eu sentira uma felicidade tão sobrepujante depois de tanto horror e tristeza. Apenas algumas horas antes, eu estivera nos braços de Rhys enquanto ele fazia amor comigo.

E agora, Rhysand, meu parceiro e Grão-Senhor e igual, estava ao meu lado no vestíbulo, com Mor, Azriel e Cassian armados e prontos nas armaduras semelhantes a escamas, todos nós calados.

— O rei de Hybern é velho, Rhys, muito velho. Não se demore — dizia Amren.

Uma voz perto de meu peito sussurrou: Oi, linda e travessa mentirosa.

As duas metades do Livro dos Sopros, cada uma enfiada em um bolso diferente. Em uma delas, o feitiço que eu deveria dizer havia sido nitidamente escrito. Não ousei pronunciá-lo, embora o tivesse lido dezenas de vezes.

— Entraremos e sairemos antes que dê por nossa falta — disse Rhys. — Guarde bem Velaris.

Amren observou minhas mãos enluvadas e minhas armas.

— Aquele Caldeirão — disse ela — faz o Livro parecer inofensivo. Se o feitiço falhar, ou se não conseguirem movê-lo, então, fujam. — Assenti. Ela nos observou de novo. — Voem bem. — Supus que esse fosse o máximo de preocupação que Amren mostraria.

Nós nos viramos para Mor, cujos braços estavam estendidos, esperando por mim. Cassian e Rhys atravessariam com Azriel, meu parceiro seria deixado alguns metros fora da costa, antes que os illyrianos encontrassem Mor e eu segundos depois.

Eu me movi na direção dela, mas Rhys se colocou na minha frente, o rosto tenso. Fiquei nas pontas dos pés e o beijei.

— Ficarei bem, todos ficaremos bem. — Os olhos de Rhys encararam os meus durante o beijo, e, quando me afastei, o olhar dele recaiu sobre Cassian.

Cassian fez uma reverência.

— Com minha vida, Grão-Senhor. Vou protegê-la com minha vida.

Rhys olhou para Azriel. Ele assentiu com uma reverência e falou:

— Com as vidas de nós dois.

Aquilo foi satisfatório para meu parceiro, que, por fim, olhou para Mor.

Ela assentiu uma vez, mas disse:

— Conheço minhas ordens.

Eu me perguntei quais seriam, porque eu não fora informada, mas Mor segurou minha mão.

Antes que eu conseguisse me despedir de Amren, partimos.

Partimos — e mergulhamos no ar livre, na direção de um mar escuro como a noite...

 

Um corpo quente se chocou contra o meu, me pegando antes que eu entrasse em pânico e talvez me atravessasse para outro lugar.

— Calma — disse Cassian, desviando para a direita. Olhei para baixo e vi Mor ainda mergulhando; depois, ela atravessou de novo, para o nada.

Nenhum sinal ou lampejo da presença de Rhys perto ou atrás de nós. Alguns metros adiante, Azriel era uma sombra ligeira por cima da água negra. Na direção da massa de terra da qual agora nos aproximávamos.

Hybern.

Nenhuma luz acesa ali. Mas parecia... antiga. Como se fosse uma aranha esperando em sua teia havia muito, muito tempo.

— Já estive aqui duas vezes — murmurou Cassian. — Em ambas, estava contando os minutos para ir embora.

Eu podia ver por quê. Uma parede de penhascos brancos como ossos se erguia, os topos, chatos e gramados, e abria caminho para um terreno de colinas íngremes e estéreis. E uma sensação sobrepujante de nada.

Amarantha tinha assassinado todos os seus escravos, em vez de libertá-los. Ela fora comandante ali, uma de muitos. Se aquela força que atacou Velaris fosse de vanguarda... Engoli em seco, flexionando as mãos sob as luvas.

— Ali está o castelo, adiante — indicou Cassian, com os dentes trincados, desviando.

Em uma curva na costa, construído no penhasco e empoleirado acima do mar, um castelo estreito e em ruínas de pedra branca.

Nenhum mármore imperial, nenhuma pedra de calcário elegante, mas... creme. Cor de osso. Talvez uma dúzia de pináculos espetasse o céu noturno. Algumas luzes tremeluziam nas janelas e nas varandas. Não havia ninguém do lado de fora, nenhuma patrulha.

— Onde estão todos?

— Troca da guarda. — Eles tinham planejado muito bem aquilo. — Há uma pequena porta pelo mar, na base. Mor estará a nossa espera ali... é a entrada mais próxima dos níveis mais inferiores.

— Presumo que ela não possa nos atravessar para dentro.

— Há muitos encantamentos a fim de arriscar o tempo que custaria para que Mor os quebrasse. Rhys pode conseguir. Mas nós o encontraremos à porta, na saída.

Minha boca ficou um pouco seca. Sobre meu coração, o Livro dizia: Casa... me leve para casa.

E, de fato, eu conseguia sentir. A cada centímetro que voávamos, mais e mais rápido, mergulhando de forma que a água do oceano me esfriasse até os ossos, eu conseguia sentir.

Antigo — cruel. Sem lealdade a ninguém, apenas ele mesmo.

O Caldeirão. Não precisavam se dar o trabalho de descobrir onde ele estava dentro do castelo. Eu sem dúvida seria atraída direto até ele. Estremeci.

— Calma — pediu Cassian de novo. Descemos na direção da base dos penhascos para ver a porta a partir do mar diante de uma plataforma. Mor estava à espera, com a espada em punho, e a porta aberta.

Cassian soltou um suspiro, mas Azriel a alcançou primeiro, aterrissando ágil e silenciosamente, e, no mesmo momento, entrou no castelo para verificar o corredor adiante.

Mor nos esperava — estava com os olhos em Cassian quando pousamos. Eles não se falaram, mas o olhar foi longo demais para que fosse qualquer coisa, menos casual. Imaginei o que o treinamento, os sentidos aguçados, teriam detectado.

A passagem adiante era escura, silenciosa. Azriel surgiu um segundo depois.

— Neutralizei os guardas. — Havia sangue em sua faca, uma faca de freixo. Os olhos frios de Az encararam os meus. — Rápido.

Não precisei de concentração para rastrear o Caldeirão até o esconderijo. Ele me puxava a cada respiração, me chamando para o abraço sombrio.

Sempre que chegávamos a uma bifurcação, Cassian e Azriel se dividiam, em geral voltando com lâminas ensanguentadas, rostos sombrios, silenciosamente me avisando para me apressar.

Estavam trabalhando naquelas semanas, com quaisquer que fossem as fontes de Azriel, para cronometrar aquele encontro em um itinerário exato. Se eu precisasse de mais tempo que o reservado, se o Caldeirão não pudesse ser movido... tudo poderia ter sido em vão. Mas não aquelas mortes. Não, com aquelas eu não me importava mesmo.

Aquelas pessoas — aquelas pessoas tinham ferido Rhys. Tinham levado ferramentas consigo para incapacitá-lo. Haviam mandado aquela legião para destruir e assassinar minha cidade.

Desci para um calabouço antigo, as pedras escuras e manchadas. Mor se manteve ao meu lado, sempre monitorando, a última linha de defesa.

Se Cassian e Azriel estivessem feridos, percebi, ela deveria se certificar de que eu saísse por quaisquer meios necessários. Depois, voltaria.

Mas não havia ninguém no calabouço; não que eu tivesse visto, depois que os illyrianos acabaram com eles. Haviam executado aquilo com maestria. Encontramos outra escada, que dava cada vez mais para baixo...

Apontei, a náusea se acumulando.

— Ali. Fica ali embaixo.

Cassian pegou as escadas, com a espada illyriana manchada de sangue escuro. Nem Mor nem Azriel pareceram respirar até que o assobio baixo de Cassian soou pelas pedras das escadas abaixo.

Mor colocou a mão em minhas costas, e descemos até a escuridão.

Casa, suspirou o Livro dos Sopros. Casa.

Cassian estava parado em uma câmara redonda sob o castelo — uma esfera de luz feérica flutuava acima de seu ombro.

E, no centro da sala, no alto de um pequeno altar, estava o Caldeirão.