Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 48 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 46

Eu estava com tanto frio que talvez jamais me aquecesse de novo. Mesmo no inverno no mundo mortal, conseguira encontrar alguma fonte de calor, mas depois de quase esvaziar meu estoque de magia naquela tarde, nem mesmo o fogo crepitante da lareira conseguiria descongelar o frio que envolvia meus ossos. Será que a primavera algum dia chegava àquele lugar maldito?

 

— Eles escolhem esses lugares — disse Cassian, diante de mim, conforme comíamos ensopado de cordeiro à mesa disposta no canto da parte anterior da casa de pedra. — Apenas para se certificar de que os mais fortes entre nós sobrevivam.

— Pessoas horríveis — resmungou Mor para a tigela de barro. — Não culpo Az por jamais querer vir aqui.

— Suponho que treinar as garotas tenha ido bem — observou Rhys, ao meu lado, com a coxa tão próxima que o calor roçou contra a minha.

Cassian esvaziou a caneca de cerveja.

— Consegui que uma delas confessasse que não tinham uma lição havia dez dias. Todas estavam ocupadas demais com “tarefas”, aparentemente.

— Nenhuma guerreira nata nesse bando?

— Três, na verdade — disse Mor. — Três em dez não é nada mal. As outras, eu ficaria feliz se apenas aprendessem a se defender. Mas aquelas três... Elas têm o instinto, as garras. São as famílias idiotas que querem que tenham as asas cortadas e virem reprodutoras.

Eu me levantei da mesa e levei a tigela para a pia embutida na parede. A casa era simples, mas ainda era maior e estava em melhores condições que nosso velho chalé. A sala da frente servia como cozinha, sala de estar e de jantar, com três portas nos fundos: uma para o banheiro, outra para a despensa, e a terceira era a saída dos fundos, pois nenhum verdadeiro illyriano, de acordo com Rhys, jamais construía um lar com apenas uma saída.

— Quando parte para a Cidade Escavada amanhã? — perguntou Cassian a Mor, tão baixo que eu soube que provavelmente estava na hora de subir.

Mor arranhou o fundo da tigela. Aparentemente, Cassian fizera o ensopado... e não estava nada mal.

— Depois do café. Antes. Não sei. Talvez à tarde, quando estiverem todos acordando.

Rhys estava um passo atrás de mim, com a tigela na mão, e indicou para eu deixasse a louça suja na pia. Ele inclinou a cabeça na direção da escada íngreme e estreita nos fundos da casa. Era ampla o bastante para que coubesse apenas um guerreiro illyriano — mais uma medida de segurança —, e olhei para a mesa uma última vez antes de desaparecer para o andar de cima.

Mor e Cassian encaravam as tigelas vazias de comida, conversando tranquilamente, para variar.

A cada passo, eu conseguia sentir Rhys às costas, o calor, a teia e a fluidez de seu poder. E naquele pequeno espaço, o cheiro de Rhys tomou conta de mim, me chamou.

O andar de cima era escuro, iluminado pela pequena janela no fim do corredor, e o luar entrava por uma fenda estreita entre os pinheiros ao nosso redor. Havia apenas duas portas ali, e Rhys apontou para uma delas.

— Você e Mor podem dividir este quarto esta noite, apenas diga a ela para se calar se tagarelar demais. — Eu não diria, no entanto. Se precisasse conversar, se distrair e estar pronta para o que viria no dia seguinte, eu a ouviria até o amanhecer.

Rhys colocou a mão na própria maçaneta, mas eu me inclinei contra a madeira de minha porta.

Seria tão fácil dar os três passos para cruzar o corredor.

Passar as mãos por aquele peito, tracejar aqueles lindos lábios com os meus.

Engoli em seco quando Rhys se virou para mim.

Não queria pensar no que queria dizer, no que estava fazendo. O que era aquilo — o que quer que fosse — entre nós.

Porque as coisas entre nós jamais tinham sido normais, desde o primeiro momento em que nos conhecemos no Calanmai. Eu não conseguira me afastar dele com facilidade então, quando achei que era mortal, perigoso. Mas agora...

Traidora, traidora, traidora...

Rhys abriu a boca, mas eu já estava dentro do quarto e fechara minha porta.

 

Chuva congelante pingava entre os galhos dos pinheiros conforme eu caminhava em meio à névoa com meu traje de combate de couro illyriano, armada com um arco, uma aljava e facas, tremendo como um cão molhado.

Rhys estava alguns metros atrás, carregando nossa bagagem. Tínhamos voado bem para o interior das estepes da floresta, tão longe que precisaríamos passar a noite ali. Tão longe que ninguém e nada poderia ver outra “gloriosa explosão de chamas e temperamento”, como Rhys chamara. Azriel não recebera notícias de minhas irmãs a respeito da decisão das rainhas, então, tínhamos tempos de sobra. Embora Rhys certamente não parecesse ter tempo quando me informou naquela manhã. Mas pelo menos não precisaríamos acampar lá fora. Rhys me prometeu que havia algum tipo de estalagem para viajantes por perto.

Eu me virei para onde Rhys caminhava, atrás de mim, e vi as imensas asas primeiro. Mor tinha partido antes de eu sequer acordar, e Cassian estava irritadinho e ansioso no café da manhã... Tanto que fiquei feliz em partir assim que terminei o mingau. E me senti um pouco mal pelos illyrianos que precisariam lidar com ele naquele dia.

Rhys parou quando me alcançou, e, mesmo com as árvores e a chuva entre nós, pude ver suas sobrancelhas se erguerem em uma pergunta silenciosa sobre por que eu tinha parado. Não tínhamos falado sobre a Queda das Estrelas ou sobre a Corte dos Pesadelos — e, na noite anterior, enquanto eu me revirava na minúscula cama, decidi: diversão e distração. Não precisava ser complicado. Manter as coisas puramente físicas... bem, não parecia muito com traição.

Ergui a mão, sinalizando para que Rhys ficasse onde estava. Depois do dia anterior, não queria que ele se aproximasse muito, para que eu não o queimasse. Ou pior. Rhys fez uma reverência dramática, e revirei os olhos conforme caminhei até o córrego adiante, contemplando onde poderia, de fato, tentar brincar com o fogo de Beron. Meu fogo.

A cada passo, eu conseguia sentir o olhar de Rhys me devorando. Ou talvez fosse a ligação, tocando nos meus escudos mentais; lampejos de fome tão insaciável que era difícil me concentrar na tarefa diante de mim, e não na sensação das suas mãos acariciando minhas coxas, me empurrando contra ele.

Eu podia jurar que senti um pingo de diversão do outro lado do escudo mental também. Sibilei e fiz um gesto vulgar por cima do ombro, quando deixei o escudo cair, apenas um pouquinho.

Aquela diversão se transformou em puro prazer — e, depois, em uma carícia de desejo que percorreu minha espinha até embaixo. Mais embaixo.

Meu rosto ficou quente, e um galho se partiu sob minha bota, o som tão alto quanto relâmpago. Trinquei os dentes. O chão se inclinava na direção de um córrego cinzento e forte, tão rápido que só podia ser alimentado pelas altas montanhas cobertas de neve ao longe.

Bom; aquele ponto era bom. Havia ali um suprimento a mais de água para afogar quaisquer chamas que pudessem escapar, e muito espaço aberto. O vento soprava para longe de mim, levando meu cheiro para o sul, mais para o interior da floresta, quando abri a boca para dizer a Rhys que ficasse para trás.

Com aquele vento e o córrego ruidoso, não foi surpresa que eu não os tivesse ouvido até que me cercassem.

— Feyre.

Eu me virei, com a flecha armada e apontada para a fonte da voz...

Quatro sentinelas da Corte Primaveril saíram andando das árvores atrás de mim como espectros, armados até os dentes e de olhos arregalados. Dois deles eu conhecia: Bron e Hart.

E entre eles estava Lucien.