Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 34 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 32

No fim das contas, apenas Amren e eu nos juntamos a Rhys; Cassian fracassara em convencer o Grão-Senhor, Azriel ainda estava fora, supervisionando sua rede de espiões e investigando o reino humano, e Mor fora incumbida de cuidar de Velaris. Rhys atravessaria conosco direto para Adriata, a cidade-castelo da Corte Estival — e ali nós ficaríamos, por quanto tempo fosse necessário para que eu detectasse e então roubasse a primeira metade do Livro.

 

Como o mais novo bicho de estimação de Rhys, eu teria direito a passeios pela cidade e a me hospedar na residência pessoal do Grão-Senhor. Se tivéssemos sorte, nenhum deles perceberia que o cachorrinho de Rhys na verdade era um cão de caça.

E era um disfarce muito, muito bom.

Rhys e Amren estavam no saguão da casa no dia seguinte, o sol abundante da manhã entrava pelas janelas e cobria o tapete ornamentado. Amren usava os habituais tons de cinza — a calça larga com cós logo abaixo do umbigo, a blusa esvoaçante curta o suficiente para mostrar um trecho ínfimo de pele no tronco. Tão atraente quanto um mar calmo sob um céu de tempestade.

Rhys estava de preto da cabeça aos pés, acentuado pelo bordado prateado... nenhuma asa. O macho contido e sofisticado que eu conhecera. Sua máscara preferida.

Para mim, escolhi um vestido lilás esvoaçante, as saias oscilando a um vento inexistente, sob o cinto encrustado de prata e pérolas. Flores noturnas prateadas combinando foram bordadas a partir da bainha, roçando minhas coxas, e algumas mais se entrelaçavam pelas dobras de meus ombros. O vestido perfeito para combater o calor da Corte Estival.

O vestido farfalhou e suspirou conforme desci os dois últimos lances de escada até o saguão. Rhys me observou com um olhar longo e indecifrável, desde os pés em sandálias de prata até o cabelo preso pela metade. Nuala cacheara as mechas que tinham sido deixadas para baixo — cachos macios e leves que ressaltavam o dourado em meus cabelos.

Rhys apenas disse:

— Bom. Vamos.

Minha boca se abriu, mas Amren explicou com um sorriso amplo e felino:

— Ele está irritadinho esta manhã.

— Por quê? — perguntei, observando Amren pegar a mão de Rhys, e os dedos delicados pareciam encolher nos dele. Rhys estendeu a outra mão para mim.

— Porque — respondeu Rhys por Amren — fiquei fora até tarde com Cassian e Azriel e eles me limparam nas cartas.

— Mau perdedor? — Segurei a mão dele. Os calos de Rhys arranharam os meus, o único lembrete do guerreiro treinado sob as roupas e a máscara.

— Eu sou quando meus irmãos se juntam contra mim — murmurou Rhys. Ele não ofereceu aviso antes de sumir em um vento da meia-noite; então...

Eu estava semicerrando os olhos diante do sol incandescente em um mar turquesa, ao mesmo tempo que tentava reorganizar meu corpo sob o calor seco e sufocante, mesmo com a brisa refrescante da água.

Pisquei algumas vezes... e foi o máximo de reação que me permiti mostrar quando me desvencilhei da mão de Rhys.

Parecíamos estar de pé em uma plataforma de pouso na base de um palácio de pedra, o próprio prédio ficava empoleirado no alto de uma ilha-montanha, no coração de uma baía em meia-lua. A cidade se estendia ao redor e abaixo de nós, na direção daquele mar reluzente; os prédios eram todos feitos daquela pedra, ou brilhavam com um material branco que podia ser coral ou pérola. Gaivotas sobrevoavam os muitos torreões e pináculos, nenhuma nuvem acima delas, nada com elas na brisa, além de ar salgado e dos ruídos da cidade abaixo.

Várias pontes conectavam a ilha tumultuada à massa de terra maior que a circundava em três lados, e uma delas se erguia no momento para que um navio de muitos mastros pudesse atravessar. De fato, havia mais navios do que eu podia contar; alguns navios comerciais, alguns de pesca e alguns, ao que parecia, transportavam pessoas da cidade na ilha para o continente cujo litoral inclinado estava abarrotado de mais prédios, mais pessoas.

Mais pessoas como a meia dúzia diante de nós, emolduradas por um par de portas de vidro marinho que se abria para o próprio palácio. Em nossa pequena varanda, não havia rota de fuga, nenhum caminho além de atravessar... ou passar pelas portas. Ou, imaginei, o mergulho que nos esperava em direção aos telhados vermelhos das lindas casas 30 metros abaixo.

— Bem-vindos a Adriata — disse o macho alto no centro do grupo.

E eu o conhecia... me lembrava dele.

Não pela memória. Eu já me lembrara de que o belo Grão-Senhor da Corte Estival tinha pele marrom exuberante, cabelos brancos e olhos de um azul-turquesa impressionantes. Já me lembrara de que ele tinha sido obrigado a assistir enquanto a mente de um de seus cortesãos era invadida e, então, a vida deste era extinguida por Rhysand. E Rhysand mentira para Amarantha a respeito do que tinha descoberto, e poupara o homem de um destino talvez pior que a morte.

Não; no momento eu me lembrava do Grão-Senhor da Corte Estival de uma forma que não podia explicar, como se algum fragmento meu soubesse que tinha vindo dele, daquele lugar. Como se algum pedaço meu dissesse: eu lembro, eu lembro, eu lembro. Somos iguais, você e eu.

Rhys apenas cantarolou:

— Bom ver você de novo, Tarquin.

As outras cinco pessoas atrás do Grão-Senhor da Corte Estival trocaram expressões de severidade diversa. Como o senhor delas, tinham a pele escura, os cabelos em tons de branco ou prata, como se tivessem vivido sob o sol forte a vida inteira. Os olhos, no entanto, eram de todas as cores. E agora se moviam de mim para Amren.

Rhys colocou uma das mãos no bolso e gesticulou com a outra para Amren.

— Acho que conhece Amren. Embora não a tenha visto desde sua... promoção. — Uma graciosidade fria e calculista, com uma pontada de severidade.

Tarquin deu o mais breve aceno de cabeça para Amren.

— Bem-vinda de volta à cidade, senhora.

Amren não assentiu, não fez reverência, sequer uma cortesia. Ela olhou Tarquin de cima a baixo, alto e musculoso, com as roupas verde-mar, azul e dourado, e falou:

— Pelo menos você é muito mais bonito que seu primo. Olhar para ele feria os olhos. — Uma fêmea atrás de Tarquin não disfarçou a expressão de ódio. Os lábios vermelhos de Amren sorriram. — Minhas condolências, é claro — acrescentou ela, com tanta sinceridade quanto uma cobra.

Maliciosos, cruéis; era o que Amren e Rhys eram... O que eu deveria ser para aquelas pessoas.

Rhys gesticulou para mim.

— Não acredito que vocês dois tenham sido formalmente apresentados Sob a Montanha. Tarquin, Feyre. Feyre, Tarquin. — Rhys não mencionou nenhum título ali, ou para irritá-los, ou porque os achava um desperdício de fôlego.

Os olhos de Tarquin — de um azul-cristal tão espantoso — se fixaram em mim.

Eu me lembro de você, eu me lembro de você, eu me lembro de você .

O Grão-Senhor não sorriu.

Mantive o rosto neutro, vagamente entediado.

O olhar de Tarquin desceu até meu peito, a pele nua revelada pelo decote acentuado do vestido, como se ele pudesse ver para onde aquela faísca de vida, o poder dele, tinha ido.

Rhys acompanhou aquele olhar.

— Os seios dela são espetaculares, não são? Deliciosos como maçãs maduras.

Lutei contra a vontade de fazer uma careta, e, em vez disso, voltei minha atenção para ele, com a mesma indolência com que Rhys olhara para mim, para os demais.

— E aqui estava eu pensando que você tinha uma fascinação por minha boca.

Surpresa satisfeita iluminou os olhos de Rhys, surgiu e se foi em um segundo.

Nós dois viramos de volta para os anfitriões, ainda com expressões petrificadas e costas rígidas.

Tarquin pareceu calcular o ar entre meus companheiros e eu, e então falou, com cautela:

— Você tem uma história a contar, parece.

— Temos muitas histórias a contar — avisou Rhys, indicando com o queixo as portas de vidro atrás deles. — Então, por que não ficarmos confortáveis?

A fêmea que estava meio passo atrás de Tarquin se aproximou.

— Temos bebidas prontas.

Tarquin pareceu se lembrar dela e colocou a mão no ombro magro da mulher.

— Cresseida, princesa de Adriata.

A governante da capital ou esposa de Tarquin? Não havia anel nos dedos de nenhum deles, e não reconheci Cresseida de Sob a Montanha. O cabelo longo e prateado soprava sobre o lindo rosto à brisa salgada, e não confundi a luz nos olhos castanhos da mulher com qualquer outra coisa que não esperteza afiada.

— É um prazer — murmurou Cresseida, com a voz rouca, para mim. — E uma honra.

Meu café da manhã virou chumbo no estômago, mas não deixei que ela visse o efeito que aquelas palavras de reverência tinham sobre mim; não deixei que visse que eram munição. Em vez disso, fiz minha melhor imitação de Rhysand dando de ombros.

— A honra é minha, princesa.

Os outros foram apressadamente apresentados: três conselheiros que supervisionavam a cidade, a corte e o comércio. E, então, um lindo homem de ombros largos chamado Varian, o irmão mais novo de Cresseida, capitão da guarda de Tarquin, príncipe de Adriata. A atenção dele estava fixa somente em Amren, como se soubesse onde estava a maior ameaça. E ficaria feliz em matá-la se tivesse a chance.

Durante o breve período de tempo em que eu conhecia Amren, ela jamais parecera mais encantada.

Fomos levados para um palácio feito de passagens e paredes de conchas, e incontáveis janelas se abriam para a baía e para o continente ou o mar aberto além. Lustres de vidro marinho oscilavam à brisa morna sobre córregos e fontes que jorravam água fresca. Grão-Feéricos — criados e cortesãos — se apressavam além e ao redor deles, a maioria de pele marrom e vestidos em roupas largas e leves, todos preocupados demais com os próprios problemas para notar ou se interessarem por nossa presença. Nenhum feérico inferior cruzou nosso caminho... sequer um.

Eu me mantive um passo atrás de Rhysand conforme ele caminhava ao lado de Tarquin, aquele poder magnífico estava domado e reduzido, e os outros seguiam atrás de nós. Amren permaneceu ao alcance, e me perguntei se ela também deveria ser minha guarda-costas. Tarquin e Rhys conversavam casualmente, ambos já entediados, sobre o iminente Nynsar; sobre as flores nativas que as duas cortes exibiriam para a pequena e breve festividade.

O Calanmai aconteceria logo depois.

Meu estômago se revirou. Se Tamlin estava determinado a seguir a tradição, se eu não estava mais com ele... não me permiti ir tão longe. Não seria justo. Comigo... com ele.

— Temos quatro cidades principais em meu território — disse Tarquin para mim, olhando por cima do ombro musculoso. — Passamos o último mês de inverno e os primeiros meses de primavera em Adriata, que é quando a cidade está em sua melhor forma.

De fato, supus que, com o verão interminável, não havia limite para como se poderia aproveitar o tempo. No campo, ao mar, em uma cidade sob as estrelas... Assenti.

— É muito linda.

Tarquin me encarou por tanto tempo que Rhys falou:

— Os reparos estão indo bem, suponho.

Aquilo chamou a atenção de Tarquin de volta.

— Em grande parte. Ainda resta muito a fazer. A metade posterior do castelo está em ruínas. Mas, como pode ver, terminamos a maior parte do interior. Nós nos concentramos primeiro na cidade, e esses consertos estão em curso.

Amarantha tinha destruído a cidade?

— Espero que nada de valor tenha sido perdido durante a ocupação — disse Rhys.

— Não as coisas mais importantes, graças à Mãe — respondeu Tarquin.

Atrás de mim, Cresseida ficou tensa. Os três conselheiros se afastaram para cuidar de outros afazeres, murmurando uma despedida... com olhares cautelosos na direção de Tarquin. Como se aquela pudesse muito bem ser a primeira vez que ele precisasse bancar o anfitrião e os conselheiros estivessem de olho em todos os movimentos do Grão-Senhor.

Tarquin deu a eles um sorriso que não chegou aos olhos, e não respondeu nada mais quando nos levou para uma sala abobadada de carvalho branco e vidro verde — com vista para a abertura da baía e para o mar que se estendia infinitamente.

Eu jamais tinha visto água tão vibrante. Verde e cobalto e cor de meia-noite. E, por um segundo, uma paleta de cores lampejou em minha mente, com o azul e o amarelo e o branco e o preto de que eu poderia precisar para pintar aquilo...

— Esta é minha vista preferida — disse Tarquin, ao meu lado, e percebi que tinha ido até as amplas janelas enquanto os demais haviam se sentado ao redor da mesa de madrepérola. Um punhado de criados empilhava frutas, saladas de folhas e mariscos no vapor em seus pratos.

— Você deve se sentir muito orgulho — falei. — Por ter terras tão deslumbrantes.

Os olhos de Tarquin, tão parecidos com o mar além de nós, se voltaram para mim.

— Como são em comparação às que já viu? — Uma pergunta cuidadosamente elaborada.

Respondi, inexpressivamente:

— Tudo em Prythian é lindo em comparação ao mundo mortal.

— E ser imortal é melhor que ser humana?

Eu conseguia sentir a atenção de todos em nós, mesmo quando Rhys envolveu Cresseida e Varian em uma discussão inútil e acalorada sobre o estado dos mercados de peixes deles. Então, olhei para o Grão-Senhor da Corte Estival de cima a baixo, assim como ele me examinara, indisfarçadamente e sem um pingo de educação, e falei:

— Diga você.

Os olhos de Tarquin se enrugaram.

— Você é uma pérola. Embora eu soubesse disso desde o dia em que atirou aquele osso em Amarantha e sujou de lama seu vestido preferido.

Afastei as lembranças, o terror ofuscante daquela primeira tarefa.

O que ele achava daquele puxão que havia entre nós; será que percebia que era mesmo seu poder, ou achava que era um laço próprio, algum tipo de atração estranha?

E se eu precisasse roubar dele... talvez isso significasse que eu precisava me aproximar.

— Não me lembro de você ser tão bonito Sob a Montanha. A luz do sol e o mar lhe caem bem.

Um macho de posição inferior poderia ter se empertigado. Mas Tarquin era esperto demais para isso, sabia que eu estivera com Tamlin e estava agora com Rhys, e que tinha sido levada até ali. Talvez achasse que eu não era melhor que Ianthe.

— Como, exatamente, você se encaixa na corte de Rhysand?

Uma pergunta direta, depois de tantas voltas, para sem dúvida me desconcentrar.

Quase funcionou; eu quase admiti: “Não sei”, mas Rhys falou, da mesa, como se tivesse ouvido cada palavra:

— Feyre é um membro de meu Círculo Íntimo. E é minha Emissária nas Terras Mortais.

Cresseida, sentada ao lado de Rhysand, falou:

— Tem muito contato com o mundo mortal?

Tomei aquilo como um convite para me sentar... e fugir do olhar carregado demais de Tarquin. Um assento tinha sido deixado vago para mim ao lado de Amren, diante de Rhys.

O Grão-Senhor da Corte Noturna cheirou o vinho — branco, espumante —, e me perguntei se estava tentando irritá-los ao insinuar que o vinho tinha sido envenenado quando falou:

— Prefiro estar pronto para cada situação potencial. E, considerando que Hybern parece determinada a se tornar um aborrecimento, abrir o diálogo com os humanos pode ser de nosso interesse.

Varian desviou a atenção de Amren por tempo suficiente para dizer, grosseiramente:

— Então, foi confirmado mesmo? Hybern está se preparando para a guerra.

— Já terminaram de se preparar — revelou Rhys, por fim tomando o vinho. Amren não tocou no prato, embora tivesse remexido a comida, como sempre fazia. Imaginei o que, ou quem, ela comeria enquanto estivesse ali. Varian parecia um bom palpite. — A guerra é iminente.

— Sim, você mencionou na carta — falou Tarquin, reivindicando um assento à cabeceira da mesa entre Rhys e Amren. Um movimento ousado, se colocar entre dois seres tão poderosos. Arrogância ou uma tentativa de amizade? O olhar de Tarquin, de novo, se voltou para mim antes de se concentrar em Rhys. — E você sabe que contra Hybern nós lutaremos. Perdemos muita gente boa Sob a Montanha. Não tenho interesse em que viremos escravos de novo. Mas, se está aqui para me pedir que lute em outra guerra, Rhysand...

— Isso não é uma possibilidade — interrompeu Rhys, suavemente. — E nem mesmo passou por minha mente.

Meu vislumbre de confusão deve ter transparecido, pois Cresseida me disse, cantarolando:

— Grão-Senhores já guerrearam por muito menos, sabe. Fazê-lo por uma fêmea tão incomum não seria inesperado.

E provavelmente por isso aceitaram o convite, a favor ou não. Para nos avaliar.

Se... se Tamlin entrasse em guerra para me recuperar. Não. Não, isso não seria uma opção.

Eu tinha escrito para ele, dissera que ficasse longe. E Tamlin não era tolo o bastante para começar uma guerra que não poderia vencer. Não quando não lutaria com outros Grão-Feéricos, mas com guerreiros illyrianos, liderados por Cassian e Azriel. Seria um massacre.

Eu falei, entediada e inexpressiva e insipidamente:

— Tente não parecer animada demais, princesa. O Grão-Senhor da Corte Primaveril não tem planos de guerrear com a Corte Noturna.

— E você está em contato com Tamlin, então? — Um sorriso doce.

Minhas palavras seguintes foram baixas, lentas, e decidi que não me importaria de roubar deles, nem um pouco.

— Há coisas que são de conhecimento público, e coisas que não são. Meu relacionamento com ele é conhecido. A situação atual, no entanto, não é de sua conta. Ou da de qualquer outro. Mas conheço Tamlin e sei que não haverá guerra interna entre cortes, pelo menos não por minha causa, ou por minhas decisões.

— Que alívio, então — disse Cresseida, bebericando do vinho branco antes de quebrar uma enorme garra de caranguejo, rosada, branca e laranja. — Saber que não estamos abrigando uma noiva roubada, e que não precisamos nos dar o trabalho de devolvê-la ao mestre, como exige a lei. E como qualquer pessoa sábia deveria fazer, para manter os problemas longe de casa.

Amren tinha ficado completamente imóvel.

— Parti por vontade própria — falei. — E ninguém é meu mestre.

Cresseida deu de ombros.

— Pode pensar o que quiser, senhora, mas a lei é a lei. Você é... era a noiva dele. Jurar lealdade a outro Grão-Senhor não muda isso. Então, é muito bom que ele respeite suas decisões. Caso contrário, seria preciso apenas uma carta de Tamlin para Tarquin pedindo seu retorno, e precisaríamos obedecer. Ou arriscar a guerra também.

Rhysand suspirou.

— Você é sempre uma diversão, Cresseida.

— Cuidado, Grão-Senhor. Minha irmã diz a verdade — avisou Varian.

Tarquin colocou a mão na mesa pálida.

— Rhysand é nosso convidado, assim como seus cortesãos. E nós os trataremos como tal. Nós os trataremos, Cresseida, como tratamos pessoas que salvaram nossas cabeças quando tudo que seria preciso era uma palavra deles para que todos estivéssemos muito, muito mortos.

Tarquin avaliou a mim e a Rhys... cujo rosto parecia gloriosamente desinteressado. O Grão-Senhor da Corte Estival sacudiu a cabeça e falou para ele:

— Temos mais a discutir depois, você e eu. Esta noite, vou dar uma recepção para todos em minha barca de festas na baía. Depois disso, estão livres para perambular por onde quiserem na cidade. Perdoem a princesa se for superprotetora com seu povo. A reconstrução durante esses meses tem sido longa e árdua. Não desejamos fazer isso de novo tão cedo.

Os olhos de Cresseida ficaram sombrios, como se assombrados.

— Cresseida fez muitos sacrifícios em nome do povo — explicou Tarquin, cuidadosamente, para mim. — Não leve sua cautela para o lado pessoal.

— Todos fizemos sacrifícios — argumentou Rhysand, o tédio gélido agora se tornando algo afiado. — E você se senta a esta mesa com sua família por causa daqueles que Feyre fez. Então, precisa me perdoar, Tarquin, se digo a sua princesa que, se ela avisar a Tamlin, ou se qualquer um de seu povo tentar levá-la para ele, vidas serão tomadas.

Até mesmo a brisa do mar morreu.

— Não me ameace em minha casa, Rhysand — avisou Tarquin. — Minha gratidão vai apenas até certo ponto.

— Não é uma ameaça — replicou Rhys, as patas de caranguejo em seu prato se abrindo sob mãos invisíveis. — É uma promessa.

Todos me olharam, esperando alguma resposta.

Então, ergui a taça de vinho, encarei cada um, detendo-me nos olhos de Tarquin por mais tempo, e falei:

— Não é à toa que a imortalidade jamais vira um tédio.

Tarquin riu... e me perguntei se o ar que ele expirava seria de alívio profundo.

E por meio daquele laço entre nós, senti o lampejo de aprovação de Rhysand.