Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 61 de 71

Páginas do PDF

Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 59

Atravessei para um telhado próximo, com uma flecha de freixo em cada mão, verificando onde estava o Attor, batendo as asas, no alto...

 

FEYRE .

Disparei um escudo mental adamantino contra aquela voz; contra ele.

Agora não. Não nesse momento.

Conseguia sentir Rhys batendo vagamente contra aquele escudo. Rugindo contra ele. Mas nem mesmo ele conseguia entrar.

O Attor era meu.

Ao longe, correndo em minha direção, na direção de Velaris, uma escuridão poderosa devorou o mundo. Soldados em seu caminho não emergiam de novo.

Meu parceiro. Morte encarnada. A noite triunfante.

Vi o Attor de novo, desviando para o mar, na direção de Hybern, ainda sobre a cidade.

Atravessei, projetando minha consciência na direção dele como uma rede, perfurando de uma mente para a outra, usando o fio como uma corda, me guiando pelo tempo e pela distância e pelo vento...

Mirei o borrão oleoso da malícia da criatura, localizando meu próprio ser, minha concentração, no centro dele. Ele era um farol de corrupção e imundície.

Quando emergi do vento e das sombras, estava logo acima do Attor.

Ele gritou, e suas asas se curvaram quando me choquei contra ele. Quando mergulhei aquelas flechas envenenadas em cada asa, bem no músculo principal.

O Attor arqueou de dor, e a língua bifurcada partiu o ar entre nós. A cidade era um borrão abaixo, o Sidra, um mero córrego àquela altura.

Em um segundo, eu me enrosquei no Attor. Virei uma chama viva que queimava tudo que tocava, me tornei tão indestrutível quanto a parede adamantina em minha mente.

Gritando, o Attor se debateu contra mim, mas as asas, com aquelas flechas, presas em minhas mãos...

Queda livre.

Direto para o mundo. Para sangue e dor. O vento nos agredia.

O Attor não conseguia se desvencilhar de meu toque incandescente. Ou de minhas flechas envenenadas que espetavam suas asas. Aleijando-o. A pele em chamas do Attor fazia meu nariz arder.

Conforme caíamos, minha mão encontrou a adaga.

A escuridão que consumia o horizonte se aproximou em disparada — como se me visse.

Ainda não.

Ainda não.

Inclinei a adaga sobre a caixa torácica ossuda e alongada do Attor.

— Isso é por Rhys — sibilei contra a orelha pontuda da criatura.

A reverberação do aço sobre osso ressoou em minha mão.

Sangue prateado aqueceu meus dedos. O Attor gritou.

Arranquei a adaga, e sangue jorrou para cima, sujando meu rosto.

— Isso é por Clare.

Mergulhei a lâmina de novo, girando-a.

Já se podiam ver os vultos dos prédios. O Sidra corria vermelho, mas o céu estava vazio... livre de soldados. Assim como as ruas.

O Attor gritava e sibilava, xingava e suplicava, quando arranquei a lâmina.

Eu conseguia distinguir as pessoas, distinguir suas formas. O chão crescia ao nosso encontro. O Attor estava se contorcendo tão violentamente que fiz o possível para mantê-lo em minhas mãos quentes como forjas. Pele incandescente se soltou, voando acima de nós.

— E isso — sibilei, me aproximando para dizer as palavras ao ouvido do Attor, para sua alma pútrida. Deslizei a adaga uma terceira vez, me deliciando com ossos e carne se rasgando. — Isso é por mim.

Eu conseguia contar os paralelepípedos. Via a Morte chamando de braços abertos.

Mantive a boca ao lado da orelha do Attor, perto, como uma amante, conforme nosso reflexo em uma poça de sangue se tornava nítido.

— Vejo você no inferno — sussurrei, e deixei a lâmina na lateral do corpo dele.

O vento ondulou no sangue sobre os paralelepípedos a poucos centímetros de distância.

E atravessei para longe, deixando o Attor para trás.

 

Ouvi o estalo e o choque, mesmo conforme deslizava pelo mundo, impulsionada por meu poder e pela velocidade do mergulho. Emergi a poucos metros — meu corpo levou mais tempo que a mente para se adaptar.

Meus pés e minhas pernas cederam, e cambaleei de costas até a parede de um prédio pintado de rosa atrás de mim. Com tanta força que o gesso cedeu e rachou contra minha coluna, meus ombros.

Ofeguei, trêmula. E na rua adiante — o que estava quebrado e escorrendo nos paralelepípedos... As asas do Attor eram uma destruição retorcida. Além disso, pedaços de armadura, ossos partidos e carne queimada eram tudo que restava.

A onda de escuridão, o poder de Rhysand, por fim chegou ao meu lado do rio.

Ninguém gritou diante da cascata de noite salpicada de estrelas que cortou toda a luz.

Achei que tivesse ouvido leves grunhidos e um arranhar — como se a escuridão tivesse buscado soldados ocultos, escondidos no Arco-Íris, mas, então...

A onda sumiu. Luz do sol.

Um esmagar de botas diante de mim, a batida e o sussurro de asas poderosas.

A mão em meu rosto, erguendo meu queixo conforme eu encarava e encarava a ruína destruída que era o Attor. Olhos violeta encontraram os meus.

Rhys. Rhys estava ali.

E... E eu tinha...

Ele se inclinou para a frente, com a testa coberta de suor, a respiração entrecortada. Rhys deu um beijo carinhoso em minha boca.

Para lembrar nós dois. Quem éramos, o que éramos. Meu coração gelado se descongelou, o fogo em meu estômago foi apaziguado por uma gavinha de escuridão, e a água escorreu de minhas veias de volta ao Sidra.

Rhys recuou, acariciando minha bochecha com o polegar. As pessoas choravam. Lamentavam-se.

Mas não se ouviu nenhum grito de terror. Nenhum derramamento de sangue ou destruição.

Meu parceiro murmurou:

— Feyre Quebradora da Maldição, defensora do Arco-Íris.

Abracei a cintura de Rhys e chorei.

E, mesmo enquanto a cidade dele chorava, o Grão-Senhor da Corte Noturna me abraçou até que eu por fim conseguisse encarar aquele mundo novo, encharcado de sangue.