Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 32 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 30

Cassian podia exibir sorrisos arrogantes e vulgaridade na maior parte do tempo, mas, no ringue de luta em um pátio escavado da rocha no alto da Casa do Vento, na tarde seguinte, ele era um assassino a sangue frio.

 

E quando aqueles instintos letais estavam voltados para mim...

Sob a roupa de couro de luta, mesmo com a temperatura fria, minha pele estava coberta de suor. Cada respiração machucava minha garganta, e meus braços tremiam tanto que ao sequer tentar usar os dedos, o mindinho começava a tremer incontrolavelmente.

Eu estava observando meu dedo oscilar por vontade própria quando Cassian cobriu a distância entre nós, pegou minha mão e disse:

— Isso é porque está forçando as articulações erradas. As duas primeiras, do indicador e do dedo médio, é onde os socos devem atingir o alvo. Acertar aqui — instruiu ele, batendo um dedo calejado no trecho de pele já roxo do arco entre meu mindinho e o anelar — causará mais danos a você que a seu oponente. Tem sorte de o Attor não querer entrar em uma briga mano a mano.

Estávamos naquilo havia uma hora, repassando os passos básicos do combate corpo a corpo. E pelo visto, eu podia ser boa de caça, com o arco e flecha, mas... usando meu lado esquerdo? Patética. Era tão descoordenada quanto um cervo recém-nascido aprendendo a andar. Socar e avançar com o lado esquerdo do corpo ao mesmo tempo era quase impossível, e tropecei em Cassian mais vezes do que o acertei. Os socos com a direita, esses eram fáceis.

— Beba alguma coisa — disse Cassian. — Depois, vamos trabalhar sua musculatura central. Não faz sentido aprender a socar se não pode sequer se equilibrar.

Franzi a testa na direção do som de espadas se chocando no ringue de luta aberto diante de nós.

Azriel, surpreendentemente, tinha voltado do mundo mortal antes do almoço. Mor o interceptou primeiro, mas consegui um relatório em segunda mão com a explicação de Rhys de que ele tinha encontrado algum tipo de barreira em volta do palácio das rainhas e precisara retornar para avaliar o que poderia ser feito a respeito.

Avaliar... e ficar deprimido, ao que parecia, pois Azriel mal conseguira me dar um oi educado antes de começar a lutar com Rhysand, o rosto sombrio e tenso. Estavam naquilo havia uma hora, as lâminas finas eram como lampejos de mercúrio conforme os dois se moviam em círculos. Imaginei se era para praticar ou para que Rhys ajudasse o mestre-espião a se livrar da frustração.

Em algum momento desde que eu olhara pela última vez, apesar do dia ensolarado de inverno, os dois tinham tirado os casacos de couro e as camisas.

Os braços bronzeados e musculosos estavam cobertos do mesmo tipo de tatuagens que adornavam minha mão e meu antebraço, o nanquim fluía pelos ombros e por cima dos músculos peitorais esculturais. Entre as asas, uma linha de tatuagens descia pela coluna vertebral, bem abaixo de onde os feéricos tipicamente prendiam as lâminas.

— Recebemos as tatuagens quando somos iniciados como guerreiros illyrianos, para dar sorte e glória no campo de batalha — explicou Cassian, seguindo meu olhar. Duvidava de que Cassian estivesse se deleitando com o restante da imagem, no entanto: os músculos do estômago de ambos reluzindo com suor à luz do sol, a contração dos músculos das poderosas coxas, a força delineada nas costas, cercando aquelas asas poderosas, lindas.

Morte em asas ágeis.

O título surgiu do nada, e, por um momento, vi a pintura que eu criaria: a escuridão daquelas asas, fracamente iluminadas por linhas de vermelho e dourado sob o radiante sol do inverno, o brilho das lâminas, a severidade das tatuagens contra a beleza dos rostos...

Pisquei, e a imagem sumiu como uma nuvem de hálito quente em uma noite fria.

Cassian indicou os irmãos com o queixo.

— Rhys está fora de forma e não admite, mas Azriel é educado demais para espancá-lo até cair na terra.

Rhys parecia qualquer coisa, menos fora de forma. Que o Caldeirão me cozinhasse, que diabo eles comiam para ter aquela aparência?

Meus joelhos tremeram um pouco quando caminhei até o banquinho ao qual Cassian tinha levado uma jarra de água e dois copos. Eu me servi de um, e meu mindinho tremia descontroladamente de novo.

Minha tatuagem, percebi, tinha sido feita com marcas illyrianas. Talvez fosse a forma do próprio Rhys de me desejar sorte e glória enquanto enfrentava Amarantha.

Sorte e glória. Não me importaria de um pouco de cada ultimamente.

Cassian encheu um copo para si e brindou comigo, bem diferente do brutal mestre de lutas que, momentos antes, me fizera caminhar em meio a socos, golpear suas almofadas de treino e tentar não desabar no chão implorando pela morte. Bem diferente do macho que enfrentara minha irmã, incapaz de resistir a se testar contra o espírito de aço e chamas de Nestha.

— Então — falou Cassian, tomando a água. Atrás de nós, Rhys e Azriel se chocaram, se separaram e se chocaram de novo. — Quando vai falar sobre como escreveu uma carta a Tamlin dizendo a ele que partiu de vez?

A pergunta me acertou tão cruelmente que disparei:

— Que tal quando você falar sobe como provoca e implica com Mor para esconder o que quer que sente por ela? — Porque eu não tinha dúvidas de que Cassian estava bastante ciente do papel que tinha no pequeno triângulo amoroso deles.

O som de passos estalando e lâminas se chocando atrás de nós parou... então retornou.

Cassian soltou uma risada sobressaltada e áspera.

— Notícia velha.

— Tenho a sensação de que é isso o que ela provavelmente diz sobre você.

— Volte para o ringue — mandou Cassian, apoiando o copo vazio. — Nada de exercícios para a musculatura central. Apenas punhos. Quer ser engraçadinha, então aprenda se defender.

Mas a pergunta que Cassian tinha feito tomou conta de minha mente. Você partiu de vez; você partiu de vez; você partiu de vez.

Eu tinha... sido sincera. Mas sem saber o que ele achava, se ele se importaria tanto... Não, eu sabia que ele se importaria. Provavelmente tinha destruído a mansão num ataque de ódio.

Se a simples menção a Tamlin de que ele estava me sufocando o fizera destruir o escritório, então, aquilo... Eu tinha ficado com medo daqueles ataques de puro ódio, intimidada por eles. E aquilo fora amor... eu o amara tão profundamente, tão imensamente, mas...

— Rhys contou a você? — perguntei.

Cassian teve a sabedoria de parecer um pouco nervoso diante da expressão em meu rosto.

— Ele informou a Azriel, que está... monitorando as coisas e precisa saber. Az me contou.

— Presumo que tenha sido enquanto estavam fora bebendo e dançando. — Entornei o resto da água e voltei para o ringue.

— Ei! — chamou Cassian, segurando meu braço. Os olhos de avelã estavam mais esverdeados que marrons naquele dia. — Desculpe. Não quis atingir um nervo. Az só me contou porque contei a ele que eu precisava saber para minhas forças; saber o que esperar. Nenhum de nós... não achamos que é uma piada. Você tomou uma decisão difícil. Uma decisão muito difícil. Foi só uma tentativa imbecil minha de tentar ver se você precisava fala sobre isso. Desculpe — repetiu Cassian, deixando o assunto de lado.

As palavras trôpegas, a sinceridade nos olhos dele... Assenti quando retomei meu lugar.

— Tudo bem.

Embora Rhysand continuasse lutando com Azriel, eu podia jurar que seus olhos estavam em mim — desde o momento em que Cassian fizera aquela pergunta.

Cassian enfiou as mãos nas almofadas de treino e as ergueu.

— Trinta séries de dois socos cada; depois, quarenta; depois, cinquenta. — Fiz um gesto de sofrimento para ele por cima das almofadas enquanto enfaixava as mãos. — Não respondeu minha pergunta — falou Cassian, com um sorriso hesitante, um que eu duvidava que seus soldados ou os irmãos illyrianos jamais viam.

Aquilo tinha sido amor, e eu tinha sido sincera; a felicidade, o desejo, a paz... Senti todas essas coisas. Um dia.

Posicionei as pernas e ergui as mãos até a altura do rosto.

Mas talvez essas coisas tivessem me cegado também.

Talvez tivessem sido como um cobertor sobre meus olhos no que dizia respeito ao temperamento. A necessidade de controle, a necessidade de proteger que era tão profunda a ponto de Tamlin me trancafiar. Como uma prisioneira.

— Estou bem — assegurei, avançando e socando com o lado esquerdo. Fluida, suave como seda, como se meu corpo imortal tivesse, por fim, se alinhado.

Meu punho se chocava contra a almofada de treino de Cassian, retornando tão rápido quanto a mordida de uma cobra quando golpeei com o lado direito, o ombro e o pé girando.

— Um — contou Cassian. De novo, golpeei, um-dois. — Dois. E bem é bom... bem é ótimo.

De novo e de novo.

Nós dois sabíamos que “bem” era uma mentira.

Eu tinha feito tudo... tudo por aquele amor. Tinha me despedaçado, tinha matado inocentes e me degradado, e ele tinha se sentado ao lado de Amarantha naquele trono. E não conseguira fazer nada, não arriscara; não arriscara ser pego até que restasse uma noite, e tudo que ele quis fazer não foi me libertar, mas trepar comigo e...

De novo e de novo e de novo. Um-dois; um-dois; um-dois...

E quando Amarantha me destruiu, quando ela partiu meus ossos e fez meu sangue ferver nas veias, ele apenas se ajoelhou e implorou a ela. Não tentou matá-la, não rastejou por mim. Sim, lutou por mim... mas eu lutei mais por ele.

De novo, de novo, de novo, cada soco de meus punhos nas almofadas de treino eram uma pergunta e uma resposta.

E ele teve a ousadia, depois que seus poderes retornaram, de me jogar em uma jaula. A ousadia de dizer que eu não era mais útil; eu deveria ficar enclausurada para a paz de espírito dele. Tamlin me dera tudo de que eu precisava para me tornar quem era, me sentir segura, e, quando conseguiu o que quis, quando conseguiu o poder de volta, as terras de volta... parou de tentar. Ainda era bom, ainda era Tamlin, mas estava simplesmente... errado.

Então, comecei a chorar entre os dentes trincados, as lágrimas lavando aquela ferida infeccionada, e não me importei que Cassian estivesse ali, ou Rhys, ou Azriel.

O choque das lâminas cessou.

Depois, meus punhos se chocaram contra pele exposta, e percebi que tinha socado até rasgar as almofadas de treino — não, queimara as almofadas e...

E parei também.

As faixas em minhas mãos eram agora meros borrões de fuligem. As palmas erguidas de Cassian ainda estavam diante de mim — prontas para receber o golpe se eu precisasse dá-lo.

— Estou bem — disse ele, em voz baixa. Com suavidade.

E talvez eu estivesse exausta e partida, mas sussurrei:

— Eu os matei.

Não tinha dito as palavras em voz alta desde que acontecera.

Os lábios de Cassian se contraíram.

— Eu sei. — Nem reprimenda, nem parabéns. Mas compreensão sombria.

Minhas mãos relaxaram quando outro soluço percorreu meu corpo.

— Deveria ter sido eu.

E lá estava.

Bem ali, sob o céu limpo, o sol de inverno em minha cabeça, nada ao meu redor, exceto rocha, nenhuma sombra na qual me esconder, nada a que me agarrar... Lá estava.

Então, a escuridão deslizou para mim, escuridão tranquilizadora, suave — não, sombras — e um corpo masculino coberto de suor parou diante de mim. Dedos carinhosos ergueram meu queixo até que eu olhasse para cima... para o rosto de Rhysand.

As asas de Rhys nos envolveram, nos encasularam, a luz do sol projetou a membrana em dourado e vermelho. Além de nós, do lado de fora, em outro mundo, talvez, os sons de aço contra aço — Cassian e Azriel lutando — começaram.

— Você vai sentir isso todos os dias pelo resto da vida — disse Rhysand. De tão perto, eu conseguia sentir o cheiro de suor nele, o cheiro de mar e algo cítrico por baixo. Os olhos de Rhys eram suaves. Tentei virar o rosto, mas ele segurou meu queixo. — E sei disso porque eu me sinto assim todos os dias desde que minha mãe e minha irmã foram assassinadas e precisei enterrá-las eu mesmo, e nem mesmo a vingança consertou as coisas. — Rhysand limpou as lágrimas em uma bochecha, depois, outra. — Pode deixar que isso a destrua, deixar que a leve à morte, como quase fez com a Tecelã, ou pode aprender a viver com isso.

Por um longo momento, apenas encarei o rosto sincero e calmo — talvez o verdadeiro rosto de Rhys, aquele por baixo de todas as máscaras que ele usava para manter o povo a salvo.

— Sinto muito... por sua família — murmurei, a voz rouca.

— Sinto muito por não ter encontrado uma forma de poupá-la do que aconteceu Sob a Montanha — disse Rhys, igualmente baixo. — De morrer. De querer morrer. — Comecei a sacudir a cabeça, mas Rhys falou: — Tenho dois tipos de pesadelos: aqueles em que sou mais uma vez a vadia de Amarantha ou meus amigos são... E aqueles em que ouço seu pescoço estalar e vejo a luz deixar seus olhos.

Não tive resposta para aquilo... para o tom da voz intensa e grave. Então, examinei as tatuagens no peito e nos braços de Rhysand, o brilho da pele bronzeada, tão dourada agora que não estava mais enjaulado dentro daquela montanha.

Parei o escrutínio quando cheguei aos músculos em forma de “V” que surgiam da parte de baixo da cintura de sua calça de couro. Em vez disso, flexionei a mão diante do corpo, e minha pele estava quente com o calor que havia queimado aquelas almofadas.

— Ah — disse Rhysand, e as asas retornaram conforme ele as recolheu graciosamente atrás do corpo. — Isso.

Semicerrei os olhos com a inundação da luz do sol.

— Corte Outonal, certo?

Rhys pegou minha mão, examinando-a, a pele já estava ferida devido à luta.

— Certo. Um presente de seu Grão-Senhor, Beron.

O pai de Lucien. Lucien... Imaginei o que ele achava daquilo tudo. Se sentia minha falta. Se Ianthe continuava... caçando Lucien.

Ainda lutando, Cassian e Azriel estavam fazendo o melhor para não parecer que bisbilhotavam.

— Não sou bem versado nas complexidades dos dons elementares de outros Grão-Senhores — explicou Rhys. — Mas podemos descobrir, um dia após o outro, se for preciso.

— Se você é o Grão-Senhor mais poderoso da história... será que isso quer dizer que a gota que recebi de você tem mais força que as dos demais? — Por que eu tinha conseguido entrar na mente dele daquela vez?

— Tente. — Rhys inclinou o queixo em minha direção. — Veja se consegue conjurar a escuridão. Não vou pedir que tente atravessar — acrescentou, com um sorriso.

— Não sei como fiz isso, para início de conversa.

— Deseje que tome vida.

Eu o encarei inexpressivamente.

Rhys deu de ombros.

— Tente pensar em mim, em como sou bonito. Quanto sou talentoso...

— Quanto é arrogante.

— Isso também. — Rhys cruzou os braços sobre o peito nu, e o movimento fez os músculos de seu estômago se contraírem.

— Aproveite e coloque uma camisa — provoquei.

Um sorriso felino.

— Isso a deixa desconfortável?

— Fico surpresa por não haver mais espelhos nesta casa, pois você parece amar tanto se olhar.

Azriel teve um ataque de tosse. Cassian apenas se virou com a mão tapando a boca.

Os lábios de Rhys se contraíram.

— Aí está a Feyre que adoro.

Fiz uma careta, mas fechei os olhos e tentei olhar para dentro — na direção de qualquer canto escuro que eu pudesse encontrar. Havia muitos.

Até demais.

E no momento... no momento cada um deles continha a carta que eu tinha escrito no dia anterior.

Uma despedida.

Por minha sanidade, por minha segurança...

— Há tipos diferentes de escuridão — falou Rhys. Mantive os olhos fechados. — Há a escuridão que assusta, a escuridão que acalma, a escuridão do descanso. — Visualizei cada uma. — Há a escuridão dos amantes, e a escuridão dos assassinos. Ela se torna o que o portador deseja que seja, precisa que seja. Não é completamente ruim ou boa.

Só vi a escuridão da cela daquele calabouço; a escuridão do covil do Entalhador de Ossos.

Cassian xingou, mas Azriel murmurou um desafio baixinho que fez suas lâminas se chocarem novamente.

— Abra os olhos. — Abri.

E encontrei escuridão ao meu redor. Não de mim... mas de Rhys. Como se o ringue de luta tivesse sido varrido, como se o mundo ainda estivesse para começar.

Silenciosa.

Suave.

Pacífica.

Luzes começaram a piscar: pequenas estrelas, íris fluorescentes de azul e roxo e branco. Estendi a mão na direção de uma, e luz estelar dançou nas pontas de meus dedos. Bem longe, em outro mundo talvez, Azriel e Cassian lutavam na escuridão, sem dúvida usando-a como exercício de treinamento.

Movi a estrela entre meus dedos, como uma moeda na mão de um mágico. Ali, na escuridão tranquilizadora e reluzente, um fôlego apaziguador preencheu meus pulmões.

Não conseguia me lembrar da última vez que tinha feito tal coisa. Respirara com facilidade.

Então, a escuridão se partiu e sumiu, mais ágil que fumaça ao vento. Eu me vi piscando de novo no sol ofuscante, com o braço ainda estendido, Rhysand ainda diante de mim.

Ainda sem camisa.

Ele falou:

— Podemos trabalhar nisso depois. Por enquanto. — Rhys cheirou. — Vá tomar um banho.

Mostrei a ele um gesto particularmente vulgar... e pedi que Cassian voasse comigo para casa em vez de Rhys.