Corte de Névoa e Fúria
Capítulo 49
Acordei aquecida, descansada e calma.
Segura.
Luz do sol entrava pela janela imunda, iluminando os vermelhos e os dourados da muralha de asa diante de mim; onde ficara a noite inteira, me protegendo do frio.
Os braços de Rhysand me envolviam, sua respiração era profunda e constante. E eu sabia que era igualmente raro que ele dormisse tão profundamente, tão pacificamente.
O que tínhamos feito na noite anterior...
Com cuidado, eu me virei para olhar para Rhys, seus braços me apertaram de leve, como se para evitar que eu sumisse com a névoa da manhã.
Os olhos de Rhys estavam abertos quando aninhei a cabeça contra seu braço. Dentro do abrigo da asa de Rhys, nós nos observamos.
E percebi que podia muito bem me contentar em fazer exatamente aquilo para sempre.
Eu disse, baixinho:
— Por que fez aquele acordo comigo? Por que exigir uma semana de mim todo mês?
Os olhos violeta de Rhys estremeceram.
E não ousei admitir o que esperava em resposta, mas não era:
— Porque queria me impor perante Amarantha; porque queria irritar Tamlin, e precisava mantê-la viva de uma forma que não fosse vista como piedosa.
— Ah.
Sua boca se contraiu.
— Sabe... sabe que não há nada que eu não faria por meu povo, por minha família.
E eu era um peão naquele jogo.
A asa de Rhys se fechou, e pisquei diante da luz aguada.
— Banho ou não? — disse ele.
Eu me encolhi diante da lembrança do banheiro sujo e fétido no andar abaixo. Usá-lo para atender minhas necessidades já seria bem ruim.
— Prefiro me banhar em um córrego — falei, afastando a sensação de pesar em meu estômago.
Rhys soltou uma risada baixa e rolou para fora da cama.
— Então, vamos sair daqui.
Por um segundo, me perguntei se teria sonhado tudo que tinha acontecido na noite anterior. Pela leve e agradável dormência entre minhas pernas, eu sabia que não tinha, mas...
Talvez fosse mais fácil fingir que nada tinha acontecido.
A alternativa poderia ser mais do que eu podia suportar.
Voamos durante a maior parte do dia, para bem longe, próximo de onde as estepes da floresta se erguiam para encontrar as montanhas Illyrianas. Não falamos da noite anterior — mal falamos.
Outra clareira. Outro dia brincando com meu poder. Conjurar asas, atravessar, fogo e gelo e água e... agora, vento. O vento e as brisas que ondulavam pelos amplos vales e campos de trigo da Corte Diurna, e que depois sopravam a neve que cobria os picos mais altos destes.
Eu conseguia sentir as palavras subindo por ele conforme as horas se passaram. Eu o pegava me olhando sempre que eu fazia uma pausa; flagrava Rhys abrindo a boca... e depois fechando-a.
Choveu em um momento, e então ficou mais e mais frio com o tempo nublado. Ainda não tínhamos ficado na floresta depois do anoitecer, e me perguntei que tipo de criaturas poderia espreitar por ali.
O sol de fato descia quando Rhys me colocou nos braços e decolou.
Havia apenas o vento, e o calor dele, e o estrondo das poderosas asas.
— O que foi? — arrisquei.
A atenção de Rhys permanecia nos pinheiros escuros que passavam.
— Tem mais uma história que preciso contar.
Esperei. Ele não continuou.
Coloquei a mão na bochecha de Rhys, o primeiro toque íntimo que tínhamos o dia inteiro. A pele estava fria, e os olhos, tristes quando ele me olhou.
— Não dou as costas... não a você — jurei, baixinho.
O olhar de Rhys se suavizou.
— Feyre...
Rhys rugiu de dor, arqueando o corpo contra mim.
Senti o impacto; senti uma dor ofuscante por meio do laço que destruiu meus escudos mentais, senti o estremecer das dezenas de lugares em que as flechas o tinham atingido quando dispararam de arcos ocultos abaixo da folhagem da floresta.
E, então, estávamos caindo.
Rhys me agarrou, e sua magia se enroscou ao nosso redor em um vento escuro, preparando-se para no atravessar para fora dali... e fracassou.
Fracassou porque aquelas eram flechas de freixo perfurando-o. Perfurando suas asas. Haviam nos rastreado — no dia anterior, por causa da pouca magia que Rhys usara contra Lucien, eles tinham, de alguma forma, rastreado e nos encontrado, mesmo tão longe...
Mais flechas...
Rhys liberou seu poder. Tarde demais.
Flechas lhe rasgaram as asas. Atingiram as pernas.
E acho que eu estava gritando. Não por medo, conforme mergulhamos, mas por ele... pelo sangue e pelo brilho esverdeado naquelas flechas. Não era apenas freixo, mas veneno também.
Um vento escuro — o poder de Rhys — se chocou contra mim, e, então, fui atirada para longe quando Rhys me lançou às cambalhotas para além do alcance das flechas, às cambalhotas pelo ar...
O rugido de ira de Rhys estremeceu a floresta, as montanhas além. Pássaros se ergueram em ondas, fugindo daquele urro.
Eu me choquei contra a folhagem densa, meu corpo reclamou de dor quando fui atirada contra madeira e pinhas e folhas. E mais e mais para baixo...
Concentração concentração concentração.
Disparei uma onda daquele ar sólido que uma vez me protegera do temperamento de Tamlin. Atirei-a abaixo de mim como uma rede.
Colidi com uma parede invisível, tão sólida que achei que meu braço direito pudesse se quebrar.
Mas... parei de cair entre os galhos.
Dez metros abaixo, o chão era quase impossível de ver na escuridão crescente.
Não confiei naquele escudo para segurar meu peso por muito tempo.
Eu me arrastei até ultrapassar o escudo, tentando não olhar para baixo, e saltei pelos últimos metros até um amplo galho de pinheiro. Disparando acima da floresta, cheguei ao tronco da árvore e me agarrei a ele, ofegante, reorganizando a mente em torno da dor, da estabilidade de estar no chão.
Ouvi — procurando Rhys, as asas, o próximo rugido. Nada.
Nenhum sinal dos arqueiros ao encontro dos quais Rhysand caía. Dos quais ele me atirara tão longe. Tremendo, cravei as unhas na casca da árvore e prestei atenção em busca de Rhys.
Flechas de freixo. Flechas de freixo envenenadas.
A floresta ficou ainda mais escura, as árvores pareciam definhar em cascos esqueléticos. Até mesmo os pássaros se calaram.
Encarei a palma de minha mão — o olho pintado ali — e lancei um pensamento às cegas por ele, por aquele laço. Onde você está? Diga, e irei até você. Encontrarei você.
Não havia muralha adamantina de ônix no fim do laço. Apenas sombras intermináveis.
Coisas — coisas grandes, enormes — farfalhavam na floresta.
Rhysand. Nenhuma resposta.
A última luz do dia se foi.
Rhysand, por favor.
Nenhum som. E o laço entre nós... silencioso. Sempre o sentia me protegendo, me seduzindo, rindo para mim do outro lado dos escudos. E agora... sumira.
Um uivo gutural ondulou ao longe, como rochas arrastando-se umas nas outras.
Cada pelo de meu corpo se arrepiou. Jamais tínhamos ficado fora depois do anoitecer.
Respirei para me tranquilizar, armando uma das poucas flechas restantes no arco.
No chão, algo escorregadio e escuro passou serpenteando, as folhas estalaram sob o que pareciam ser enormes patas que terminavam em garras semelhantes a agulhas.
Algo começou a gritar. Guinchos agudos de pânico. Como se estivesse sendo dilacerado. Não era Rhys; era outra coisa.
Comecei a tremer de novo, a ponta de minha flecha reluzia conforme estremecia comigo.
Onde está onde está onde está.
Me deixe encontrá-lo me deixe encontrá-lo me deixe encontrá-lo.
Desarmei o arco. Qualquer pingo de luz poderia me denunciar.
Escuridão era minha aliada; escuridão poderia me proteger.
Fora ódio da primeira vez que atravessei — e ódio da segunda vez que consegui.
Rhys estava ferido. Tinham ferido Rhys. Ele era o alvo. E agora... agora...
Não era ódio incandescente que escorria por mim.
Mas algo antigo, e congelado, e tão cruel que afiava minha concentração como uma lâmina.
E, se eu quisesse rastreá-lo, se quisesse chegar ao ponto no qual o vira pela última vez... eu também me tornaria um ser da escuridão.
Estava percorrendo o galho no momento em que algo se chocou contra a vegetação próxima, grunhindo e sibilando. Mas me dobrei em fumaça e luz estelar, e atravessei da beira de meu galho para a árvore do outro lado. A criatura abaixo soltou um grito, mas não prestei atenção.
Era noite; eu era vento.
De árvore em árvore, atravessei, tão rápida que as bestas que perambulavam pelo chão da floresta mal notaram minha presença. E se eu podia criar garras e asas... podia mudar meus olhos também.
Eu já havia caçado o suficiente ao pôr do sol para ver como os olhos animais funcionavam, como brilhavam.
Um comando frio fez meus olhos se arregalarem, transformando-se: uma cegueira temporária conforme eu atravessava entre as árvores de novo, correndo por um galho amplo e atravessando pelo ar até o seguinte...
Aterrissei, e a floresta noturna se tornou clara. E as coisas caminhando abaixo... não olhei para elas.
Não, mantive a atenção em atravessar pelas árvores até chegar ao limite do ponto no qual eu fora atacada, o tempo todo dando puxões naquele laço, procurando aquela parede familiar do outro lado. Então...
Uma flecha estava presa nos galhos acima de mim. Atravessei para o galho largo.
E, quando arranquei aquela vara de madeira de freixo, quando senti meu corpo imortal se esquivar em sua presença, um grunhido baixo escapuliu de mim.
Não tinha conseguido contar quantas flechas atingiram Rhys. De quantas ele havia me protegido, usando o próprio corpo.
Enfiei a flecha na aljava e continuei em frente, circundando a área até ver outra — no tapete de folhas de pinheiro.
Achei que gelo pudesse ter refletido atrás de mim conforme atravessei na direção de onde a flecha teria sido atirada, encontrando outra, e mais outra. Guardei todas.
Até descobrir o lugar em que os galhos de pinheiro estavam quebrados e destruídos. Por fim, senti o cheiro de Rhys, e as árvores ao redor reluziam com gelo quando vi o sangue manchando os galhos, o chão.
E flechas de freixo por todo o local.
Era como se uma emboscada estivesse esperando e tivesse disparado uma saraivada de centenas de flechas, rápidas demais para que Rhys as detectasse ou evitasse. Principalmente se ele estava distraído comigo. Distraído o dia todo.
Atravessei em rompantes pelo local, com o cuidado de não ficar no chão por muito tempo, para que as criaturas perambulando por perto não me farejassem.
Ele caíra com força, diziam os rastros. E precisaram arrastá-lo para longe. Rapidamente.
Haviam tentado esconder o rastro de sangue, mas mesmo sem a mente de Rhys falando comigo, eu podia encontrar aquele cheiro em qualquer lugar. Eu encontraria aquele cheiro em qualquer lugar.
Talvez fossem bons em esconder o próprio rastro, mas eu era melhor.
Continuei minha caçada, com uma flecha de freixo agora engatilhada no arco conforme eu lia os sinais.
Duas dúzias, pelo menos, levaram Rhys para longe, embora mais estivessem lá para o ataque inicial. Os demais tinham atravessado para longe, deixando um grupo menor para arrastar Rhys na direção das montanhas... na direção de quem pudesse estar esperando.
Estavam se movendo rapidamente. Mais e mais para dentro da floresta, na direção das gigantes dormentes que eram as montanhas illyrianas. O sangue de Rhys escorrera por todo o caminho.
Vivo, aquilo me dizia. Ele estava vivo, mas... se os ferimentos não coagulavam... as flechas de freixo estavam fazendo seu trabalho.
Eu matara uma das sentinelas de Tamlin com apenas uma flecha de freixo bem direcionada. Tentei não pensar no que uma saraivada poderia fazer. O rugido de dor de Rhys ecoava em meus ouvidos.
E em meio àquele ódio impiedoso e irredutível, decidi que, se Rhys não estivesse vivo, se ele estivesse ferido ao ponto de não poder ser salvo... não me importava quem fossem e por que tinham feito aquilo.
Estariam todos mortos.
Pegadas desviaram do grupo principal: batedores provavelmente enviados para encontrar um local para passar a noite. Reduzi a velocidade das travessias, cuidadosamente rastreando as pegadas agora. Dois grupos haviam se dividido, como se tentassem esconder aonde tinham ido. O cheiro de Rhys estava em ambos.
Tinham levado as roupas dele, então. Porque sabiam que eu os rastrearia, tinham me visto com Rhys. Sabiam que eu iria atrás dele. Uma armadilha; provavelmente era uma armadilha.
Parei nos galhos mais altos de uma árvore que dava para onde os dois grupos tinham se separado, avaliando o território. Um seguia mais para o fundo das montanhas. O outro seguia pelo limite destas.
Montanhas eram território illyriano; nas montanhas eles corriam o risco de serem descobertos por uma patrulha. Presumiriam que era para lá que eu duvidaria de que seriam estúpidos demais para ir. Presumiriam que eu acharia que se ateriam à floresta não vigiada e não patrulhada.
Considerei minhas opções, farejado os dois caminhos.
Não tinham contado com o leve segundo cheiro que se agarrava ali, entrelaçado ao dele.
E não me deixei pensar nisso conforme atravessava na direção dos rastros para a montanha, correndo mais que o vento. Não me permiti pensar no fato de que meu cheiro estava em Rhys, agarrando-se a ele depois da noite passada. Rhys trocara de roupa naquela manhã, mas o cheiro em seu corpo... Sem tomar banho, eu estava sobre ele inteiro.
Então, atravessei na direção de Rhys, em minha direção. E, quando a estreita caverna surgiu ao pé de uma montanha, o mais leve brilho de luz escapando da entrada... parei.
Um chicote estalou.
E cada palavra, cada pensamento e sensação se esvaiu de mim. Outra chicotada... e outra.
Joguei o arco por cima do ombro e puxei outra flecha de freixo. Rapidamente amarrei as duas flechas, para que uma ponta reluzisse de cada lado — e fiz o mesmo com outras duas. E quando terminei, quando olhei para as adagas gêmeas improvisadas em cada mão, quando aquele chicote soou de novo... atravessei para dentro da caverna.
Tinham escolhido uma com entrada estreita, que se abria para um túnel amplo e sinuoso, montando acampamento depois da curva da caverna, para evitar serem detectados.
Os batedores na frente — dois machos Grão-Feéricos sem armaduras características e que eu não reconheci — não repararam quando passei.
Dois outros batedores patrulhavam do lado de dentro da boca da caverna, vigiando aqueles na frente. Eu cheguei e parti dali antes que eles conseguissem me ver. Passei pela curva, o tempo escorregava e se dobrava, e meus olhos escuros como a noite queimaram diante da luz. Eu os mudei, atravessei entre um piscar e outro, além dos outros dois guardas.
E, quando olhei para os quatro outros naquela caverna, olhei para a pequena fogueira que tinham acendido e para o que já tinham feito com ele... Fiz força contra o laço entre nós — quase chorando quando senti aquela muralha adamantina... Mas não havia nada além dela. Apenas silêncio.
Tinham encontrado correntes estranhas de pedra azulada para manter os braços dele abertos, suspendendo-o de cada uma das paredes na caverna. O corpo pendia inerte das correntes, as costas pareciam um pedaço destruído de carne. E as asas...
Tinham deixado as flechas de freixo nas asas. Sete delas.
Ele estava de costas para mim, e apenas a visão do sangue escorrendo pela pele me disse que Rhys estava vivo.
E aquilo bastou — aquilo bastou para que eu explodisse.
Atravessei até os dois guardas que seguravam chicotes idênticos.
Os demais ao redor gritaram quando enfiei minhas flechas de freixo em suas gargantas, fundo e com brutalidade, exatamente como eu tinha feito inúmeras vezes enquanto caçava. Um, dois — então, estavam no chão, chicotes inertes. Antes que os guardas pudessem atacar, atravessei de novo, até os mais próximos.
Sangue jorrou.
Travessia, golpe; travessia, golpe.
Aquelas asas — aquelas lindas, poderosas asas...
Os guardas na entrada da caverna tinham entrado às pressas.
Foram os últimos a morrer.
E o sangue em minhas mãos parecia diferente daquele Sob a Montanha. Desse sangue... eu gostei. Sangue por sangue. Sangue por cada gota que tinham derramado do dele.
Silêncio recaiu na caverna quando os últimos gritos terminaram de ecoar, e atravessei para a frente de Rhys, enfiando as adagas ensanguentadas no cinto. Segurei-lhe o rosto. Pálido... pálido demais.
Mas os olhos de Rhys se abriram como fendas e ele gemeu.
Não disse nada quando disparei para as correntes que o seguravam, tentando não reparar nas impressões de mãos ensanguentadas que eu deixava em Rhys. As correntes pareciam gelo — eram piores que gelo. Tinham uma sensação errada. Afastei a dor e a estranheza, e a fraqueza que descia por minha coluna, e o soltei.
Os joelhos de Rhys caíram na rocha com tanta força que me encolhi, mas corri até o outro braço, ainda erguido. Sangue fluía pelas costas de Rhys, pela frente, e se empoçava nos sulcos formados por seus músculos.
— Rhys — sussurrei. Quase caí de joelhos também quando senti um lampejo dele por trás dos escudos mentais, como se a dor e a exaustão o tivessem reduzido à espessura de uma janela. As asas de Rhys, salpicadas daquelas flechas, continuavam abertas, tão dolorosamente esticadas que encolhi o corpo. — Rhys... precisamos atravessar para casa.
Os olhos dele se abriram de novo, e Rhys arquejou.
— Não posso.
Qualquer que fosse o veneno naquelas flechas, então, a magia dele, a força...
Mas não podíamos ficar ali, não quando o outro grupo estava próximo. Então, eu disse:
— Segure firme. — E segurei a mão de Rhys antes de nos atirar à noite e à fumaça.
Atravessar era tão pesado, com se todo o peso de Rhysand, todo aquele poder, me arrastasse para trás. Era como andar na lama, mas me concentrei na floresta, em uma caverna coberta por musgo que tinha visto no início daquele dia enquanto saciava minha sede, oculta na lateral da margem do rio. Eu tinha olhado dentro da caverna, e não havia nada além de folhas ali. Pelo menos era segura, se não um pouco úmida. Melhor que ficarmos a céu aberto — e era nossa única opção.
Cada quilômetro foi um esforço. Mas continuei lhe segurando a mão, apavorada porque, se soltasse, o deixaria em algum lugar em que talvez jamais o encontrasse, e...
E, então, tínhamos chegado àquela caverna, e Rhys gemeu de dor quando nos chocamos contra o chão molhado e frio de pedra.
— Rhys — supliquei, aos tropeços na escuridão, uma escuridão tão impenetrável, e com aquelas criaturas ao nosso redor, não arrisquei uma fogueira...
Mas ele estava tão frio, e ainda sangrava.
Fiz meus olhos mudarem de novo, e minha garganta deu um nó quando vi os danos. As lacerações pelas costas continuavam pingando sangue, mas as asas...
— Preciso tirar essas flechas.
Rhys gemeu de novo, as mãos apoiadas no chão. E, ao vê-lo daquele jeito, incapaz de sequer fazer um comentário malicioso ou dar um meio sorriso...
Fui até a asa de Rhys.
— Isso vai doer. — Trinquei o maxilar conforme estudava a forma como as flechas tinham perfurado a linda membrana. Precisaria partir as flechas em dois pedaços e deslizar cada ponta para fora.
Não... não partir. Precisaria cortar — devagar, com cuidado, suavemente, para evitar que qualquer pedaço ou parte áspera causasse mais danos. Quem sabia o que uma farpa de freixo poderia fazer se ficasse presa ali?
— Vá em frente — disse Rhys, ofegante, a voz rouca.
Havia sete flechas no total: três em uma asa, quatro na outra. Tinham retirado aquelas das pernas, não sei por que motivo... os ferimentos já estavam quase coagulados.
Sangue pingou no chão.
Tirei a faca de onde estava presa a minha coxa, avaliei o ferimento de entrada e, cuidadosamente, segurei a haste da flecha. Rhys chiou. Parei.
— Vá em frente — repetiu Rhys, os nós dos dedos brancos quando socou o chão.
Apontei a pequena parte da lâmina serrada contra a flecha e comecei a serrar o mais cuidadosamente possível. Os músculos cobertos de sangue das costas de Rhys se moveram e retesaram, e sua respiração ficou intensa, irregular. Lenta demais — eu estava sendo lenta demais.
Mas, se fosse mais rápido, poderia machucar mais, poderia danificar a asa sensível.
— Você sabia — falei, por cima do som da serragem — que em um verão, quando eu tinha 17 anos, Elain comprou tintas para mim? Tínhamos apenas o suficiente para gastar em coisas supérfluas, e ela comprou presentes para mim e para Nestha. Não tinha o suficiente para um conjunto completo, mas me comprou vermelho, azul e amarelo. Eu usei as tintas até a última gota, aproveitando o máximo possível, e pintei pequenas decorações em nosso chalé.
A respiração de Rhys saiu pesada, e, por fim, serrei a flecha. Não deixei que ele soubesse o que eu fazia antes de arrancar a ponta da flecha com um puxão suave.
Rhys xingou, travando o corpo, e sangue jorrou — e, depois, parou.
Quase soltei um suspiro de alívio. Comecei a trabalhar na próxima flecha.
— Pintei a mesa, os armários, a porta... E tínhamos uma cômoda velha, preta, em nosso quarto, com uma gaveta para cada uma. Não tínhamos muitas roupas para colocar ali, de qualquer modo. — Serrei a segunda flecha mais rápido, e Rhys se preparou quando a puxei para fora. Sangue escorreu e, depois, coagulou. Comecei na terceira. — Pintei flores para Elain em sua gaveta — falei, serrando e serrando. — Pequenas rosas e begônias e íris. E para Nestha... — A flecha caiu no chão, e eu puxei a outra ponta.
Observei o sangue fluir e parar; observei Rhys abaixar devagar a asa até o chão, o corpo tremendo.
— Nestha — continuei, começando com a outra asa —, para ela eu pintei chamas. Ela estava sempre nervosa, sempre queimando. Acho que Nestha e Amren se tornariam amigas rapidamente. Acho que gostaria de Velaris, apesar de não admitir. E acho que Elain... Elain também gostaria. Embora provavelmente grudasse em Azriel, apenas por um pouco de paz e silêncio.
Sorri ao pensar naquilo... em como eles ficariam bonitos juntos. Se o guerreiro algum dia deixasse de amar Mor em segredo. Duvidava disso. Azriel provavelmente amaria Mor até o dia em que se tornasse um sussurro de escuridão entre as estrelas.
Terminei a quarta flecha e comecei a quinta.
A voz de Rhys estava áspera quando ele disse, na direção do chão:
— O que pintou para você?
Puxei a quinta e segui para a sexta antes de responder:
— Pintei o céu noturno.
Rhys ficou imóvel. Acrescentei:
— Pintei estrelas e a luz e nuvens e apenas céu escuro e infinito. — Terminei a sexta flecha e estava a caminho de serrar a sétima antes de dizer: — Nunca soube por quê. Eu raramente saía à noite; geralmente, estava tão cansada de caçar que só queria dormir. Mas me pergunto... — Puxei a sétima e última flecha. — Me pergunto se alguma parte minha sabia o que me esperava. Que eu jamais seria uma cultivadora mansa, ou alguém que queimava como fogo, mas que seria silenciosa e determinada e cheia de facetas, como a noite. Que eu teria beleza, para aqueles que soubessem onde procurar, e, se as pessoas não se dessem o trabalho de me olhar, mas apenas de me temer... Então, eu não gostaria muito delas mesmo. Me pergunto se, mesmo em meu desespero e minha falta de esperança, jamais estive realmente só. Me pergunto se estava procurando este lugar, procurando por todos vocês.
O sangue parou de escorrer, e a outra asa de Rhys se abaixou até o chão. Devagar, as lacerações nas costas começaram a cicatrizar. Dei a volta até onde Rhys estava caído no chão, com as mãos apoiadas na rocha, e me ajoelhei.
Ele ergueu a cabeça. Olhos cheios de dor, lábios drenados de sangue.
— Você me salvou — constatou Rhys, rouco.
— Pode me explicar quem eram depois.
— Emboscada — disse Rhys mesmo assim, os olhos observando meu rosto, em busca de sinais de dor. — Soldados de Hybern com correntes antigas do próprio rei, para anular meu poder. Devem ter rastreado a magia que usei ontem... Desculpe. — As palavras saíram aos tropeços de Rhys. Afastei seus cabelos pretos para trás. Por isso ele não conseguira usar o laço para falar entre nossas mentes.
— Descanse — pedi, e me movi para alcançar o cobertor de minha sacola. Teria de servir. Rhys segurou meu pulso antes que eu pudesse me levantar. Suas pálpebras se abaixaram. A consciência se esvaía, muito rápido. Rápido demais e muito intensamente.
— Eu também estava procurando por você — murmurou Rhys.
E desmaiou.