Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 47 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 45

O acampamento de guerra illyriano no interior das montanhas ao norte estava congelante. Aparentemente, a primavera ainda era pouco mais que um sussurro na região.

 

Mor nos atravessou para lá, Rhysand e Cassian nos acompanharam ao lado.

Tínhamos dançado. Todos nós, juntos. E eu nunca vira Rhys tão feliz, rindo com Azriel, bebendo com Mor, discutindo com Cassian. Eu dançara com cada um deles e, quando a noite virou alvorecer e a música se tornou suave e melíflua, deixei que Rhys me pegasse nos braços e dançasse comigo, devagar, até que os outros convidados tivessem partido, até que Mor estivesse dormindo em um sofá na sala de jantar, até que o disco dourado do sol emoldurasse Velaris.

Rhys voou comigo de volta para a casa na cidade em meio aos tons de rosa, roxo e cinza do alvorecer, nós dois em silêncio, e me beijou na testa uma vez, antes de seguir pelo corredor para o próprio quarto.

Não menti para mim mesma sobre por que tinha esperado durante trinta minutos para ver se minha porta abriria. Ou para ao menos ouvir uma batida. Mas nada.

Estávamos de olhos vermelhos, mas fomos educados à mesa do almoço, horas depois; Mor e Cassian pareciam incomumente silenciosos, conversando mais com Amren e Azriel, que foram se despedir. Amren continuaria trabalhando no Livro até recebermos a segunda metade — se a recebêssemos; o encantador de sombras estava partindo para reunir informações e gerenciar os espiões posicionados em outras cortes, tentando penetrar a corte humana. Consegui falar com eles, mas grande parte de minha energia foi para não olhar para Rhysand, ou pensar na sensação de seu corpo pressionado contra o meu enquanto dançávamos durante horas, aquele roçar de boca contra minha pele.

Mal tinha conseguido cair no sono por causa daquilo.

Traidora. Mesmo que eu tivesse deixado Tamlin, era uma traidora. Estava fora havia dois meses — apenas dois. Em termos feéricos, era provavelmente considerado menos de um dia.

Tamlin me dera tanto, fizera tantas coisas boas por mim e por minha família. E ali estava eu, querendo outro macho, por mais que odiasse Tamlin pelo que ele tinha feito, por como tinha fracassado comigo. Traidora.

A palavra continuava ecoando em minha cabeça enquanto eu estava ao lado de Mor, Rhys e Cassian alguns passos adiante, e olhava para o acampamento com fortes ventos. Mor mal dera mais que um breve abraço em Azriel antes de dizer adeus. E, apesar de tudo, o mestre-espião pareceu não se importar — até me dar um olhar ágil, de aviso. Eu ainda estava dividida entre diversão e revolta diante da presunção de que eu meteria o nariz nos negócios dele. De fato.

Construído perto do topo de uma montanha florestada, o acampamento de guerra illyriano não passava de rocha nua e lama, interrompidas apenas por tendas grosseiras, fáceis de guardar, centralizadas ao redor de grandes fogueiras. Perto do limite das árvores, uma dezena de prédios permanentes fora erguida a partir da pedra cinzenta da montanha. Fumaça subia das chaminés contra a fria manhã nublada, ocasionalmente espiralada por asas que passavam acima.

Tantos machos alados disparando a caminho de outros acampamentos, ou em treinamento.

De fato, do lado oposto do acampamento, em uma área rochosa que terminava em um mergulho íngreme da montanha, estavam os ringues de luta e treinamento. Estantes de armas eram deixadas a céu aberto; no ringue delimitado por giz, machos de todas as idades agora treinavam com bastões e espadas e escudos e lanças. Rápidos, letais, brutais. Nenhuma reclamação, nenhum grito de dor.

Não havia calor ali, nenhuma alegria. Mesmo as casas do outro lado do acampamento não tinham toques pessoais, como se fossem usadas apenas como abrigo e armazém.

E era ali que Rhys, Azriel e Cassian haviam crescido; onde Cassian fora isolado para sobreviver sozinho. Era tão frio que mesmo enroscada em couro forrado de pele eu tremia. Não conseguia imaginar uma criança passando uma noite sem roupas adequadas — ou sem abrigo — muito menos oito anos.

O rosto de Mor estava pálido, tenso.

— Odeio este lugar — disse ela, sussurrando, o calor do hálito dela se condensou no ar diante de nós. — Deveria ser queimado até virar cinzas.

Cassian e Rhys ficaram em silêncio quando um macho mais velho, alto, de ombros largos, se aproximou, acompanhado por cinco outros guerreiros illyrianos, todos com as asas recolhidas, as mãos casualmente ao alcance das armas.

Não importava que Rhys pudesse destruir suas mentes sem erguer um dedo.

Cada illyriano usava Sifões de cores diferentes no dorso das mãos, e aquelas pedras eram menores que as de Azriel e Cassian. E tinham apenas uma. Não sete cada um, como meus dois amigos usavam para conter seu imenso poder.

O macho à frente disse:

— Outra inspeção no acampamento? Seu cão — ele apontou com o queixo para Cassian — esteve aqui na outra semana. As garotas estão treinando.

Cassian cruzou os braços.

— Não as vejo no ringue.

— Elas fazem as tarefas de casa primeiro — explicou o macho, com os ombros para trás e as asas se abrindo levemente. — Então, quando terminam, podem treinar.

Um grunhido baixo saiu da boca de Mor, e o macho virou em nossa direção. Ele enrijeceu o corpo. Mor lançou um sorriso malicioso para o homem.

— Oi, Lorde Devlon.

O líder do acampamento, então.

Ele examinou Mor de cima a baixo com desprezo e voltou o olhar para Rhys. O grunhido de aviso de Cassian ecoou em meu estômago.

Rhys falou, por fim:

— Um prazer o ver, como sempre, Devlon, mas há duas questões a serem tratadas: primeiro, as garotas, como você foi claramente instruído por Cassian, devem treinar antes das tarefas, não depois. Coloque-as no campo. Agora. — Estremeci ao puro comando naquele tom de voz. Rhys continuou: — Segundo, ficaremos aqui por enquanto. Esvazie a antiga casa de minha mãe. Não há necessidade de faxineira. Cuidaremos de nós mesmos.

— A casa está ocupada por meus melhores guerreiros.

— Então, desocupe-a — mandou Rhysand, simplesmente. — E faça com que a limpem antes de saírem.

A voz do Grão-Senhor da Corte Noturna, que se regozijava com dor e fazia os inimigos tremerem.

Devlon farejou em minha direção. Concentrei cada gota de exaustão emburrada em sustentar-lhe o olhar semicerrado.

— Outra dessas... criaturas que você traz aqui? Achei que era a única do tipo dela.

— Amren — falou Rhys — mandou lembranças. E quanto a esta... —Tentei não desviar o olhar dele. — Ela é minha — declarou Rhys, baixinho, mas com malícia suficiente para que Devlon e os guerreiros próximos ouvissem. — E, se algum de vocês colocar a mão nela, perderá essa mão. E, depois, a cabeça. — Tentei não estremecer, pois Cassian e Mor não mostraram qualquer reação. — E depois que Feyre terminar de matá-los — Rhys deu um risinho —, vou triturar seus ossos até virarem poeira.

Eu quase ri. Mas os guerreiros agora avaliavam a ameaça que Rhys estabelecera que eu era... e não conseguiam pensar em respostas. Dei um breve sorriso a todos eles mesmo assim, um sorriso que eu vira Amren esboçar centenas de vezes. Deixei que imaginassem o que eu poderia fazer se provocada.

— Vamos sair — disse Rhys a Cassian e Mor, sem se dar o trabalho de dispensar Devlon antes de caminhar até o limite das árvores. — Voltaremos ao anoitecer. — Ele olhou para a prima. — Tente ficar longe de problemas, por favor. Devlon nos odeia menos que os demais senhores da guerra, e não quero encontrar outro acampamento.

Pela Mãe, os outros deviam ser... desagradáveis se Devlon era o mais moderado.

Mor piscou um olho para nós dois.

— Vou tentar.

Rhys apenas sacudiu a cabeça e falou para Cassian:

— Verifique as forças; depois, certifique-se de que as garotas estejam praticando como deveriam estar. Se Devlon ou os demais protestarem, faça o que for preciso.

Cassian sorriu de uma forma que mostrava que ficaria mais que feliz ao fazer exatamente isso. Era o general do Grão-Senhor... no entanto, Devlon o chamava de cão. Não queria imaginar como tinha sido para Cassian crescer sem título.

Então, por fim, Rhys olhou para mim de novo, e seus olhos se fecharam.

— Vamos.

— Teve notícias de minhas irmãs?

Um aceno negativo com a cabeça.

— Não. Azriel está verificando hoje se receberam uma resposta. Você e eu... — O vento farfalhou seu cabelo quando Rhys sorriu. — Vamos treinar.

— Onde?

Rhys indicou o amplo território além: as estepes florestais que ele mencionara certa vez.

— Longe de potenciais causalidades. — Rhys ofereceu a mão quando as asas se estenderam, o corpo se preparando para o voo.

Mas só ouvi aquelas três palavras que ele dissera, ecoando contra o latejar constante de traidora, traidora.

Ela é minha.

 

Estar nos braços de Rhys de novo, contra seu corpo, era um teste de teimosia. Para nós dois. Para ver quem falaria a respeito daquilo primeiro.

Estávamos voando acima das montanhas mais lindas que eu já vira — nevadas e salpicadas de pinheiros —, seguindo na direção de colinas de estepes além, quando eu disse:

— Estão treinando guerreiras illyrianas?

— Tentando. — Rhys olhou para a paisagem cruel. — Bani o corte de asas há muito, muito tempo, mas... nos acampamentos mais inflamados, bem no interior das montanhas, ainda o praticam. E, quando Amarantha assumiu, mesmo os acampamentos mais liberais começaram de novo. Para manter as mulheres seguras, era o que alegavam. Durante os últimos cem anos, Cassian vem tentando montar uma unidade de combate aéreo entre as mulheres, tentando provar que elas têm um lugar no campo de batalha. Até agora, conseguiu treinar algumas guerreiras dedicadas, mas os machos tornam a vida tão miserável que muitas partiram. E quanto às garotas em treinamento... — Ele exalou ruidosamente. — É um longo caminho. Mas Devlon é um dos poucos que sequer deixa as garotas treinarem sem dar um ataque.

— Dificilmente eu chamaria desobedecer ordens de “sem dar um ataque”.

— Alguns acampamentos publicaram decretos dizendo que, se uma fêmea for pega treinando, deve ser considerada imprópria para o casamento. Não posso combater esse tipo de coisa, não sem assassinar os líderes de cada acampamento e pessoalmente criar cada um de seus filhos.

— E, mesmo assim, sua mãe os amava, e vocês três usam suas tatuagens.

— Fiz as tatuagens em parte por minha mãe, em parte para honrar meus irmãos, que lutaram todos os dias da vida pelo direito de tê-las.

— Por que deixa Devlon falar com Cassian daquele jeito?

— Porque sei quais brigas comprar com Devlon, e sei que Cassian ficaria transtornado se eu me intrometesse e destruísse a mente de Devlon, como uma uva, quando o próprio Cassian pode cuidar disso.

Um sussurro frio percorreu meu corpo.

— Já pensou em fazer isso?

— Acabei de pensar. Mas a maioria dos senhores de acampamentos jamais teria dado uma chance a nós três no Rito de Sangue. Devlon deixou que um mestiço e dois bastardos passassem pelo Rito, e não nos negou nossa vitória.

Pinheiros cobertos de neve fresca passavam sob nós como um borrão.

— O que é o Rito de Sangue?

— Tantas perguntas hoje. — Apertei o ombro de Rhys com força o bastante para machucar, e ele riu. — Você entra desarmado nas montanhas, sem magia, nenhum Sifão, asas atadas, sem suprimentos ou roupas além das que está usando. Você e qualquer outro macho illyriano que queira passar de um novato para verdadeiro guerreiro. Algumas centenas seguem para as montanhas no início da semana, e nem todos voltam no fim.

A paisagem beijada pelo gelo se estendia infinitamente, tão irredutível quanto os guerreiros que a governavam.

— Vocês... se matam?

— A maioria tenta. Por comida e roupas, por vingança, por glória entre clãs inimigos. Devlon nos permitiu participar do Rito, mas também se certificou de que Cassian, Azriel e eu fôssemos jogados em locais diferentes.

— O que aconteceu?

— Nós nos encontramos. Matamos para abrir caminho pelas montanhas até chegarmos um ao outro. No fim das contas, muitos guerreiros illyrianos queriam provar que eram mais fortes e mais espertos que nós. E, pelo visto, estavam errados.

Ousei olhar para o rosto de Rhys. Por um segundo, pude ver: sujo de sangue, selvagem, lutando e matando para chegar aos amigos, para proteger e salvá-los.

Rhys nos desceu em uma clareira, os pinheiros eram tão altos que pareciam acariciar a base das nuvens cinza e pesadas que passavam ao vento suave.

— Então, você não vai usar magia, mas eu vou? — perguntei, dando alguns passos para longe de Rhys.

— Nosso inimigo está ligado a meus poderes. Você, no entanto, permanece invisível. — Rhys gesticulou com a mão. — Vejamos em que seu treino resultou.

Eu não estava a fim. Apenas falei:

— Quando... quando você conheceu Tamlin?

Sabia o que o pai de Rhysand fizera. Não me permitia pensar muito a respeito.

A respeito de como ele tinha matado o pai e os irmãos de Tamlin. E a mãe.

Mas agora, depois da noite anterior, depois da Corte de Pesadelos... Eu precisava saber.

O rosto de Rhys era uma máscara de paciência.

— Mostre algo impressionante e contarei a você. Magia... em troca de respostas.

— Sei que tipo de jogo está fazendo... — Eu me interrompi ao indício de um risinho. — Muito bem.

Estendi a mão diante do corpo, a palma em concha, e desejei que o silêncio tomasse minhas veias, minha mente.

Silêncio e calma e peso, como estar debaixo d’água.

Na minha mão, uma borboleta de água bateu as asas e dançou.

Rhys sorriu um pouco, mas a diversão se dissipou quando ele falou:

— Tamlin era mais novo que eu, nasceu quando a Guerra começou. Mas, depois da Guerra, quando amadureceu, passamos a nos conhecer em diversos eventos das cortes. Ele... — Rhys trincou os dentes. — Ele parecia decente para o filho de um Grão-Senhor. Melhor que os filhos de Beron, na Corte Outonal. Os irmãos de Tamlin eram igualmente ruins, no entanto. Piores. E sabiam que Tamlin assumiria o título um dia. E para um illyriano mestiço que teve de provar o valor, defender seu poder, eu enxergava o que Tamlin passava... E fiquei seu amigo. Procurava por Tamlin sempre que conseguia escapar dos acampamentos de guerra ou da corte. Talvez fosse por pena, mas... ensinei a ele algumas técnicas illyrianas.

— Alguém sabia?

Rhys ergueu as sobrancelhas... e lançou um olhar carregado para minha mão.

Fiz uma careta para ele e conjurei aves cantoras feitas de água, deixando que batessem as asas pela clareira, como tinham voado por meu banheiro na Corte Estival.

— Cassian e Azriel sabiam — continuou Rhys. — Minha família sabia. E reprovava. — Os olhos de Rhys eram como lascas de gelo. — Mas o pai de Tamlin se sentia ameaçado por aquilo. Por mim. E porque ele era mais fraco que eu e Tamlin, queria provar ao mundo que não o era. Minha mãe e minha irmã deveriam viajar até o acampamento de guerra illyriano para me visitar. Eu deveria me encontrar com elas no meio do caminho, mas estava ocupado, treinando uma nova unidade, e decidi ficar.

Meu estômago se revirou, e de novo, e de novo, e de novo, e desejei ter algo contra o qual me encostar conforme Rhys falou:

— O pai de Tamlin, os irmãos e o próprio Tamlin partiram para a floresta illyriana, tendo sabido por Tamlin, por mim, onde minha mãe e irmã estariam, que eu tinha planos de vê-las. Eu deveria estar lá; mas não estava. E eles assassinaram minha mãe e minha irmã mesmo assim.

Comecei a sacudir a cabeça, os olhos queimando. Não sabia o que estava tentando negar ou apagar ou condenar.

— Deveria ter sido eu — disse Rhys, e entendi... entendi o que ele havia dito naquele dia em que chorei diante de Cassian no ringue de treinamento.

“Eles colocaram suas cabeças em caixas e mandaram pelo rio, até o acampamento mais próximo. O pai de Tamlin ficou com as asas como troféus. Fico surpreso por você não as ter visto pregadas no escritório.

Estava prestas a vomitar; a cair de joelhos e chorar.”

Mas Rhys olhou para a variedade de animais de água que eu fizera, e disse:

— O que mais?

Talvez fosse o frio, talvez fosse a história, mas o gelo estalou em minhas veias e a canção selvagem de um vento de inverno uivou em meu coração. Eu senti então... como seria fácil saltar entre eles, uni-los, meus poderes.

Cada um dos animais parou no ar... e congelou em pedaços perfeitamente entalhados de gelo.

Um a um, eles caíram na terra. E se quebraram.

Os poderes eram um só. Tinham vindo da mesma origem sombria, do mesmo poço eterno de poder. Certa vez, há muito tempo, antes de a linguagem ser inventada, quando o mundo era novo.

Rhys apenas continuou:

— Quando eu soube, quando meu pai soube... Não fui totalmente sincero com você quando contei Sob a Montanha que meu pai matou o pai e os irmãos de Tamlin. Eu fui com ele. Ajudei. Nós atravessamos para o limite da Corte Primaveril naquela noite e, depois, seguimos o restante do caminho a pé, até a mansão. Matei os irmãos de Tamlin quando os vi. Controlei suas mentes e os deixei indefesos enquanto os cortava em pedaços, e, em seguida, derreti seus cérebros dentro dos crânios. E, quando cheguei ao quarto do Grão-Senhor, ele estava morto. E meu pai... meu pai tinha matado a mãe de Tamlin também.

Eu não conseguia parar de sacudir a cabeça.

— Meu pai prometera não tocar nela. Disse que não éramos o tipo de macho que faria aquilo. Mas ele mentiu para mim, e o fez mesmo assim. E depois foi até o quarto de Tamlin.

Eu não conseguia respirar... não conseguia respirar quando Rhys falou:

— Tentei impedir. Ele não ouviu. Ia matar Tamlin também. E eu não podia... Depois de todas aquelas mortes, para mim, bastava. Não me importava que Tamlin tivesse estado lá, tivesse deixado que eles matassem minha mãe e minha irmã, que tivesse ido me matar porque não queria arriscar enfrentá-los. Para mim, bastava de morte. Então, impedi meu pai diante da porta. Ele tentou passar por mim. Tamlin abriu a porta, nos viu, sentiu o cheiro de sangue que já escorria para o corredor. E nem mesmo consegui dizer uma palavra antes de Tamlin matar meu pai com um golpe.

“Senti o poder passar para mim, mesmo ao ver quando o poder passou para ele também. E simplesmente nos olhamos, conforme ambos fomos subitamente coroados Grão-Senhores... então, eu corri.”

Ele assassinou a família de Rhysand. O Grão-Senhor que eu amara — assassinou a família do amigo e, quando perguntei a ele a respeito de como a família dele havia morrido, Tamlin apenas me disse que uma corte rival o fizera. Rhysand o tinha feito e...

— Ele não lhe contou nada disso.

— Eu... sinto muito — sussurrei, a voz rouca.

— Por que você deveria sentir muito?

— Eu não sabia. Não sabia que ele tinha feito isso...

E Rhys achou que eu o estava comparando... comparando ele e Tamlin, como se eu achasse que este era algum tipo de modelo...

— Por que parou? — perguntou Rhys, indicando os cacos de gelo no tapete de folhas de pinheiro.

As pessoas que ele mais amava; mortas. Assassinadas a sangue frio. Assassinadas por Tamlin.

A clareira explodiu em chamas.

As folhas de pinheiro sumiram, as árvores gemeram, e até mesmo Rhys xingou conforme o fogo varreu a clareira, meu coração, e devorou tudo no caminho.

Não era à toa que fizera Tamlin implorar naquele dia em que fui formalmente apresentada a Rhys. Não era à toa que ele tivesse aproveitado todas as chances de provocar Tamlin. Talvez minha presença ali fosse apenas para...

Não. Eu sabia que não era verdade. Sabia que estar ali não tinha nada a ver com o que havia entre Rhys e Tamlin, embora ele, sem dúvida, tivesse gostado de interromper nosso casamento. De me salvar daquele casamento, na verdade.

— Feyre — disse Rhys, conforme o fogo se extinguia.

Mas ali estava... crepitando em minhas veias. Crepitando ao lado de veias de gelo e água.

E escuridão.

Brasas subiam ao nosso redor, flutuando no ar, e lancei um sopro de escuridão tranquilizadora, um sopro de gelo e água, como se fosse um vento; um vento no crepúsculo, limpando o mundo.

O poder não pertencia aos Grão-Senhores. Não mais.

Ele pertencia a mim; assim como eu só pertencia a mim, como meu futuro era meu para decidir, para forjar.

Depois que descobrisse e dominasse o que os demais tinham me dado, poderia entrelaçá-los: em algo novo, algo de todas as cortes e de nenhuma delas.

Chamas chiaram quando se extinguiram tão completamente que nenhuma fumaça restou.

Mas encontrei o olhar de Rhys, os olhos pareciam um pouco arregalados enquanto me observava trabalhar. Falei, com a voz rouca:

— Por que não me contou antes?

Ao ver Rhys com o traje de combate illyriano, as asas abertas por toda a extensão da clareira, a espada despontando por cima do ombro...

Ali, naquele buraco em meu peito; eu vi a imagem ali. À primeira interpretação, Rhys pareceria assustador, a vingança e a ira encarnadas. Mas de perto... a pintura mostraria a beleza no rosto, as asas abertas não para ferir, mas para me levar para longe do perigo, para me proteger.

— Não queria que pensasse que estava tentando jogá-la contra ele — respondeu Rhysand.

A pintura... eu conseguia vê-la; senti-la. Eu queria pintá-la.

Eu queria pintar.

Não esperei que Rhys estendesse a mão para me aproximar dele. E, encarando-o, falei:

— Quero pintar você.

Rhys me ergueu nos braços com cuidado.

— Nu seria melhor — disse ele, ao meu ouvido.