Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 16 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Parte Dois: A Casa do Vento

PARTE DOIS

A CASA DO VENTO

– Bem-vinda ao meu lar — disse Rhysand.

Uma cidade... havia um mundo lá fora.

O sol da manhã entrava pelas janelas que ladeavam a frente da casa. A porta de madeira com entalhe ornamental diante de mim era embutida com um vidro embaçado, pelo qual se via uma pequena antecâmara e a porta de entrada de fato além dela, fechada e sólida contra qualquer que fosse a cidade que espreitava lá fora.

E a ideia de colocar os pés do lado exterior, para as multidões reunidas, de ver a destruição que Amarantha provavelmente provocara sobre elas... Um peso recaiu sobre meu peito.

Não tinha me concentrado o suficiente para perguntar até agora, não me dera um pingo de espaço para considerar que aquilo poderia ser um erro, mas...

— O que é este lugar?

Rhys apoiou o ombro largo contra o batente de carvalho entalhado que dava para a sala de estar, e cruzou os braços.

— Esta é minha casa. Bem, tenho duas casas na cidade. Uma é para assuntos mais... oficiais, mas esta é apenas para mim e minha família.

Tentei ouvir o barulho de criados, mas não consegui. Bom... talvez fosse bom, em vez de ter gente choramingando e boquiaberta.

— Nuala e Cerridwen estão aqui — disse ele, interpretando meu olhar pelo corredor atrás de nós. — Mas, fora isso, seremos apenas nós dois.

Fiquei tensa. Não que as coisas fossem diferentes na própria Corte Noturna, mas... aquela casa era muito, muito menor. Não teria como fugir dele. Exceto pela cidade do lado de fora.

Não restavam cidades em nosso território mortal. Embora algumas tivessem florescido no continente principal, cheias de arte e educação e comércio. Elain certa vez quis ir comigo. Acho que agora não teria mais essa oportunidade.

Rhysand abriu a boca, mas então as silhuetas de dois corpos altos e fortes surgiram do outro lado do vidro embaçado da porta da frente. Um deles bateu com o punho.

— Rápido, seu preguiçoso — vociferou uma voz masculina grave na antecâmara além da porta. Exaustão tinha me entorpecido tanto que não me importava muito que havia asas despontando das duas formas sombreadas.

Rhys nem mesmo piscou na direção da porta.

— Duas coisas, Feyre, querida.

As batidas continuaram, seguidas pelo segundo macho murmurando para o companheiro:

— Se vai começar uma briga com ele, faça depois do café. — Aquela voz... como sombras que tomaram forma, sombria e suave e... fria.

— Não fui eu quem me expulsou da cama agora há pouco para voar até aqui — disse o primeiro. Então, acrescentou: — Enxerido.

Eu podia jurar que um sorriso repuxou os cantos da boca de Rhys conforme ele prosseguiu:

— Primeira: ninguém, ninguém além de Mor e eu podemos atravessar diretamente para dentro desta casa. Está enfeitiçada, guarnecida e enfeitiçada ainda mais. Apenas aqueles que eu desejar, e que você desejar, podem entrar. Está segura aqui; e segura em qualquer lugar desta cidade, aliás. As muralhas de Velaris são bem protegidas, e não são penetradas há cinco mil anos. Ninguém com má intenção entra nesta cidade a não ser que eu permita. Então, vá aonde desejar, faça o que desejar e veja o que desejar. Aqueles dois na antecâmara — acrescentou Rhys, com os olhos brilhando — podem não estar na lista de pessoas que você deveria se dar o trabalho de conhecer se continuarem esmurrando a porta como se fossem crianças.

Outra batida, enfatizada pela primeira voz masculina dizendo:

— Sabe que podemos ouvir você, seu porco.

— Segunda — continuou Rhys. — No que diz respeito aos dois desgraçados à porta, cabe a você querer conhecê-los agora ou seguir para o andar de cima como uma pessoa inteligente, tirar uma soneca, pois ainda parece um pouco pálida, e depois colocar roupas apropriadas para a cidade enquanto espanco um deles por falar dessa forma com um Grão-Senhor.

Havia tanta luz nos olhos de Rhys. Fazia com que ele parecesse... mais jovem, de alguma forma. Mais mortal. Tão diferente do ódio gélido que eu vira mais cedo, ao acordar...

Acordar naquele sofá e depois decidir que não voltaria para casa.

Decidir que, talvez, a Corte Primaveril não fosse meu lar.

Eu estava me afogando naquele antigo peso, lutando para subir até uma superfície que talvez não existisse. Tinha dormido por somente a Mãe sabe quanto tempo, mesmo assim...

— Venha me buscar quando eles forem embora.

Aquela alegria diminuiu, e Rhys pareceu prestes a dizer outra coisa, mas uma voz feminina, entrecortada e aguda, soou naquele momento atrás dos dois machos na antecâmara.

— Vocês, illyrianos, são piores que gatos miando para que alguém abra a porta dos fundos. — A maçaneta se agitou. A mulher suspirou profundamente. — Sério, Rhysand? Você nos trancou do lado de fora?

Lutando para afastar aquele imenso peso por um pouco mais de tempo, segui para as escadas — no alto delas agora estavam Nuala e Cerridwen, encolhendo o corpo para a porta da entrada. Eu podia ter jurado que Cerridwen gesticulou subitamente para que eu subisse correndo. E poderia ter beijado as gêmeas por aquele pingo de normalidade.

Talvez também tivesse beijado Rhys por esperar para abrir a porta até que eu estivesse na metade do corredor azul-cerúleo no segundo andar.

Só ouvi aquela primeira voz masculina declarar:

— Bem-vindo ao lar, bastardo.

Isso se seguiu à voz masculina envolta em sombras dizendo:

— Senti que estava de volta. Mor me inteirou, mas eu...

Aquela voz feminina estranha o interrompeu.

— Mande seus cães brincarem no quintal, Rhysand. Você e eu temos assuntos a tratar.

Aquela voz que parecia a meia-noite falou com uma frieza baixa que percorreu minha espinha:

— Assim como eu.

Então, o arrogante falou com a mulher:

— Chegamos primeiro. Espere sua vez, Pequena Anciã.

Flanqueando minha figura, Nuala e Cerridwen encolheram o corpo, talvez segurando as gargalhadas ou por medo, ou talvez ambos. Definitivamente ambos, pois um grunhido feminino percorreu a casa... apesar de pouco entusiasmado.

O corredor do andar de cima era decorado com lustres de vidro espiralado colorido, iluminando as poucas portas polidas de cada um dos lados. Imaginei qual pertenceria a Rhysand — então imaginei qual pertenceria a Mor quando a ouvi bocejar em meio à balbúrdia abaixo:

— Por que estão todos aqui tão cedo? Achei que nos encontraríamos esta noite na Casa.

Abaixo, Rhysand resmungou, resmungou:

— Confie em mim, não tem festa alguma. Apenas um massacre se Cassian não calar a boca.

— Estamos com fome — aquele primeiro macho, Cassian, reclamou. — Nos alimente. Alguém me contou que haveria café da manhã.

— Patéticos — debochou aquela voz feminina esquisita. — Vocês idiotas são patéticos.

Mor falou:

— Sabemos que isso é verdade. Mas tem comida?

Ouvi as palavras; ouvi e compreendi. Então elas flutuaram para a escuridão de minha mente.

Nuala e Cerridwen abriram a porta de um quarto aquecido por lareira e iluminado pelo sol. Este se abria para um jardim murado, com vestígios do inverno nos fundos da casa, e as grandes janelas davam para a fonte de pedra dormente no centro, vazia por causa da estação. Tudo no quarto era de madeira fina e de um tom suave de branco, com toques de um verde sutil. Parecia, estranhamente, quase humano.

E a cama — imensa, fofa, adornada com colchas e edredons de cores creme e marfim para afastar o frio do inverno — parecia ser a mais aconchegante das coisas.

Mas eu não estava tão sonolenta que não conseguisse fazer algumas perguntas básicas... para ao menos me dar a ilusão de me importar um pouco com meu bem-estar.

— Quem eram aqueles? — Consegui dizer quando fecharam a porta atrás de nós.

Nuala seguiu para o pequeno banheiro anexo; de mármore branco, com banheira de pés em forma de garras, mais janelas ensolaradas que davam para o muro do jardim e para a fileira espessa de ciprestes que pareciam montar guarda atrás dele. Cerridwen, que já caminhava para o armário, se encolheu um pouco e falou por cima do ombro:

— São do Círculo Íntimo de Rhysand.

Aqueles que eu ouvira serem mencionados naquele dia na Corte Noturna, que Rhys ficava visitando.

— Eu não estava ciente de que Grão-Senhores mantinham as coisas tão casuais — admiti.

— Não mantêm — falou Nuala, ao voltar do banheiro com uma escova. — Mas Rhysand sim.

Aparentemente, meu cabelo estava uma bagunça, porque Nuala o penteou enquanto Cerridwen escolheu um pijama marfim: camisa com calça quentes e macias e com barra de renda.

Observei as roupas e, depois, o quarto, então, o jardim de inverno e a fonte desativada além dele, e as palavras que Rhysand dissera mais cedo fizeram sentido.

As muralhas desta cidade não são invadidas há cinco mil anos.

O que significava que Amarantha...

— Como esta cidade está aqui? — Encarei Nuala pelo espelho. — Como... como ela sobreviveu?

O rosto de Nuala ficou tenso, e os olhos escuros se voltaram para a irmã gêmea, a qual se levantou devagar da frente da gaveta de uma cômoda, com chinelos forrados de lã nas mãos. A garganta de Cerridwen oscilou quando ela engoliu em seco.

— O Grão-Senhor é muito poderoso — falou Cerridwen, com cautela. — E era devotado ao povo muito antes de o fardo do pai passar para ele.

— Como ela sobreviveu? — insisti. Uma cidade, linda, se os sons que vinham de minha janela, do jardim além dela, eram algum indicativo, estava ao meu redor. Intocada, inteira. Segura. Enquanto o restante do mundo tinha sido deixado em ruínas.

As gêmeas trocaram olhares de novo, alguma linguagem silenciosa que aprenderam no útero passou de uma para outra. Nuala apoiou a escova na penteadeira.

— Não cabe a nós dizer.

— Ele pediu que vocês não...

— Não — interrompeu Cerridwen, dobrando as cobertas. — O Grão-Senhor não fez tal exigência. Mas o que ele fez para proteger esta cidade é uma história dele para ser contada, não nossa. Ficaríamos mais confortáveis se ele a revelasse a você, para não confundirmos nada.

Olhei para as duas com irritação. Tudo bem. Justo.

Cerridwen foi fechar as cortinas, selando o quarto em escuridão.

Meu coração deu um sobressalto, levando consigo a raiva, e disparei:

— Deixe abertas.

Não podia ser selada e fechada na escuridão... ainda não.

Cerridwen assentiu e deixou as cortinas abertas; as gêmeas me disseram para mandar chamar se eu precisasse de algo, e, depois, saíram.

Sozinha, deitei na cama, mal sentindo a maciez, a suavidade dos lençóis.

Ouvi o fogo crepitante, o cantar dos pássaros nas sempre-verdes plantadas no jardim; tão diferente das melodias primaveris doces com as quais eu estava acostumada. Que talvez jamais conseguisse suportar de novo.

Talvez Amarantha tivesse vencido, no fim das contas.

E alguma parte nova e esquisita em mim se perguntou se jamais retornar poderia ser uma punição adequada para ele. Pelo que ele tinha feito comigo.

O sono me reivindicou, ágil, brutal e profundo.