Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 55 de 71

Páginas do PDF

Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 53

Mor passou a noite ali e até chegou ao ponto de pintar uns bonecos palito rudimentares na parede ao lado da porta da despensa. Três fêmeas com cabelos absurdamente longos e oscilantes que se pareciam com os dela; e três machos alados, que, de alguma forma, Mor conseguiu fazer com que parecessem empertigados com senso de importância. Eu ria sempre que os olhava.

Mor partiu depois do café da manhã, precisando caminhar até onde o escudo que impedia a travessia terminava, e acenei para a silhueta distante e trêmula antes de ela sumir.

Olhei para a extensão branca reluzente, descongelada o bastante para que trechos vazios a pontuassem — revelando parte de grama branca como o inverno que se estendia até o céu azul e as montanhas. Eu sabia que o verão tinha de, em algum momento, chegar até mesmo àquela terra dos sonhos derretida, pois tinha visto varas de pesca e equipamento esportivo que sugeriam uso em tempo mais quente, no entanto era difícil imaginar neve e gelo se tornando grama macia e flores selvagens.

Com a rapidez de uma crista de onda, eu me vi ali: correndo pelo campo que dormia sob a fina camada de neve, pisoteando a água dos pequenos córregos que já cobriam o chão, me banqueteando com frutas vermelhas de verão conforme o sol se punha atrás das montanhas...

Depois, eu iria para casa, para Velaris, onde finalmente passearia pelo quarteirão dos artistas e entraria naquelas lojas e galerias, e descobriria o que eles sabiam, e talvez — talvez um dia — abriria minha loja. Não para vender meu trabalho, mas para ensinar aos outros.

Talvez ensinar a outros que eram como eu: quebrados em alguns lugares e tentando lutar contra isso, tentando aprender quem eram além da escuridão e da dor. E eu iria para casa no fim de cada dia exausta, mas contente... realizada.

Feliz.

Eu iria para casa todo dia, para a casa na cidade, para meus amigos, cheios de histórias dos respectivos dias, e nos sentaríamos em volta daquela mesa e comeríamos juntos.

E Rhysand...

Rhysand...

Ele estaria lá. Ele me daria o dinheiro para abrir minha loja; e porque eu não cobraria de ninguém, venderia minhas pinturas para pagá-lo de volta. Porque eu pagaria de volta, parceiro ou não.

E ele estaria aqui no verão, voaria sobre o campo, me perseguiria pelos pequenos córregos, até a encosta da montanha íngreme e gramada. Rhys se sentaria comigo sob as estrelas, me daria frutas vermelhas de verão na boca. E estaria à mesa do solar, gargalhando alto — nunca mais seria frio e cruel e severo. Nunca mais seria o escravo ou a vadia de ninguém.

E à noite... À noite subiríamos as escadas juntos, e Rhys sussurraria histórias de suas aventuras, e eu sussurraria sobre meu dia e...

E aí estava.

Um futuro.

O futuro que eu via para mim, alegre como o nascer do sol sobre o Sidra.

Uma direção, uma meta e um convite para ver o que mais a imortalidade poderia me oferecer. Não parecia mais tão insípido, tão vazio.

E eu lutaria até o meu último suspiro para obtê-lo... para defendê-lo.

Então, eu soube o que precisava fazer.

 

Cinco dias se passaram, e pintei cada quarto do chalé. Mor atravessara com mais tinta antes de partir, com mais comida do que eu conseguiria comer.

Mas, depois de cinco dias, estava cheia de meus pensamentos como companhia... cheia de esperar, cheia da neve descongelando e pingando.

Ainda bem que Mor voltou naquela noite, batendo à porta, estrondosa e impaciente.

Eu tinha tomado um banho uma hora antes, limpara tinta de lugares que nem mesmo sabia ser possível sujar, e meus cabelos ainda secavam quando abri a porta para a lufada de ar frio.

Mas não era Mor que estava parada sob o portal.