Corte de Névoa e Fúria

Sarah J. Maas · Capítulo 5 de 71

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Corte de Névoa e Fúria

Capítulo 3

A culpa de Tamlin devia tê-lo atingido com força, porque, embora ele tivesse saído no dia seguinte, Lucien me esperava com uma oferta para inspecionar o progresso na aldeia próxima.

Eu não visitava a aldeia fazia bem mais de um mês — não conseguia me lembrar da última vez que deixara a propriedade. Alguns dos aldeões tinham sido convidados para nossa comemoração do Solstício de Inverno, mas eu mal consegui fazer mais que cumprimentá-los, graças ao tamanho da multidão.

Os cavalos já estavam selados do lado de fora dos estábulos, e contei as sentinelas perto dos portões mais afastados (quatro), de cada lado da casa (duas em cada esquina), e aquelas que agora estavam no jardim pelo qual eu acabara de sair (duas). Embora nenhuma tivesse falado, seus olhos se fixavam em mim.

Lucien fez menção de montar a malhada égua cinzenta, mas me coloquei no caminho dele.

— Você caiu da porcaria do cavalo? — sibilei, empurrando o ombro de Lucien.

Ele chegou a cambalear para trás, a égua relinchou, alarmada, e pisquei para minha mão estendida. Não me permiti contemplar o que os guardas tinham pensado daquilo. Antes que Lucien conseguisse dizer qualquer coisa, indaguei:

— Por que mentiu sobre os naga?

Lucien cruzou os braços, o olho de metal se semicerrou, e o feérico afastou os cabelos ruivos do rosto.

Precisei afastar o olhar por um momento.

Os cabelos de Amarantha eram mais escuros... e o rosto dela era de um branco creme, nada parecido com o dourado de sol da pele de Lucien.

Olhei para o estábulo atrás de Lucien em vez de para ele. Pelo menos era grande, aberto, os cavalariços estavam agora em outra ala. Eu costumava não me incomodar por estar do lado de dentro, o que acontecia na maioria das vezes quando estava entediada o bastante para visitar os cavalos abrigados ali. Havia muito espaço para eu me mover, para fugir. As paredes não pareciam... permanentes demais.

Não era como a cozinha, baixa demais, com paredes espessas demais, com janelas que não eram suficientemente grandes para escapar. Não era como o escritório, sem luz natural o bastante e sem saídas fáceis. Eu tinha uma longa lista na cabeça dos lugares que eu conseguia e que não conseguia suportar na mansão, organizados precisamente de acordo com o quanto faziam meu corpo travar e suar.

— Eu não menti — disse Lucien, contendo-se. — Eu tecnicamente caí da égua. — Ele deu um tapinha no flanco da montaria. — Depois que um dos naga me derrubou dela.

Uma forma tão feérica de pensar, de mentir.

— Por quê?

Lucien fechou a boca.

— Por quê?

Ele simplesmente se virou de volta para a égua paciente. Mas vi a expressão no rosto de Lucien, a... piedade em seu olhar.

Disparei:

— Podemos ir andando em vez disso?

Lucien se virou devagar.

— São 4,5 quilômetros.

— E você poderia correr isso em poucos minutos. Quero ver se consigo acompanhar.

O olho de metal de Lucien se virou, e eu soube o que ele diria antes que abrisse a boca.

— Esqueça — falei, seguindo para minha égua branca, um animal de temperamento dócil, mas um pouco preguiçoso e mimado. Lucien não tentou me convencer do contrário, e ficou em silêncio conforme cavalgamos da propriedade para a estrada da floresta. A primavera, como sempre, estava no auge, a brisa, carregada com o cheiro de lilases; a vegetação rasteira que ladeava a trilha farfalhava com vida. Não havia sinal do Bogge, dos naga ou de qualquer das criaturas que certa vez lançaram tanta quietude sobre o bosque.

Eu disse a Lucien, por fim:

— Não quero sua porcaria de pena.

— Não é pena. Tamlin disse que eu não deveria contar a você... — Lucien encolheu levemente o corpo.

— Não sou feita de vidro. Se os naga atacaram você, mereço saber...

— Tamlin é meu Grão-Senhor. Ele dá uma ordem, e eu obedeço.

— Você não tinha essa mentalidade quando se esquivou dos comandos dele e me mandou para o Suriel. — E eu quase morri.

— Eu estava desesperado na época. Todos estávamos. Mas agora... Agora precisamos de ordem, Feyre. Precisamos de regras e hierarquia e ordem se queremos ter uma chance de reconstruir tudo. Portanto, suas palavras são ordens. Sou o primeiro para o qual os demais olham, eu dou o exemplo. Não me peça para arriscar a estabilidade desta corte ao ir longe demais. Não agora. Tamlin lhe dá o máximo de liberdade que consegue.

Respirei fundo para me acalmar, para preencher meus pulmões contraídos demais.

— Apesar de se recusar tanto a interagir com Ianthe, você certamente soa muito como ela.

Lucien sibilou.

— Não tem ideia de como é difícil para ele sequer lhe deixar sair da propriedade da mansão. Está sob mais pressão do que você percebe.

— Sei exatamente quanta pressão Tamlin sofre. E não percebi que tinha me tornado prisioneira.

— Você não é... — Lucien trincou o maxilar. — Não é assim, e você sabe disso.

— Ele não tinha problemas em me deixar caçar e sair sozinha quando era apenas humana. Quando as fronteiras eram muito menos seguras.

— Ele não gostava tanto de você quanto gosta agora. E depois do que aconteceu Sob a Montanha... — As palavras ressoaram em minha mente, junto de meus músculos tensos demais. — Ele está apavorado. Apavorado pela possibilidade de vê-la nas mãos dos inimigos. E eles também sabem disso, sabem que para controlar Tamlin só precisam levar você.

— Acha que não sei disso? Mas ele espera mesmo que eu passe o resto da vida naquela mansão, supervisionando criados e usando roupas bonitas?

Lucien observou a floresta sempre jovem.

— Não é isso que todas as mulheres humanas desejam? Um lindo senhor feérico para se casar, que as encha de riquezas pelo resto das vidas?

Segurei as rédeas com tanta força que a égua deu uma guinada com a cabeça.

— Bom saber que você ainda é um canalha, Lucien.

Seu olho de metal se semicerrou.

— Tamlin é um Grão-Senhor. Você será sua esposa. Há tradições e expectativas que você deve atender. Nós devemos atender, para apresentar uma fachada sólida, que se recuperou de Amarantha e está disposta a destruir qualquer inimigo que tente tomar o que é nosso de novo. — Ianthe me dera quase o mesmo discurso no dia anterior. — O Tributo acontecerá em breve — continuou Lucien, sacudindo a cabeça. — O primeiro que Tamlin convoca desde... a maldição dela. — Lucien estremeceu quase imperceptivelmente. — Ele deu a nosso povo três meses para colocar os negócios em ordem, e queria esperar até o início do novo ano, mas, no mês que vem, Tamlin exigirá o Tributo. Ianthe disse a ele que está na hora, que o povo está pronto.

Lucien esperou, e eu quis cuspir nele, porque ele sabia... ele sabia que eu não sabia o que era aquilo, mas queria que eu admitisse.

— Me explique — falei, inexpressiva.

— Duas vezes por ano, em geral perto dos Solstícios de Verão e de Inverno, cada membro da Corte Primaveril, seja ele Grão-Feérico ou um feérico inferior, deve pagar um Tributo, dependendo de sua renda e status. É como mantemos a propriedade, como pagamos por coisas como sentinelas e comida e criados. Em troca, Tamlin os protege, governa, ajuda quando pode. É um toma lá dá cá. Este ano, Tamlin adiou o Tributo em um mês, apenas para garantir ao povo mais tempo para reunir fundos, para comemorar. Mas, em breve, emissários de todos os grupos, todas as aldeias, ou dos clãs, chegarão para pagar seus Tributos. Como esposa de Tamlin, será esperado que você se sente com ele. E se não puderem pagar... Será esperado que você permaneça sentada enquanto Tamlin distribui os julgamentos. A coisa pode ficar feia. Vou monitorar quem aparece e quem não aparece, quem não paga. E depois, se falharem em pagar o Tributo dentro do período de três dias que Tamlin oferecerá oficialmente, será esperado que ele cace os súditos. As próprias Grã-Sacerdotisas, Ianthe, concedem a Tamlin direitos sagrados de caça para isso.

Horrível... brutal. Era o que eu queria dizer, mas o olhar que Lucien me lançava... Eu estava cheia de as pessoas me julgarem.

— Então, dê tempo a ele, Feyre — disse Lucien. — Vamos passar pelo casamento, e, depois, pelo Tributo no próximo mês, e, então... então veremos o que fazer com o resto.

— Eu dei tempo a ele — falei. — Não posso ficar entocada em casa para sempre.

— Tamlin sabe disso... ele não diz, mas sabe. Confie em mim. Você deve perdoá-lo se o massacre da família de Tamlin o impede de ser tão... liberal com sua segurança. Ele perdeu aqueles com quem se importava vezes demais. Todos perdemos.

Cada palavra era como combustível acrescentado ao caldeirão fervilhando em meu estômago.

— Não quero me casar com um Grão-Senhor. Só quero me casar com ele.

— Um não existe sem o outro. Ele é o que é. Sempre, sempre tentará protegê-la, goste disso ou não. Fale com Tamlin a respeito, converse de verdade, Feyre. Você vai entender. — Nossos olhares se encontraram. Um músculo se contraiu no maxilar de Lucien. — Não me peça para escolher.

— Mas você está deliberadamente não me contando coisas.

— Ele é meu Grão-Senhor. A palavra dele é a lei. Temos essa única chance, Feyre, de nos reconstruir e deixar o mundo como deveria ser. Não vou começar esse novo mundo traindo a confiança de Tamlin. Mesmo se você...

— Mesmo se eu o quê?

O rosto de Lucien empalideceu, e ele acariciou a crina da cor de teia de aranha da égua.

— Fui forçado a assistir enquanto meu pai assassinava a fêmea que eu amava. Meus irmãos me obrigaram a assistir.

Meu coração se apertou por Lucien... pela dor que o assombrava.

— Não houve feitiço mágico, nenhum milagre para trazê-la de volta. Não havia Grão-Senhores reunidos para ressuscitá-la. Observei, e ela morreu, e jamais esquecerei aquele momento em que ouvi o coração dela parar de bater.

Meus olhos ardiam.

— Tamlin conseguiu aquilo que eu não consegui — disse Lucien baixinho, com a respiração irregular. — Todos ouvimos seu pescoço se quebrar. Mas você pôde voltar. E duvido que Tamlin algum dia se esqueça daquele som também. E fará tudo dentro de seu alcance para protegê-la daquele perigo de novo, mesmo isso que signifique guardar segredos, mesmo que signifique seguir regras das quais você não goste. Nisso, Tamlin não será flexível. Então, não peça que ele o seja, ainda não.

Eu não tinha palavras na mente, no coração. Dar tempo a Tamlin, deixar que ele se ajustasse... Era o mínimo que eu podia fazer.

Os ruídos da construção se sobrepuseram ao canto dos pássaros da floresta muito antes de colocarmos os pés na aldeia: martelos em pregos, pessoas disparando ordens, gado mugindo.

Saímos do bosque e encontramos uma aldeia sendo reconstruída: lindas e pequenas construções de pedra e madeira, estruturas improvisadas cobrindo os suprimentos e o gado... As únicas coisas que pareciam totalmente terminadas eram o grande poço no centro da cidade e o que parecia ser uma taverna.

Às vezes, a normalidade de Prythian, as semelhanças extremas entre ela e as terras mortais, ainda me surpreendia. Eu podia muito bem estar na minha aldeia, em casa. Uma aldeia muito melhor e mais nova, mas a disposição, os pontos principais... Todos os mesmos.

E me senti tão deslocada quanto nas terras mortais quando Lucien e eu cavalgamos para o coração do caos e todos pararam de trabalhar ou vender ou perambular para nos olhar.

Olhar para mim.

Como uma onda de silêncio, os sons das atividades morreram até mesmo nos cantos mais afastados da aldeia.

— Feyre Quebradora da Maldição — sussurrou alguém.

Ora, esse era um novo nome.

Eu estava grata pelas longas mangas da minha roupa de cavalgar e pelas luvas combinando, que eu colocara antes de entrarmos nos limites da aldeia.

Lucien aproximou a égua de um macho Grão-Feérico que parecia encarregado de construir uma casa no entorno do poço.

— Viemos ver se precisam de alguma ajuda — disse ele, alto o suficiente para que todos ouvissem. — Nossos serviços são seus pelo dia.

O feérico empalideceu.

— Estou grato, meu senhor, mas nenhuma ajuda é necessária. — Os olhos dele me percorreram, arregalando-se. — A dívida está paga.

O suor nas palmas de minhas mãos pareceu mais espesso, mais quente. Minha égua bateu com o casco na rua de terra vermelha.

— Por favor — disse Lucien, fazendo uma reverência graciosa com a cabeça. — O esforço para reconstruir é nosso fardo também. Seria uma honra.

O macho sacudiu a cabeça.

— A dívida está paga.

E assim foi em todos os lugares em que paramos na aldeia: Lucien desmontava e pedia para ajudar, e recebia rejeições educadas e reverentes.

Em vinte minutos, já estávamos cavalgando de volta para as sombras e para o farfalhar do bosque.

— Ele permitiu que você me trouxesse hoje — comecei, com a voz rouca — para que eu deixasse de pedir para ajudar a reconstruir?

— Não. Decidi trazê-la eu mesmo. Exatamente por esse motivo. Não querem ou precisam de sua ajuda. Sua presença é uma distração e um lembrete do que eles passaram.

Encolhi o corpo.

— Mas não estavam Sob a Montanha. Não reconheci nenhum deles.

Lucien estremeceu.

— Não. Amarantha tinha... campos para eles. Os nobres e os feéricos abastados podiam morar Sob a Montanha. Mas, se o povo de uma corte não estivesse trabalhando para trazer mercadoria e comida, era trancafiado em campos em uma rede de túneis abaixo da Montanha. Milhares deles, entulhados em câmaras e túneis sem luz, sem ar. Por cinquenta anos.

— Ninguém jamais disse...

— Era proibido falar nisso. Alguns deles ficaram loucos, começaram a predar os demais quando Amarantha se esquecia de ordenar que os guardas os alimentassem. Alguns formaram bandos que percorriam os campos e faziam... — Lucien esfregou a testa com o polegar e o indicador. — Eles fizeram coisas terríveis. Agora, estão tentando se lembrar de como é ser normal... de como viver.

Bile queimou minha garganta. Mas esse casamento... sim, talvez fosse o começo dessa cura.

Mesmo assim, um cobertor parecia sufocar meus sentidos, abafando som, gosto, sensação.

— Eu sei que você queria ajudar — disse Lucien. — Sinto muito.

Eu também sentia.

A imensidão de minha agora infinita existência se escancarava diante de mim.

Deixei que me engolisse por completo.