Dexter: Em Cena
Capítulo 6
A MESA DE DEBORAH FICAVA EM UMA ÁREA NO SEGUNDO ANDAR, onde os tiras da Homicídios se reuniam. Assim como eu, ela mantinha uma cadeira de armar para suas visitas; quando abri caminho para Robert, a cadeira estava ocupada por Jackie Forrest. O cabelo dela estava puxado para trás em um rabo de cavalo bem firme, que não conseguia ocultar o brilho que parecia emanar de cada um dos fios. Não dava para dizer se ela estava usando maquiagem, mas seu rosto era macio e sem marcas, os olhos brilhando com inteligência e humor, tão perfeita que poderia ter sido um tipo de imagem idealizada do que o DNA era capaz se ele se esforçasse. Ela ergueu o olhar quando entramos e me lançou um sorriso luminoso, depois se voltou com um uma careta de desagrado ao ver Robert me acompanhando como uma sombra.
– Por que você demorou tanto? – perguntou Deborah. Fiquei sensibilizado com o calor da recepção.
– O tráfego estava uma droga – respondi. – E como foi o seu fim de semana?
Ela arrancou o arquivo do caso da moça da minha mão e o jogou sobre a mesa, dizendo:
– Essa porra desse caso.
Eu tinha imaginado que Deborah se sentiria incomodada com a brutalidade pouco usual desse assassinato, o suficiente para levá-la a querer fazer algo a respeito – mas, tecnicamente falando, ela não podia.
– Achei que o caso era do Anderson – falei.
– O Anderson não seria capaz de encontrar um oceano de merda se estivesse nadando nele – ela falou.
– O detetive Anderson? – disse Robert. – Ele parece ser um cara legal.
Deborah lançou um olhar rápido na direção dele; Jackie revirou os olhos. Adotei uma postura mais civilizada e simplesmente o ignorei.
– Bom – eu disse –, até mesmo o Anderson tem de ter sorte uma hora. E é o caso dele.
Debs fez um gesto irritado com a cabeça.
– Ele teve o fim de semana inteiro e não conseguiu nem identificar a moça – ela disse, e eu pisquei, surpreso. Identificar a vítima era o passo inicial mais básico, e deixar que 48 horas se passassem sem saber quem ela era parecia levar a Arte do Não Saber Nada a uma proporção épica.
– Isso é incrível – eu disse, e como conhecia minha irmã muito bem, acrescentei: – Então, o que você vai fazer a respeito do assunto, indo contra todas as ordens e os regulamentos do Departamento?
Deborah olhou para o arquivo em sua mesa, e depois para Jackie. As duas compartilharam um momento que não fui capaz de compreender.
– Eu nunca iria contra as ordens ou os regulamentos do Departamento – ela falou, o que não combinava muito com a história, pela experiência. Mas Debs disse isso com a cara impassível. E daí me olhou e, maravilha das maravilhas, ela sorriu. Era tão pouco característico dela que, por um momento, eu pensei que deveria estar possuída por demônios e quase dei um passo para trás para me proteger. Mas ela não lançou nenhuma fagulha de fogo, nem mesmo ficou falando coisas desconexas. Apenas continuou a sorrir e deu uma balançadinha de cabeça na direção de Jackie.
– Jackie pensou nisso – ela disse, e se voltou para olhar a atriz novamente. Dessa vez, os sorrisinhos afetados que trocaram eram claramente de uma grande satisfação mútua. – Vamos fazer uma investigação de mentira, para ensinar a Jackie como a coisa é feita – Deborah continuou, e então as palavras dela soaram com uma cadência estranha, como se estivesse lendo algo em um relatório oficial. – Dessa maneira, acompanharemos a verdadeira investigação do Departamento, sem interferir no processo oficial ou comprometer a liderança do policial encarregado da investigação, e, ao mesmo tempo, construiremos uma simulação válida e compararemos os nossos resultados com aqueles obtidos pelo detetive Anderson, o que possibilitará que a pessoa em questão, srta. Forrest, compreenda as sutilezas de uma investigação de homicídio e toda a complexidade de seus procedimentos, assim como tais fatos são conduzidos em tempo real pelo Departamento de Polícia de Miami-Dade. – Ela me olhou de novo, ainda sorrindo. – Bem legal, né? Vou conseguir ficar por perto do detetive Cabeça de Merda e seguir os passos desse retardado, e Matthews não vai poder dizer nada, porque eu estou fazendo exatamente o que ele me mandou fazer.
– Além do mais – disse Jackie –, se nós realmente conseguirmos alguma coisa...
– Quando nós conseguirmos alguma coisa – corrigiu Deborah.
– Isso vai ser uma publicidade espetacular. Para o seriado E para o Departamento.
Olhei para Jackie com novo respeito.
– Inteligente – eu disse, e ela me dirigiu um sorriso que me fez ficar com vontade de cantar.
– Então – disse Deborah, me arremessando de volta para a realidade –, eu queria passar todos os procedimentos com você e ver o que nós temos. – Ela bateu com o dedo no arquivo. – Começando com a parte forense. – Deu outro sorriso idiota para Jackie. – Você sabe. Para que Jackie possa ver como a coisa funciona.
– Na teoria – disse Jackie com o mesmo sorriso idiota.
– Correto – disse Deborah.
Eu estava muito satisfeito ao ver que minha irmã tinha arrumado uma nova Melhor Amiga Para Toda A Vida, mas a atitude delas de Nós Não Somos Uma Graça estava começando a ficar um pouquinho cansativa. Felizmente para mim, Robert também pensava a mesma coisa, e ele não tinha tantas reservas para falar isso em voz alta.
– Opa, espera aí – ele disse. – Eu preciso entrar nessa também. – Deborah o olhou sem a menor expressão e Jackie ficou muito interessada nas unhas das suas mãos. – Quer dizer – ele falou esse é o jeito perfeito para eu aprender as coisas também, certo?
Deborah olhou rapidamente para mim, e então para Robert, dizendo, sem a menor entonação:
– Claro.
– Ótimo – disse Robert. Ele se recostou no peitoril da janela e cruzou os braços sobre o peito, claramente um homem assumindo o comando das coisas. – Então, o que meu personagem faz em primeiro lugar?
– Qualquer coisa que eu diga que ele tem de fazer – disse Jackie, e eu a encarei. Ela deu de ombros. – Eu sou a detetive. Minha personagem é. Então, é o meu caso. Você está aqui apenas para me dar pistas.
Robert fez uma cara muito infeliz. Descruzou os braços e colocou as mãos nos bolsos.
– Tudo bem, claro – ele disse. – Mas isso é, quer dizer... Eu preciso ter algum tipo de... Quer dizer, meu personagem tem de ter, você sabe, respeito.
O rosto de Jackie ficou rígido. Ela deu um tapa na mesa.
– O respeito é conquistado – ela falou. – Então, o que você tem para me dizer?
A boca de Robert se escancarou e depois se fechou. Ele tinha o ar de um homem que havia acabado de levar um sermão – e dos grandes. Eu, por outro lado, percebi o que Jackie estava fazendo. Era uma imitação praticamente perfeita de Deborah, e eu estava bastante impressionado.
– Caramba – eu disse. – Essa foi boa. Do jeito dela.
Jackie soltou uma risada baixa e radiante, que fez com que os dedos dos meus pés se contorcessem, e me deu um grande sorriso.
– Obrigada – ela disse. – A sargento Morgan... Sua irmã... nós trabalhamos durante o fim de semana. No Bennies. – O Bennies era um bar de tiras, local onde os policiais fora do expediente costumavam se encontrar, e às vezes davam uma parada lá para beber alguma coisa rapidamente enquanto estavam de serviço. A clientela era conhecida por não ser amigável com não tiras que apareciam por lá. Se Deborah havia levado Jackie para o Bennies, elas tinham ficado ainda mais amigas do que eu havia percebido. – É um lugar muito bom como pano de fundo – disse Jackie. – Preciso mandar os roteiristas lá para conhecer. – Ela piscou para Deborah. – Nós andamos bebendo tequila. Ela não é assim tão durona com umas duas doses por baixo do coldre.
Deborah bufou, mas não disse nada.
– Parece com uma festa – eu disse e, coisa estranha, quase desejei ter sido convidado. – Então, agora que você é mesmo minha irmã, o que gostaria que eu fizesse?
Por um momento pareceu que Jackie ia dizer alguma coisa, mas então mordeu os lábios e pegou o arquivo.
– Vamos para o laboratório – ela disse, e então olhou rapidamente para Deborah. – Está certo?
– Não – respondeu Deborah. – O trabalho do laboratório é só uma porcaria que serve de base.
– Muito obrigado – eu disse.
– Tem alguma coisa aí que seja importante? – perguntou Deborah.
– Marcas de ligadura nos pulsos – falei. – Fibras de náilon provavelmente significam varal para pendurar roupas.
– Que poderiam ter vindo de qualquer mercadinho do mundo – ela falou.
– Ela foi amordaçada com as próprias calcinhas – falei. – Eles as encontraram na caçamba.
– Eu disse importante – falou Deborah. – Tudo isso é uma merda padrão.
– Bom – disse –, não tem nada nela, nada na caçamba, ou nas proximidades, que forneça a menor pista a respeito de quem ela era.
– E isso é o que mais precisamos fazer – falou Deborah. – Identificar a vítima.
– Por que é tão importante assim? – perguntou Robert, e as duas mulheres viraram as cabeças e lançaram para ele expressões idênticas de desdém. Robert parecia estar muito desconfortável. – Quer dizer – ele falou –, a evidência forense é, vocês sabem. Tem um monte de coisa ali. – Ele apontou para o arquivo. – Nós podemos conseguir assim, você sabe, uma impressão digital.
– Nós conseguimos – disse Deborah. – Para falar a verdade, nós conseguimos umas três dúzias de impressões digitais. Sempre conseguimos um monte de impressões digitais. Você sabe quantas vezes prendemos alguém por causa de impressões digitais?
– Não – disse Robert. – Quantas?
– Em números redondos? Zero – disse Deborah. – Mesmo quando ela é idêntica à do criminoso, um advogado decente acaba com ela na hora. Impressões digitais servem para o Sherlock Holmes.
– Não estou bem certo de que ele as tenha usado – eu disse, tentando ajudar.
– Ah, ele usou – disse Jackie. – Tinha um conto, eu esqueci o nome, mas ele pegou o cara por causa das impressões digitais.
– Para pegar um assassino na vida real – Deborah prosseguiu, paciente –, você precisa ter informações sobre a vítima. Porque em 99% das vezes eles se conhecem, foram vistos juntos, têm alguma conexão. Então, em primeiro lugar, precisamos saber quem é a vítima.
– Ah, sei – disse Robert. – Bom, como nós descobrimos isso? Quer dizer, se não dá pra usar impressões digitais, e o trabalho de laboratório é uma droga, o que nós fazemos?
– É – disse Deborah. – Boa pergunta. – E, antes mesmo de ela se voltar para me olhar, eu sabia o que estava por vir, porque, embora nunca fosse admitir isso, sempre que minha irmã estava emperrada, de algum modo isso se tornava meu problema. Eu, às vezes, pensava que ela devia ter uma tatuagem secreta em algum canto do corpo, “OQDF?”, O Que Dexter Faria? E, é claro, enquanto a pergunta de Robert ainda estava ecoando no ar, a cabeça dela virou para o meu lado.
– Dex? – ela disse, com ar de expectativa.
Foi bastante estranho, mas foi Robert que conseguiu um jeito de dizer o que eu estava pensando.
– Por que o Dexter? – ele perguntou, e eu me senti com vontade de aplaudir. – Quer dizer, ele faz o serviço de laboratório, e você disse que isso era inútil, então... você sabe – ele disse, me olhando. – Não que eu pense que você é inútil, ou qualquer coisa desse tipo, amigão. Mas o que ele pode fazer?
Deborah encarou Robert, o tempo suficiente para deixá-lo desconfortável, antes de responder:
– Às vezes, Dexter tem esses... insights – ela falou. – Sobre o assassino.
É um fato comprovado pela ciência que a maior parte das situações na vida vai de mal a pior – eu acredito que isso se chame entropia. Qualquer cientista que por acaso estivesse nos observando naquele momento teria ficado silenciosamente satisfeito ao constatar que essa lei natural havia sido comprovada. Como Deborah tinha dito, eu tinha mesmo alguns insights relacionados às doentias e pervertidas criaturas da noite. Mas isso acontecia por eu ser uma delas. Deborah era a única criatura viva com quem eu havia falado sobre o assunto. Afinal de contas, eu não queria as pessoas andando por aí e dizendo coisas como: “Caramba, Dexter pensa igualzinho a um assassino. Por que será?”. Além do mais, como esses pensamentos vinham de um local íntimo, bem lá do fundo das Masmorras de Dexter, discutir isso sempre me fazia sentir como eu se estivesse seminu. Eu achava que minha irmã entendia isso; mas, volta e meia, como agora, ela me jogava nu e me retorcendo sob os refletores.
Robert e Jackie me olharam, e comecei a me sentir ainda mais desconfortável.
– O quê? – disse Robert. – Assim, ele, hum, perfiliza? – Eu nunca tinha ouvido esse verbo antes. Ele não fez com que me sentisse mais à vontade.
– Quase isso – disse Deborah.
– Nossa – disse Jackie, me olhando com novo respeito. – Como você aprendeu a fazer isso?
Com toda a certeza, essa era exatamente a pergunta que eu não queria responder. A única resposta honesta não era algo que, em minha opinião, desse para eu discutir com Jackie. Então, dei o melhor de mim para desviar a conversa para algo um pouco menos pessoal.
– Ah – eu disse, com ar modesto –, eu assisti a aulas de psicologia na faculdade. Suponho que você deu uma olhada na lista de Pessoas Desaparecidas, não é, maninha?
Deborah fez um gesto depreciativo com as mãos.
– A primeira coisa que nós fizemos – ela disse. – O que é isso, Dex? Vamos falar sério. – Ela apoiou os braços nas coxas e se inclinou na minha direção. – Eu quero mesmo botar esse desgraçado na cadeia e quero encontrá-lo antes de Anderson fazer uma merda com tudo. E antes que esse cara faça isso de novo. Porque você sabe que ele vai fazer isso de novo.
– Provavelmente – eu falei, passando por cima da vozinha insidiosa dentro de mim que estava dizendo com uma risadinha: É Praticamente Certo Que Vai.
– Então, vamos lá – disse ela. – Me dê alguma coisa para prosseguir. – Ela ficou me olhando com firmeza, sem piscar, e, algo ainda mais perturbador, Jackie se inclinou para o meu lado e fez exatamente a mesma coisa. Eu estava rodeado de Deborahs, todas elas impacientemente esperando que eu fizesse um milagre. Era uma expectativa grande demais para um único e solitário Diletante das Trevas, não importava que a malvadeza dele fosse justa. Felizmente para mim, Robert ofereceu a perfeita contrapartida ao cruzar de novo os braços e se recostar uma vez mais, com uma expressão de ceticismo em seu rosto.
– Ei, o que é isso? – ele disse. – Fazer perfis é uma coisa séria pra cacete. Quer dizer, os caras do FBI fazem isso, leva anos, e, mesmo assim, só acertam, tipo, metade das vezes. – Todos o olharam, o que foi um grande alívio para mim. Ele deu de ombros. – Bom, então, só estou dizendo.
– Dexter faz um pouquinho melhor do que isso – retrucou Deborah.
– Muito legal – disse Jackie. Ela me deu um sorriso encorajador, e eu não conseguia decidir se ia cair aos pés dela e deixá-la fazer carinho atrás da minha orelha, ou dar umas bordoadas na minha irmã por ter mencionado o assunto.
– Tudo bem, então – disse Robert. A voz dele tinha um tom ligeiramente desafiador, como se tivesse decidido que nós todos estávamos contra ele, e então poderia contra-atacar. Ele esticou o queixo na minha direção. – Vamos ver alguma coisa.
Realmente, era muita consideração da parte dele me proporcionar uma motivação para fazer alguma coisa além de desejar que eu estivesse bem longe dali. O jeito Então-Me-Mostre era tão irritante que quase me fez esquecer o fato de eu não estar com muita vontade de falar a respeito de uma coisa tão pessoal, porque eu queria muito dizer alguma coisa maravilhosa que fizesse o queixo dele cair no chão.
– Bom – Pensei no corpo assim como eu o tinha visto: a extensão dos ferimentos, a estranha mistura de cortes profundos, mordidas, pancadas e, é claro, aquela violência ótica final. Todos estavam me olhando, e percebi que eu tinha de dizer alguma coisa. – Tudo, hum... tudo começa com os olhos...
– Tudo bem – disse Deborah com ar de expectativa. – O que é que tem com eles?
– Eles são a coisa mais importante – eu falei. – O que o assassino está tentando dizer a respeito de ela ver. E de, hum, não ver.
Deborah bufou.
– E eu não sei disso? O que eu quero dizer é: ele arranca o olho dela e enfia a porra dele na cavidade ocular, e devo pensar que isso é um acidente? Eu sei que ele a cegou, então, ele tinha um problema com os olhos. E daí?
– Mas é exatamente isso, Debs – eu falei.
– É o quê? – quis saber Jackie, soando muito parecida com Deborah.
– Ele não a cegou – eu falei. – Ele a deixou com um olho perfeito. Ele queria que ela visse o que ele estava fazendo.
– Merda – murmurou Robert.
– E ainda não sei o porquê, ou o que isso significa – Deborah rosnou, voltando a ser a pessoa mal-humorada de sempre.
– Tudo para ele gira ao redor disso – eu falei e senti um suave sussurro de encorajamento do Passageiro, quase como se ele estivesse murmurando: Muito bem, continue... – Visão, observar, ver... Tudo se relaciona a isso. Não é apenas parte disso tudo, é o ponto central.
– E que porra isso quer dizer? – perguntou Deborah bruscamente.
– Ainda não tenho certeza – eu disse, e Robert pigarreou para indicar que ele não ia dizer o que estava pensando.
– Eu não estou entendendo – falou Jackie. – O que quero dizer é, tudo bem, essa história da cavidade ocular. Mas como isso diz alguma coisa além do fato de ele ser um desgraçado doentio?
– Você tem de tentar entrar na cabeça dele – eu falei e inspirei profundamente. – Tentar imaginar o que ele estava pensando.
– Eu preferiria não fazer isso – disse Jackie em voz baixa, mas eu já estava ouvindo o distante murmúrio das asas e o lento crescer das sombras. Cerrei os olhos e tentei ver aquilo, vasculhando bem no fundo do Subterrâneo Sombrio e acariciando a coisa que se desenrodilhava lá, afagando-a, até que ela ronronou, se esticou e saltou no negro céu interno e me mostrou todas as imagens do prazer da Noite Perpétua...
E eu a vejo, vejo como ela se contorce, geme, se retorce selvagemente contra as cordas, lutando para soltar um grito que vá além da mordaça, não vendo nada além de sua morte iminente, nem mesmo vendo a suprema importância do Porquê daquilo, a razão pela qual aquilo tinha de ser, o Eu que está fazendo isso com ela porque ela se recusou a perceber – e mesmo agora os olhos dela estão fixos na faca e não na mão que a segura, e eu preciso fazê-la ME ver para fazer com que ela preste atenção em MIM, e eu deixo a faca cair e me aproximo, mais direto, mais íntimo, e começo a usar as mãos, os pés, os dentes – e, mesmo assim, ela não vai ME ver, e então eu a agarro pelos cabelos, aquele perfeito cabelo dourado, e forço o rosto dela para olhar e ela tem de ME ver, afinal.
E ela me vê.
Ela me vê. Pela primeira vez, ela olha para MIM e ME vê e sabe quem eu realmente sou, e, finalmente, finalmente, posso mostrar-lhe que me importo com ela como ninguém jamais poderia se importar, mostrar-lhe que isso tinha de acontecer, que tudo deveria acontecer assim, e, finalmente, finalmente, posso mostrar-lhe minha Verdade, meu Ser, minha Razão de Existir.
Eu posso mostrar para ela o meu amor.
E para que eu saiba que ela sempre vai ver o meu amor, arranco o olho dela e o mantenho comigo para sempre, para que eu possa me lembrar também.
E para que ela VEJA total e completamente como eu a amo, coloco meu amor ali onde o olho dela ficava.
E então foi a consumação. E sinto a tristeza de novo. Porque nada dura para sempre. Mas o amor deveria durar para sempre, e eu quero que esse amor perdure. E para que ela entenda isso, e para que esse amor dure para sempre e nunca possa mudar e nunca termine, e para que ele nunca possa ser nada além dele mesmo, há mais uma coisa. Nada mais pode acontecer que vá macular esse amor incomparável ou fazer com que esse momento perfeito seja menos que infinito. É importante.
E então eu a mato.
Alguém pigarreou; eu abro os olhos. A primeira coisa que vejo é Jackie. Ela estava me olhando com uma expressão muito estranha no rosto, uma mistura de fascínio e de pavor, quase como se tivesse escutado os murmúrios suaves e semelhantes ao couro que ainda estavam flutuando em meu cérebro.
– O que foi? – perguntei.
Ela abanou a cabeça. O rabo de cavalo dela balançou para um lado e então voltou para a posição inicial.
– Não é nada – ela disse. – Eu só... – Ela mordeu o lábio e franziu as sobrancelhas. – Onde você esteve agora?
– Ahn – eu disse, e dava para eu sentir o rubor subindo à minha face. – Eu, hum, é difícil explicar.
Deborah soltou uma risadinha, o que achei extremamente descortês.
– Tente – ela falou. – Eu também gostaria de ouvir.
– Bom, hum – eu falei, o que não estava bem à altura dos meus altos padrões de sagacidade. – Eu, hum... eu tento imaginar, vocês sabem. O que o assassino estava pensando e sentindo.
Jackie ainda estava olhando fixamente, ainda estava franzindo as sobrancelhas. Ela não havia sequer piscado.
– Hm-hum – ela disse.
– Hum – eu falei, ainda me movendo desajeitado no meio de insípidos monossílabos. – Então, você sabe. Eu trabalho em retrospecto a partir do que podemos ver. Usando o que eu sei. O que quero dizer é – acrescentei rapidamente –, o que sei a partir de pesquisas, e, hum, por estudar essas coisas. Em livros e...
– Trabalhar em retrospecto – disse Jackie. – Exatamente o que isso significa?
– É... você sabe – eu disse, me sentindo excepcionalmente desajeitado. – Existe alguma coisa única relacionada a cada assassino, então você tenta ver o que levaria alguém a fazer aquilo.
Finalmente Jackie piscou.
– Tudo bem – ela disse. – E, desta vez, ele arrancou o mamilo dela. E isso diz o que para você?
– Depende de como ele foi arrancado – eu falei. – Se foi arrancado com uma lâmina, quer dizer, estou punindo você por ter mamilos, e agora você não tem.
– Ele foi arrancado com uma mordida – disse Deborah. – O que isso quer dizer?
– Eu te amo – eu disse sem pensar, mas um sibilar satisfeito do Passageiro disse que eu tinha razão.
Deborah emitiu um ruído que parecia o de limpar a garganta, e Robert murmurou:
– Mas que porra.
Jackie, contudo, parecia absolutamente chocada.
– Eu te AMO? – ela disse. – Ele arranca o mamilo dela com uma mordida para dizer eu te amo?
– É, hum – eu falei. – Não é de jeito nenhum um amor normal, como poderíamos pensar.
– Não diga merda – disse Deborah.
– Mas o caso todo com esse cara está relacionado ao sexo – eu falei. Eu me senti um pouco na defensiva e não sabia muito bem a razão. – É uma mistura de compulsão, de sexo e de amor, e é algo tão poderoso e tão frustrante que ele nem consegue expressar isso a não ser, hum – eu dei de ombros –, fazendo como ele fez.
Dei uma olhada na minha pequena audiência. Deborah havia retomado sua habitual cara impassível de tira, e Robert estava com cara de quem tentava com todas as forças não soltar uma gargalhada. Mas Jackie olhou para bem longe de mim, em algum lugar na grande distância sobre os meus ombros, e lentamente começou a fazer um gesto positivo com a cabeça.
– Eu acho que consigo entender – ela disse.
Deborah balançou a cabeça, incrédula.
– Você consegue? – ela disse. – Caramba, como você consegue?
Jackie olhou-a.
– É quase como atuar – ela falou. – O que eu quero dizer é: como quando você está fazendo uma personagem de Shakespeare. Ele não diz nada no texto, como você deve reagir, ou como dizer as coisas. Então, você olha o que ele quer que você faça, o que ele quer que você diga, e trabalha em retrospecto a partir disso. – Ela se virou e me dirigiu um sorriso rápido. – Assim como Dexter disse.
O calor que eu estava sentindo no rosto subitamente desceu para o peito. Alguém me entendia. Jackie entendia o que eu havia feito. Era tão absurdamente improvável que essa deusa da tela prateada fosse entender qualquer coisa, quanto mais uma coisa como eu, que só consegui ficar parado e olhei para ela e senti um pequeno sorriso de gratidão se insinuar em meus lábios.
Mas, é claro, Robert não ia deixar que eu sentisse qualquer tipo de felicidade verdadeira.
– Oh, pelo amor de Deus – ele falou. – Isto aqui não é a porra do Shakespeare, queridinha. Isto não é o seu maldito TEE-aa-tro. Este é o mundo real. Esse é uma porra de um idiota louco, psicótico, doente da cabeça e cretino que gosta de morder peitos. Brincar de fazer as encenações do Neighbourhood Playhouse em sua cabeça não vai ajudar a pegá-lo.
– E nem vomitar a cada vez que você vê um pouquinho de sangue vai ajudar, Bob – disse Jackie com doçura.
Robert abriu a boca, fechou-a, e então a abriu de novo. Mas Deborah falou antes que ele pudesse soltar a sua – sem dúvida – resposta mordaz.
– Tudo bem, ótimo – ela disse. – Fico feliz por você entender, Jackie. Eu não entendo, mas, que merda, é por isso que aguento o Dexter.
– E a minha assombrosa competência? – eu falei. – E a minha reconhecida perspicácia? E...
– O que ainda não consigo entender – disse Deborah, passando por cima da minha modesta lista de qualidades positivas –, é como tudo isso se conecta com o ponto em que você começou. A respeito dos olhos. Eu acho – ela disse, erguendo a mão para eu não dizer alguma coisa que eu não ia dizer –, tudo bem, ele arranca o olho, ele fode a cavidade ocular e ele mata a moça.
– E mantém o olho – eu falei.
– Você não sabe disso – disse Robert, ríspido.
– Eu acho que sei – eu falei.
– Quase todos esses caras guardam suvenires – disse Deborah, e apreciei o raro momento de ter uma irmã que me dava apoio de vez em quando. – Isso é um fato indiscutível, saído diretamente do livro de regras.
– Então a gente tem de sair procurando um cara que está por aí carregando um punhado de olhos? – disse Robert, com uma expressão de grande desprazer e descrença. – Mas que bosta.
Jackie soltou um suspiro irritado.
– Boa ideia, Bob – ela falou. – Vamos começar a revistar as pessoas e quando nós acharmos alguém com um pacotinho cheio de olhos, é o nosso cara.
– Não fui eu quem começou o assunto – disse Robert, e ele ia acrescentar mais alguma coisa, mas Deborah o impediu.
– Os dois calem a boca, mas que merda. – E os dois ficaram quietos. Ela me olhou. – Quais são as chances de ele ter feito algo parecido antes?
Fiquei pensando no assunto.
– Muito grandes – respondi. – Talvez não muitas, mas quase com certeza uma ou duas, antes.
Jackie franziu as sobrancelhas e inclinou a cabeça para o lado.
– Como você sabe disso? – ela perguntou.
– A primeira vez não poderia ser assim, hum... tão completa – eu falei. – Só o fato de matar pela primeira vez seria muito perturbador, muito poderoso. Ele iria passar rapidamente por todo o processo, e então entrar em pânico e fugir, apressado. Mas então ele não é pego, e começa a pensar no que deveria ter feito... – Acenei na direção dela, quase subjugado pela ideia de que ela compreendia. – Você sabe.
– Sim – ela falou. – E então ele pensa: Foi rápido demais, eu não fui pego... Da próxima vez eu vou tentar isto... – Os olhos dela se perderam na distância outra vez enquanto ela via tudo. Observá-la dava um prazer imenso, um prazer que foi rapidamente destruído, é claro, por Deborah.
– Tudo bem – disse minha irmã. – Vamos colocar isso na rede, e ver se tem alguma coisa parecida por aí.
– E para quê? – perguntou Robert. – Quer dizer, mesmo que ele tenha feito isso antes, ninguém o pegou.
– Uma apreensão verdadeiramente penetrante do óbvio – disse Jackie.
– Vai muito além do trabalho de detetive vidente – disse Robert, com ar de raiva.
Deborah me olhou e balançou a cabeça, cansada.
– Tire ele daqui – ela falou.