Dexter: Em Cena
Capítulo 10
SE VOCÊ É JACKIE FORREST E ESTÁ HOSPEDADA NO GROVE ISLE HOTEL, você não tem o mesmo tipo de serviço de quarto com o qual as pessoas normais têm de se virar, até mesmo pessoas normais muito ricas. Já estive hospedado em alguns bons hotéis, mas sempre leva entre uma hora e três dias para a gente receber uma resposta ao solicitar o serviço. E quando a ajuda aparece, é normalmente um homem grosseiro com um problema sério nas costas, que somente fala urdu e se recusa a compreender a mais simples das solicitações, a não ser que ele veja notas de dólares de um valor muito alto.
Mas, para Jackie, o hotel havia, aparentemente, contratado um time de velocistas olímpicos com uma necessidade patológica de ser agradável. Trinta segundos depois de Jackie ter telefonado pedindo um serviço de limpeza, apareceu um trio de moças, ansiosas e sorridentes. Elas usavam crachás do hotel que traziam os nomes NADIA, MARIA e AMILA, e caíram sobre a poça como se estivessem morrendo de fome e aquilo fosse maná em vez de urina, enquanto a Pobre da Kathy ainda estava cambaleando para se afastar da porta e desabando em uma cadeira.
Uma das camareiras, Amila, era um tipo estranhamente familiar, e eu fiquei olhando-a por mais tempo do que alguém deve ficar olhando uma camareira de hotel que está limpando urina. Ela ergueu os olhos e sorriu para mim, e então balançou a cabeça, seu cabelo dourado oscilando de um lado para o outro.
– Eu cortei meu cabelo como Chackie – ela disse, tímida, com um sotaque muito forte de algum país do Leste Europeu. – Estrela muito importante, certo? – Ela olhou rapidamente para a cadeira em que Jackie estava acalmando os nervos da Kathy.
E, com certeza, era verdade. Amila havia mandado cortar o cabelo exatamente como Jackie, o que explicava por que ela parecia familiar.
– É muito bonito – eu falei, e Amila ficou vermelha e voltou sua atenção para o esfregão.
Ela e suas companheiras de trabalho haviam limpado nosso pequeno incidente em questão de minutos. Colocaram o copo do Starbucks, as chaves e o celular em uma mesa de canto e desapareceram, ainda sorrindo, e não deixando para trás mais do que um agradável aroma de limão, antes que Kathy conseguisse dizer “oh, Deus” mais de duas vezes. Amila parou rapidamente à porta e olhou avidamente para Jackie. Tocou seus cabelos, suspirou e desapareceu no hall.
Kathy disse “oh, Deus” mais umas vinte ou trinta vezes enquanto Jackie falava com ela em voz baixa em uma tentativa de acalmar seus nervos esfrangalhados. Tenho certeza de que é muito perturbador ter uma pistola pressionada contra sua orelha, mesmo uma arma tão legal quanto a Glock, mas, depois de uns cinco ou seis minutos de uma monótona miséria monos- silábica, eu comecei a pensar se a Kathy não estaria exagerando um pouco. Eu não tinha chegado a atirar nela; não tinha feito nada além de agarrá-la e de apontar a pistola. Mas, do jeito que estava fazendo, qualquer um ia pensar que eu havia arrancado o fígado dela e oferecido um pedacinho.
Entretanto, ela finalmente se acalmou o suficiente para deixar de dizer “oh, Deus” – e no mesmo instante passou a ficar me encarando falando:
– Seu filho da mãe. Seu horrível filho da mãe. Oh, seu filho da mãe.
Jackie me deu uma olhada rápida, para ver se eu me importava com linguagem de baixo calão e, quando dei de ombros, ela me lançou um sorriso rápido e voltou a acalmar Kathy.
– Dexter está aqui para me proteger, Kathy – ela disse. – Sinto muito, foi minha culpa, eu deveria ter dito para ele que você estava chegando.
– Oh, Deus, esse filho da mãe – disse Kathy, combinando de modo inteligente suas duas cantilenas irritantes.
– É minha culpa – disse Jackie. – Me desculpe.
– Meu celular! – disse Kathy, com voz estrangulada e pulou da cadeira.
– Meu Deus, se você estragou meu celular...!
– Tenho certeza de que está tudo bem – disse Jackie.
Kathy foi voando até a mesa de canto, onde Amila havia colocado suas coisas.
– Todos os seus compromissos! A lista de contatos... Tudo! – Ela agarrou o celular e Jackie seguiu-a e pegou-a pelo braço, trazendo-a de volta para a cadeira. Mas Kathy se recusou a se sentar até ter certeza de que o celular não fora danificado ao ter sido exposto à sua urina.
– Funciona – finalmente ela disse. – Oh, graças a Deus, ele ainda está funcionando. – E me lançou um olhar ainda mais severo, como se fosse eu que tivesse urinado nele. – Filho da mãe.
– Tudo bem, Kathy, nós estamos todos bem agora, está tudo bem – murmurou Jackie.
Vários outros minutos se passaram até que Kathy se acalmasse o suficiente para retomar um comportamento humano normal. Passei o tempo recolocando minha Glock no coldre, fechando a porta e me sentando em uma cadeira no lado oposto ao de Kathy e sua entediante crise de nervos. Mas até mesmo as coisas mais irritantes devem ter um fim, e Kathy acabou lembrando que ela era, afinal de contas, uma empregada – e uma que havia molhado as calças na frente da patroa, além de tudo. Ficou em pé e começou a balbuciar desculpas para Jackie, alternando-as com olhares venenosos para mim. Arrumou a pilha de papéis que havia trazido, relembrou Jackie a respeito de algumas entrevistas por telefone na manhã seguinte, e por fim saiu tropeçando pela porta, indo embora com um último olhar furioso para mim.
Fechei a porta quando ela saiu e me voltei para ver que Jackie estava me observando com um tipo de cautela divertida.
– O que foi?
Ela balançou a cabeça.
– Nada – ela disse. – É só que... sinto muito por tudo que aconteceu. Pobre da Kathy, ela é realmente dedicada a mim. E muito competente no que faz.
– Ela deve ser – eu falei. – Se você permite que ela faça xixi no seu chão.
Jackie soltou uma risadinha que era tão contagiosa quanto surpreendente, e percebi que eu estava sorrindo como resposta.
– Ela fez mesmo, não fez? – disse Jackie.
– Se ela não fez – falei –, o café do Starbucks está indo de mal a pior.
Jackie soltou outra risadinha e ia se sentando na cadeira onde Kathy estivera sentada, mas interrompeu o gesto no meio e se endireitou com um movimento brusco.
– Oh! – ela disse. – Isso é, hum... Acho que vou preferir uma cadeira com um assento seco.
– Boa ideia – eu disse e fiquei olhando Jackie ir até uma ponta do sofá, onde se sentou e ficou relaxada em um abandono contente.
Ela suspirou e deu uma olhada no monte de papéis que Kathy havia empilhado no canto da mesa. Imediatamente, ficou tensa; seus ombros se ergueram um pouco e o sorrisinho desapareceu de seu rosto.
– As cartas – disse ela.
Pode ter sido a tensão de ter sido chamado de filho da mãe tantas vezes, mas não entendi o que ela estava querendo dizer.
– Quais cartas? – perguntei.
Jackie acenou na direção dos papéis.
– Dele – ela falou. – Do maluco. Kathy as trouxe pra você.
– Ah – eu disse. Era muita consideração da parte dela, embora eu realmente não as quisesse.
Jackie continuou a olhar o monte de papéis com uma expressão a meio caminho entre o ódio e a ansiedade.
Quando nada mais aconteceu por um longo minuto, eu pigarreei, educado.
– Bem – falei –, nós podemos pedir o jantar?
Jackie me olhou com uma expressão que não consegui entender, por um momento longo demais, antes de finalmente dizer:
– Tudo bem.
O jantar foi uma ocasião um tanto sombria. O espírito de camaradagem e de falta de compromisso da hora dos drinques havia desaparecido, e Jackie passou a maior parte da refeição encarando seu prato, mexendo na comida sem chegar a comer muita coisa. Aquilo era uma pena, porque era realmente muito boa. Eu havia pedido tournedos; eu sempre tinha imaginado o que seria um tournedos, e quando vi o prato no menu resolvi que não havia ocasião como a atual para descobrir. Sabia que era um tipo de carne de vaca, então parecia uma aposta com pouco risco, e acabei descobrindo que eram dois pedaços de carne muito saborosa, cozidos em um molho de vinho e manga. Eu tinha quase certeza de que a manga não fazia parte da receita original – afinal, como é que se diz “manga” em francês? –, mas era um toque extra muito agradável, e eu não tive a menor dificuldade para comer tudo, incluindo uma montanha de purê de batatas com alho e uma porção de brócolis, cozidos à perfeição.
Jackie havia pedido caranguejos; pelo menos, o prato lhe havia sido trazido. Abriu uma das patas e deu umas cutucadas nela por uns instantes, antes de pegar um bocadinho, sem nem ao menos mergulhá-lo na manteiga derretida. Também comeu um pouquinho de aspargos grelhados e meia colher de arroz selvagem. De modo geral, entretanto, ficou perfeitamente claro que ela estava tendo problemas com a ideia de comer. Por alguns momentos, fiquei pensando se ela me acharia rude se eu me oferecesse para terminar a refeição no lugar dela – afinal, caranguejo não cresce em árvores. Mas, depois de uma reflexão ponderada, decidi que não era a melhor opção.
Essa foi a última ocasião para uma reflexão ponderada de qualquer tipo aquela noite, já que Jackie havia pedido uma garrafa de vinho para cada um de nós – tinto para acompanhar meus tournedos, e branco para acompanhar seu caranguejo. A timidez que exibiu em relação à comida sólida não se estendeu ao vinho, e ela já havia tomado uns três quartos da garrafa quando afastou o prato. Somando com o mojito que havia bebido antes, isso deveria tê-la deixado muito tonta, mas os movimentos dela pareciam perfeitamente normais, e sua fala não ficou enrolada, apesar de ter falado pouco. Durante a primeira parte da refeição, eu realmente não percebi como ela estava quieta, já que toda minha atenção estava concentrada no prato. Mas, quando os felizes sons de mastigação começaram a diminuir, tomei consciência de que nenhuma conversa surgiu para ocupar o lugar deles e observei enquanto Jackie ficava curvada sobre seu prato em um silêncio taciturno e brincava com sua comida sem comê-la.
E nem mesmo a excelente sobremesa melhorou o estado de espírito dela. Eu havia pedido algo chamado Bolo de Lava Decadente, que era muito bom, embora a decadência tivesse escapado à minha observação. Jackie havia pedido um tipo de crème brûlée, mas, uma vez mais, ela não o comeu. Pegou um pedacinho da crosta caramelizada do topo e a mastigou ruidosamente, nada mais. Eu comecei a pensar se ela tomava injeções de vitamina em segredo; ela certamente não comia o suficiente para manter uma vida humana.
Os garçons vieram e limparam os infelizes restos da nossa refeição. Fechei a porta quando eles saíram. Jackie ainda estava sentada à mesa em um tipo de moleza introspectiva. Fiquei pensando quanto tempo isso duraria. Fiquei pensando também se eu deveria fazer alguma coisa para ajudá-la a sair daquele estado. Se o fizesse, meu estudo de dramas televisivos diurnos me dava duas opções claras: ou o alívio terapêutico fazendo com que ela falasse a respeito do assunto ou uma conversinha alegre para mudar de assunto. Mas era impossível dizer qual das duas opções era a correta e, de qualquer modo, eu não tinha certeza se aquilo fazia mesmo parte do meu serviço.
E falando sério: qual era mesmo meu verdadeiro papel ali? No começo da noite, tínhamos conversado como dois bons amigos, mas eu não era um amigo – ela provavelmente estava apenas me deixando à vontade. Afinal, ela era uma pessoa rica e famosa – uma estrela, na verdade e eu não era nada mais que um modesto e despretensioso perito forense CDF com um hobby interessante. Tanto quanto eu soubesse, aquela era uma
situação que nem mesmo Emily Post[7] havia abordado, e eu não sabia como proceder. Deveria manter as coisas em um nível formal e profissional, porque eu era um consultor técnico que virara guarda-costas? Ou era agora um empregado – e, como tal, deveria seguir o exemplo de Kathy e fazer xixi no chão? Depois de um mojito e de quase uma garrafa de vinho, essa alternativa estava começando a parecer atraente, mas certamente ela iria conduzir o tom da noite em uma direção incerta; por isso, eu me decidi contra ela.
Então, fiquei ali, incerto, observando Jackie encarar o espaço vazio e sem vida, durante o que pareceu ser uma eternidade. Mas, finalmente, a cabeça dela se ergueu e seus olhos encontraram os meus.
– O que foi? – perguntou.
– Nada – respondi. – Eu só não sabia, hum... – E percebi que eu nem mesmo sabia o que não sabia; então vacilei em um silêncio embaraçoso. Jackie sorriu só com o canto direito da boca, um tipo de compreensão pesarosa.
– É, eu sei – ela disse. – Sinto muito. – Balançou a cabeça. – Acho que não fui uma companhia muito agradável para o jantar.
– Ah, bem – eu disse. – Não tem problema. Quer dizer, o jantar estava ótimo.
Ela sorriu de novo, usando os dois lados da boca dessa vez, embora ainda não parecesse completamente feliz.
– Certo – ela disse. – Fico feliz por você ter gostado. – Ela se levantou e caminhou até a porta de correr que conduzia à varanda, e por uns instantes só ficou lá parada, olhando para fora. Eu estava com medo de que voltássemos àquele silêncio melancólico e comecei a desejar ter trazido um bom livro. Mas, aparentemente, ela viu alguma coisa na baía que a fez ter uma reação; subitamente, ela se voltou e, com um entusiasmo que era claramente forçado, disse:
– Muito bem! É cedo demais para ir dormir. Então, o que podemos fazer?
Aquilo me pegou de surpresa, e pisquei como um idiota.
– Hum – falei. – Eu não sei. – Dei uma olhada ao redor do quarto para encontrar uma dica que não estava lá. – Não estou vendo nenhum jogo de tabuleiro.
– Droga – disse Jackie. – Bem que eu gostaria de uma partida de Banco Imobiliário. – Ela cruzou os braços sobre o peito e inclinou a cabeça para um lado. – Então, o que você faria se estivesse em casa? Com sua esposa e as crianças?
– Ah, provavelmente eu iria assistir televisão – eu disse.
Jackie fez uma careta e disse:
– Eca. – Eu devo ter feito uma cara de surpresa, porque ela deu risada.
– Eu sei. Mas só o fato de fazer seriados de televisão não quer dizer que eu tenha de gostar deles.
– Não? – eu perguntei, e aquilo era bem difícil de imaginar. Quer dizer, eu gosto do meu trabalho, dos dois, na verdade. Por que outra razão eu os faria?
– Não – confirmou Jackie. – Eu acho, tem umas coisas boas de vez em quando. Mas, na maior parte do tempo, eu prefiro ficar olhando a parede. Na verdade, não consigo ver a diferença entre os dois. – Ela deu de ombros.
– É o serviço. Você faz um monte de porcaria, até chegar a uma posição em que tenha a chance de fazer alguma coisa que valha a pena. Mas aí você alcançou a reputação de ser alguém que é muito bom para fazer porcaria, e as coisas boas não acompanham a porcaria, e o dinheiro é bom demais para ser recusado... Ahn – ela disse, estendendo os braços como quem diz “mas que inferno”. – É uma vida boa. Não estou reclamando. – Fez uma careta e houve um silêncio por uns momentos, e então ela deu uma sacudida no corpo e continuou: – Ei, olhe só para mim. Caindo na depressão de novo. – Ela bateu as mãos uma contra a outra. – Foda-se. Que tal uma saideira? – E, sem esperar resposta, ela foi rapidamente para o seu quarto.
Fiquei parado, incerto, por um momento, imaginando se deveria segui-la. Mas, antes que eu pudesse decidir, ela voltou segurando uma garrafa.
– Pegue dois copos – ela disse, indicando o aparador. – Você sabe, para bebidas.
Eu segui o gesto com que ela indicou a grande bandeja de prata que estava na mesa, sob um espelho. Continha um balde de gelo de prata com pegadores também de prata, quatro taças de vinho e quatro copos. Peguei dois deles e me juntei a Jackie no sofá. Ela colocou a garrafa sobre a mesa de centro, reverentemente, e eu a olhei ao me sentar. Era uma bela garrafa, com uma grande tampa de madeira e uma palmeira gravada na frente, e estava cheia de um líquido marrom.
– O que é isso? – perguntei educadamente, e Jackie sorriu.
– Panamonte – respondeu. – O melhor rum escuro que eu já bebi.
– Oh – eu disse. – Devo pegar um pouco de gelo?
Jackie me lançou um olhar de falso terror.
– Oh, meu Deus, não – ela disse. – Colocar gelo nele é um crime hediondo.
– Sinto muito – eu falei. – Não entendo muito de rum. A não ser daquele tipo que você mistura com Coca-Cola.
Jackie abanou a cabeça vigorosamente.
– Este não é – ela disse. – Misturar isto com qualquer coisa é como colocar um bigode na Mona Lisa. – Ela tirou a rolha da garrafa e despejou um pouquinho de rum em cada copo. – Experimente – ela mandou. Pegou os dois copos, me dando um
e erguendo o outro na altura do rosto. [8] – Sláinte – ela disse.
– Salud – eu disse.
Bebi. Não era nada do que eu esperava. Nunca fui um verdadeiro Bebedor, mas há ocasiões em que a Convenção Social exige que você beba, e então tenho feito isso de vez em quando, e normalmente não aprecio. E já descobri que a maior parte das bebidas marrons que são servidas parece defumada, com um gosto acentuado que não aprecio, não importa quanto alguém insista que ele é muito raro e o melhor de todos, e nunca fui um fã muito grande dessas coisas. Mas esse rum não se parecia com nada que eu já tivesse bebido. Ele era doce, mas não enjoativo; escuro e denso e penetrante, e provavelmente a coisa mais suave que eu já havia provado.
– Caramba – eu disse. Parecia que era a única coisa apropriada a dizer.
Jackie bebeu um pouco e confirmou com um gesto de cabeça.
– É –, ela concordou, e por vários minutos nós só ficamos sentados e bebendo.
O rum pareceu afastar o aspecto sombrio das coisas para Jackie. Ela ficava visivelmente mais relaxada à medida que o nível de bebida em seu copo diminuía. Para minha surpresa, eu também. Acho que era algo natural; como eu disse, não costumo beber, e já tinha tomado um mojito e várias taças de vinho. Eu provavelmente deveria ter me preocupado com o fato de o álcool poder me deixar tonto demais para ser eficaz como guarda-costas. Mas eu não me sentia bêbado, e teria sido uma pena desperdiçar a experiência de ficar sentado em um sofá e beber um rum escuro raro com uma celebridade. Então, não me preocupei; eu me sentei, aproveitei e bebi o rum lentamente, saboreando cada gole.
Jackie terminou o dela primeiro e pegou a garrafa.
– Mais? – ela perguntou, estendendo-a para mim.
– Provavelmente eu não deveria – eu disse. Ela deu de ombros e colocou outra dose em seu copo. – Mas ele é muito bom. Vou ter de arrumar uma garrafa.
Deu risada.
– Boa sorte – ela disse. – Você não vai encontrar na loja da esquina.
– Ah – eu disse. – Onde você compra?
– Não compro – ela respondeu. – Foi um presente. – Ergueu o copo em um meio brinde e bebeu. Deixou a bebida ficar na boca por uns instantes e então abaixou o copo. – Aquelas cartas – ela disse, brusca. – Elas estão me dando um puta medo.
– Sinto muito – eu disse.
– Tipo, por quê? – ela falou, encurvada e encarando o copo. – O que eu fiz para que ele me odiasse?
– Ele não odeia você – eu disse.
Jackie ergueu os olhos e disse:
– Ele está tentando me matar.
– Isso não é ódio – eu falei. – Para falar a verdade, do jeito dele, ele te ama.
– Caralho – disse e tornou a olhar o copo. – Acho que da próxima vez vou preferir lidar com ódio. – Ela pegou o copo e bebeu um gole, e então voltou os olhos para mim. – Como é que você entende esse maluco desgraçado tão bem?
Suponho que fosse uma pergunta justa, mas também era embaraçosa. Se lhe dissesse a verdade – eu o entendia por também ser um maluco desgraçado –, isso iria prejudicar seriamente nosso relacionamento, o que teria sido uma pena. Então, dei de ombros e disse:
– Ah, você sabe. – Bebi um golinho do rum. – É como você estava dizendo antes. É um tipo de representação.
– Aham – ela disse. Não parecia muito convencida e não desviou o olhar de mim. – O que acontece é o seguinte, para atuar, você encontra uma parte da personagem dentro de você mesmo. Você a expande, você a modela um pouco, mas ela tem de estar ali, ou você não consegue fazer o papel. – Ela bebeu um golinho, ainda me olhando por sobre a borda do copo. – Então, o que você está mesmo dizendo é que tem algo dentro de você... – virou o copo para mim – ... que é igual ao louco desse cretino. – Ergueu uma das sobrancelhas para mim. – Então? Tem? – Ela bebeu. – Você tem um assassino aí dentro de você, Dexter?
Eu a olhei assombrado, e bem nas profundezas do Calabouço de Dexter dava para eu sentir o Passageiro se contorcendo, desconfortável. Passei a minha vida entre policiais, pessoas que ocupavam cada hora de serviço caçando predadores como eu. Trabalhei entre eles por anos, por toda a minha vida profissional, e nenhum deles havia tido a mais ligeira suspeita em relação ao caráter branco como a neve de Dexter. Só um deles, para ser exato – o Dileto Sargento Doakes – havia chegado a suspeitar que eu era o que era. E, no entanto, cá estava Jackie – uma atriz de televisão, para completar! – me perguntando à queima-roupa se havia um Outro Maldoso dentro de mim, por trás do cuidadosamente elaborado sorriso de Dexter.
Eu estava impressionado demais para falar, e nenhuma quantidade de bebida poderia preencher o silêncio crescente e horrivelmente embaraçoso enquanto eu procurava alguma coisa para dizer. A não ser admitir que ela tinha razão, ou negar tudo e chamar um advogado, nada me ocorreu.
– O gato comeu sua língua? – ela perguntou.
– Ah – eu disse. – É só, só... é mais como “o rum comeu minha língua”.
– Eu ergui o copo. – Não estou acostumado com este tipo de coisa – eu falei, a desculpa soando muito esfarrapada até mesmo para mim.
– Hm-hum – disse Jackie. – Mas você também não respondeu à minha pergunta.
Era insistente demais para alguém que deveria ser um peso-leve mental, e comecei a pensar se havia agido rápido demais ao decidir que gostava dela. Ela claramente não ia aceitar quaisquer evasivas cautelosamente elaboradas, e isso deixava Dexter, por assim dizer, meio encurralado. Contudo, sou celebrado por minha rapidez conversacional, e raramente fico perdido. Nesse caso, decidi que a melhor defesa seria realmente uma ataque completo da cavalaria, então coloquei meu copo na mesa e me voltei para ela.
– Feche os olhos – ordenei.
Jackie piscou.
– Como é que é?
– Exercício de atuação. Feche os olhos.
– Hum... certo. – Ela colocou o copo na mesa, se acomodou no sofá e fechou os olhos. – Tudo bem.
– Agora – eu disse é noite. Você está sozinha, em um escuro beco sem saída.
Ela inspirou profundamente, controlada.
– Certo...
– Tem alguém atrás de você – eu disse. – Ele está se aproximando, mais e mais...
– Oh – ela disse baixinho, e diversas emoções passaram rapidamente pelo seu rosto.
– Você se vira – eu disse. – E é ele.
Jackie soltou a respiração com força.
– Ele está segurando uma faca e sorrindo para você. É um sorriso terrível. E ele fala. – Eu me inclinei, me aproximando dela e sussurrei: – Oi, puta.
Jackie teve um sobressalto.
– Mas você tem uma arma – eu disse.
A mão dela se ergueu e ela puxou um gatilho imaginário.
– Pum –, ela disse, e os olhos dela se abriram rapidamente.
– É desse jeito? – eu perguntei.
– Exatamente assim.
– Você o matou? – eu perguntei.
– Putz, sim. Espero que sim.
– Como você se sente?
Ela inspirou profundamente uma vez mais, e então desabafou.
– Aliviada.
Eu balancei a cabeça, assentindo.
– Q. E. D. – eu disse. Ela me olhou sem entender. – Acho que é latim. Significa que acabei de provar.
– Provar o quê?
– Que há um assassino em todo mundo – eu disse.
Ela me olhou durante um longo momento. Então, pegou o copo e bebeu um gole.
– Talvez – ela disse. – Mas você parece muito à vontade com o que existe em você.
E eu estava, é claro. Contudo, não estava nem um pouco à vontade com o fato de ela ter adivinhado isso, então, fiquei aliviado por o assunto aparentemente ter se encerrado por enquanto, quando Jackie colocou o copo vazio na mesa e se levantou.
– Hora de dormir – ela disse. Espreguiçou-se e bocejou, parecendo um tipo de gato dourado. Ela me olhou e ergueu uma sobrancelha. – Onde os cães de guarda dormem? Aos pés da cama?
– Vou dormir no sofá – eu disse. – Desse jeito, posso vigiar a porta e a varanda.
– A varanda? – ela perguntou, piscando sem entender.
– Qualquer um pode entrar vindo do teto – eu disse. – Tudo de que você precisa é de uns seis metros de corda de náilon e de uma chave de fenda.
Jackie aparentava estar um pouco aturdida.
– Você quer dizer que ele seria capaz... para que serve a chave de fenda?
– Eu não sei se ele seria capaz – eu disse. – Eu sei que ele conseguiria. Qualquer um conseguiria; é só pular do teto, com a corda. A chave de fenda é para forçar e abrir a porta de correr de vidro. Uma criança de dez anos faria isso.
– Cacete – ela disse. Encarou-me, mas não estava me vendo de verdade. – Odeio essa merda toda – disse e então estremeceu ligeiramente, me olhou por um momento e repetiu: – Odeio isso... – Ela ficou imóvel, me olhando, inspirando e expirando, esperando por algum sinal que eu não sabia dar, e então ela finalmente balançou a cabeça, se virou e foi lentamente para a cama.