Dexter: Em Cena
Capítulo 13
ECHEVERRÍA SAIU PARA ENCONTRAR ANDERSON, NÃO SEM ANTES lançar um longo olhar na direção de Jackie, e eu não me sentia particularmente infeliz ao vê-lo partir. É claro que ele tinha o direito de devorar com os olhos quem bem entendesse; e Jackie era, com certeza, digna de ser devorada. Mas, por alguma razão, eu não gostava daquilo. Talvez eu estivesse apenas ficando zeloso demais em meu papel de guarda-costas. Talvez fosse algo diferente.
Seja como for, fiquei feliz por ver Echeverría pelas costas, e isso me deu a chance de pensar um pouco mais em Patrick Bergmann. Saber como era a cara dele era muito bom, é claro; mas, para os meus propósitos, era mais importante saber como ele pensava. Ele perseguiria Jackie como se ela fosse uma gazela, ficando muito bem escondido, e então saltando quando ela não estivesse esperando um ataque? Ou seria o tipo de maluco que se exibia para sua vítima algumas vezes, só para criar suspense? Ele se aproximaria de alguma maneira bizarra, brilhante e inimaginável? Ou só a atacaria com um laço?
Eu sabia o que ele gostava de fazer depois de capturar suas vítimas – já tinha visto três vezes. Mas não sabia como gostava de perseguir, e com certeza ajudaria se eu conseguisse descobrir. E, colocando tudo isso de lado, eu, naturalmente, sentia certa curiosidade a respeito de alguém com quem compartilhava interesses.
– Posso ler as cartas? – perguntei para Deborah. Ela me olhou, inexpressiva. – As cartas que Patrick escreveu para Jackie – expliquei, tão paciente quanto possível.
Deborah inclinou a cabeça para um lado.
– Patrick – ela disse. – Ele já virou “Patrick” pra você.
– Esse é o nome dele – eu disse, tentando com todas as forças não parecer rabugento.
– O nome dele é louco – ela disse. – Ou uma porra de um louco. Ou o suspeito ou o criminoso. – Ela balançou a cabeça. – Mas, pra você, ele é Patrick.
– Ai, meu Deus, ele está fazendo aquela coisa de novo – disse Jackie, me olhando fixamente como se eu fosse um equipamento de tecnologia alienígena que tivesse acabado de começar a funcionar por conta própria. – Você sabe, quando ele entra na cabeça do cara.
– Se vocês preferirem – eu disse, com toda a dignidade que consegui reunir naquelas circunstâncias –, eu posso voltar a beber café horrível com Robert.
Deborah emitiu um som que parecia um bufo.
– Eu não desejaria isso pra ninguém – ela disse. Pegou o monte de papéis de sua mesa. – Leia a porra das cartas – falou, estendendo-as para mim. – Entre de novo na porra do seu transe. E me traga de volta algo que eu possa usar.
– Obrigado – agradeci; e, embora achasse que tinha conseguido produzir um tom de autocontrole silencioso, mas ofendido, Jackie e Deborah soltaram uma risadinha em uníssono. Mas eu contive meu impulso bastante natural de enfiar a cabeça na parede e peguei as cartas, me acomodando na cadeira dobrável ao lado da mesa de Deborah enquanto começava a ler. As cartas eram todas impressas em uma impressora padrão de computador.
“Cara srta. Forrest”, começava a primeira. Acho que eu devia dizer só Jackie mais eu queria ser educado a primeira vez, então aí vai. Eu quero dizer que já vi um monte de moça bonita na minha vida e nem todas ela na internet hahaha mais você é uma coisa especial. A primera vez que eu vi você eu sabia que você é uma coisa muinto especial e agora eu vi tudo que você já feiz e eu sabia que você e eu tinha que ficar junto como se isso fosse uma coisa que divia de acontecer. Eu sei qui eu não preciso de descrever isso pra você porque você vai centir isso assim que você me ver e então eu só vou dizer isso porque bem agora eu priciso muito que você me mande alguma coisa talvez que você tivesse uzando e você não tem que lavar ela antes se você sabe o que que eu quero dizer. Eu sei que você vai me ver logo.
Sua alma gêma Patrick Bergmann.
Eu li rapidamente as cartas seguintes; elas eram mais ou menos a mesma coisa, dizendo para Jackie com frustração crescente que ela estava destinada a ficar com ele, que qualquer um poderia entender isso e que ela tinha de entender isso também e com certeza entenderia isso assim que o visse. Elas não ficavam realmente interessantes até a quinta carta.
“Eu já tô cansado de recebê resposta daquela vaca que trabalha pra você”, ela começava, e só ficava melhor.
Você não respondeu você mema e eu disse pra você que você divia. Você não me mandô a coisa que você tava usando e eu disse pra você queu precisava dela. É melhor você começá a escutá ou a coisa vai é ficá muinto feia memo. Porque que você não vê o que é tão claro e simple como a luz do sol que você e eu vamo ficá junto? Você sabe queu te amo e você vai me amá memo se você me vê por dois minuto. E você tem que sabê qui de um jeito ou otro você vai me ver!!!
A carta seguinte era ainda mais irada, começando com uma lista de palavrões mal-escritos que realmente me fez lamentar o estado da instrução pública em nossa outrora tão grande nação, e então prosseguindo em um fluxo constante de ameaças maldisfarçadas e completamente claras.
É melhor você enfiá isso na sua cabessa que isso vai acontecê e que isso é tudo e se você num pode vê isso eu vô fazê você VÊ isso e fazê você ME vê. Eu num tô com medo de fazê algumas coisa muinto ruim se elas fizé você abri o zolho e me olhá e sabê que o que que eu tô dizendo a respeito de você e eu é semporcento verdade.
Considerando o que havia levado àquilo, a carta final era, de maneira geral, material padrão, desapontadoramente previsível ao se voltar para a raiva fria, ameaças de violência e uma generalizada infelicidade psicótica. Eu a li duas vezes, fazendo uma pausa entre as leituras para ter pensamentos cheios de gratidão relacionados à educação que eu havia sido sortudo o suficiente para receber de Harry – e, por mais incrível que isso pareça, do Sistema de Educação Pública de Miami-Dade, que estava começando a parecer muito bom comparado ao que Patrick tinha recebido em Laramie, Tennessee. Mas, é claro, como eu lembrei a mim mesmo, as escolas em Tennessee não deveriam receber toda a culpa; muitas pessoas inteligentes haviam surgido desse estado, e eu tinha quase certeza de que mais uma poderia aparecer a qualquer dia.
Li a última carta mais uma vez.
Se é assim que você qué jogá o jogo então é assim que eu vô fazê. Você qué ficá toda fria e muinto ruim comigo tudo bem por que eu posso jogá esse jogo inda melhor e você vai senti tê feito isso. Eu vou te achá e vo fazê você me vê e eu vô fazê você vê o qui você podia de tê tido e então eu vô tirá tudo isso de você, um pedacinho de cada veiz. E eu tô falando TUDO isso de verdade. Eu vô mostrá pra você que você não é deferente mais só uma puta como todas a zotra moça que pensa que elas são tão especial e eu vô fazê você VÊ o que que você podia de tê e isso vai sê a última coisa que você vai vê e eu tô indo atrais de você puta e é melhor você acreditá nisso.
Essa última carta não estava assinada “sua alma gêma”; o amor é tão frágil, não é? E, uma vez mais, ela era um pouquinho decepcionante por causa da mente vazia e ignorante que revelava. Eu absolutamente não espero que cada assassino doentio e pervertido dê mostras de brilhantes lampejos de inteligência e de originalidade, mas fala sério, uma coisa assim tão rasteira parece que deixa a gente um pouquinho envergonhado, vocês não acham?
De qualquer modo, ficou claro para mim que aquela não era uma mentalidade sutil, em busca de poesia visceral. Ele era um assassino pervertido e doentio muito óbvio, monótono e comum. Era psicótico, sim, e capaz de praticamente qualquer tipo de violência pervertida; entretanto, era despido de todo refinamento e, de maneira geral, parecia não ter um único pensamento sutil ou interessante a respeito do que era, afinal de contas, um assunto muito importante.
Desapontador, mas, pelo menos, isso significava que deveria ser bem fácil encontrá-lo, a partir do momento em que eu colocasse minha mente brilhante e maravilhosa para trabalhar e começasse a seguir os rastros dele até seu covil, e então...
... e então nada mesmo, porque minha mente não estaria seguindo coisa nenhuma; minha mente estava firmemente encerrada em seu lugar dentro do meu crânio, cavalgando acima do corpo enquanto realizava suas tarefas como protetora de Jackie. Eu não podia caminhar sob a luminosa e acolhedora luz da lua e deslizar ao longo das sombras para encontrar Patrick no que seria com toda a certeza um esconderijozinho terrivelmente óbvio, não poderia levá-lo e prendê-lo com fita adesiva e encerrar as coisas do jeito certo, do meu jeito... porque eu estaria passando aquelas preciosas horas sombrias pairando sobre Jackie com vigilância e astúcia, e, talvez, um pouquinho mais de rum escuro.
Eu me dei conta de que a conversa na salinha de Deborah havia acabado, e ergui os olhos das cartas para ver Jackie e minha irmã me encarando.
– O que foi? – perguntei.
Jackie sorriu, encorajadora.
– Estávamos esperando que você fechasse os olhos e, você sabe – ela disse, com um gesto vago com uma das mãos –, fizesse aquela coisa quando você entra na cabeça dele.
– Eu tenho a impressão de que não vou caber – eu disse, tentando não soar confiante demais. – A dele é uma cabeça pequena e muito comum.
Deborah bufou, e Jackie disse:
– Comum?! Meu Deus, depois do que ele fez... e você diz que ele é comum?!
– Isso mesmo – afirmei. – Um assassino comum, banal, demente e psicótico. – Eu dei de ombros. – Bastante previsível.
– Então, preveja-o – disse Deborah.
– Fácil. Ele vai vir atrás de Jackie. – E acenei para ela com um sorriso tranquilizante.
Por algum motivo, isso não pareceu tranquilizar muito a atriz. Ela ergueu as mãos com uma expressão de alívio sarcástico.
– Puta merda, é muito bom saber disso – ela disse, balançando a cabeça. – Quer dizer, vir atrás de mim, isso é demais... mas a gente já não sabia disso?
Deborah, pelo menos, não estava tão irritada a ponto de precisar recorrer ao sarcasmo. É claro, Patrick não estava atrás dela.
– Como ele vai fazer isso? – Deborah perguntou.
– De um modo muito direto – eu falei para elas. – Nada sutil, nada muito inteligente. Ele é um martelo, não um escalpelo.
– Bom, maldição – disse Jackie. – Um martelo pode muito bem se enfiar no meu crânio do mesmo jeito.
– Não comigo aqui – eu disse, e embora admita que isso tivesse muita cara de contar vantagem, nada parecido com meu habitual estilo de discrição modesta, eu realmente acreditava nisso. – Sério, Jackie, esse cara não é capaz de nenhuma verdadeira surpresa.
– Ele deu um puta susto naquelas outras três moças – ela disse, sombria.
– Elas não sabiam quem ele era. E – acrescentei, tentando com todas as forças dizer isso com calma, modéstia e ser convincente – elas não me tinham por perto.
Ela me olhou longa e fixamente, seus olhos escaneando minha face, procurando algum sinal de que eu tinha superpoderes secretos. Acho que não viu nada do tipo, mas pareceu ficar um pouquinho mais relaxada.
– Bom – ela disse, e olhou para Deborah. – Quer dizer, então, hum... o quê?
– Nada mudou – Debs lhe disse. – Eu cuido de você durante o dia, Dexter cobre você a noite toda.
– Oh, me cobre – disse Jackie. E ela abriu a boca para dizer mais alguma coisa, então a fechou de novo, me olhou e, por algum motivo, enrubesceu. – Digo... – Hesitou e desviou o olhar de mim rapidamente; e por um momento ela pareceu tão perturbada que até seu magistral uso de sarcasmo a abandonou. – Então, tudo bem, então, tá certo. – Ela assentiu algumas vezes e pigarreou. – Tudo bem – acabou dizendo outra vez. – Se vocês dois estão tão... confiantes?
Eu só fiquei lá parado e, já que não tinha ideia do que havia acabado de passar pela cabeça de Jackie, tentei parecer calmo e impressionantemente confiante, deixando que minha irmã dissesse:
– É, eu acho que sim. Dexter geralmente tem razão a respeito dessas coisas. – E então ela inclinou a cabeça para o lado e olhou para Jackie, pensativa. – Você quer contratar mais alguém?
– Oh, não – Jackie falou abrupta e rapidamente. – Quer dizer, não. Dexter é muito... – Ela pigarreou e me olhou, e então desviou o olhar. – Eu confio em você. Em vocês dois.
Deborah continuou a olhá-la com uma das sobrancelhas erguida, e por fim começou a balançar a cabeça.
– Bom, merda, quem pensaria nisso – disse baixinho, mas, antes que pudesse completar o que teria sido um pensamento muito interessante, o telefone da mesa dela tocou alto, e ela se voltou para pegá-lo. – Morgan – disse no receptor. Ela me olhou e falou: – Sim, eu acabei de vê-lo. Vou mandá-lo aí pra baixo agora mesmo. – Desligou o telefone e me lançou um sorrisinho maldoso. – Robert – ela disse. – Ele está solitário. – Fez um gesto brusco com a cabeça indicando a porta do hall. – Some! – ela disse.
Não parecia muito justo que bancar a babá de um ator um tanto quanto mimado devesse ocupar meu tempo quando havia um assassino para pegar – sobretudo quando era um assassino cujos esforços vulgares e rasteiros estavam dando à profissão uma má reputação –, mas a vida de trabalho na força policial poucas vezes faz sentido para os soldados rasos, e minha tarefa sem sentido era ficar com Robert. Eu sumi.
Robert estava exatamente onde eu o havia deixado, no laboratório. Mas não estava mais sozinho. Parado ao lado dele havia um afro-americano atarracado de seus trinta e tantos anos, com a cabeça raspada e grandes óculos com aro de osso. Ele tinha cinco ou seis piercings de ouro e diamante em sua orelha esquerda e vestia uma camiseta preta bem surrada em que estava escrito “METALLICA” em letras elaboradas, e uns shorts de tecido xadrez largos e desbotados que estavam muito abaixo da cintura. Olhei para ele e ele me olhou de volta, inexpressivo. Robert nos poupou do que poderia ter sido uma situação social muito constrangedora exclamando em voz alta:
– Ei! Caramba, deve ter sido um descarrego dos diabos, hein?
Eu sou amplamente conhecido por meu aprumo sofisticado e minha ironia sempre pronta, mas não tinha a menor ideia do que aquilo podia significar; e somando à dificuldade de ter um estranho em meu ambiente, temo que aquilo tenha momentaneamente me deixado perdido. Eu só fiquei encarando Robert, e murmurei algo parecido com: Oh, bom, você sabe, antes de me lembrar que a desculpa para deixá-lo haviam sido dificuldades gástricas.
– Para ser sincero – corrigi –, outras coisas apareceram no meu caminho.
– É, eu imaginei – disse Robert. – Só estava brincando. Ei! Veja só quem está aqui! – E empurrou o outro homem um pouquinho para a frente.
– Oh – eu disse. – Hum, quem?
O cara afro-americano revirou os olhos, mas Robert disse:
– Ele está só brincando, Renny. Dexter Morgan, este é Renny Boudreaux!
Ele pronunciou o nome “boo-DROW”, e como sou um homem do mundo e reconheço um nome francês quando ouço um, fiz um gesto de cabeça para ele e disse:
– Enchanté, m'sieu[9]
Boudreaux me encarou e então, com um olhar de admiração no rosto, falou:
– Isso aí é francês?! Caraca, você é fino. Eu gosto disso. Francês, isso é... Me diz, Dexter, você já comeu um cara negro?
Eu queria mesmo acreditar que não havia compreendido bem o cara, mas ele disse aquilo em tão alto e bom som que não dava para a gente se enganar. Então, só balancei a cabeça e respondeu:
– Não, ainda não. Mas o dia é uma criança.
Robert caiu na gargalhada, mas Renny só acenou como se estivéssemos tendo uma conversa de verdade, e disse:
– Hm-hum. Bom, cê não vai começar comigo, seu filho de uma grande puta. Então, enfia esse seu maldito francês no rabo, que é o lugar dele. – Balançou a cabeça, me olhando com cautela, e concluiu: – Francês. Merda.
Sempre achei que a Arte da Conversação atinge seu ponto máximo quando todas as partes envolvidas têm uma vaga ideia a respeito do que estão falando, e, na presente situação, eu havia sido deixado de fora da jogada. Eu estava começando a me sentir como se tivesse entrado por acaso em algum tipo de Performance Surrealista – talvez uma daquelas que tentam provocar a audiência até uma reação extrema. Mas, pelo menos, Robert parecia estar se divertindo. Ele riu de novo, uma risada alta e metálica, que não parecia muito normal, e empurrou Renny na minha direção de novo.
– Renny vai fazer o papel de Aaron Crait, meu assistente forense – disse Robert. – Você sabe, no seriado. – Ele piscou e acrescentou: – Meio tipo você e Vince, certo?
Eu nunca tinha pensado em mim como alguém que tivesse um assistente; e, se tivesse, certamente não seria alguém como Vince; e pensar nele nesse papel assim tão subitamente me deixou ainda mais desconcertado. Contudo, Robert não me deu tempo para refletir a respeito desse relacionamento desconfortável. Ele continuou todo contente.
– Renny chegou hoje de manhã em Miami, e eu falei pra ele dar uma passada aqui, porque achei que você não ia se importar em dar um curso rápido de perícia forense, certo? – É possível que minha boca ainda estivesse aberta, porque Robert subitamente deu a impressão de estar um pouco desconfortável, até mesmo um pouco ansioso. – Hum, você não se importa, se importa, Dexter? – ele disse. – Porque é, você sabe, eu achei que fosse importante. Que, você sabe, nós estivéssemos todos em pé de igualdade... Pra gente fazer tudo certo. – Ele baixou o tom de voz e falou confidencialmente, quase implorando: – Só umas horinhas, esta tarde...?
– Bem, acho que sim – respondi. Afinal, eu havia sido requisitado para ficar à disposição da Big Ticket Network de modo geral e de Robert pessoalmente, e umas poucas horas passadas instruindo Renny provavelmente não iriam matar ninguém.
– Obrigado. Demais, não é, Renny? – Ele piscou de novo e acrescentou: – Você provavelmente viu Renny no Leno ou algo assim.
– Eu não assisto ao Leno – eu disse.
– É, bom, eu não culpo você – disse Robert. – Bom, Renny faz comédia stand-up quando não está atuando.
– Seu filho de uma grande puta, eu já disse DUAS VEZES pra você! – reclamou Renny, olhando feio para Robert, e não dava para dizer se ele estava bravo de verdade. – Eu não faço comédia... eu faço Comentário Social! – Ele balançou a cabeça e tornou a me olhar. – Deus fez esse cara tão bonito porque ele é BURRO pra cacete – ele me disse.
– Ah, achei que era o único que tinha percebido – eu falei, e Robert soltou outra de suas gargalhadas horríveis.
– Qual parte você percebeu, a burrice? – perguntou Renny. – Ou só a beleza... ele já deu em cima de você, Dexter?
– Ainda não – respondi. – É provável que ele faça isso?
– Eu num tô dizendo nada – disse Renny. – Mas se ele convidar você pra tomar um banho...
– Eu peço pra deixar pra outra hora? – eu falei.
– Não, seu retardado. Não deixe o sabonete cair – disse Renny.
– Rá! – grasnou Robert. – Muito legal, eu sabia que vocês dois iam se dar muito bem.
E já que agora sabia que Renny e eu estávamos nos dando muito bem, eu sabia exatamente a coisa certa para fazer nessa situação. Dei um passo adiante e peguei a mão dele.
– De qualquer modo... é um prazer imenso conhecer você, Renny – eu falei.
Renny ficou me encarando por uns instantes antes de devolver o aperto; quando fez isso, o olhar dele encontrou o meu, e o tempo vacilou em um rastejar lento e sombrio...
... e, só por um instante, eu achei que tinha visto alguma coisa por trás do véu dos olhos dele, alguma coisa sombria e maldosa; e aquilo estava me olhando e expondo suas presas. Eu não podia ter certeza absoluta; foi só um lampejo rápido, o suficiente para fazer o Passageiro das Trevas sibilar e desenrodilhar uma de suas espirais. Mas isso me espantou; eu larguei a mão de Renny e dei um passo para trás, procurando alguma confirmação no rosto dele. Não havia nada; ele só ficou me olhando e depois se voltou para encarar Robert.
– Então, porra, ainda não é hora do almoço? Seu namorado Dexter conhece algum lugar pra comer onde sirvam comida de verdade? Ou é tudo coisa de cubano branquelo? – Ele tornou a me olhar e acrescentou: – Cê num vai me levar pra comer nenhuma comida francesa, vai, seu viado?
– Bom – eu disse (e admito que estava satisfeito com minha rápida e suave recuperação do que havia sido até então um encontro muito desconcertante) e lhe dirigi meu melhor sorriso falso. – Se não dá pra você comer um Branquelo Cubano, e você não gosta de Veado à Francesa, sempre tem comida chinesa.
Renny me encarou, e então, lentamente, balançou a cabeça como quem concorda.
– A primeira coisa sensata que você disse.